sábado, 27 de abril de 2013

Avenida Gomes de Matos a Antiga Estrada do Gado

Avenida João Pessoa, antiga estrada Fortaleza-Parangaba em 1919 (Arquivo Nirez)

A Estrada do Gado foi em tempos passados um referencial da Pirocaia, antiga denominação da região atualmente ocupada pelo Grande Montese. Era o caminho dos bois destinados ao abate, em Otávio Bonfim, onde se localizava o matadouro da capital. O gado para corte, vindo do interior, era encurralado na Parangaba, antiga Vila Nova de Arronches. Ali, obrigatoriamente, a boiada ficava nos currais da Câmara Municipal, que cobrava uma taxa que era recolhida aos cofres da Vila. 

Matadouro de Otávio Bonfim, localizado ao lado da estação de trem.

A maior parte do gado que passava pelos currais de Arronches, vinha para Fortaleza diretamente para o Matadouro de Otávio Bonfim. Com a construção da Estrada de Ferro, no trecho Fortaleza-Parangaba, concluído no ano de 1873, tornou-se impraticável o movimento das boiadas pela ferrovia, não só pelo tráfego das locomotivas, mas também porque havia tráfego de carroças, animais com cargas, cavaleiros e pedestres.
A solução encontrada para o transporte do gado foi a abertura de uma nova estrada, uma vez que essa movimentação era feita até três vezes por semana.  Devido a pressa, o traçado da nova estrada foi feito sem a orientação de um engenheiro, sendo escolhido o lado do nascente do terreno da faixa zonal, situada entre o Arronches  e Fortaleza. 
Era um local coberto de matas, com exuberante vegetação nativa com algumas clareiras e tabuleiros, o que facilitou a construção da estrada em poucas semanas. Por algum tempo, ainda, essa estrada serviu de acesso ao Matadouro de Otávio Bonfim, razão pela qual a Rua Justiniano de Serpa antigamente também ter sido chamada de Estrada do Gado.  Isso perdurou até 1926, quando foi construído um novo matadouro nas imediações da Lagoa do Tauape – o que reduziu o antigo percurso quase pela metade. 

Prédio do Matadouro do Jardim América, demolido em 1970. No mesmo local foi edificado o atual Colégio Paulo VI (foto do arquivo Nirez)

As primeiras habitações que surgiram às margens da estrada do Gado eram poucas casas de taipa, cobertas de palha, construídas por agricultores que trabalhavam para donos dos sítios existentes na região. Nessas choupanas não havia qualquer conforto, nem banheiro ou sanitário.  Por ali passavam as boiadas, os comboios de jumento, com dez a quinze animais em marcha lenta e cadenciada, com cargas diversas em que predominavam carvão vegetal, lenha e madeira, às vezes noite adentro, acompanhados pelos sonolentos comboieiros. Também as tradicionais carroças puxadas a burro, faziam parte do cotidiano da Estrada do Gado, conduzindo lenha do Cardoso, o português da Estação do Quilômetro Oito para a Usina da Ceará Light no Passeio Público, e a famosa água da Pirocaia para o centro da cidade, acondicionada em grandes barris de madeira, distribuída para o consumo da população, pois era considerada a melhor água de Fortaleza.
No local somente podiam trafegar veículos de grande potência;  carros pequenos nem se falava neles, principalmente no inverno quando se formavam grandes lamaçais. Os meios de transporte garantidos eram o jumento, o cavalo ou andar a pé, quando por necessidade extrema.  Outra característica da Estrada do Gado era uma fileira de postes dos Correios e Telégrafos, com fios de transmissão de sinais de comunicação por “morse”, que já foi extinto.

 Inauguração da Avenida Gomes de Matos, no dia 28 de março de 1969. No palanque armado no triângulo formado pelas ruas Jorge Dummar e PRE-9 com a nova avenida. Da esquerda para a direita, estão o Coronel Elísio Aguiar, o vereador Renê Dreyfus, Thomaz Pompeu Gomes de Matos, o prefeito José Walter e o jornalista Epitácio Cruz

Em fins do século XIX a nome da via foi mudado para Boulevard 14 de Julho, denominação dada pelos franceses residentes no Ceará, que à época exerciam grande influência na vida sócio-econômico-cultural de Fortaleza. Em 1955, na gestão do prefeito Paulo Cabral de Araújo, já com a denominação aportuguesada para avenida, a 14 de Julho foi pavimentada com pedra tosca, um dos primeiros melhoramentos que a região recebeu do Poder Público. Em 1968, na administração do prefeito José Walter Cavalcante, a Avenida 14 de Julho foi rebatizada pela Câmara Municipal com a denominação de Avenida Gomes de Matos, homenagem ao professor e jurista cearense, Raimundo Gomes de matos.


Extraído do livro de Pirocaia a Montese – fragmentos históricos
De Raimundo Nonato Ximenes
  

2 comentários:

J. Terto de Amorim disse...

Esse artigo precisa de pesquisa em fontes mais confiáveis. O primeiro registro de Estrada do Gado ]se deu com os mapas de Adolpho Herbster e tratava-se do que hoje é a av. 13 de Maio, começando no cruzamento da Antiga Estrada de Pacatuba (hoje rua Marechal Deodoro)e continuando como rua Justiniano de Serpa até o Matadouro (http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_cartografia/cart519681/cart519681.jpg).
Na Parangaba o registro sobre Estrada do Gado vem do começo do século XX (o que hoje é a av. Germano Franklim) que ligava a Estrada Nova de Pacatuba (hoje av. Godolfredo Maciel) com a Antiga Estrada de Pacatuba.

Fátima Garcia disse...

Considero a fonte utilizada bastante confiável, trata-se do livro "De Pirocaia a Montese - fragmentos históricos", de autoria de Raimundo Nonato Ximenes, ex pracinha e morador da região desde menino (à época que escreveu o livro, ele contava com 80 anos), e dizia lembrar da dinâmica da rua, inclusive da passagem de comboio de animais, do lamaçal da via e de quando implantaram na rua os postes do telégrafo. Na mesma publicação ele fala que haviam outras vias também conhecidas como estrada do gado, e que assim eram chamadas todas as estradas eram utilizadas por comboieiros para condução das manadas ao matadouro, primeiro em Otávio Bonfim, depois no Montese onde hoje funciona o Colégio Paulo VI. A história não é uma ciência exata, descobri lendo uma infinidade de publicações sobre o mesmo assunto, com tantas divergências entre autores, que é difícil acreditar que falam do mesmo evento. Quem está certo, quem está errado? Díficil dizer, porque todos escreveram com base em fontes e pesquisas. Por isso nunca digo que A está certo ou B está errado, nem que tal autor não é confiável. Quem lhe garante que sua fonte é mais confiável que a do Sr. Raimundo Nonato Ximenes? Aliás, qual é a sua fonte?