quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A Modernidade Turbulenta dos Anos 20


No mesmo ano da inauguração do cine Majestic Palace (1917), veio à tona a primeira greve cearense realmente operária, a dos trabalhadores da Ceará Light and Power, movimento que se repetiria em 1918, 1925 e 1929. Antes já houvera as paralisações dos trabalhadores da Estrada de Ferro Baturité em 1891, e a dos catraieiros, em 1904.
No período em questão, o movimento operário no país, como um todo, revitalizava-se com as greves gerais anarquistas, a influência da revolução bolchevique na Rússia em 1917 e a emergência do Partido Comunista Brasileiro, em 1922. Em Fortaleza, para fazer frente à politização do operariado, o patronato local criou o Centro Industrial Cearense em 1919.

  Grupo Escolar Visconde do Rio Branco, fundado em 1919

O problema da educação, ponto de vital importância para a produção do novo trabalhador que se desejava treinado, competente e civilizado, não podia ficar de fora das estratégias dos setores governamentais. Nesse sentido o governo de Justiniano de Serpa (1920-1923), realizou ampla reforma do ensino primário através do educador paulista Manuel Bergstrom Lourenço Filho, especialmente contratado para esse fim. 
Ressalte-se, porém, que a reorganização do sistema educacional empreendida por Lourenço Filho não se limitava apenas à educação pública. Outros itens considerados básicos e indissociáveis também foram observados, como higiene, arejamento e conforto das salas de aulas e novos edifícios colegiais. 

 Grupo Escolar do Benfica, inaugurado em 1923

Como o embelezamento da cidade compunha o dispositivo disciplinar urbano que envolvia saúde-saneamento-racionalidade, as novas escolas ganharam estilo neocolonial – numa tentativa de criar uma versão nacional do ecletismo arquitetônico – projetado pelo arquiteto Armando Oliveira, do Rio de Janeiro.
De fato, o aformoseamento continuou como uma das questões centrais do anseio de remodelação urbana da Capital. A década de 1920 evidenciando as preocupações nesse sentido viu surgirem expressivas obras públicas e privadas, que reformulavam os espaços e criaram outros. Dentre esses espaços estavam o Parque da Liberdade, a nova reforma da Praça do Ferreira e a constituição de bairros elegantes. 

Praça do Ferreira em 1919, com o Cine-Teatro Majestic Palace e o Café Elegante. O café, juntamente com outros três que ocupavam os quatro cantos da Praça, foram demolidos no ano seguinte, na reforma promovida pelo prefeito Godofredo Maciel. 

O Parque da Liberdade, na antiga lagoa do Garrote, localizado no centro urbano de então, recebeu completa reforma em 1922. Realizada por Ildefonso Albano, que substituíra Justiniano de Serpa, falecido em 1923, o Parque veio repartir as opções de lazer com o Passeio Público. O logradouro recebeu cerco de gradil de ferro, muretas de alvenaria em estilo colonial, grande portão de entrada com azulejos portugueses e demais ornamentos internos.  No alto do portão da entrada principal, deveria ser implantada uma cópia em tamanho pequeno da Estátua da Liberdade, de Nova York, sendo, no entanto, substituída por um índio que partia dos grilhões da submissão colonial.
Na gestão de José Moreira da Rocha (1924-1928), além da inauguração do serviço de abastecimento de água e esgotos, obra que se arrastava desde o início do século, foi procedida ampla reformulação da Praça do Ferreira, a principal da cidade. A obra foi exigida por motivos higiênicos e estéticos, mas, sobretudo, para racionalizar a circulação de pedestres, bondes e automóveis.
A nova praça do Ferreira também recebeu amplo piso de ladrilhos, mas sacrificou os quatro quiosques, tipo chalés de madeira, que se localizavam  nos quatro cantos da praça. 

 Avenida Pessoa Anta

Em 1927 concluía-se um sistema de avenidas ligando o centro à praia. Em seu trajeto as novas vias passavam pelo Quartel Federal, Praça da Sé,  Alfândega, armazéns de exportação e Secretaria da Fazenda.
O projeto das avenidas não alterou o traçado da cidade, posto que foram aproveitadas vias já existente, mas com ocupação rarefeita (valorizando, consequentemente, os terrenos desocupados da área). Estas vias que se transformam em avenidas nos anos 20, já estavam previstas na planta urbanística feita por Adolfo Herbster em 1875, cujo plano em forma de xadrez, antecipou o crescimento disciplinado da cidade, sem necessidade de grandes intervenções urbanas.

 A Avenida Duque de Caxias é uma das três avenidas mais antigas da cidade - era um dos boulevards criados por Adolfo Herbster,  na Planta da Cidade de Fortaleza e Subúrbios, de 1875

A planta de Herbster, porém, foi perdendo sua força sistematizadora ainda naquela década, principalmente a partir dos anos 1930.
Estudiosos dos dias atuais, que se debruçam sobre a formação do espaço urbano de Fortaleza, concordam que a Capital sofre um crescimento desordenado a partir dos anos 30.  Diante da constatação do problema, em 1932, o Prefeito Tibúrcio Cavalcante alerta sobre a necessidade inadiável de ser adotado um plano de sistematização urbana. 
Coube, porém ao sucessor, Raimundo Girão, contratar o arquiteto Nestor de Figueiredo, cujo plano de remodelação, o primeiro depois de Herbster, foi abandonado na gestão municipal seguinte, do prefeito Álvaro Weine, sob a alegação de que a cidade precisava de outras realizações mais necessárias.
No que diz respeito às camadas dominantes, a expansão e a movimentação pública do perímetro central nos anos 20 foram suficientes para fazê-las se transferirem do centro para áreas periféricas desocupadas. Estas redundaram na formação dos primeiros bairros ricos.

 Avenida Philomeno Gomes, no Jacarecanga

Na verdade, o deslocamento burguês começou lentamente a partir de 1915, poucos anos após a revolta urbana de 1912, em razão do medo causado pelas depredações, saques e incêndios e no momento da entrada de flagelados na Cidade, vindos do sertão, devido a seca de 1915.
As primeiras mansões levantadas no lado oeste da cidade, no arrabalde de jacarecanga, aproveitando a continuação da Travessa Municipal (atual Rua Guilherme Rocha).
A ocupação do Jacarecanga e, em menor escala, da Praia de Iracema pelas elites a partir da década de 20, configura o surgimento dos primeiros bairros elegantes da Capital, delineando com maior visibilidade os novos espaços burgueses e reforçando a segregação sócio-espacial entre ricos e pobres.

Avenida Santos Dumont

Inquestionavelmente, naquele final de Primeira República, a tensão social entre os diversos segmentos sociais urbanos se agravou em Fortaleza, como de resto em todo o país. O perímetro central crescia com o movimento acelerado de carros, lojas, armazéns, oficinas, cinemas, parques e clubes.
O movimento da multidão na Capital também se adensou – a população em 30 atinge os 100 mil habitantes – e na sua maior parte era formada pela massa  que o poder procurava disciplinar - e que ao mesmo tempo produzia operários e demais categorias de trabalhadores, os desempregados, os mendigos, os menores abandonados, as prostitutas e todos os pobres em geral, com suas aparências e comportamentos tidos como selvagens, nocivos e inadequados.  

 Avenida Santos Dumont

A resistência das camadas populares ante os variados mecanismos disciplinadores que lhe afetavam cotidianamente tanto nos espaços públicos como privados, expressou-se sob as mais diversas formas: além das já apontadas, houve relutância em receber vacinas, a conservação de certos hábitos, crenças e posturas, o desapego ao trabalho sistematizado. Mas houve também resistência por parte das classes dominantes, pois se tratava de um enfrentamento de forças sociais em todas as horas, dias, lugares e relações.

fotos do Arquivo Nirez
Extraído do livro de Sebastião Rogério Ponte
Fortaleza Belle Epoque: Reformas Urbanas e Controle Social (1860-1930)
  

domingo, 19 de agosto de 2012

Estranhos no Ninho: os Tipos Populares de Fortaleza

A Praça do Ferreira começou a passar por um processo de urbanização a partir de 1902, na administração do intendente Guilherme Rocha. Essa urbanização vai muito além do mero aformoseamento: visava facilitar a circulação e determinava novas regras de convívio e utilização do espaço público.

Fortaleza sempre teve um elenco de tipos populares, capazes de chamar a atenção de quantos tivessem a oportunidade de vê-los. Suas esquisitices, práticas, adereços, atitudes - ficaram gravadas na crônica da cidade. Os tipos populares - como ficaram conhecidos - eram, em geral, pessoas pobres, desocupadas ou sem trabalho fixo, de origem, e domicílio incertos. Como os demais despossuídos que enchiam as ruas de Fortaleza, eram maltrapilhos e maltratados.
O palco preferido para suas aventuras era - como não poderia deixar de ser  - a Praça do Ferreira.  O surgimento desse fenômeno social em Fortaleza - e por certo, em outras cidades - guarda estreita relação com o processo de transformação urbana, que alterou significamente a vida e o ritmo da capital, entre o final do século XIX e o início do século XX.

Na intervenção de 1902, foram construídos os famosos cafés, quisques de madeira que ocupavam os quatro cantos da Praça do Ferreira

Os tipos populares, individuos empobrecidos e enlouquecidos, faziam parte daquele contingente de miseráveis produzidos ou intensificados pela velocidades das relações capitalistas em desenvolvimento no país. Suas esquisitices, manias ou distúrbios mentais, de algum modo foram provocados pelo impacto das transformações frenéticas nas ruas, no trabalho, nas casas e nas vidas das pessoas.
Nessa perspectiva, cabe ressaltar o que faziam ou o que eram essas pessoas antes de perderem seu norte material e mental e se tornarem alvos do riso e do escárnio da população.
O Casaca de Urubu, que em 1915 causava rebuliço público quando ouvia coro de pessoas entoarem Casaca de urubu...bu...bu! lutara na Guerra de Canudos quando moço, e chegou a ser oficial de justiça, sendo dispensado do emprego por ser epiléptico.
O De Rancho, que munido de uma velha carabina desativada saía pelas calçadas gritando e metralhando os pedestres - inclusive o automóvel de um presidente do Estado, que assustado com o atentado, mandou que o prendessem imediatamente - teria enlouquecido durante a primeira Guerra Mundial. Talvez fosse por isso que sua canção preferida era a que tinha esses versos: "Mamãe, mamãe não chore/ não chore que a guerra não vem cá".
O Pilombeta que odiava a palavra trabalho, fora agrimensor em Minas Gerais, era exímio jogador de xadrez e sabia tocar piano.
O Tertuliano, que se vestia de beato e fazia pregações engraçadas pelas praças, tinha sido dono de uma pequena venda. Assumira aquele furor místico depois de ficar ferido em violenta luta com policiais, que o prenderam por não ter atendido uma intimação do delegado.


 O comércio da Rua Major Facundo (antiga Rua da Palma), no ínicio do século XX

E o que fizeram para deliciar o povo e se consagrarem como a alegria da cidade? Eis alguns dos  perfis:
O Pilombeta, nascido em Minas Gerais, logo se notabilizou em Fortaleza por conta de seus colossais dois metros de altura, em meio a multidão da Praça do Ferreira. Era magro, bizarro e tinha braços e mãos tão longos, que dançavam ao vento. Usava um velho fraque e calças enxovalhadas. Tinha nariz grande e adunco, sobre o qual usava um pince-nez, uma boca mole e sensual onde se achava a ponta de um cigarro velho. Por tudo isso, o Pilombeta se distinguia pela sua feiura caracteristica, que impressionava as crianças em geral e as mulheres em particular.
Odiava o trabalho e achava que tal palavra devia ser riscada dos dicionários, mas como os  conhecidos já não aguentassem mais seus constantes pedidos de dinheiro, resolveram arranjar-lhe um emprego na Estrada de Ferro Baturité. Encaminharam uma carta ao superintendente, e este logo o colocou.Pilombeta, porém, mal acabara de obter o emprego, ainda no gabinete do engenheiro-chefe, não hesitou em solicitar seis meses de licença.
Em 1916, debilitado pela vida desregrada e pelo álcool, Pilombeta teve uma crise pulmonar aguda e foi internado no Asilo de Mendicidade, onde findou tristemente, tempos depois. Consta que ao entrar na instituição de caridade, dissera com profunda melancolia: Eis a casa dos desvalidos da sorte como eu, e feliz daquele que nela encontrar abrigo.
O Tostão, que viveu na cidade em 1910 e 1912, era magro, pálido, mal-tratado e tinha sido carregador de quimoas (vasilhames com detritos fecais das residências que eram lançados no mar). Sua alcunha veio do hábito de pedir um tostão a toda gente. Mas para consegui-lo corria o risco de se expor à ira de suas vítimas que assim se transformavam sadicamente em algozes. Isto porque só lhe davam o dinheiro depois que ele repetisse um singular alfabeto que criara: reunia-se um grupo em torno, e Tostão começava, no seu linguajar pronográfico, a vomitar torpezas, seguidas de cada letra do alfabeto, e envolvendo com certa graça, as figuras populares da época.
É de se imaginar o ódio dessas pessoas destacadas na sociedade, ao verem seus respeitáveis nomes constarem na arte irreverente e tosca do Tostão, ainda mais porque muita gente boa pagava para que ele repetisse seu insólito abedecedário. Este incluía também veneráveis instituições de saber da capital, como esses sobre a Academia Livre de Direito do Ceará: "Estudo na Academia/muito Direito Romano/Aprendendo Socoiologia/com o Professor Soriano..."

 O Cine teatro Majestic Palace foi inaugurado em 1917. A inauguração de um equipamento moderno e sofisticado, valorizou o centro e consolidou as mudanças na Praça do Ferreira
   
Outro que muito incomodava certos homens de bem da cidade, especialmente os comerciantes, era o Tertuliano, negociante que virou beato e que pregava sermões que ninguém entendia. Dizendo-se enviado de Deus, aos sábados, vestido com uma exótica indumentária de santo, percorria o comércio do centro, na coleta que ele chamava de "imposto celestial". E a coleta era grande. Ai porém, daquele que não contribuisse: ficava inscrito no livro negro do beato, que passava a citá-lo em público, em seus sermões diários, como um dos candidatos que iria sofrer as torturas de Lúcifer.

  Tertuliano ia diariamente à igreja, e tinha o hábito de escalar o Cruzeiro da Sé,  onde se amarrava de braços estendidos, a fingir-se crucificado. Não havia jeito de tirá-lo de lá, onde permanecia horas a fio.

Tertuliano, quando não estava em seus momentos mais serenos, assumia por vezes, uma fúria incontrolável, quando então se tornava perigosissimo, pois exibia uma força física incomum, dificil de ser contida. Nos momentos de lucidez, no entanto, cultivava a veia irônica e com respostas espirituosas, que ficaram na memória da cidade. Um delas foi a com que respondeu a alguém que lhe sugerira comprar um pince-nez, ao vê-lo lendo a Biblia com dificuldade num sermão público, devido a sua extrema miopia: meu caro, não seja tolo! você leu, na verdade, a vida dos santos da Igreja? Ouviu dizer, por acaso, que algum santo usasse óculos ou pince-nez?

 Chagas dos Carneiros

Um outro tipo muito singular na Fortaleza dos anos 1910, era o Chagas dos Carneiros. Como os demais era alto, magro, nariz adunco, porém cego. Isso e mais um grande chapéu de palha e um espalhafatoso camisolão de algodão que lhe descia até os tornozelos, rentes com laços que atavam compridissimas ceroulas, já lhe bastavam para chamar a atenção e riso gerais. Mas o Chagas tinha ainda o original costume de trazer consigo 3 carneiros, pintados com cores diferentes. 
Por ser ferrenho monarquista, numa sátira mordaz à República vigente, Chagas apelidava seus animais com o nome de alguns dos mais conhecidos presidentes republicanos. Assim, o primeiro carneiro, pintado de azul-claro era o Afonso Pena; o segundo, verde-claro, era Rodrigues Alves e o terceiro, cor de rosa, era o presidente Campos Sales.
a simpatia pública conquistada por esses e outros tipos populares, justamente no período de maior intensificação de medidas disciplinares impostas pelos poderes e saberes comprometidos com a ordenação sócio-urbana, talvez se explique pela necessidade da população em buscar formas e canais de alívio e arrefecimento contra a pressão exercida pela rigidez do trabalho, da higienização e das regulamentações públicas e privadas. Entretanto, se os tipos populares, por um lado poderiam de alguma forma estar servindo aos objetivos da disciplinarização, na medida em que as suas cômicas excentricidades divertiam as massas, por outro lado é válido também ver os tipos populares como uma via que o povo encontrou, para através da irreverência, do riso, do sarcasmo, expressar seu descontentamento para com a normalização urbana, a carestia e as más condições de vida e de trabalho.       

fotos do Arquivo Nirez
extraído do livro de Sebastião Rogério Ponte
Fortaleza Belle Epoque: reformas urbanas e controle social (1860-1930)

terça-feira, 14 de agosto de 2012

A Vida Difícil dos Catequizadores


Nos primeiros séculos da colonização, a cruz era muito pesada. Eram poucos os clérigos, sobretudo nos momentos iniciais da colonização, que tinham interesse de vir para a capitania do Siará, terra muito pobre, de índios belicosos e selvagens, com rudes habitantes, muitos dos quais criminosos, negros e mulatos, todos em constantes pecados com as índias, e gerando famílias de grosseiros mestiços, os primeiros cearenses.
Além disso, a remuneração era baixíssima. Muitos desistiam no meio do caminho, preferindo permanecer entre os gentios domésticos, na segurança e relativo conforto das aldeias já catequizadas. 

 Ruínas jesuítas de São Miguel das Missões, na Região das Missões. Patrimônio da Humanidade desde 1983 no Rio Grande do Sul, Brasil.

Tornados padres por determinação dos pais, desejosos de ter um filho ministro de Deus, muitos esqueciam os votos sagrados e constituíam família. Os livros dos cartórios civis estão cheios de registros de escrituras e testamentos, em que sacerdotes católicos confessam a fragilidade humana dos seus acasos com mulheres.
Muitos clérigos entregavam-se aos prazeres materiais. No final do século XVIII, colonos e soldados do fortim de N. S. da Assunção, acusavam o padre José Leite de Aguiar de se dedicar mais ao seu curral bovino do que às questões religiosas, e de ter sucumbido cedo às tentações da carne, vivendo licenciosamente com índias e mestiças. Sacerdotes assediavam sexualmente negras, nativas e em fase mais avançada da colonização, as nem sempre recatadas donzelas e matronas da sociedade.

  Vista do Quartel de N. Sra. da Assunção, antigo Schoonenborch, com o gasômetro ao fundo (arquivo Nirez)
Longe dos olhares dos superiores do bispado de Olinda, a ação dos padres da aldeia da fortaleza e das vilas interioranas era quase sempre de complacência com as "faltas" dos colonos, soldados e autoridades da capitania, mesmo porque as relações entre o poder constituído e o clero, nem sempre foram cordiais. 
Em muitos momentos verificavam-se confrontos entre os representantes da Coroa e os padres. Em 1787, uma carta dos párocos das igrejas matrizes da capitania do Ceará denunciava o capitão-mor João Batista de Azevedo Coutinho de Montauri. A Igreja se dizia vítima da arbitrariedade da autoridade, que era comparado a Nero.  

Entre os filhos de padres notáveis da provinciana Fortaleza, estava o escritor José de Alencar, da estirpe do padre José Martiniano de Alencar (Senador Alencar), polêmico político do século XIX, que se amasiou com uma prima.

Os padres que desviaram caminho dos votos de castidade são personagens em um cenário maior. O século XIX pegou a Igreja Católica desprevenida. Quando os anos 1800 chegaram, trouxeram os protestantes (O primeiro a chegar ao Ceará foi o reverendo presbítero De Lacy Wardlan em 1882, num programa missionário promovido pelas igrejas Presbiterianas do sul dos Estados Unidos), a maçonaria, e a corrente filosófica que explica racionalmente a fé. A Igreja Católica reagiu no segundo tempo. O Concilio Vaticano (1869-1870) determinou que só uma estrutura centralizada poderia fazer o catolicismo triunfar. 


 Com a criação da Diocese em 1861, o padre Luis Antônio dos Santos foi nomeado o primeiro bispo do Ceará. Ele permaneceu a frente da Diocese entre 1861 e 1881. Nesse período fundou o Seminário da Prainha (1864), e o Colégio da Imaculada Conceição (1865).  fotos do Arquivo Nirez

É por esse motivo que o Ceará se prestará tão bem aos propósitos da reforma religiosa do Brasil, em curso no século XIX. Em 1861 se instala a Diocese do Ceará, sete anos depois de autorizada.  Fortaleza então se equipara ao Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. E se completa a emancipação do Ceará, que ainda estava ligada eclesiasticamente a Pernambuco.  A criação da Diocese do Ceará foi um momento de luta entre a Igreja e o Estado.
 
fontes:
História do Ceará, de Airton de Farias
Revista Fortaleza, fascículo 2, de 16 de abril de 2006

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Pelas Ruas e Avenidas de Fortaleza - parte IV


Rua Justiniano de Serpa

Rua Justiniano de Serpa em data não especificada. (arquivo Nirez)
Foto atual da rua, vista em sentido contrário a da foto antiga
Neste local, no cruzamento da Rua Justiniano de Serpa com a Rua Bela Cruz existia a Capela de São Sebastião, chamada pelos moradores de Igrejinha. A Igrejinha foi demolida por volta da década de 1970. No local foi construída essa pracinha, chamada de Praça Frei Teodoro, homenagem a um frade franciscano da Igreja das Dores.

O muro que se estende por uma quadra, entre as ruas Justiniano de Serpa,  Dom Jerônimo,  Antônio Pompeu e Avenida Domingos Olímpio, pertence ao convento dos Frades Franciscanos da Igreja de N.S. das Dores

Antigamente o matadouro de Fortaleza ficava na atual Avenida José Bastos, esquina com a Bezerra de Menezes, nas imediações de onde hoje se encontra a Delegacia do 3° Distrito Policial e fundos da Secretaria Executiva Regional (SER-I). por ali vinha o gado a ser abatido, por um caminho conhecido como Estrada do Gado, que não é outra senão a atual Rua Justiniano de Serpa, que nasce na Avenida Duque de Caxias e termina na Avenida 13 de Maio, que também foi estrada de gado.

Quem era


Nascido em Aquiraz, em 6 de janeiro de 1952, começou bem cedo a ajudar o pai no trabalho diário, tangendo animais de carga para abastecimento dos mercados de Fortaleza e Cascavel. Apesar da origem humilde, Justiniano de Serpa conseguiu formar-se em Direito, destacar-se como orador nos movimentos abolicionistas e republicano, ser eleito deputado Federal e nomeado Governador do estado para o período de 1920 a 1924. Durante seu governo - mais democrático do que os anteriores - dedicou especial atenção ao problema educacional e incentivou as manifestações artísticos-literárias, sendo responsável pelo reflorescimento da Academia Cearense de Letras, sendo Patrono da cadeira n° 8. 

 prédio da antiga Escola Normal Justiniano de Serpa

Em 12 de Junho de 1923, devido a problemas com a saúde, transferiu o governo a Ildefonso Albano, primeiro vice-presidente do Estado. No Rio de janeiro, depois de muito padecer, Justiniano de Serpa veio a falecer no dia 1° de agosto de 1923. Em sua homenagem foi erguido um busto em bronze na Praça Figueira de Melo. E a Escola Normal recebeu o nome do homem de origem modesta que atingiu o mais alto posto do Estado, vencendo os obstáculos impostos pela miséria e pela tradição política das famílias cearenses.

fonte:
A História do Ceará passa por esta rua
de Rogaciano Leite Filho

domingo, 12 de agosto de 2012

Bairros de Fortaleza: Lagoa Redonda



Lagoa Redonda é um bairro pertencente ao município de Fortaleza, localizando-se a Leste do centro, no Distrito de Messejana, onde faz divisa com os municípios de Aquiraz e Eusébio. Possui uma área preservada de mata atlântica, com mangues e belas lagoas.

 
Limites do Bairro
ao Norte: José de Alencar e Sapiranga Coité
Ao Sul: Porto das Dunas (Aquiraz) e Eusébio
a Leste: Sabiaguaba
a Oeste: Curió, Guajeru e Coaçu



 
Atualmente é considerado um dos bairros que mais se valorizam na cidade de Fortaleza, isto porque alia um clima interiorano a proximidade de um corredor comercial em forte expansão (Av. Washington Soares). Esse crescimento se reflete na valorização imobiliária que pode ser percebida, impulsionada pela chegada de colégios particulares, shoppings, supermercados e lojas do comércio varejista.
Com uma das menores densidades populacionais dentre os bairros de Fortaleza, 21 moradores por metro quadrado, com um alto nível de qualidade de vida e com uma grande área verde, Lagoa Redonda é considerada um espaço de tranquilidade.

 Lagoa da Precabura

Por ser rodeado de lagoas, como; Redonda, Precabura e Muritipuá,  possui um clima ameno e agradável, com grande incidência de ventos, ideal para quem quer fugir das altas temperaturas encontradas em Fortaleza.



A especulaçao imobiliária anda de vento em popa, e o que mais se vê no bairro Lagoa Redonda, são anúncios de lançamento de condomínios e de outros empreendimentos imobiliários, apesar da urbanização do local não estar completa, haja vista o grande número de vias sem calçamento, sem calçadas e de residências com cataventos (indício de que não há ligação de água).

fotos de Rodrigo Paiva e Raquel Vianna
em julho/2012


sábado, 11 de agosto de 2012

Espaço Urbano de Fortaleza e distribuição espacial das Classes Sociais


O crescimento de Fortaleza se deu de forma rápida, desordenada e sem planejamento, com grandes disparidades sociais e mais recentemente, com especulação imobiliária. A própria formação espacial da cidade evidenciou a questão da segregação e diferenciação social e de classes – ou seja, áreas ocupadas por determinadas camadas sociais e com tratamento diferenciado pelo poder público.

 Familia no Passeio Público em 1908  (foto do álbum de vistas do Ceará)

 O Passeio Público foi um dos primeiros espaços segregados da cidade. No inicio do século XX, foi rodeado de grades, e dividido em três planos ou avenidas.
A elite frequentava a Avenida Caio Prado, de frente para o mar.
A classe média frequentava a parte central denominada Avenida Carapinima,e os pobres ficavam na Avenida Padre Mororó.(arquivo Nirez)
 
Os migrantes e as camadas pobres se alojavam preferencialmente na periferia da cidade, especialmente nas zonas oeste e sul, nas proximidades de ferrovias, nas estradas de acesso à cidade e nas praias. Ocorria, não raras vezes, a ocupação de dunas e das margens de riachos e lagoas, gerando complicações ambientais com a destruição daquelas áreas e problemas sociais com inundações dos casebres em épocas chuvosas. Essa situação se verificava comumente na região ribeirinha do rio Cocó, atingindo moradores do Lagamar e da Aerolândia, antigo Campo da Aviação.

parte da comunidade do Lagamar, instalada às margens do Rio Cocó (foto arquivo do Blog) 

Na região Oeste, onde as áreas até então não tinham urbanização nem contavam com infraestrutura, os terrenos tinham preços mais em conta para as massas, que em muitas oportunidades os ocupavam clandestinamente, daí a urbanização irregular, com a propagação de lotes de tamanhos irregulares, casas modestas e favelas, becos e ruas estreitas, tortuosas e sem saída, inexistência de espaços públicos e áreas de lazer.  Nestas áreas era comum a existência de chafarizes com filas enormes para obter água, ou de cacimbas nos quintais,  (perto de fossas), montanhas de lixo, terrenos baldios, logradouros sem calçamento ou saneamento. A atenção do poder público era mínima.

 Rua no Pirambu (arquivo do Blog)

Na periferia, eram raros os supermercados. Os produtos essenciais e gêneros alimentícios eram oferecidos por pequenas unidades familiares de comércio, as bodegas. Normalmente o estabelecimento funcionava na frente da casa, enquanto o bodegueiro e sua família moravam na parte de trás. O sistema de pagamento era o fiado, ou seja, o freguês comprava antecipadamente, o valor era anotado em cadernetas para ser pago quando saísse o salário.
Não por acaso, nestas áreas periféricas da zona Oeste, várias fábricas se instalaram, de têxteis, de confecções e de beneficiamento de óleos vegetais, a exemplo dos bairros Antônio Bezerra, Parangaba e, sobretudo, na Avenida Francisco Sá, que na verdade corresponde ao conjunto de favelas do Pirambu.  

 Fábrica de Tecidos São José, de propriedade de Pedro Philomeno Ferreira Gomes. Instalou-se em 1926, no bairro Jacarecanga

A ideia das indústrias era aproveitar a disponibilidade de terrenos de baixo preço e explorar a farta e barata mão-de-obra da zona oeste. As indústrias instaladas, por sua vez, atraíam mais pessoas humildes em busca de trabalho, as quais, em virtude dos baixos salários, dificuldades de obter moradia própria ou pagar aluguel, acabavam se deslocando para as favelas.

 Fábrica Brasil Oiticica, que em 1934 foi instalada na Avenida Francisco Sá.(foto IBGE)

Processo parecido, de instalação de indústrias, deu-se num trecho da zona leste, no entorno do Porto do Mucuripe, pela óbvia facilidade de transporte. Também naquele trecho  surgiram vários bairros operários e favelas, visto que o Porto e as indústrias necessitavam de muitos trabalhadores braçais.
Com a construção do Porto do Mucuripe na década de 1930/40 e depois da Avenida Beira Mar, nos anos 1960, a zona de meretrício, até então localizada no entorno do Arraial Moura Brasil e Poço da Draga, foi se deslocando para a área do farol do Mucuripe (Serviluz), enquanto os pescadores eram empurrados para o alto das dunas e para a Rua Manuel Jesuíno, onde havia sido erguida em 1945, a Vila dos Estivadores.

 Casa de jangadeiro na Praia do Meireles. Nos anos 1960, com a súbita valorização da área, os jangadeiros foram obrigados a morar noutros locais. (foto IBGE)

A formação de favelas foi provavelmente, a única maneira dos migrantes ficarem em Fortaleza. Normalmente, assim que chegava à cidade, o migrante permanecia por um pequeno período em casa de amigos ou parentes. Depois, ao resolver a questão onde morar, acabavam se fixando numa favela ou ocupando um lote vago, erguendo casebres frágeis, geralmente de taipa, com cobertura de zinco ou palha. Se o Estado ou particulares não criassem problemas, a ocupação avançava, atraindo outras pessoas em situação semelhante. Acontecia também de pessoas sem renda, instalarem seus casebres em espaços públicos, destinados às ruas e Praças, situação em que os proprietários vizinhos não podiam reclamar, pois seus lotes estavam livres.  Esta situação criava problemas de circulação e irritava os setores imobiliários, pela desvalorização da área, provocada pela proximidade da invasão.
Em 1953, calculava-se em 18.100 o número de habitações do Arraial Moura Brasil e do Pirambu onde moravam, sobretudo, pescadores, operários, e outros trabalhadores sem qualificação, onde  muitas das casas ali existentes, foram erguidas sobre as dunas.

Casas construídas sobre as dunas: no Pirambu...
e na Barra do Ceará (fotos arquivo do Blog)

No início dos anos 1960 acirrou-se a disputa por terras no Pirambu. Moradores denunciavam a pressão e a violência praticadas por supostos proprietários dos terrenos, que exigiam a saída da comunidade – na verdade, era a especulação imobiliária na área, visto que a maioria das pessoas morava em terrenos da União.
Diante dessa ameaça, lideres comunitários, muitos deles ligados à Igreja Católica, como o Padre Hélio Campos e ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), se articularam, para garantir às famílias a posse legal dos seus pequenos lotes de terra. A 1° de janeiro de 1962, foi organizada a Marcha do Pirambu sobre Fortaleza, com cerca de trinta mil pessoas dirigindo-se ao centro para chamarem a atenção da sociedade e das autoridades  sobre os problemas da comunidade.

 Padre Hélio Campos, um dos grandes benfeitores do Pirambu

Apesar do medo que o evento provocou entre os setores abastados da cidade, não houve  nenhum confronto, tratando as elites e a Igreja de evitar qualquer  ato de radicalismo. Emissoras de rádio acompanharam o evento, a população em geral foi convocada para participar daquele evento, por um mundo melhor, e o próprio bispo da capital, Dom Antônio Lustosa, esteve presente. A Marcha do Pirambu foi um sucesso – em maio de 1962, no governo do presidente João Goulart (1961-1964), foi baixado um decreto desapropriando a área.

Extraído do livro de Artur Bruno e Airton de Farias
Fortaleza: uma breve história

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A Atuação dos Padres Jesuitas no Ceará



A fé move montanhas e molda cidades. No Ceará, como na Bahia, Pernambuco e São Paulo, os padres jesuítas instalaram aldeamentos para facilitar a conversão dos índios. Essas missões eram aldeias artificiais militarizadas, tendo como chefe um missionário que usava de todos os métodos para domesticar os indígenas. No início, a catequese era frágil: pregações de aldeia em aldeia, de ano em ano. Depois perceberam que o modo mais eficaz de exercer um controle sobre essas populações, era retirá-las do espaço onde estavam. 
À força, em nome de Deus e da civilização, os índios eram afastados dos líderes religiosos, os pajés. O invasor oferecia-lhe três opções: a morte no combate, a fuga no mato ou a religião estrangeira.
O sino da igreja determinava o dia na aldeia artificial. Às cinco horas, despertava as mulheres para as orações e sermões. Pelas quatro da tarde, anunciava o jantar e o rosário. Entre um badalar e outro, o serviço doméstico, a agricultura, a pecuária. Para as crianças, as aulas de leitura, a escrita e religião. À noite eram os homens que eram convocados para a doutrinação. Nas missões, falavam também os instrumentos de tortura – o pelourinho e as mutilações físicas.


A evangelização era feita primordialmente pelos jesuítas, ainda que frades franciscanos tenham atuado. As reações iam desde a aceitação resignada até a rejeição irredutível, que acabava em morte do nativo. O mais comum foi a absorção dos princípios católicos sem abandono das crenças nativas, promovendo o surgimento de uma prática sincrética característica da religiosidade católica cearense.
Para os missionários a religião ancestral era ruim e pecaminosa, enquanto a religião europeia era legítima. Entre outras verdades feitas, pregava-se que os índios só se salvariam mediante o casamento abençoado pelos padres e insistia-se na confissão dos pecados.
Documentos jesuítas, encontrados em arquivos portugueses, guardam o resultado dessa colonização espiritual: os índios vêm à igreja de mãos postas e erguidas, adoram a Deus, que fez o céu e a terra, confessam ao senhor de tudo, assistem em silêncio o santo Ofício, ouvem os avisos e obedecem,  armados de arcos e flechas, mas com o arco em repouso.

Sobre os Padres Jesuítas



A ordem religiosa da Companhia de Jesus integra o clero regular da igreja colonial no Brasil, voltado para a catequese e educação de índios e colonos. É como parte do mundo da Contra- Reforma que o Ceará passará a fazer parte dos projetos jesuíticos de evangelização. Em 1695 este plano começará a ganhar forma com a fundação da aldeia de Nossa Senhora da Assunção da Ibiapaba – atual cidade de Viçosa do Ceará. A partir daí construíram uma rede de aldeamentos. Esta será a condição do Ceará até a expulsão da Companhia, governado politica e religiosamente pelos jesuítas, economicamente assentados na pecuária. Os jesuítas atuaram no Ceará entre 1609 e 1759. Os primeiros registros encontram os padres Francisco Pinto – o Paipina para os índios que acreditavam em seu poder de fazer chover – e Luis Filgueiras entre os tuxaua da Ibiapaba. No tempo dos sermões em latim, a língua sagrada, em que a alta divindade se expressa, os jesuítas ousaram fazer a catequese na língua do nativo.

Sobre as Aldeias Artificiais

 indios Tapebas, em Caucaia
Na memória de Fortaleza, três aldeamentos famosos Parangaba, Paupina (atual Messejana) e Soure (Caucaia). Quando o Marquês de Pombal decretou o fechamento da Companhia de Jesus, em Ordem Régia de 14 de setembro de 1758, as missões foram convertidas em vilas. Assim Caucaia se transformou em Vila Nova de Soure, guiada pelo vigário Antônio Carvalho da Silva; Parangaba mudou para Vila Nova de Arronches, sob o comando do padre Antônio Coelho Cabral; Paupina passou a Vila Nova de Messejana, dirigida pelo vigário Manuel Pegado de Siqueira Cortez. Os jesuítas da extinta Companhia de Jesus seguiram para Pernambuco, e de lá, para as masmorras de Portugal.

Fonte:
Artigo em Nome de Deus e da Civilização, publicado na Revista Fortaleza, fascículo 2 de 16 de abril de 2006