Mostrando postagens com marcador comedia cearense. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador comedia cearense. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Fortaleza no Palco


É só procurar e, aos montes, vestígios da história de Fortaleza vão surgindo nas peças teatrais de Carlos Câmara, autor, diretor  e encenador. Teve reconhecido o seu talento ainda em vida, quando entre 1919 e 1939, arrastava as elites e remediados para lotar o teatro improvisado do Grêmio Dramático Familiar, no Calçamento de Messejana, atual Avenida Visconde do Rio Branco, nas imediações das Doroteias.

Iam para lá, em dias de encenação, senhoras e senhores, rir do cotidiano de uma cidade que não se achava provinciana. Talvez porque usassem chapéus importados de Paris, cheios de penachos e rococós que chegava a atrapalhar a visão dos que estavam mais atrás. Segundo os jornais da época, sessões tão concorridas que os espectadores prejudicados pediam que acrescentassem na crítica, um pedido para que maneirassem no tamanho dos adereços.

As indumentárias da época: chapéus, luvas, gravatas e bengalas, tudo conforme o figurino da belle epoque. Passeio Público, 1908 (álbum de vistas do Estado do Ceará)

Riam de si mesmos, pois achavam que a piada era com o vizinho. Talvez a pena de Carlos Câmara, ex-deputado, funcionário público e intelectual da elite fortalezense, estivesse  falando da arraia-miúda iletrada, de matutos do interior, de comerciantes emergentes ou do bando de retirantes que invadiam Fortaleza a cada período de seca.  Doce e divertida ilusão. Carlos Câmara reproduzia no palco, o dia a dia de uma Fortaleza inquieta e metida a grã-fina. Portuguesa de nascença torta, mas deslumbrada com o charme dos franceses e a petulância inglesa.  Estava em cartaz, na verdade, um retrato caricato de quem aqui viveu entre o começo do século XIX e o fim dos anos 1930.

Rua Major Facundo vista do Passeio Público. à direita o Hotel de France, início do século XX (Ah, Fortaleza!)

Na peça a Bailarina, obra de estreia do autor, há registros sobre a chegada devastadora da Gripe Espanhola. Chegou a bordo do vapor Ceará, em 1919 e aportou em Fortaleza vitimando muita gente, a exemplo do que já ocorria na Europa e na Ásia. Mas a peça de Carlos Câmara – pequena farsa grotesca musicada – pinçou a piada. Ele próprio, acometido da moléstia, percebeu e levou ao palco, o que havia de moleque em torno da influenza. O falar do fortalezense, por exemplo.

A peça "A Bailarina" marcou a estreia de Carlos Câmara  como dramaturgo (foto O Povo)

Como não acertavam o nome da doença, originária das Ilhas Baleares, o povão batizou a gripe de Bailarina. Pesquisando, há em forma de dramaturgia, rastros do medo de uma Fortaleza apavorada por uma epidemia que atingia gente de todas as classes sociais. Uma cidade em condições precárias de higiene e saneamento a assistir o enterro de centenas de pessoas.


Na peça o Casamento da Peraldiana, a protagonista,  uma viúva alegre e desbocada, nunca foi interpretada por uma mulher, nem nos tempos atuais. Mas naquela época a história era outra. Ser atriz não era virtude para moças de família e encarnar o papel de uma depravada, nem pensar. Fortaleza ainda não comportava tamanha ousadia e os textos de Carlos Câmara indicam a ocorrência desse comportamento social.

  Em dez burletas o autor faz Fortaleza desfilar seus costumes, personagens e suas transformações.  O Casamento da Peraldiana (1919) Calu (1919) e os Piratas (1923) são os textos de Carlos Câmara que mais indiciam a vontade que tinha a capital de sair do atraso. Depois de mais de 20 anos vivendo nos Inhamuns, Peraldiana se assusta ao voltar à cidade grande e dar de cara com o frisson de um arremedo de modernidade. A personagem é a personificação do que era considerado atrasado culturalmente pelos intelectuais da hora. 

Cenários e costumes da época: Praia de Iracema, primeiras décadas do século XX (arquivo Nirez)

A dramaturgia de Carlos Câmara carrega vestígios de parte da história de Fortaleza, pedações de memória, retratos do cearense provinciano, que se estrebuchava para ser moderno através das novidades e invencionices da capital.


Revista Fortaleza, fascículo 12, junho de 2006
Diário do Nordeste
O  Povo      

domingo, 11 de julho de 2010

Pelos Palcos da Cidade – O Teatro Taliense

inicio da rua Formosa em época não especificada.

Em 1842 foi inaugurado na Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco) n° 72, no local que atualmente tem os números 1080 e 1084, o Teatro Taliense, sucessor do Teatro Concórdia, antes situado na esquina da Travessa Municipal (Rua Guilherme Rocha) com a Rua do Quartel (General Bezerril).

Animadíssimo palco de festas artísticas e cívicas, o Teatro Taliense e suas reuniões constituíam ponto de destaque para a vida da cidade. Pertenceu a uma associação de moços, composta de comerciantes lusos e empregados do comércio. Os próprios associados levavam ao palco as peças do repertório, geralmente dramalhões. A casa ficava cheia de senhoras da elite, com seus penteados rebuscados, arrematados por altos pentes de tartaruga, expressão de máxima elegância.

Em um dia de festa nacional, o teatro regurgitava de gente. Antes do inicio da peça, era do programa encenar um prólogo que rememorasse o fato que ia ser representado em seguida. Neste espetáculo em particular, de nome "O Gênio do Brasil”, o personagem principal, vestido de anjo, descia das alturas envolto em uma nuvem para deitar falação, ao respeitável público, em mensagem de felicitações. Coube ao português, alferes do Exército, conhecido por Alferes Castiga, Francisco Edwirgens de Sousa Mascarenhas, o papel de “Gênio do Brasil”, por ser esguio e leve.

Dado o sinal de inicio, o “Gênio do Brasil” desceu do teto, escarranchado na sua nuvem, e a meia altura, soltou o verbo, com todos os olhares voltados para o anjo nas alturas. O final, porém, deveria ser no palco e em pé.

Mas quando Castiga foi pular no palco, tentando um salto, não conseguiu desembaraçar-se da nuvem, ficando pendurado no cenário. Com o esforço que o artista fez para se soltar, o calção que era de meia, muito colado às pernas, partiu-se.

O apito troou para descer o pano de boca, mas a engenhoca emperrou também, deixando o alferes Castigas exposto ao maior ridículo, pendurado, seminu, com a roupa rasgada. As respeitáveis senhoras viraram a cara, mas da platéia, apupos, vaias e gargalhadas estridentes acolhiam o “Gênio do Brasil”, que só desceria por uma corda. Esta cena tornou célebre o artista que ficou conhecido como o “Anjo Penca” (torto).

Em maio de 1852 O Teatro Taliense acolheu o primeiro espetáculo com artistas internacionais, os famosos Uguccioni, pai e filho. Eram excelentes músicos que tiveram de permanecer no Ceará mais tempo que estava previsto, a pedido das famílias, a fim de ministrarem aulas de canto e música instrumental – piano, violão e rabeca.

No calor do estímulo deixado pelos Uguccioni, foi fundada em 1854, a primeira banda de música do Batalhão Policial. O Teatro Taliense resistiu até 1872. Um dos seus últimos programas deu-se em benefício da atriz Emília Augusta da Câmara com a execução de várias comédias, todas de um ato.

Com o desaparecimento desse teatro, cuidou a administração pública de edificar uma outra casa para esse fim, chegando a Assembléia Legislativa a votar a Lei 1509, de 21 de dezembro de 1872, com a qual autorizava o governo a utilizar uma verba de até cem contos de Réis numa obra dessa natureza.

Fonte:
GIRÃO, Raimundo. Geografia Estética de Fortaleza. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1959

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Pelos Palcos da Cidade

O Demônio e a Rosa - 1950 - Teatro Universitário - Direção de Waldemar Garcia
Foto: Geraldo Markan e Elza Bernardino
O Morro do Ouro - 1963
Comédia Cearense - Direção B. de Paiva - Na foto José Humberto Cavalcante e Hiramisa Serra

Morro do Ouro - Versão Musical - 1971 comédia cearense - Direção Haroldo Serra - na foto: Walden Luiz
(no centro do coro)
Rosa do Lagamar - 1975 - Comédia cearense - Direção Haroldo Serra - na foto: Hiramisa Serra, Zulene Martins, Lourdinha Martins, Haoldo Serra e Ricardo Guilherme

O Casamento da Peraldiana em montagem recente: Peraldiana (Ricardo Guilherme) e coronel Puxavante (Lucio Leonn): retrato de casamento típico dos anos 20


Desde tempos bem remotos que Fortaleza mostra uma forte vocação para o teatro, com bons autores, bons atores e montagens que fizeram história. Entre 1919 e 1939 o autor Carlos Câmara arrastava multidões que lotavam o teatro improvisado do Grêmio Dramático Familiar, no calçamento da Messejana, atual Visconde do Rio Branco.


Lá compareciam respeitáveis senhores e senhoras em suas melhores roupas, com chapelões cheios de penachos e rococós, com tantos adereços que chegava a atrapalhar a visão dos que sentavam mais atrás. A peça reproduzia de forma jocosa o dia a dia de Fortaleza, cidade provinciana, deslumbrada com o charme dos franceses, cuja moda e costumes foram aqui reproduzidos durante um bom período no qual a cidade ficou conhecida como Fortaleza Belle Epoque.

Na peça de estréia do autor, A Bailarina, há registros sobre a chegada da devastadora gripe espanhola, que chegou ao Ceará a bordo do vapor Ceará. Acometido da doença Carlos Câmara levou ao palco o que havia de moleque em torno da influenza. Como não acertava com o nome da doença, o populacho batizou a gripe de Bailarina.

A peça uma pequena farsa grotesca, musical, tinha uma particularidade que acabou virando tradição em todas as montagens posteriores: A personagem principal Peraldiana, uma viúva alegre e desbocada, era representada por um homem. Naquela época, ser atriz não era profissão para moçoilas de família, ainda mais se a personagem era depravada e libertina. Assim, simplesmente não se encontrou nenhuma mulher que quisesse o papel, o jeito foi colocar um homem. O ator Eurico Pinto inaugurou o personagem.

Mais tarde o espetáculo ganharia outras montagens: com a Comédia Cearense em 1966, (Theatro José de Alencar), em 2006 (Teatro de Arena) e, 2007, também no Teatro de Arena.
Outro autor de grande importância o teatro cearense foi Manuel Eduardo Pinheiro Campos, que foi quem mais teve textos montados no Ceará. Várias de suas peças usam temas relacionados a histórias do cotidiano de Fortaleza.

O Morro do Ouro, que leva o nome de um antigo bairro da capital foi encenada pelos menos 350 vezes; outra que ultrapassou a marca das 500 encenações é a Rosa do Lagamar, drama urbano levado ao palco pela primeira vez na década de 1970.

São também de autoria de Eduardo Campos as seguintes obras teatrais: O demônio e a Rosa, O anjo, Os demônios, Os deserdados, A máscara e a face, As testemunhas, A donzela desprezada, O julgamento dos animais e O andarilho.




Fontes: Revista Fortaleza fascículo 3

Jornal Diário do Nordeste