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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Fortaleza e os Grandes Negócios


Na segunda metade do Século XIX o aumento da demanda externa por produtos locais (especialmente o algodão), e o crescimento da renda das classes dominantes, contribuíram para que se instalassem em Fortaleza, várias casas comerciais exportadoras e importadoras pertencentes a estrangeiros, fixados no Ceará em busca de bons lucros. 
 
Assim, quebrando o monopólio inicial da Casa Inglesa – Singlehurst and Co, instalada em 1811 por William Wara – apareceram outras firmas como Kaikman and Co, John and Graf e Cia, Luis Sand and Cia, Gradvohl Frères  e Boris Frères. 



Casa Machado Coelho e Cia fundada em 1868, operava no ramo de importação em dois edifícios, na Praça do Ferreira e na Rua Barão do Rio Branco. Os sócios eram  Antônio Machado Coelho, nascido em Portugal  e seu filho, nascido no Ceará, Antônio Machado Coelho Junior. Fazia larga importação de tecidos de algodão, vinhos, comestíveis e objetos de uso doméstico.  Um dos edifícios tinha um elevador moderno, com capacidade para uma tonelada, o qual ligava os diversos pavimentos. 

Em 1862 havia um total de 203 casas comerciais brasileiras para 84 estrangeiras. No entanto o predomínio de estrangeiros era justamente nas firmas que cuidavam de exportação e importação e do abastecimento de gêneros. 
 
Dessas casas comerciais estrangeiras, a de maior influência e poder foi a Boris Frères, instalada em 1872 e com sede em Paris. Pertencente aos judeus Alphonse e Theodore Boris, a firma era tão poderosa que chegava a emprestar dinheiro ao governo local.   

Boris Frères, casa, fundada em 1870, fazia o comércio de exportação dos principais produtos do estado, tais como borracha, algodão, cera de carnaúba, couros e peles. Importa máquinas para agricultura, cimento, carvão etc. A Casa Boris praticamente dominou o comércio importador e exportador cearense. (foto: novo milênio)

Abalava-se dessa forma a tradicional intermediação comercial mantida com Pernambuco, no qual negociantes cearenses viajavam a Recife onde se abasteciam com o indispensável às suas lojas.  Aumentou o comércio direto com a Europa, especialmente com a Inglaterra e França. 
Entre os produtos importados, destacavam-se os tecidos, peças de vestuário, perfumes, objetos de decoração, vinhos, conservas, remédios, farinha de trigo e cigarros.

Interessados em tudo que pudesse incrementar a atividade comercial e seus negócios na província, aqueles comerciantes estrangeiros estiveram envolvidos em várias iniciativas, como tentativas de criação de bancos, estabelecimentos de estradas de ferro e fundação de companhias de seguros.

O aumento do número de comerciantes na praça de Fortaleza levou à fundação da Associação Comercial do Ceará em 1866, a qual teve como primeiro presidente o inglês Henrique Kalkamann e entre os diretores, o também inglês Richard Hughes.


Reunião da diretoria da Associação Comercial, antiga sociedade para defesa dos interesses comerciais do estado, constituída pelas firmas mais importantes da praça de Fortaleza. (foto: novo milênio)

O setor comercial passou a ter cada vez mais peso na vida política cearense. Como não existiam bancos no Ceará, eram os comerciantes que financiavam a produção, cobrando, não raras vezes, juros exorbitantes. As dívidas contraídas por latifundiários com negociantes do litoral, sobretudo durante os períodos de seca prolongada, e após a crise algodoeira dos anos 1870, possibilitaram a consolidação do poder político de muitos comerciantes. 

Tal situação dava margem a grandes negociatas, nas quais se utilizavam os currais eleitorais dos senhores de terra como moeda de troca.


Casa Albano,  pertencente à firma Albano & Irmão, foi um dos mais antigos estabelecimentos comerciais do Ceará, fundada em 1852 pelo Barão de Aratanha e por seu irmão  Manoel Francisco da Silva Albano.  O slogan da firma era  "Pro ara teneo et focis" (Tenho para o altar e para o lar). Importadora de todo o tipo de tecidos e exportadora de produtos locais vendia no varejo e por atacado, alcançando um movimento considerável que a tornou uma das primeiras casas do gênero na praça de Fortaleza. (foto: novo milênio)

São muitos os casos de comerciantes possuidores de patentes como coronel ou barão, com grande influência na política cearense no Império e na República, o que não significou o fim do domínio das oligarquias rurais ou alguma alteração na fragilidade estrutural das elites locais. A burguesia comercial era aliada natural da classe latifundiária, chegando mesmo a se confundir com esta.  Não poucos comerciantes eram ao mesmo tempo, grandes senhores de terra.


O London and Brazilian Bank Limited, depois Bank of London and South American Limited, com matriz em Londres  instalou-se no andar térreo do palacete Guarani na Rua Barão do Rio Branco (arquivo Nirez)


sede própria do London Bank na esquina das ruas Barão do Rio Branco e São Paulo (arquivo Nirez)

Depois de várias tentativas, em 1893 surgiu o Banco do Ceará S.A, instalado na Rua Senador Alencar com Rua Floriano Peixoto, na antiga Praça José de Alencar (hoje Praça Waldemar Falcão), que sobreviveu até 1916. Neste mesmo período, atuaram pelo Ceará o Banco de Pernambuco, também desde 1893, e mais tarde, em 1910, o London and Brasilian Bank Limited, que instalou-se no térreo do Palacete Guarani, na Rua Barão do Rio Branco esquina com a Senador Alencar. Depois mudou-se para o prédio da mesma rua, esquina com a São Paulo.  

A criação da Caixa Filial do Banco do Brasil em Fortaleza foi autorizada em 23 de junho de 1860, mas sua instalação só ocorreu em 1913. A sede própria ficava na Rua São Paulo esquina com a Floriano Peixoto (arquivo Nirez)

Em 1913, chegou o Banco do Brasil, se instalando numa casa na Rua Barão do Rio Branco; em 1914 passou para o Palacete Brasil e em 1925 mudou-se para a esquina das Ruas São Paulo com Floriano Peixoto, em sede própria.  O primeiro banco com capital cearense foi a Casa Bancária Frota e Gentil, do sobralense José Gentil Alves de Carvalho. 

Fundada em 1893 a Casa Bancária Frota & Gentil que mais tarde se transformaria no Banco Frota & Gentil. A nova sede da instituição foi inaugurada em 1925 no cruzamento das  Ruas Floriano Peixoto com Senador Alencar (arquivo Nirez)

Em consequência do aumento do movimento comercial, a partir de 1850, o governo cearense procurou estimular as exportações locais, satisfazendo assim os interesses das firmas exportadoras, adotando medidas como a isenção de impostos e concessão de privilégios para o estabelecimento de linhas de transporte e companhias de navegação. 
Tais medidas, no entanto, esbarravam na maioria das vezes, na burocracia e no centralismo do governo imperial.


Fontes
História do Ceará, de Airton de Farias
Cronologia Ilustrada de Fortaleza, de Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez)
Impressões do Brasil no século XX
disponível em http://www.novomilenio.inf.br


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Ildefonso Albano e as Reformas Urbanas

Em 12 de junho de 1923, o presidente da província Justiniano de Serpa, por motivos de doença, transmitiu o governo do Ceará para o vice-presidente Ildefonso Albano. Na liderança, o substituto de Serpa continuou as obras iniciadas pelo antecessor, demonstrando experiência no trato com as questões públicas.

Grupo Escolar do Benfica, fundado em 1924 (arquivo Nirez)

Ildefonso Albano já ocupara o cargo de Prefeito de Fortaleza no governo do coronel Franco Rabelo (1912-1914). Como prefeito na administração de Justiniano de Serpa, foi responsável pela reforma urbanística de importantes áreas da cidade: arborização da Avenida Alberto Nepomuceno, reforma e construção dos jardins da Praça General Tibúrcio, reforma do Parque da Independência (atual Cidade da Criança), reforma das calçadas com a utilização de fios de pedra e arborização da cidade com Ficus benjamin.

O Parque da Independência foi reformado em 1923, quando Ildefonso Albano ocupava o cargo de prefeito de Fortaleza (arquivo Marciano Lopes)

Durante sua permanência na presidência do Estado foram construídas várias pontes, além de edifícios escolares, como os grupos escolares do Benfica, hoje edifício da Faculdade de Ciências Econômicas, os grupos de Visconde do Rio Branco e o de Fernandes Vieira; concluiu o edifício da Secretaria da Fazenda e iniciou a construção do Quartel da Polícia Militar. 

Marco de inauguração da Ponte Epitácio Pessoa, construída no governo Ildefonso Albano (acervo Museu do Ceará) 

Deste modo dotou o Ceará de uma boa infraestrutura de prédios indispensáveis aos serviços de  educação e segurança pública. No exercício da presidência do Ceará, fundou a sociedade de agricultura, convocou e mobilizou os cotonicultores para produção e expansão do algodão; estudou e defendeu os interesses da pecuária cearense, sendo o seu governo o que melhor compreendeu a dinamização dos recursos, notadamente o binômio  gado – algodão.


Ildefonso de Abreu Albano nasceu em Fortaleza em 12 de fevereiro de 1885, filho de José Albano Filho e Maria de Abreu Albano. Seu avô paterno era José Francisco da Silva Albano, o Barão de Aratanha. 

Estudou no Seminário da Prainha – ao lado do irmão José de Abreu Albano – e  depois na Áustria e na Inglaterra. Cursou até o terceiro ano da faculdade de Direito do Ceará, mas não obteve o bacharelato.

Quando retornou da Europa, onde estudou tecnologia da tecelagem, ocupou o cargo de gerente da firma Albano e Irmão, a afamada Casa Albano, fundada em 1852, pelo Barão de Aratanha e por seu irmão, Manoel Francisco da Silva Albano.

Propaganda da Casa Albano no ano de seu jubileu em 1912 (Ah, Fortaleza!)

Casado com uma filha do coronel Franco Rabelo, foi nomeado prefeito de Fortaleza. Como deputado federal defendeu o Nordeste, enfatizando a problemática das secas. Denunciou também o boicote organizado contra os Estados do Norte e sugeriu soluções ao problema do algodão.

Publicou os seguintes livros: O secular Problema do Nordeste; A Cultura do Algodão no Ceará; Jeca-Tatu e mané Xique-Xique; O Empréstimo Americano;  Brazil Readers Digest, este último um trabalho didático como professor de língua inglesas no Colégio Pedro II, em que demonstra sua preocupação e devotamento à sua terra e a sua gente.

Prédio da Sefaz, construção iniciada em 1924 no governo de Ildefonso Albano e concluída em 1927, na gestão de José Moreira da Rocha (arquivo Nirez)

Um ano depois, em julho de 1924, quando Ildefonso Albano entregou o cargo de presidente ao seu sucessor  – José Moreira da Rocha – encontrou seu antigo estabelecimento comercial (Casa Albano) em dificuldades financeiras. Além disso, não conseguiu ser incluído na chapa para a Câmara dos Deputados.

No Rio de Janeiro passou a trabalhar como caixeiro e depois como guarda-livros, a fim de sobreviver. Pouco depois foi nomeado adido comercial do Brasil em Havana. Ao retornar ao Brasil ocupou outros cargos no ensino e na administração pública. 
Faleceu no Rio de janeiro, a 22 de dezembro de 1956.


Extraído do livro de Rogaciano Leite Filho - A História do Ceará Passa por esta Rua