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quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Tony's Bar e a Praia de Iracema dos anos 50

 

Nos anos 50 a Praia de Iracema já era reconhecida como área de lazer, com inúmeros restaurantes, bares, cabarés, boates e outros estabelecimentos ligados à prestação de serviços e à diversão. E os estabelecimentos se destinavam não só aos boêmios e noctívagos que enchiam as ruas do bairro, mas também aos frequentadores das praias e clubes das imediações.


Tony's Bar vizinho ao Iracema Plaza Hotel (foto Aba-Film/Arquivo Nirez)

Um desses estabelecimentos, bastante conceituado e bem frequentado era o Tony’s Bar, que também era restaurante e sorveteria. O proprietário era Antônio Montenegro Figueiredo, conhecido por Figueiredão, por ser alto e gordo. O dono do Tony’s era auxiliado por seu filho Marco Polo na gerência do lugar e costumava dirigir seu próprio carro, um modelo importado bastante antigo, que sequer tinha buzina. O Figueiredão afastava os pedestres que estavam no meio da rua, batendo na porta do carro, com a mão do lado de fora. Ninguém ignorava. Aos domingos o Tony’s tinha uma freguesia cativa para saborear o caldo que tirava a ressaca da farra da noite anterior.

Na década de 60 muitos cantores se apresentaram no Tony’s, que também funcionava como casa de shows e trouxe grandes atrações da época para a Praia de Iracema: Cauby Peixoto, Orlando Dias, Núbia Lafayette. O palco ficava do lado direito, vizinho ao Iracema PlazaHotel. Nas noites de shows o povo lotava a calçada do hotel em razão da proximidade com o palco do Tony’s. Memorável foi um show contratado pelo Tony’s em 1964, onde a atração era ninguém menos do que Roberto Carlos, então no auge do sucesso e do movimento denominado Jovem Guarda, do qual Roberto era o Rei. A casa ficou lotada rapidamente e não comportava mais ninguém. Então formou-se uma multidão nas imediações, que  assistiu ao show em pé, da calçada do hotel e da avenida em frente.  

  

Mas o Tony’s ficou conhecido por causa de um trágico assassinato ocorrido em suas dependências no ano de 1959. A vítima foi um jovem chamado Vicente de Castro Neto, conhecido frequentador da área. Na noite de sábado, Vicente de Castro esteve na boate Guarani, na Rua Barão do Rio Branco acompanhado de uma namorada, uma bonita aeromoça da companhia aérea Cruzeiro do Sul e mais um amigo gerente da Brahma. A boate ficava nos altos de um sobrado e era considerada um estabelecimento de luxo, com orquestra e mulheres bem-vestidas. Como todas as mesas estavam ocupadas, o trio ficou em pé, aguardando que surgisse uma mesa.

Palacete Guarany, nos altos, onde funcionou a boate Guarany

De repente a namorada assustou-se e reclamou que um homem lhe aplicara um beliscão nas nádegas. Vicente de Castro, temperamental e com fama de valentão, partiu para cima do atrevido que insultara a namorada, e disse “respeite mulher de homem”, em seguida aplicou-lhe um violento soco no rosto.

O homem que apanhou na cara se chamava Joaquim Romero de Frias, funcionário do Banco do Nordeste. No dia seguinte, o bancário foi esperar Vicente de Castro no Tony’s, porque sabia que era costume dele ir lá aos domingos. As 9 horas Vicente chegou em companhia de sua namorada de Fortaleza, estacionou sua camionete e foi comprar Coca-Cola no Tony’s. Ele subiu as escadas e se dirigiu ao balcão. Quando se virou para sair recebeu vários disparos com arma de fogo e já caiu sangrando. 

Os tiros foram desferidos pelo bancário Joaquim Frias. Um amigo de Vicente de Castro que presenciou o incidente, colocou o ferido em seu carro e levou-o para o SOS que ficava na Praça do Coração de Jesus. Mas ele já chegou morto. O crime alcançaria grande repercussão, ocasionando um dos julgamentos mais memoráveis de Fortaleza. Frias foi absolvido no primeiro júri – a defesa alegara legítima defesa – mas a promotoria apelou e no segundo julgamento o réu foi condenado. Cumpriu pena na velha cadeia pública da Rua Dr. João Moreira, que hoje abriga a Encetur.

O Tony’s Bar continuou em atividade por toda a década de 60; tempos depois surgiu no local a Boate Veleiro.   

No bairro Cais do Porto, na região da Praia do Futuro tem uma avenida chamada Vicente de Castro, mas não identificamos nenhuma relação de parentesco com a vítima de assassinato.

  

Publicação Fortaleza em Fotos/extraído dos livros A Praia de Iracema dos Anos 50/Jaildon Correia Barbosa/Sábado Estação de Viver/Juarez Leitão/blog Fortaleza em Fotos.com.br Fotos do Arquivo Nirez



quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Os Primeiros Clubes Sociais

sede própria do Clube Cearense em frente ao Passeio Público. Mais tarde funcionou no prédio o Hotel de France 


O Clube Cearense foi o primeiro clube social de Fortaleza, fundado ainda no segundo império, foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1867, com um grande baile, reunindo o melhor da sociedade desse tempo. Não completou 35 anos de existência , mas durou o tempo suficiente para tornar-se uma referência para as associações que o sucederam.
Nas primeiras décadas do século XX, dois clubes sociais realçavam o estilo de vida da chamada alta sociedade fortalezense: o Clube Iracema e o Clube dos Diários. 
 


Festa de 50anos do Clube Iracema

O Clube Iracema foi fundado no dia 28 de junho de 1884, como reação democrática contra o elitista Clube cearense, marcando seu início como centro atividades políticas e sociais, voltado para a militância dos movimentos abolicionistas e republicanos. Era a resposta social da burguesia emergente associada à parcela da alta classe média, contra a aristocracia da terra, numa época em que a cidade crescia de população, já próxima de 35 mil habitantes, vivenciando um tempo de mudanças na estrutura econômica e política da província.
Durante vinte dias, um grupo de jovens comerciantes e intelectuais preparou o baile inaugural que seria realizado no dia 19 de julho. O Clube Iracema privilegiou as atividades culturais, registrando em seus salões intenso movimento artístico-literário. Ali nasceu o gabinete de Leitura, o Instituto do Ceará, a Fênix Caixeiral, a Padaria Espiritual, a Sociedade Perseverança e Porvir, a Academia Cearense de Letras e a Sociedade Libertadora Cearense. 


baile no Clube Iracema 

Depois do encerramento do Clube Cearense, muitos de seus antigos associados passaram a frequentar o Iracema. Intensificaram a vida social do clube e o lhe conferiram o status de mais importante dentre as agremiações sociais de Fortaleza. Admiráveis festivais foram realizados no Clube Iracema, conduzidos por músicos como Arthur Napoleão, Dalmau, Galiani, Landau Teixeira e Alberto Nepomuceno. Por muitos anos o Clube Iracema ocupou vários casarões do centro da cidade. Em 1922 sediou-se no Palacete Ceará, na Praça do Ferreira de propriedade do coronel José Gentil de Carvalho.


Em 1939 o Clube Iracema instalou sua sede em prédio próprio na Praça dos Voluntários. Este prédio, um dos mais belos exemplos de estilo art-deco da cidade, foi desapropriado em 1947 pela Prefeitura de Fortaleza para ali instalar seu centro administrativo. 





Clube dos Diários

Em consequência de uma dissenção na sociedade do Clube Iracema, surgiu em 18 de março de 1913, o clube dos Diários, aquele que seria o mais requintado do período da Belle Epoque de Fortaleza. Desde sua inauguração, instalou-se no Palacete Guarany, na antiga Rua Formosa, hoje Barão do Rio Branco. 

 reunião da diretoria do Clube dos Diários no Palacete Guarany - 1954 

Mais tarde foi construída uma nova sede social, na Aldeota, entre as ruas Barão de Aracati e Carlos Vasconcelos, numa área hoje ocupada pelo edifício da Receita Federal. O Clube dos Diários preenchia a vida social de Fortaleza com charme e elegância. Bailes grandiosos, apresentações musicais, exposições de arte ocorriam em seus salões. Acompanhando o desenvolvimento tecnológico, sua diretoria procurava oferecer aos associados o que havia de mais moderno na área de lazer e entretenimento.                                      
 
anúncio em jornal dos anos 60
Até o final dos anos 20, a vida social e elegante da cidade era conduzida pelos dois clubes: Iracema e Diários. Esses rivalizavam nas festas e bailes carnavalescos. Na segunda metade do século XX, o Clube dos Diários, numa forme de sobrevivência, fundiu-se com o Clube Iracema constituindo o Clube Diários-Iracema.




Um terceiro clube, o Ceará Country Club inaugurado já nos fins da Belle Epoque, congregava quase que exclusivamente a colônia inglesa da cidade até 1956. A partir daí houve uma abertura no seu quadro social, com aquisições de ações por membros da sociedade fortalezense.
Fundado em 23 de abril de 1924, com a intenção de promover o esporte entre britânicos e americanos residentes no Ceará, o Country Club tinha o inglês como idioma oficial da diretoria. Seus terrenos foram adquiridos de Dona Maria Teresa de Souza Accioly, viúva do Comendador Antônio Pinto Nogueira Accioly mediante escritura pública de 1922. Abrangiam duas quadras entre a Avenida Santos Dumont, Ruas Silva Paulet, Pereira Filgueiras e Avenida Barão de Studart. A sede do clube foi edificada em estilo normando, pelo arquiteto Sylvio Jaguaribe Ekman.
No tempo da administração dos ingleses, todos os bailes do Ceará Country Club findavam com a valsa “Daisy Bell”, cujo refrão dizia:



“Daisy, Daisy, give me your answer, do!
I’m half crazy, all for the love of you!
It won’t be a stylish marriage,
I can’t afford a carriage,
But you’ll look sweet upon the seat
Of a bicycle buit for two!

O refrão dessa canção vitoriana fez parte da história dos jingles da rádio brasileira, participando, assim, da evolução radiofônica, iniciada em 1931, que abriu o Brasil para o mundo, conduzindo-o à Era das Comunicações de Massa.
Uma das mais importantes propagandas da época, anunciava o produto farmacêutico fitoterápico “Phymatosan”, que tinha como slogan “A sentinela dos pulmões”. A partir do tempo de ouro do rádio nacional, em todas as emissoras do país, por anos a fio, um afinado coral acompanhava a valsa , num ritmo arrastado. Esse antológico jingle, teve seus versos confirmados pelo pesquisador Cristiano Câmara, que propalava:

Phymatosan, quando você tossir,
Phymatosan, se a tosse resistir
Renova seu apetite
Acabando com a bronquite
Phymatosan, melhor não tem
É o amigo que lhe convém.

  

extraído do livro
Ideal Clube - história de uma sociedade - memórias, documentos, evocações
de Vanius Meton Gadelha Vieira 
fotos dos livros Ideal Clube, Ah, Fortaleza! e do Arquivo Nirez



terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Fortaleza e os Grandes Negócios


Na segunda metade do Século XIX o aumento da demanda externa por produtos locais (especialmente o algodão), e o crescimento da renda das classes dominantes, contribuíram para que se instalassem em Fortaleza, várias casas comerciais exportadoras e importadoras pertencentes a estrangeiros, fixados no Ceará em busca de bons lucros. 
 
Assim, quebrando o monopólio inicial da Casa Inglesa – Singlehurst and Co, instalada em 1811 por William Wara – apareceram outras firmas como Kaikman and Co, John and Graf e Cia, Luis Sand and Cia, Gradvohl Frères  e Boris Frères. 



Casa Machado Coelho e Cia fundada em 1868, operava no ramo de importação em dois edifícios, na Praça do Ferreira e na Rua Barão do Rio Branco. Os sócios eram  Antônio Machado Coelho, nascido em Portugal  e seu filho, nascido no Ceará, Antônio Machado Coelho Junior. Fazia larga importação de tecidos de algodão, vinhos, comestíveis e objetos de uso doméstico.  Um dos edifícios tinha um elevador moderno, com capacidade para uma tonelada, o qual ligava os diversos pavimentos. 

Em 1862 havia um total de 203 casas comerciais brasileiras para 84 estrangeiras. No entanto o predomínio de estrangeiros era justamente nas firmas que cuidavam de exportação e importação e do abastecimento de gêneros. 
 
Dessas casas comerciais estrangeiras, a de maior influência e poder foi a Boris Frères, instalada em 1872 e com sede em Paris. Pertencente aos judeus Alphonse e Theodore Boris, a firma era tão poderosa que chegava a emprestar dinheiro ao governo local.   

Boris Frères, casa, fundada em 1870, fazia o comércio de exportação dos principais produtos do estado, tais como borracha, algodão, cera de carnaúba, couros e peles. Importa máquinas para agricultura, cimento, carvão etc. A Casa Boris praticamente dominou o comércio importador e exportador cearense. (foto: novo milênio)

Abalava-se dessa forma a tradicional intermediação comercial mantida com Pernambuco, no qual negociantes cearenses viajavam a Recife onde se abasteciam com o indispensável às suas lojas.  Aumentou o comércio direto com a Europa, especialmente com a Inglaterra e França. 
Entre os produtos importados, destacavam-se os tecidos, peças de vestuário, perfumes, objetos de decoração, vinhos, conservas, remédios, farinha de trigo e cigarros.

Interessados em tudo que pudesse incrementar a atividade comercial e seus negócios na província, aqueles comerciantes estrangeiros estiveram envolvidos em várias iniciativas, como tentativas de criação de bancos, estabelecimentos de estradas de ferro e fundação de companhias de seguros.

O aumento do número de comerciantes na praça de Fortaleza levou à fundação da Associação Comercial do Ceará em 1866, a qual teve como primeiro presidente o inglês Henrique Kalkamann e entre os diretores, o também inglês Richard Hughes.


Reunião da diretoria da Associação Comercial, antiga sociedade para defesa dos interesses comerciais do estado, constituída pelas firmas mais importantes da praça de Fortaleza. (foto: novo milênio)

O setor comercial passou a ter cada vez mais peso na vida política cearense. Como não existiam bancos no Ceará, eram os comerciantes que financiavam a produção, cobrando, não raras vezes, juros exorbitantes. As dívidas contraídas por latifundiários com negociantes do litoral, sobretudo durante os períodos de seca prolongada, e após a crise algodoeira dos anos 1870, possibilitaram a consolidação do poder político de muitos comerciantes. 

Tal situação dava margem a grandes negociatas, nas quais se utilizavam os currais eleitorais dos senhores de terra como moeda de troca.


Casa Albano,  pertencente à firma Albano & Irmão, foi um dos mais antigos estabelecimentos comerciais do Ceará, fundada em 1852 pelo Barão de Aratanha e por seu irmão  Manoel Francisco da Silva Albano.  O slogan da firma era  "Pro ara teneo et focis" (Tenho para o altar e para o lar). Importadora de todo o tipo de tecidos e exportadora de produtos locais vendia no varejo e por atacado, alcançando um movimento considerável que a tornou uma das primeiras casas do gênero na praça de Fortaleza. (foto: novo milênio)

São muitos os casos de comerciantes possuidores de patentes como coronel ou barão, com grande influência na política cearense no Império e na República, o que não significou o fim do domínio das oligarquias rurais ou alguma alteração na fragilidade estrutural das elites locais. A burguesia comercial era aliada natural da classe latifundiária, chegando mesmo a se confundir com esta.  Não poucos comerciantes eram ao mesmo tempo, grandes senhores de terra.


O London and Brazilian Bank Limited, depois Bank of London and South American Limited, com matriz em Londres  instalou-se no andar térreo do palacete Guarani na Rua Barão do Rio Branco (arquivo Nirez)


sede própria do London Bank na esquina das ruas Barão do Rio Branco e São Paulo (arquivo Nirez)

Depois de várias tentativas, em 1893 surgiu o Banco do Ceará S.A, instalado na Rua Senador Alencar com Rua Floriano Peixoto, na antiga Praça José de Alencar (hoje Praça Waldemar Falcão), que sobreviveu até 1916. Neste mesmo período, atuaram pelo Ceará o Banco de Pernambuco, também desde 1893, e mais tarde, em 1910, o London and Brasilian Bank Limited, que instalou-se no térreo do Palacete Guarani, na Rua Barão do Rio Branco esquina com a Senador Alencar. Depois mudou-se para o prédio da mesma rua, esquina com a São Paulo.  

A criação da Caixa Filial do Banco do Brasil em Fortaleza foi autorizada em 23 de junho de 1860, mas sua instalação só ocorreu em 1913. A sede própria ficava na Rua São Paulo esquina com a Floriano Peixoto (arquivo Nirez)

Em 1913, chegou o Banco do Brasil, se instalando numa casa na Rua Barão do Rio Branco; em 1914 passou para o Palacete Brasil e em 1925 mudou-se para a esquina das Ruas São Paulo com Floriano Peixoto, em sede própria.  O primeiro banco com capital cearense foi a Casa Bancária Frota e Gentil, do sobralense José Gentil Alves de Carvalho. 

Fundada em 1893 a Casa Bancária Frota & Gentil que mais tarde se transformaria no Banco Frota & Gentil. A nova sede da instituição foi inaugurada em 1925 no cruzamento das  Ruas Floriano Peixoto com Senador Alencar (arquivo Nirez)

Em consequência do aumento do movimento comercial, a partir de 1850, o governo cearense procurou estimular as exportações locais, satisfazendo assim os interesses das firmas exportadoras, adotando medidas como a isenção de impostos e concessão de privilégios para o estabelecimento de linhas de transporte e companhias de navegação. 
Tais medidas, no entanto, esbarravam na maioria das vezes, na burocracia e no centralismo do governo imperial.


Fontes
História do Ceará, de Airton de Farias
Cronologia Ilustrada de Fortaleza, de Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez)
Impressões do Brasil no século XX
disponível em http://www.novomilenio.inf.br


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O Matadouro Público de Fortaleza

O primeiro matadouro da cidade, ou melhor, lugar de abate de reses para o consumo público em Fortaleza, foi sem dúvida, o chamado “cajueiro do Fagundes”, no local hoje correspondente à Rua dos Pocinhos, esquina com a Rua Sena Madureira. O açougue do Fagundes está associado a  uma controvertida história, na qual o açougueiro teria se atritado com o capitão-mor Governador Luís de Mota Feo e Torres resultando daí um conflito que envolveu “meia cidade”.

Matadouro público de Otávio Bonfim, que funcionou até 1926 

João Brígido nos fala de  outro matadouro público, situado no terreno do prédio n° 50 da Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco)e não longe de outro açougue, este no primeiro quarteirão, lado oeste, da Rua da boa Vista (Floriano Peixoto). 

Neste terreno da Rua Formosa está hoje o Palacete Guarani, na esquina noroeste das Ruas Barão do Rio Branco com a Rua Senador Alencar.  Este mesmo imóvel, na década de 1940, esteve ocupado em seu andar térreo, pela Associação Comercial do Ceará, e nos altos pelo Clube dos Diários, fundado em 1913. 

Palacete Guarani, já com o telhado modificado
 
De 1910 a 1925, na parte térrea funcionou o London Bank, e depois o Banco dos Importadores. Outrora pertenceu ao Comendador Luís da Cunha Ribeiro, que ali residiu e faleceu.  Incendiado em 1902, foi adquirido e reconstruído por aquela sociedade, graças à ação do seu presidente, o Barão de Camocim. Neste mesmo local residiu em 1845, José Maria Eustáquio Vieira, antes deste, o negociante português Joaquim José de Sousa Pimentel, que construiu sua morada no local do antigo matadouro.

A casa da Rua da Boa Vista n° 20, como sendo a do segundo açougue a que alude João Brígido, está localizada mais ou menos no meio do quarteirão, da atual Rua Floriano Peixoto, entre as Ruas Dr. João Moreira e Castro e Silva. 

vista interna do matadouro público de Otávio Bonfim

Daí o matadouro passou-se para a atual Praça Clóvis Beviláqua, então Praça do Encanamento, localizada a uns 60 metros ao sul da casa de comércio Formiga & Irmão.  Liquidada esta firma, a casa ficou sendo residência do proprietário Sr. Formiga, localizada na esquina nordeste das Ruas General Sampaio e Clarindo de Queirós. Deslocou-se posteriormente para a Avenida Bezerra de Menezes, próximo à estação de Otávio Bonfim, onde funcionou até 1926.

Construído por uma empresa de que eram sócios os capitalistas Antônio Diogo de Siqueira Abel Ribeiro e Artur Temóteo, foi inaugurado em 18 de julho de 1926, o Matadouro Modelo, para o qual passaram os serviços de abate dos animais para o abastecimento da cidade. Ocupando vasta área e dispondo de modernos equipamentos para a efetivação de sua finalidade, ficava situado na esquina da atual Rua Jorge Dumar com a também atual Avenida Borges de Melo, Acha-se ali instalado o Colégio Paulo VI.


O novo Matadouro Público, localizado no bairro Jardim América no local onde hoje está o Colégio Paulo VI (foto MIS)

Por Decreto de 4 de abril de 1931, no governo interventorial do Dr. Manuel do Nascimento Fernandes Távora, ficou o prefeito de Fortaleza autorizado a rescindir amigavelmente o contrato firmado com a mesma empresa, mas não tendo havido acordo entre as partes, novo decreto foi baixado pela interventoria, em 28 de abril, autorizando o prefeito a rescindir compulsoriamente dito contrato e, assim autorizada, a prefeitura, sob protesto dos empresários, toma posse do Matadouro Modelo em 4 de maio seguinte, passando ele a ser administrado pelo Sr. Manuel Freire de Andrade. 

Continuou sendo administrado pelo município até ser fechado em virtude da criação do Frigorifico Industrial de Fortaleza (Frifor), situado no município de Caucaia, na BR-222.  


fonte:
Raimundo Girão
fotos: 
Arquivo Nirez  

domingo, 10 de julho de 2011

O que mudou em Fortaleza nos tempos da Belle Epoque


No final do século XIX, com a substituição da pecuária extensiva pelo algodão como produto básico da economia agrária cearense, Fortaleza conheceu seu primeiro fluxo real de crescimento, na condição de porto escoadouro do comércio algodoeiro, principalmente com a Inglaterra. A exemplo do que ocorreu em outras cidades do Nordeste, as elites rurais fixaram residência no centro urbano e Fortaleza viu crescer um extrato social formado por pequenos comerciantes, profissionais autônomos e funcionários públicos, demandando toda uma rede de serviços e melhoramentos públicos.

Vista panorâmica de Fortaleza em 1930. Em evidência a Praça e o Teatro José de Alencar; e as Igrejas do Patrocínio, da Sé e do Coração de Jesus (arquivo Nirez)

A exportação de algodão também forçou uma melhoria da infraestrutura urbana,  particularmente nas instalações portuárias e no sistema de circulação de transportes. Fortaleza já possuía, então, uma economia relativamente diversificada, com atividades como manufaturas e pequenos estabelecimentos industriais para abastecimento do mercado local, prestação de serviços diversos e um comércio varejista de maior porte.


Praça José de Alencar em 1910 (arquivo Nirez)

Formou-se na cidade uma burguesia comercial importadora-exportadora que, sem se desligar do latifúndio rural, estabeleceu uma vivência urbana, ligada aos grandes centros do Brasil e da Europa. Este segmento de altos comerciantes, sonhava ocultar suas rústicas origens sertanejas com o lustro refinado das luzes  civilizadas. O modelo a ser imitado agora era Paris, Lisboa estava ultrapassada.


Fachada Loja Torre Eiffel, na rua Major Facundo, n° 88, tendo na porta dos proprietários Jáder Augusto de Morais, Paulo Augusto de Morais e Célio Augusto de Morais. foto de 1924 (arquivo Nirez)

Hábitos e costumes deveriam ser reciclados. A ordem era apagar a arquitetura austera herdada da casa-grande e mesmo o neoclassicismo singelo dos primeiros prédios urbanos. Para alcançar a civilização era necessário respirar o ambiente sofisticado da belle époque. Inspirado nas ideias positivistas de Ordem e Progresso, defendidas pelo governo federal, o projeto de modernização buscava oferecer não apenas os elementos de asseio e boa higiene à população, como também promover o embelezamento e aformoseamento da cidade.

Já em 1875, Adolfo Herbster, engenheiro da província do Ceará e da Câmara Municipal de Fortaleza, respeitando o traçado em forma de xadrez implantado anos atrás por Silva Paulet, no primeiro plano diretor de Fortaleza, sobre o qual a cidade se desenvolvia desde 1918, ampliou esse traçado para além dos limites de então e projetou a abertura de três boulevards destinados a facilitar a circulação urbana.

Herbster buscava com seu projeto, oferecer a Fortaleza um circuito de avenidas à moda parisiense, como providência para a racionalização e embelezamento do espaço urbano de Fortaleza. No teatro, a sátira ao matuto e à caipirice de nossos costumes, que dominou grande parte de nossa dramaturgia até os anos 30 do século XX, expressava esse desejo.  Na arquitetura é eleito o ecletismo como símbolo do poder e das aspirações da nova classe, formada por altos comerciantes.


teatro José de Alencar, inaugurado em 1910, um dos símbolos da belle epoque e do afrancesamento da arquitetura (arquivo Nirez)

O ecletismo na arquitetura, a pretexto de sintetizar o melhor das diversas épocas, selecionava elementos díspares numa salada de estilos em que o limite entre a exuberância e o mau gosto ficava por conta da decoração excessiva.

Em nome do progresso, da civilização, Fortaleza passou a ser afrancesada. Na Praça Marquês do Herval foram colocadas cópias de estátuas gregas  similares às pertencentes ao Museu do Louvre. No mesmo local foi erguido um pavilhão de patinação, ginástica, e concertos, à imagem do que acontecia em Paris. 


coreto no centro do Jardim Nogueira Accioly, na Praça Marquês de Herval (arquivo Nirez)

Uma Academia Francesa é fundada e o chefe de governo Nogueira Accioly é chamado de o nosso Haussmann (o grande reformador de Paris).  Foi encomendado a Guillot Pelletier um mercado de ferro, o mais belo e talvez o mais confortável de toda a América do Sul, importado diretamente da França. Milionários encantados com os quartiers onde estiveram hospedados em Paris mandaram construir em Fortaleza réplicas de prédios inteiros.


Palacete Guarani (arquivo Nirez)

O mais famoso é o casarão da antiga Associação Comercial, depois transformado no mais famoso cabaré de Fortaleza, a boate Guarany. O porto, as praças recém-reformadas, o Passeio Público, as largas avenidas, as ruas alinhadas, os bondes, os quiosques, os edifícios públicos, as mansões imponentes, as casas comerciais, esses novos cenários urbanos, induziam a transformação de velhos costumes, substituindo-os por outros, tidos como civilizados, como os passeios dominicais, as retretas, a frequência elegante aos cafés, aos cinemas, ao teatro.


Passeio público em 1906, local preferido para os passeios dominicais das famílias cearenses. às 4ªs feiras e domingos, era cobrado aluguel para quem sentasse nas cadeiras. (arquivo Nirez)

Particularmente, o comércio se fazia representar à altura na paisagem urbana, não apenas no capricho arquitetônico de suas lojas, mas também nas representações coletivas, como o famoso prédio da Fênix Caixeiral, ligada aos comerciários. Esse foi o período que ficou conhecido como belle époque, cenário onde foi erguido o Theatro José de Alencar, o reino do ecletismo na arquitetura e no afrancesamento nos costumes, modismo que é avaliado pela ótica do professor e historiador Liberal de Castro:  o ecletismo arquitetônico aproxima-se do fim. Meio século depois, ante os olhos de uma população desorientada, seus exemplares remanescentes significariam indícios de um passado feliz, na verdade vivido apenas por um reduzido número de eleitos.



Extraído do livro: 
Theatro José de Alencar: o teatro e a cidade.