terça-feira, 26 de abril de 2011

A Feirinha da Beira Mar

Fortaleza 285 anos


A Feirinha é um dos pontos turísticos de Fortaleza, conhecida pela oferta de produtos típicos e peças de artesanato cearenses. Funciona na Beira Mar desde o início da década de 1980.
Em recente intervenção da prefeitura, visando o ordenamento da Avenida Beira Mar, a feira ficou concentrada em 200 metros da orla, entre a Rua Oswaldo Cruz e a Avenida Desembargador Moreira.
É composta de 633 boxes, sendo 612 de feirantes, 4 tem ocupação rotativa e 17 são institucionais.




A feira comercializa produtos típicos e artesanais muito diversificados: confecções, calçados, cintos, bolsas, moda praia, esportiva, bijuterias, redes, rendas, bordados, castanhas, cachaça e muito mais.
Os outros pólos de comercialização de artesanatos, similares ao da Beira Mar são o Mercado Central e a Emcetur, na Praça da Estação.

A feira de artesanato da Avenida Beira- Mar é um bem tombado pelo município de Fortaleza. O processo de tombamento ocorreu em data de 1995,  na gestão do prefeito Antônio Cambraia. 


As atrações noturnas no calçadão da orla vão além das mercadorias expostas na feira: repentistas, desenhistas, vendedores ambulantes, vendedores de pacotes turísticos, mendigos, estátuas, teatro mambembe, exibições de artistas populares, e profissionais do sexo fazem a festa no pedaço.    
A feirinha da Beira Mar funciona diariamente, a partir das 18 horas.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A Atual Igreja do Sagrado Coração de Jesus

Fortaleza  285 anos 


a tecnologia a serviço da fé

Inaugurada em 25 de março de 1886, a construção da Igreja do Sagrado Coração de Jesus foi uma iniciativa do casal José Francisco da Silva Albano e Liberalina Angélica da Silva Albano (Barão e Baronesa de Aratanha), com o apoio de Dom Luis Antonio dos Santos. 
Ficou conhecida como Igreja dos Albanos.



A grande seca de 1877-1879 deixou um grande número de flagelados em Fortaleza,  para aproveitar essa mão-de-obra  e dar emprego a essa gente é que foi construída a igreja, em frente a Lagoa do Garrote, no Parque da liberdade (atual Cidade da criança), no Morro do Pecado, onde já existia uma capela em louvor a Nossa Senhora das Dores.



O primeiro administrador da Igreja foi o padre Antonio Xisto Albano, filho do Barão de Aratanha, que ali ficou até 1901, quando foi transferido para o Maranhão. 
Nessa ocasião o Bispo Joaquim José Vieira resolveu entregar a administração do templo à Ordem Seráfica dos Capuchinhos da Missão do Maranhão. A transferência se deu no dia 3 de junho de 1901.


O templo era simples, em linhas neoclássicas e neo-góticas, se assemelhava à Igreja do Carmo. 
Em 1952, os engenheiros Luciano Pamplona e Valdir Diogo aumentaram a altura da torre e colocaram um imenso relógio trazido de Roma na fachada. Cinco anos depois, em 1957, a torre cedeu e soterrou a entrada da igreja. Não houve vítimas. 
Ao invés de reconstruírem a igreja, pois apenas a torre fora afetada, os capuchinhos optaram por derrubar toda a igreja para construírem uma bem maior, com rampas para subida dos carros, uma torre vazada e uma grande cúpula sobre a nave principal.
 A nova igreja foi inaugurada em 1961.
a entrada principal da Igreja há muito foi isolada em razão dos ambulantes que se postaram no local



Em 2001, pequenas reformas marcaram o centenário dos capuchinhos no Ceará. A cúpula ganhou pintura nova. O painel externo inspirado no Cântico do Irmão Sol de São Francisco de Assis, feito em 1961 com pastilhas coloridas, foi substituído por um em alto-relevo

Em razão da insegurança que ronda o centro da cidade, o templo é todo cercado de grades
A Igreja do Sagrado Coração de Jesus fica na Avenida Duque de Caxias,  235, Centro de Fortaleza 

fontes: 
Cronologia Ilustrada de Fortaleza, de Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez)   
Jornal O Povo  

domingo, 24 de abril de 2011

pesquisa do Blog: Quem é o Ferreira da Praça do Ferreira?

Fortaleza 285 anos



No mês em a cidade completa 285 anos, O Fortaleza em Fotos & Fatos foi à praça, perguntar aos transeuntes, aos frequentadores, aos vendedores que ali fazem ponto, o que eles sabem a respeito da praça mais famosa de Fortaleza, a do Ferreira.

As praças de Fortaleza estão sendo invadidas e tendo seus espaços tomados por usos e funcionalidades estranhas a esses logradouros, tornando um espaço que era para ser de cidadania, de  sociabilidade e de encontro, em verdadeiras feiras livres, onde cada um comercializa o que melhor lhe convém.

O comércio informal subverteu a ordem no centro: ofuscou o comércio lojista, ocupou calçadas, passeios, praças; não há preocupação com a estética, com a qualidade ou a procedência dos produtos, nem com a  higiene. A aparência é horrível, o ambiente é imundo. A poluição sonora e visual agride olhos e ouvidos.



Nesse caos instalado no centro de Fortaleza, sob o olhar indiferente e permissivo da prefeitura e suas instâncias, a Praça do Ferreira, por enquanto, ainda está imune. 
O rolo compressor da informalidade, ainda não chegou ali, pelo menos durante o dia. 

Entre bancos mal cuidados e quebrados, piso esburacado, fonte quase em ruínas, uma multidão de fortalezenses de todo o país –  circula no espaço conhecido, no coração da cidade amada, abandonado e esquecido pelo poder público. 



De acordo com Girão (1959),  a Praça do Ferreira é o Meridiano de Greenwich de Fortaleza, pelo qual se marcam suas horas, vale como um regulador, ao mesmo tempo dos sistemas sensorial, circulatório e vegetativo. 

Se fosse extirpada do organismo urbano, este não mais se alimentaria, parava de respirar. Esclarece que, quando os moradores diziam vou à Praça ou venho da Praça, já ficava subentendido que era da Praça do Ferreira que se ia ou era de lá que se vinha.



Para Lopes (1996) a Praça do Ferreira foi projetada para aglomeração de grandes massas humanas, por ser o ponto nevrálgico da cidade. "Nos idos de 1945, era o Coração da Cidade. Por se tratar de uma praça que era uma síntese da cidade, logradouro que homenageava o Boticário Ferreira, grande benfeitor da nossa capital, ostentava uma seleção do que o comércio local tinha de mais representativo".


O comércio no entorno ainda é representativo, com a presença de grandes estabelecimentos comerciais, alguns bastante tradicionais, como a Farmácia Oswaldo Cruz, a Loja Milano de roupas masculinas e a famosa lanchonete Leão do Sul, na Praça do Ferreira desde tempos imemoriais.
Não foram localizados dados recentes acerca do número de pessoas que transitam diariamente pela Praça, mas podemos deduzir que o número é significativo.

Metodologia

Sendo a Praça do Ferreira espaço afetivo, eleito pela população como coração de Fortaleza, o objetivo geral da pesquisa é determinar o grau de conhecimento que essa mesma população detém sobre o espaço.

O trabalho foi realizado com a aplicação de questionários estruturados – aquele onde as perguntas são previamente formuladas e tem se o cuidado de não fugir a elas. 

O principal motivo deste zelo é a possibilidade de  comparação com o mesmo conjunto de perguntas,  e que as diferenças devem refletir as diferenças entre os entrevistados e não diferença nas perguntas (LODI, 1974 apud LAKATOS, 1996). 

Participaram 51 pessoas, todas maiores de 18 anos de idade, sendo 24 mulheres e 27 homens. 
Desse universo de 51 entrevistados 18 pessoas exercem funções de vendedores/comerciantes ou prestadores de serviço que atuam na própria Praça do Ferreira (engraxates, proprietários de bancas de jornal, vendedores de refrigerantes, cafezinho e água de côco, distribuidores de panfletos e funcionários de operadoras de cartões de crédito).  

Os demais – 33 pessoas – são transeuntes ou freqüentadores habituais do logradouro.  
Foram considerados freqüentadores  habituais os que declararam que comparecem à Praça do Ferreira, pelo menos uma vez por semana, sem qualquer outra finalidade que não seja a de estar na praça.

Foram formuladas questões em torno das seguintes variáveis: 
O nome do logradouro e a profissão do Ferreira que dá o nome à praça, a função da praça, o tempo de existência do logradouro, a quem compete zelar pela mesma e aspectos ligados a segurança.

Resultados e Discussões

1 - Quanto ao personagem histórico que deu o nome à Praça   
Apesar de todos os entrevistados (100%)  conhecerem o nome da Praça do Ferreira,  

43 pessoas não têm nenhuma informação a respeito do Ferreira; 
 8 pessoas responderam sim, sabiam quem era o personagem da praça. Desses, 6 entrevistados disseram que o Ferreira era boticário ou farmacêutico, enquanto 2 responderam que o Ferreira era ferreiro. 
não sabem quem é: 43 (84%)
                       sabem:  8  (16%)




Junto a fonte, onde a velha cacimba foi restaurada na gestão do prefeito Juraci Magalhães, existe uma placa, com a efígie do boticário e seu nome no verso. Nenhuma placa, que esclareça o porquê da homenagem. O resultado da pesquisa deixa evidente que os entrevistados não associam aquela imagem ao nome da praça. 
Daí o grande número de pessoas que desconhecem por completo, porque o local se chama Praça do Ferreira.
Para saber mais sobre o Boticário Ferreira ver postagem de 12 de abril deste blog.      

2 - Pra que servem as praças

26 pessoas  (51%)  disseram que servem para o lazer da população;
    12 pessoas  (23%) responderam que servem para ponto de encontro;  
5 pessoas (10%) acham que serve para realização de eventos ; 
4 entrevistados (8%) responderam para manifestações culturais; e
4 pessoas (%)  não sabem ou citaram outras finalidades.  

Antes do modernismo as praças tinham uma função endógena e estavam submetidas a um edifício como uma igreja, um edifício público, um palácio.  
Favole (1995) vê a praça contemporânea como um espaço que não tem uma função específica, nem depende de um edifício ou  de um monumento. Sua  finalidade é a de se
constituir em um lugar atrativo de encontro e reunião. 
Nessa perspectiva, a Praça do Ferreira cumpre plenamente suas funções no tecido urbano, visto que é reconhecida pelos freqüentadores como um espaço que oferece várias possibilidades, para lazer, para manifestações culturais, políticas, artísticas e realização de eventos.  

3 – Quem deve cuidar da praça?

22 pessoas (43%) acham que quem deve cuidar da praça é a prefeitura 
17 pessoas (33%) acreditam que seja a prefeitura junto com a população 
11 pessoas acham que é obrigação da  população 
1 pessoa (2%) é de opinião que a prefeitura deveria formar parceria com a iniciativa privada para essa finalidade.



Cabe ao poder público cuidar dos espaços públicos, é uma tarefa elementar do executivo. E pelo resultado da pesquisa, pode-se concluir que o público tem essa noção de responsabilidade. 
Mas apontam a população como a maior responsável pelo mau uso e pela depredação dos equipamentos da Praça do Ferreira, tanto que 33% afirma que esta deveria zelar pelo equipamento junto com a prefeitura.  

Mas a proposta mais moderna em termos de gestão participativa é a de formação de parcerias entre a prefeitura e empresários do comércio, que passariam a a cuidar da manutenção da praça. 
A Praça do Ferreira passou por obras de manutenção e pequenos reparos no ano passado. Foram reparados o piso de pedra portuguesa, os bancos, recuperação da base da coluna da hora e da fonte, segundo foi noticiado nos meios de comunicação. 
Mas exibe uma aparência degradada e mal cuidada.  
    
4 - Há quanto tempo existe a Praça do Ferreira 

20 pessoas (39%) acreditam que o tempo de existência da praça está  entre 60 e 100 anos   
13 pessoas (25%) acham que a praça existe há mais de 100 anos
12  entrevistados (24%) afirmaram que a praça tem no máximo 50 anos 
4 pessoas (8%) acham que a Praça do Ferreira tem mais de 200 anos
2 pessoas (4%) não sabem. 

De acordo com os pesquisadores das coisas cearenses, a história do logradouro começa em 1842, quando a lei n° 264, autoriza a Câmara a reformar o plano da cidade de Fortaleza. 
No local, existia o Beco do Cotovelo, que foi demolido por iniciativa do Boticário Ferreira, para construção da Praça Pedro II, que ficou conhecida como Feira Nova. (Nirez, 2001;   Girão, 1959). 
No ano de 1871, decorridos mais de onze anos da morte do boticário, a Praça, que atendia pelo nome de Praça Municipal, tomou a denominação de Praça do Ferreira.
 O ano de 1842, quando ocorreu a demolição  das casas do beco do Cotovelo – teria sido o marco inicial da Praça do Ferreira. 
Tem, portanto, 169 anos. Algumas publicações afirmam que a praça é mais antiga e teria em média entre 180 e 190 anos.       

5 - Você se sente seguro na Praça do Ferreira?

 39 pessoas (76%) disseram que não         
12 pessoas (24%) responderam Sim 

A questão da insegurança atinge toda a cidade, e o centro da cidade é um dos mais afetados. Existe uma cabine da PM num setor da praça, mas que - segundo os entrevistados - fica vazia a maior parte do tempo. 



O policiamento só é ostensivo quando há eventos na praça, geralmente nos que são patrocinados pela prefeitura. À noite, o espaço é invadido por moradores de rua, assaltantes e pessoas drogadas, que ameaçam os passantes, cobram valores a título de pedágio, além de satisfazerem suas necessidades fisiológicas à vista de todos.  


Bibliografia 

Azevedo, Miguel Ângelo de. Cronologia Ilustrada de Fortaleza.roteiro para um turismo histórico e cultural. Fortaleza: BNB, 2001.

Boff, Leonardo. Saber Cuidar: ética do humano-compaixão pela terra. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
Favole, P. La plaza en la arquitectura contemporánea. Barcelona: Gustavo Gili, 1995.
Girão Raimundo. Geografia Estética de Fortaleza. Fortaleza; Imprensa Universitária do Ceará, 1959.
LAKATOS, Eva Maria & MARCONI, Marina de Andrade. Técnicas de pesquisa. 3a
edição. São Paulo: Editora Atlas, 1996. 
Lopes, Marciano. Royal Briar: a Fortaleza dos anos 40 – Marciano – 4 ed. Fortaleza: ABC, Coleção Nostalgia, 1996.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A Cidade dos Clubes


Em 1950, o Náutico Atlético cearense trocou sua minúscula sede da Praia Formosa pela monumental sede da Praia do Meireles. O fato chamou a atenção dos demais clubes, que até então não haviam pensado em mudar, oferecendo mais conforto e diversão aos seus associados.  

Sede do Náutico na Praia Formosa, que teve como primeiro presidente Pedro Coelho de Araujo - 1929 (arquivo Nirez) 

Sem estilo definido, ao que parece, o objetivo do projetista era a suntuosidade pura e simples. Ocupando uma área considerável, numa região ainda pouco valorizada, à beira mar, o Náutico sentia orgulho de seu palácio alviverde, e os abriam seus salões para os visitantes de todos os lugares do Brasil e até do exterior.
As demais agremiações sócio-esportivas não quiseram ficar atrás, e cada uma cuidou de modernizar suas sedes sociais. 

nova sede do Náutico Atlético Cearense, projeto do arquiteto Emilio Hinko (arquivo Ah, Fortaleza!). 

O Clube Líbano Brasileiro, que ocupava um velho casarão na Avenida Santos Dumont, tratou de iniciar a construção de uma nova sede, na ladeira da Rua Tibúrcio Cavalcante.
 O velho Clube Iracema, o pioneiro de todos os clubes sociais de Fortaleza, com suas origens fincadas no século passado começou a erguer sua sede moderna, que nunca chegou a concluir, numa quadra da Aldeota.
O Clube dos Diários, também muito antigo funcionava de forma precária, embora muito elegante, nos altos do Palácio Guarani, em pleno centro da cidade. Tratou de se aproximar da orla marítima, construindo sua sede na Praia de Iracema. 
O Maguary que nascera como clube de futebol, embora ocupando um belo imóvel no final da Rua Barão do Rio Branco, investiu nas suas estruturas. Construiu até piscina para poder atrair os associados e emparelhar-se aos demais. E passou a animar as noites de Fortaleza, com a instituição das suas tertúlias, que fizeram história nas noites de Fortaleza. 

fachada do clube Líbano Brasileiro na Rua Tibúrcio Cavalcante - 1956 (arquivo Ah, Fortaleza!)

Na década de 1950 o Circulo Militar era uma agremiação sem expressão, ocupando um chalezinho na esquina da Avenida Aquidaban com a Rua Ildefonso Albano. Também entrou na onda, embora tenha se instalado não muito próximo ao mar, em duas quadras, numa das áreas mais nobres da Capital, entre a Avenida Desembargador Moreira e a Rua Oswaldo Cruz. 
Até o acanhado Comercial Clube, que funcionava numa casa de sobrado, pertinho do Círculo Militar, construiu bem depressa a sua nova sede, por ali mesmo, na Avenida Aquidaban. A colônia de Massapê, à frente a família Arruda, ergueu o simpático centro Massapeense. Tudo na Praia de Iracema.
 
no Ideal Clube  (arquivo Marciano Lopes)

Tudo de repente, como um surto. Os velhos e tradicionais clubes em novas e confortáveis sedes, a criação de novas agremiações, com piscinas de águas esverdeadas, quadras de esportes, bares e restaurantes. Uma moderna e diferente forma de viver, com mais alegria, mais descontração, mais charme. 
Só o tradicional Ideal Clube, com seu conservadorismo e sua elegância não se abalou: foi o primeiro clube a fazer sua sede na praia, ocupava uma quadra inteira, além de ter construído a primeira piscina do Ceará. 

nas piscinas dos clubes elegantes, jovens desfilavam as ultimas criações da moda em maiôs, saídas de banho e toucas (arquivo Marciano Lopes)

Com o advento dos clubes elegantes, as famílias de Fortaleza mudaram seus hábitos e passaram a encontrar nas agremiações a continuação do seu próprio lar, com a vantagem dos banhos de piscina, das práticas esportivas, do conforto dos bares e restaurantes.
Dentro de pouco tempo o Brasil inteiro comentava o gritante contraste entre a conhecida pobreza do Estado e a suntuosidade dos seus clubes, onde a elite risonha e franca nem via o tempo passar.
Decorridos 50 ou 60 anos desse boom os clubes sociais estão em franca decadência. Com raras exceções, estão em vias de extinção, seja pela dificuldade em captar novos sócios, seja pelo grande número de alternativas que os centros urbanos oferecem. 
Serviços melhores e mais diversificados ocuparam seus lugares.      

Fonte: Os Anos Dourados, de Marciano Lopes           

terça-feira, 19 de abril de 2011

Os Retratos da Aba Film


Na década de 1950, a Aba Film era o maior estabelecimento fotográfico da América do Sul. Era sinal de status e de muito bom gosto ter retrato feito na Aba Film, estrategicamente colocado numa parede da residência. As moças de famílias mais abastadas escolhiam um vestido de gala, faziam o melhor penteado e caprichavam na maquiagem. As poses eram feitas no grande e moderno estúdio de fotografia. 

foto debutante (arquivo Marciano Lopes)

Toda celebridade que vinha a Fortaleza, desejava ter seu retrato da Aba Film: atores e atrizes de teatro, do cinema e do rádio, cantores, cientistas, músicos e maestros, poetas, cadetes em suas belas fardas de gala, bispos, frades, misses. 
Essas mereciam tratamento especial, tinham direito a vitrine promocional com encantadores fotos realizada nas praias, no Náutico, nos estúdios. Juntava gente em frente à loja, para conferir as beldades, escolher uma favorita, identificar falhas no conjunto.

Desfile de candidatas ao titulo de Miss-Elegante Bangu do Ceará, no Ideal Clube (arquivo Marciano Lopes)

A vitrine das misses era ansiosamente aguardada desde quando começavam a aparecer as primeiras candidatas, que eram apresentadas nas páginas dos jornais Unitário e Correio do Ceará.Após o concurso, no elegante Baile das Misses nos salões do Náutico, a vencedora ganhava espaço privilegiado no salão principal do conceituado estabelecimento fotográfico, com pose e roupas de majestade da beleza, ostentando manto, cetro, coroa  e um ar de felicidade, além do retrato colorido, com moldura barroca em folha de ouro ou prata. 
Mas, não foi o retrato de nenhuma beldade nacional, não foi a fotografia de nenhum pop-star dos palcos nem da tela, que alavancou o prestígio da Aba Film. 
O grande trunfo da famosa casa de fotografia foi o retrato de uma estátua, a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, quando de sua visita a Fortaleza, em 1952.

foto da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima - 1952 (arquivo Marciano Lopes)

As fotos realizadas pelo estabelecimento fundado por Ademar Albuquerque, eram um primor de técnica fotográfica. Utilizando incomparáveis efeitos de luz, essas fotografias com suaves coloridos em tons pastel eram vendidas para todas as partes do país, nos mais diversos tamanhos, do postal ao natural.
Outra particularidade da Aba Film eram suas reportagens, dos maiores eventos daqueles tempos: os grandes bailes dos clubes elegantes, os casamentos das famílias tradicionais, os desfiles de modas, os desfiles cívicos, os espetáculos teatrais, os balés, os eventos culturais, e claro, os concursos de misses. 

Posse de Dom Antonio Almeida Lustosa, 4° bispo do Ceará, 2° Arcebispo de Fortaleza - 1941 (arquivo Nirez)

   A Aba Film foi também a autora do único registro fotográfico e cinematográfico sobre o cangaço, realizado pelo turco Benjamin Abrahão Botto .

o bando de lampião em companhia de Benjamin Abrahão. 

As fotos feitas nos  grandes eventos eram expostas nas vitrines laterais – todas numeradas, e as pessoas interessadas faziam suas encomendas no balcão especializado, bastando dizer o número da foto escolhida. Dependendo do evento, uma pequena multidão  se acotovelava tanto em frente aos mostruários quanto nos balcões de encomenda.

Igreja Nossa Senhora das Dores, no Otávio Bonfim (arquivo Nirez)

A Aba Film marcou toda uma época, atravessou décadas, documentando episódios importantes da cidade, decorando paredes aristocráticas, embalando sonhos, registrando emoções, guardando saudades de um passado fascinante e glamoroso.
Já nos anos 2000, encerrou suas atividades de forma inesperada, deixando várias pendências tanto com clientes quanto funcionários. 

Fonte:
Lopes, Marciano. Os Anos Dourados.