segunda-feira, 29 de abril de 2013

Iguarias Típicas

Antiga Praça Carolina e José de Alencar, atual Waldemar Falcão com o Mercado de Ferro

Se Fortaleza hoje é um território desfigurado, sem guloseimas e totalmente incrustada no panorama geral, nas quais as cidades se ataram de pés e mãos aos refrigerantes engarrafados e as refeições em fast-foods, já foi uma cidade em que a merenda era um momento de glória das tardes familiares.
Não só as famílias caprichavam nos doces de fabricação caseira para o lanche, como a cidade pequena  era um mercado permanente de vendedores de tabuleiros que percorriam as ruas com pregões de sua mercadoria deliciosa, sedução e cobiça da população infantil e adolescente.

 foto do site: http://papjerimum.blogspot.com.br

Muitas tabernas e mercearias vendiam doces caseiros, como rosquinhas, suspiros, filhoses, bulins de goma, cocadas de rapadura ou de açúcar branco, alfenins com formas de bichos e cachimbos, castanhas de caju confeitadas, embrulhadas em papel de seda franjado.
No Mercado de Ferro da Praça José de Alencar – atual Waldemar Falcão – que foi desmontado na década de 1930, havia uma ala só para os tabuleiros. Famosos alguns pelas suas línguas de mulata, filhoses e seus doces secos.  Eram famosos os filhoses de farinha de trigo vendidos na mercearia do Zé Ramos, na esquina de Santa Isabel com Liberato Barroso. 

 filhoses (foto do site http://receitasana.pedroraf.com)

Igualmente muito procuradas, eram as cocadas da bodega de Eduardo Garcia, na Rua 24 de Maio esquina com a São Bernardo (Pedro Pereira). Nos tabuleiros avulsos havia puxa-puxas, cocadas de murici, balas de coco,  bolas douradas de mel em cartuchos de papel almaço, queijadinhas, bons bocados, bolinhos de arroz, etc.

 cocada de rapadura (foto do site http://www.dicaslegais.net)

Havia tabuleiros especiais só das tais bolas douradas, que iam diminuindo de tamanho de acordo com o afunilamento do cartucho de papel almaço. Tabuleiro pleno, sem tábuas nas extremidades, era cheio de furos onde se espetavam os cartuchos, como se fosse um grande paliteiro, como havia também para os roletes de cana, em feitio de flor, ligados por linha de costura. 


Nos arredores do Passeio Público, a vendedora carrega um cesto com seus produtos 

Famílias ilustres  completavam seu orçamento doméstico mandando seus tabuleiros envidraçados paras as ruas.  Durante muito tempo os baleiros das portas de cinema somente  vendiam balas de fabricação doméstica, envolvidas em papel de cor. Havia até alguns tabuleiros fixos em determinados pontos da cidade, um dos mais famosos era o de Maria Gorda, negra simpática que fazia ponto na esquina da Rua Formosa (Barão do Rio Branco) com Trincheiras (Rua Liberato Barroso), onde se localizava a Casa Amaral e onde depois esteve a Casa Singer.

Rua Floriano Peixoto, trecho da Praça Carolina, onde havia grande concentração de tabuleiros

Outro tabuleiro fixo, muito procurado pelos notívagos, e singular pela sua localização e horário, foi o de Dona Maria, conhecida como Dona Maria do Tabuleiro, que morava com os filhos pros lados da Rua do Sol (Costa Barros). Ela só chegava ao seu ponto noturno depois das 8 horas da noite e lá ficava até meia-noite, às vezes até de madrugada. Seu tabuleiro era mais dos bolos grandes, que ela vendia em fatias para os fregueses certos, que eram muitos.  O tabuleiro se localizava no canto do mercado de miudezas, em diagonal com o Banco Frota Gentil. Era um canto escuro e deserto que ela iluminava com uma lamparina grande e fumacenta que dava sinal de sua chegada e do início do seu expediente. A pontualidade de Dona Maria com seu tabuleiro naquele horário esquisito lhe deu popularidade. Surgiram anedotas a respeito dela. A mais corrente era a de um freguês que certa noite se chegou ao tabuleiro e disse:
 – Dona Maria, hoje estou no aro. A senhora vai me fiar um pedaço de bolo e ainda vai me emprestar dois mil réis. Amanhã eu lhe pago, sem falta.
 – olhe meu filho, não posso. Eu tenho um contrato com o coronel Zé Gentil, aí do banco. Nem ele vende tabuleiro, nem eu empresto dinheiro...

  Até a tradicional Mariola sumiu do mercado

O certo é que a Fortaleza de ontem, embora cidade pobre de menos de cem mil habitantes, tinha sua classe média que passava bem. As mercearias mais conceituadas eram bem sortidas. A lataria era abundante e em grande parte de procedência estrangeira. Vinhos e azeitonas portugueses, manteiga Lepelletier e Bretel Frères de origem francesa, chocolate Bering e Moinho de ouro; abacaxi em compotas em ltas especiais de Pernambuco; queijos Palmira; banha refinada marca Neve, do Rio Grande do Sul; leite condensado suíço, marca Moça.  As tabernas também vendiam as deliciosas bananas secas, em pacotes, de Pacatuba, entre as quais a mais procurada era a do fabricante Siqueira.

extraído do livro de Edigar de Alencar
Fortaleza de ontem e anteontem
fotos do Arquivo Nirez

3 comentários:

Anônimo disse...

This is my first time visit at here and i am genuinely happy to read all at alone place.


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Rita Brito disse...

Olá, boa tarde!
Me chamo Rita, sou aluna de gastronomia e amei o seu post, pois estou fazendo minha monografia e ela fala sobre o resgate da doçaria e confeitaria tradicional em fortaleza, já estava desistindo de procurar material específico sobre o assunto e então me deparei com o seu blog. Vou citá-lo no meu trabalho, com as devidas referencia claro e gostaria de saber sobre o livro que você usou como fonte, se existe algum exemplar em alguma biblioteca pública? Desde já agradeço e parabenizo pelo post vai me ajudar bastante. De uma eterna saudosista, Rita.

Fátima Garcia disse...

Olá Rita,
o livro em questão foi publicado pelo UFC e atualmente está esgotado. Talvez tenha 1 exemplar na biblioteca da própria universidade. o Exemplar que utilizei nesse post pertence a um amigo historiador e já devolvi pra ele.
Referencia bibliográfica:
Fortaleza de ontem e anteontem/ Edigar de Alencar. Fortaleza: edições UFC/PMF, 1980.
obrigada pelas referências elogiosas ao nosso trabalho.
abs