domingo, 17 de julho de 2011

Adolfo Caminha


Adolfo caminha nasceu em Aracati, no dia 29 de maio de 1867. Teve uma infância conturbada pela perda da mãe aos 10 anos de idade e devido a seca que assolou o Nordeste nesse mesmo ano. Fez os primeiros estudos em Fortaleza e depois passou a residir no Rio de Janeiro, com um tio materno.
Em 1883 matriculou-se na Escola Naval. Na Marinha sentiu o choque da instituição conservadora e monarquista, revelando-se   republicano e abolicionista. 
Em 1884, numa solenidade que contava com a presença do Imperador Dom Pedro II, o aluno então com 17 anos, declarou-se contra o anacronismo da escravidão e do império. Apesar da declaração formou-se em 1885 como guarda-marinha. 
Nesta profissão viaja pela Antilhas e pelos Estados Unidos. Durante a viagem redige um diário com anotações e observações sobre os países visitados, que resultará no livro no País dos Ianques, lançado em 1894.
Em 1888 passa a servir na Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará do Ceará. Participa ativamente da vida intelectual local, sendo membro fundador do Centro Republicano Cearense. 
Nesse mesmo ano, o já tenente Caminha se envolveu num grande escândalo amoroso: apaixonou-se por Isabel Jataí de Paula Barros, que deixou seu marido e foi viver com o escritor, caso de enorme repercussão na sociedade cearense.  É punido e pede demissão da Armada.
 Em 1890 é nomeado amanuense (escriturário de repartição pública que escrevia textos manualmente).  Embora retraído da vida social, continua a participar da vida literária cearense: escreve livros e participa das reuniões da Padaria Espiritual e do jornal do grupo O Pão. Em 1891 fundou a Revista Moderna. 
Em 1892 foi transferido para o Rio de janeiro, onde se dedica ao jornalismo, a crítica literária e à literatura.  Faleceu nesta cidade no dia 1° de janeiro de 1897, antes de completar 30 anos de idade, acometido de  tuberculose.

Obras:

1886 – Voos Incertos – poesias
1887 – Judite e lágrimas de um crente – contos
1893 – A Normalista – romance
1894 – No País dos Ianques  - crônicas
1895 – o Bom Crioulo – romance
1896 – Tentação – romance

Sobre  A Normalista

O autor está inserido no Naturalismo, vertente literária que se preocupa em denunciar o perfil moral dos personagens em sociedade. O caráter dos tipos humanos é retratado levando em conta o Determinismo, filosofia de H. Taine que assegura estar o homem – de maneira inexorável – atrelado à sua herança genética, ao seu meio social e ao seu momento histórico.  Interessa a esta vertente realista focalizar as camadas mais baixas da sociedade, ressaltar os vícios humanos, principalmente os seus desvios sexuais, suas taras, homossexualismo e adultério. 

Prédio da Escola Normal na Praça Marquês do Herval. O local abriga atualmente o Instituto do Patrimônio Histórico (arquivo Marciano Lopes)

Em A Normalista, a maioria das personagens femininas são adúlteras e dissimuladas; os homens são maledicentes, traídos e traidores.
Neste romance, Adolfo Caminha apresenta aos leitores,  sua visão da cidade de Fortaleza no final do século XIX.  Ao contar a trajetória da normalista Maria do Carmo, o autor vai delineando quadros da vida da capital cearense: o ambiente na Escola Normal, o footing no Passeio Público, um festa de casamento, um enterro, o cortejo,  os sinos da Igreja da Sé dobrando a finados, a relação familiar da adolescente e sua visão do mundo que a cerca.
Nesta espécie de painel de costumes, o autor parece querer mostrar aos leitores toda a mesquinha sordidez da vida social de Fortaleza no seu tempo.

Antiga catedral da Sé, demolida em 1938 para construção da Catedral Metropolitana (arquivo Nirez)

O mau humor para com a cidade é transparente e costuma ser apontado por críticos como uma espécie de vingança, por ter sido recriminado e criticado por seu amor adúltero.
O projeto naturalista de Adolfo caminha se insinua ainda pela insistência com que o autor sugere aos leitores a sexualidade ostensiva ou latente das personagens: a descrição minuciosa de um noivado complacente de portão, os sonhos eróticos de Maria do Carmo, as intenções mal disfarçadas do padrinho e os inúmeros casos de adultérios relatados na obra.

Igreja do Patrocínio, local frequentado pelos personagens de A Normalista (arquivo Nirez)

A história é toda ambientada em Fortaleza: o Trilho (atual Av. Tristão Gonçalves) descrito como um lugar ermo e mal iluminado, é onde os personagem centrais  residiriam no lado oeste da rua – lado da sombra – próximo à Praça Castro Carreira, pois de sua casa se via o prédio da Estação da linha férrea de Baturité.  Vários locais de Fortaleza de antigamente são identificados no romance: o Porto de embarque na Praia de Iracema, as missas na Igreja do Patrocínio, o prédio da Escola Normal na Praça Marquês do Herval,  o Oiteiro (atual Aldeota) e o Cocó, lugar distante e de muito verde.

Resumo

A normalista conta a história de João da Mata, um amanuense de Fortaleza que recebe a incumbência de criar a sua afilhada, Maria do Carmo.

Maria do Carmo é uma menina do interior que foge da seca com sua família e, por conta da morte da mãe e da migração do pai, passa a viver na casa de seu padrinho, o Sr. João da Mata, que vive em regime de concubinato com Dona Terezinha. Educada em colégio de orientação religiosa (Imaculada Conceição),  até tornar-se aluna da Escola Normal, ocasião em que se torna objeto de desejo, perante os olhos sedentos do padrinho, que vê na afilhada uma mulher já madura em seus atributos de feminilidade e extremamente atraente.

Inicia, contra a vontade de João da Mata que se mortifica de ciúmes, um namoro com Zuza, jovem estudante de Direito, filho de um dos coronéis da cidade. A relação, que a princípio tem a possibilidade de levar a um compromisso mais sério, é comentada maliciosamente em toda a cidade, e provoca a desaprovação do pai do rapaz, que exige o seu imediato retorno a Recife para concluir seus estudos.

Enquanto isso, João da Mata, que planeja um meio de conseguir seduzir a afilhada, rompe as relações com dona Terezinha, pois esta desconfiava de suas intenções, e hostiliza cada vez mais o pretendente  Zuza. Uma noite, entra sorrateiramente no quarto de Maria do Carmo e, fazendo  uso de argumentos enganosos, chantageando  e se  valendo da situação propícia em que se encontravam, consegue o que queria.

Maria do Carmo engravida, e tem que se afastar da cidade para evitar um escândalo maior, esperando o nascimento do bebê em uma casa isolada de uns amigos de João da Mata. O seu filho, morre logo após o nascimento, em decorrência de um acidente durante o parto. 
Apesar dos  comentários de toda a sociedade de Fortaleza, a normalista retoma sua vida de sempre e é redimida pela mesma sociedade ao preparar-se para o casamento com o alferes Coutinho.

Fontes:
A Normalista, de Adolfo Caminha. São Paulo: Editora Ática, 1994.

Um comentário:

Cristina Mendonça disse...

Gostaria muito de saber se o livro A NORMALISTA foi escrito baseado em história real;a normalista Maria do Carmo e Zuza realmente existiram?