quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Os Frequentadores do Café Avenida: Leota e Bulcão

O térreo do sobrado abrigou de 1916 a 1930, o Café Avenida, de Jaime Magalhães e a Loja Rosa dos Alpes. Mais tarde, o Café Globo (arquivo Nirez)
 
O café Avenida instalou-se na parte térrea e ocidental do Palacete Iracema, em certo tempo conhecido por Palacete da Economística, por haver ali funcionado uma sociedade de pecúlios, vulgarmente chamadas de solidaristicas. Funcionou até fins da primeira década, de repente desapareceu, e no mesmo local, anos depois, surgiu o café Globo, de Edilberto Góis Ferreira. Tinha entre seus frequentadores professores, médicos, desembargadores, poetas, e dentre eles, o folclorista Leonardo Mota, o Leota, uma das figuras mais destacadas da literatura cearense. 

 Leonardo Mota e Luiz Dantas Quezado

 Cego Aderaldo em companhia de outros artistas populares, divulgados por Leonardo Mota
Pesquisador da cultura popular, metia-se pelos sertões coletando a produção poética dos cantadores de viola, e demais manifestações da inteligência espontânea do homem do interior, para usando com critério esse material, proferir conferencias e publicar livros. Deste modo obteve um rico e valioso acervo, enquanto tirava do anonimato poetas como Cego Aderaldo,  Jacó Passarinho, Luis Dantas Quesado Azulão, Cego Sinfrônio, Serrador e Anselmo Vieira.  Seu livro “Cantadores” obteve repercussão nacional e juntamente com “Violeiros do Norte”, “Sertão Alegre” e “No Tempo de Lampião”, colocou-o entre os maiores nomes do folclore brasileiro.

Leonardo Mota, com dois mestres de rabeca

Leota foi também, um dos mais ilustres boêmios da Praça do Ferreira, bebia muito e não perdia a linha, o raciocínio perspicaz, o repente oportuno, a ironia brilhante. Era o grande palestrador dos cafés e dos bares. Assessor Especial do presidente João Thomé, ganhou deste, no fim do governo, um cartório, o mais cobiçado presente político daquele tempo.
Em pouco tempo, o Leota “bebeu” o cartório, e continuou na mesma pobreza típica de quem vive de cultura no Ceará. Quando dois de seus filhos passaram no concurso do Banco do Brasil, ele disse:  – já que não tenho dinheiro para botar no banco, boto filhos.


Gordo e chistoso, o boêmio carregava cento e tantos quilos de simpatia pelos bares, onde, a propósito de qualquer coisa, gritava: Viva o Coronel Franco Rabelo! 
Rabelo tinha sido governador do Ceará deposto pela Sedição de Juazeiro de 1914, liderada pelo Padre Cícero e por Floro Bartolomeu, mas continuava amado na memória do povo de Fortaleza, que o apoiara. 
Nos anos trinta foi o tempo em que Leota mais rendeu homenagens ao deus do vinho. Arranjava pretextos para beber. Quando da morte do poeta Carlos Gondim, assassinado em 1930, no enterro, prometeu ao falecido, que iria beber em todos os bares que encontrasse, pelo poeta e pela sua tristeza pela perda do amigo. 


O custo da boemia foi alto para Leota. Além dos reumatismos e das taquicardias, adquiriu uma barriga d’água, o ventre cresceu assustadoramente, ao ponto de não poder andar. Quando os tratamentos médicos não deram resultado, procurou as comadres do Calçamento da Messejana que lhe ensinaram um chá da folha da figueira.  Curado, reencontrou o caminho da Praça do Ferreira e, é claro, do bar.


Nos últimos anos de sua vida, o folclorista de Pedra Branca largou a atuação boêmia e foi tomado de intensa religiosidade, passando a pesquisar a vida dos padres cearenses e a compilar dados sobre a ação catequética da Igreja Católica no Ceará. Encheu as paredes de casa de fotos eclesiásticas e as gavetas de orações, ladainhas e benditos. O grande Leonardo Mota morreria aos 57 anos, em 1948.


Outra presença marcante nos Cafés Riche e Avenida foi José Pedro Soares Bulcão. Homem alto, de porte elegante, usava um chapéu de abas largas e um bigode farto que lhe escondia o lábio leporino. Jornalista, poeta e genealogista, foi deputado estadual, membro da Academia Cearense de Letras e do Instituto do Ceará. Publicou Parêmias, um livro de trovas em que se utilizava de provérbios famosos para compor suas redondilhas.
Sério e franco, tinha fama de valente. As pessoas iam com jeito quando falavam com ele, porque sua franqueza era conhecida. Mas também tinha momentos de humor. Uma vez estava na porta do Café Riche, conversando com José Albano, Mozart Pinto e Quintino Cunha, quando chega um rapaz que se dizia seu eleitor, lhe pedindo emprestado vinte mil réis. Bulcão pergunta ao moço: 
– porque você não pede logo de esmola? É muito mais honesto. 
– Mas Dr. Bulcão, se eu, um rapaz forte e sadio, fosse pedir esmolas, ninguém dava..! 
– Dava. Experimente. 
– Pois Dr. Bulcão, me dê uma esmola, pelo amor de Deus 
– Perdoe.

extraído do livro de Juarez Leitão
Sábado, estação de viver 

3 comentários:

Gustavo Elienay Castro disse...

Fico muito feliz quando encontro algo sobre meu conterraneo Soares Bulcão. Tenho um blogo sobre nossa terra, onde conto um pouco de nossa historia e de nossos conterraneos mais inlustres.

É muito dificiu encontrar relatos, temas e fragmentos da historia desses grandes homens, por isso quando encontro fico muito grato por conhecer um pouco mais da historia desse grande uruburetamense.

Gustavo Elienay Castro disse...

Fico muito feliz, quando encontro algo novo sobre meu conterranio Soares Bulcão. É muito dificiu encontrar novos materiais sobre esses grandes homens da nossa historia.
Ficarei muito grato em poder publicar essa materia em meu blog Amamos Uruburetama.

Gustavo Castro
biggust18@hotmail.com

Fátima Garcia disse...

enviei para seu email, Gustavo