domingo, 5 de agosto de 2012

Os Transportes Urbanos na Fortaleza dos Anos 1940


 
Parada de ônibus no Abrigo Central, Praça do Ferreira

No ano de 1948 uma Resolução do poder público municipal obrigava as empresas de ônibus a conceder gratuidade a pessoas idosas e meia passagem aos estudantes. Houve protestos de todos os lados, uns prós (a maioria da população),  outros contra. O Jornal O Nordeste declarou-se "contra" porque a medida iria concorrer para prejudicar a eficiência do serviço. A solução encontrada pelos empresários consistia em batalhar pelo aumento no preço das passagens, e a reação aos protestos manifestava-se de forma agressiva, como ocorreu em 18 de setembro de 1848 na Praça José de Alencar, sendo presas diversas pessoas, inclusive dois vereadores e duas mulheres.

 ônibus na Praça Clóvis Beviláqua (arquivo Nirez)

O problema veio à tona novamente, dois anos depois, em virtude da aprovação da lei municipal que, garantindo o abatimento de 50% aos estudantes, também autorizou o transporte gratuito de guardas e dos funcionários dos Correios  em serviço.  Os empresários de ônibus paralisaram o transporte, pois só aceitavam  o abatimento de 30% do valor da passagem dos estudantes. O prédio do Liceu do Ceará chegou a ser cercado pela polícia em razão das manifestações dos estudantes que resistiam contra a decisão dos empresários.
A deficiência do transporte urbano tornara-se comum às diferentes empresas do setor. Desde a década de 1930, funcionavam diversas linhas de ônibus, atendendo aos moradores da Praia de Iracema, Santos Dumont, São Gerardo, Joaquim Távora, Benfica, Fernandes Vieira, João Pessoa, Escola de Aprendizes Marinheiros e Parangaba. Como a maioria dos terminais se localizava na Praça do Ferreira, foi estabelecido que ali só poderiam demorar o tempo necessário para o embarque e desembarque de passageiros.

Parada de ônibus na Praça do Ferreira (arquivo Nirez)

De 1946 a 1949 o número de automóveis em Fortaleza subiu em mais de 100% e a quantidade de ônibus ultrapassava os 300%. No entanto, esses dados não significaram um serviço regular prestado à população. O crescimento representava a substituição dos antigos bondes, mas efetuado de maneira carente, pois a maioria dos veículos não estava em boas condições de funcionamento, e diversos deles permanecia muito tempo nos fins de linha, sem obedecer a horário regular. 

Ônibus da Empresa Severino, que fazia a linha do Benfica (Arquivo Nirez)
 
Como o centro de convergência era a Praça do Ferreira, em 1948, jornais e a  emissora de rádio Ceará Rádio Clube manifestaram-se contra a decisão do prefeito Acrísio Moreira da Rocha de transformar a Praça do Carmo em local de estacionamento de ônibus. Reclamava-se que seria prejudicial colocar os veículos num logradouro tão distante do centro comercial. Na realidade, a distância representava apenas quatro quarteirões até a Praça do Ferreira. Na verdade, os motivos do protesto prendia-se ao fato de ali residirem diversas famílias que se sentiriam prejudicadas com o barulho dos carros, inclusive durante as missas diárias na Igreja do Carmo.
Os moradores dos bairros mais afastados também sofriam com a deficiência dos transportes urbanos. No Pirambu e em Messejana os moradores sempre reclamavam dos atrasos e da falta de cumprimento de horários. O problema de horário se agravava, sobretudo nas linhas que serviam a municípios vizinhos, como Caucaia e Maranguape.

 Ônibus que fazia a linha Prado da Viação César, ao lado da Escola Industrial ainda  em construção. Ano de 1947 (Arquivo Cepimar).

Nas linhas de Monte Castelo, São Gerardo e Coqueirinho sempre faltavam ônibus. A Viação Brasil chegou a retirar, temporariamente, de circulação os três ônibus que atendiam ao Pirambu, em virtude do calçamento esburacado, que ia da Fábrica José Pinto do Carmo até o fim daquela linha.  Situação semelhante vivia os moradores de diversos bairros como a Parangaba. Os moradores do Km 8 protestavam contra a Empresa Tabajara, pois alguns de seus ônibus andavam sem freios e gastavam 45 minutos para chegarem à Praça. Além de os meios de transporte não atender aos reclamos da população, havia também as exigências dos poderes públicos de forma esparsa. 

 ônibus que fazia a linha Porangabussu

Como transitavam na cidade diversos carros em condições precárias, a Inspetoria de Trânsito passou a fiscalizar os transportes coletivos, principalmente por ocasião do emplacamento. Em 1949 foram retiradas de circulação duas camionetes que atendiam parte da população da Aldeota. Alguns meses depois, nove ônibus foram retirados dessa linha, pois pouca segurança oferecia aos passageiros. 

 Anos mais tarde o terminal de ônibus passou para a Praça José de Alencar (arquivo Fortalbus)

A Empresa Elery, concessionária da linha da Aldeota, uma das de maior circulação, tinha a maioria dos seus carros em péssimo estado. Como as exigências da Inspetoria de Trânsito enfrentavam barreiras ante a realidade, devido à falta de outro meio de transporte, foi permitida a volta dos velhos ônibus, ou seja, quatro dos nove que haviam sido retirados de circulação voltaram a servir à população. Consequentemente, as críticas contra a empresa aumentaram, pois os ônibus quebravam com frequência e viajavam com excesso de passageiros, o que se tornara comum em outros bairros da cidade.

Texto Retirado do livro de Gisafran Nazareno Mota Jucá
Verso e reverso do perfil urbano de Fortaleza
 

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