quinta-feira, 9 de março de 2017

Dona Fideralina – A Matriarca do Sertão



As matriarcas são personagens semi-lendárias, proprietárias de terra e gado no interior do sertão, longe das pretensões fidalgas das Casas Grandes da zona açucareira. Levavam uma vida rústica relativamente distante dos padrões culturais europeus que, na época, moldavam as sociedades do litoral nordestino. No sertão, exerciam grande poder de liderança, tendo controle total de seus feudos regionais. 

O poder das matriarcas não era necessariamente vinculado ao poder político ou econômico da região, ainda que, subsidiariamente, tenham desenvolvido atividades e ocupado posições de controle nessas áreas. De forma sintomática surgem elas em cena a partir da posição ocupada na estrutura familiar. São chefes de família, ou melhor, tornam-se chefes de família devido à ausência do patriarca, por morte, ou por viagens constantes. Raramente são solteiras ou sem família. A manipulação de filhos, parentes e agregados, parece ser o foco inicial do poder e do raio de influência das matriarcas.

Começam a exercer seu controle em um âmbito mais restrito, o familiar, e terminam por englobar a rede de poderes que liga, de forma bastante específica no interior do Nordeste, o Estado, a Igreja e a família.

 O refúgio da matriarca - Sítio Tatu, em Lavras da Mangabeira 
(imagem do Blog do Sanharol)
http://blogdosanharol.blogspot.com.br/

 Casa Grande do Sitio Tatu atualmente
(imagem do blog Cariri Cangaço)
http://cariricangaco.blogspot.com.br/

Dona Fideralina reuniu no Sítio do Tatu, cem cabras que havia conseguido juntar com a ajuda de outros coronéis da região. Deu ordens para que seguissem rumo a Princesa, na Paraíba. O grupo de cangaceiros iria vingar a morte de seu neto, Ildefonso Lacerda Leite, médico que logo após formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, começou a exercer a profissão em Princesa, terra de seu pai, Luís Leônidas Lacerda Leite (legítimo ladrão de Lavras – dizia o povo), marido de Joana Augusto Leite, filha de Fideralina.

Lá, Ildefonso casou-se com Dulce Campos, filha de um chefe político do município, coronel Erasmo Alves Campos. Com esse casamento, o doutor precipitava a própria sorte. Manoel Florentino desejava ter Dulce por esposa. Enraivado vendo-a casar-se com o forasteiro Ildefonso, resolveu vingar-se. Junta-se a José Policarpo, ex-aluno do Seminário da Paraíba, ligado ao vigário de Princesa, Manoel Raimundo Donato Pinto. O vigário se opunha ao doutor, acusando-o de ateu.

Em 6 de janeiro de 1903, feriado do Dia de Reis, Florentino e Policarpo mataram, com uma punhalada no peito e um tiro no coração, o neto de Fideralina. O moço ia à farmácia providenciar remédios para acudir sua mulher. Após o crime tentaram os criminosos enterrar o cadáver. Mas, por imperícia, deixaram o corpo com os pés de fora.

Vingança maior aguardava a dupla de assassinos. A velha "Fidera do Tatu" despachara o seu estranho exército com a incumbência de lhe trazer as orelhas de cada um dos assassinos do neto. Não era à toa que se dizia nas Lavras que a velha do Tatu rezava toda noite num rosário feito das orelhas de seus inimigos mortos: queria aumentar a coleção.

Esse crime de Princesa, marca o início da projeção de dona Fideralina para além dos sertões do Cariri, e a extensão da sua influência junto ao governo do Estado. Nascida em 1832, em Lavras, batizou-se por Fideralina Augusto Lima, graças aos entusiasmos republicanos, provocados pelos movimentos revolucionários no Nordeste, no Levante de 1817 e na Confederação do Equador em 1824.

Familiarizou-se desde cedo com o poder. Era a mais velha de doze irmãos; o pai, chefe político na região de Lavras, João Carlos Augusto, descendia de família poderosa. A mãe de Fideralina também se envolvia com política. Isabel Rita de São José, a Zabilinha, era neta de Francisco Xavier, segundo capitão-mor e comandante geral da vila de Lavras, sesmeiro da ribeira do rio Salgado, proprietário de grandes extensões de terra.

Se o pai, João Carlos Augusto, era afilhado do presidente da Província, o batismo de Fideralina já é prenúncio de sua força de vontade, de seu desprezo por regras estabelecidas, de seu temperamento forte, de só fazer o que desejava. O padrinho da filha podia não ser de igual importância, mas em compensação o celebrante da cerimônia foi o padre Verdeixa, figura antológica e curiosíssima dos sertões nordestinos. Pai de família, era o Padre Verdeixa nascido no Crato, ou em Goiana, ou em Olinda; foi vigário de Lavras de 1830 a 1832. Mestre em ações indecorosas, fazia propostas imorais às noivas dos casamentos que celebrava. Chegou a ser espancado por um noivo que não pôde suportar os excessos do padre.

Quando João Carlos Augusto morreu, aos 56 anos, vítima de um atentado político, Fideralina, já estava casada; sendo a mais velha de três irmãos fracos e de oito irmãs que não viam a mulher em posição de mando, assumiu o poder como herança maior.


Casara-se nova, aos 15, 16 anos, com Ildefonso Correa Lima, major da Guarda Nacional, nascido em Várzea Alegre, distrito de Lavras, filho do tenente Raimundo Duarte Bezerra e de Ana Correa Lima, donos de muitas fazendas. Recém-casada, Fideralina já tinha fama de mandona, tanto que a família do marido não aprovou a união. Eram contra, não queriam ver Ildefonso submisso à mulher. Mas não foi uma submissão duradoura. Ele morreu ainda jovem, aos 42 anos, depois de ser presidente da Câmara de Lavras. Deixou uma dúzia de filhos e um certo poder político que logo foi assumido pela mulher.

Rua Major Ildefonso, em Lavras da mangabeira - década de 50 (acervo IBGE)

Herdeira de dois grandes chefes, acostumada a mandar, não admitia oposição. Sendo preciso, esqueceria a religião e lutaria até contra a Igreja. Monsenhor Miceno Clodoaldo Linhares, vigário em Lavras por 49 anos, que ousou opor-se a Fideralina, provou-lhe o ódio. O vigário era conhecido pela sua retidão de caráter, pela facilidade para o discurso, tinha a admiração do clero. Mas tinha uma mancha na vida. Quando jovem, tivera uma filha em Tauá. Fideralina tomou a si a tarefa de tornar público o erro do vigário. Monsenhor Miceno, ao partir de Lavras, profetizou que as crianças daquela época veriam a queda de Fideralina. Errou: passou-se muito tempo até o dia em que ela, ou os seus, não conseguiram eleger o prefeito. Mesmo o sucessor de Monsenhor Miceno, Padre Raimundo Augusto Bezerra, sobrinho-neto de Fideralina e líder oposicionista, sofreu muito nas mãos de Fidera. As piores calúnias foram levantadas contra ele.

Mas Fideralina não tinha inimigos só entre os estranhos, a família também a enfrentava. Seu filho, Honório Correa Lima, foi uma das vítimas da ira materna. Após certo tempo na prefeitura de Lavras, foi eleito deputado, tendo que permanecer longo tempo em Fortaleza. E Honório acreditava estar perdendo suas bases políticas com as longas estadas na capital. Assim, com o prestígio conseguido junto ao presidente da província, articula, à revelia da mãe, sua nomeação para retornar à prefeitura de Lavras. Para isso seria necessária a deposição do prefeito Manuel José de Barros, homem da confiança da matriarca.

Estava criada a confusão. A velha, com o orgulho ferido e influenciada por um outro filho, Gustavo Augusto, tenta primeiro convencer Honório a abdicar do cargo. Apela para os nove meses em que o carregou na barriga. O argumento não surtiu efeito. Honório respondeu que, se o problema era o tempo de gestação, poderiam fazer um trato: ela que afinasse a cabeça para lhe entrar pela “traseira”, e ele a carregaria durante nove meses sem reclamação.

Mas Fidera era incansável. Teimou em convencer o filho até o dia em que ele tomou de um rifle e apontou para a barriga da mãe. Essa afronta, somada à morte de Ernesto Rolim, cabra de confiança da velha, atribuída a Honório, e às ameaças de Honório ao irmão Joaquinzinho, a quem proibiu de aparecer na casa da mãe, por acreditar que fosse ele a origem das atitudes da velha, levaram-na a reunir um bando de cabras com os coronéis mais fortes do sertão.

Os jagunços, eram em grande parte recrutados no Sertão de Pernambuco – Serra do Araripe, região do Riacho do Navio, Pajeú de Flores; eram homens que faziam do cangaço sua vida, e foram os responsáveis pela deposição do “Torto”, apelido de Honório, que era caolho. Escorraçaram-no de Lavras, com mulher e filhos; mudou-se para Fortaleza, e posteriormente para Caririaçu. É a primeira vez em que a misericórdia dá mostras de existir em Fideralina. Em casos de deposição, matava-se o deposto. Mas, na deposição de Honório, os homens tiveram ordem expressa de não acertar sequer um tiro no Prefeito. A velha Fidera avisou que quem o fizesse pagaria com a própria vida. Ninguém desobedeceu.

Desse mesmo episódio deriva a briga de Fideralina com a irmã Pombinha. Era privilégio da matriarca orientar os casamentos da família; destinou ela a Honório e Gustavo, as filhas de Pombinha, Petronila e Joaninha, primas em primeiro grau. E, para azar de Fideralina, o filho que ela escorraçara de Lavras era o genro preferido de Pombinha, que jamais lhe perdoou a ofensa. Na primeira vez em que Fideralina perdeu o poder no município, para os rabelistas, a irmã atravessou a cidade de joelhos, em direção à igreja. Defronte ao altar de São Vicente, ficou beijando o chão, em sinal de agradecimento. E quando, antes de morrer, Fideralina pediu a presença da irmã, obteve fria e dura resposta: “Se ela quer me pedir perdão, diga que perdoo. Mas ir vê-la, diga que não vou”.


Voltando às intrigas políticas de Fideralina; com o intuito de afastar o filho Gustavo da Prefeitura, sob desculpa de honrar a palavra dada, reconduziu Manuel José de Barros ao antigo lugar, retirado por Honório; convenceu Gustavo a concorrer como deputado estadual. Depois, vencido o mandato de Gustavo, ela lhe daria todo apoio para que fosse prefeito; e com ele passou a dividir todo o poder acumulado até então. Mas Gustavo, após pouco tempo frente à Prefeitura de Lavras, sofreu uma tentativa de deposição. Tratava-se, na verdade, de um complô contra a sua mãe.

O poder herdado do pai e do marido foi habilmente mantido. Fidera conseguia sempre estar bem com os governos. De monarquista converteu-se em republicana; o que lhe interessava era dominar a região de Lavras da Mangabeira. Mas por volta de 1911 surgiram movimentos contra as oligarquias no Ceará. A derrubada da família Nogueira Acioli levou de roldão Fideralina e os coronéis do Sertão do Cariri. Pombinha, seus filhos, genros e aliados, queixosos desde a queda de Honório, insurgiam-se contra a tirania da matriarca; davam resposta a tudo que até então tinham ouvido calados.

Proprietária de alguns sítios, todos situados na região árida e pobre, intermediária entre o Sertão Seco e a rica área verde do Cariri, a família Augusto quando ainda unida, vivia no Sítio do Tatu. Era uma propriedade comum: casa grande com alpendre, açude, engenho, uma fileira de casas de taipa para os negros e uma das únicas da região a ter uma capela. O sitio era também a área de maior concentração de escravos nos sertões, a ponto de existirem quadrinhas abordando esse estranho recorde: 



O Tatu pra criar negro 

Sobradim pra criação, 

São Francisco pra fuxico, 
Calabaço pra algodão, 
Caraíba é prata fina 
Sussuarana, ouro em pó 
Xique Xique é mala véia 
E o Tatu é negro só.

Talvez o grande número de escravos no Sítio do Tatu se devesse ao fato de Fideralina possuir um grupo de escravas que eram usadas como parideiras de moleques, que após algum tempo eram vendidos ao aparecer comprador. 

Uma das histórias de crueldade de Dona Fideralina versa sobre uma dessas negras parideiras e o filho que seria vendido, embora já estivesse com ela há mais de um ano. A escrava, agarrada à criança, correu para o mato, mas Fideralina deu ordem para que fossem atrás e trouxessem o menino. Na tentativa de proteger o filho, a negra foi apunhalada; ainda correu para casa, e lá, a patroa mandou que mãe e filho fossem embebidos com querosene, e ela própria lhes ateou fogo. A escrava, soltando o filho, debateu-se até morrer. Conta-se que as marcas de sangue da negra não saíam nunca da parede, mesmo que a caiassem continuamente. O reboco teve que ser retirado, e um outro feito em seu lugar.

Soma-se a essa história, o episódio de Luís Preto, um escravo, que aos oito anos de idade, junto com os filhos da Senhora, ousou tomar banho na cacimba de água limpa de onde Fideralina bebia. Levou tamanha surra que, durante os mais de cem anos que viveu, nunca mais tomou banho e não saía de casa quando ameaçava chover.

Entre os negros da fazenda do Tatu, quatro deles, dos mais fortes, deviam estar sempre prontos para carregar a liteira de Dona Fideralina, nas suas idas à cidade. Corpulenta, medidas avantajadas, quadris largos, rosto cheio, bonita – diziam, trocou a liteira pelo cabriolé e depois de velha, estranhamente, começou a andar a cavalo, inspirando uma crônica ao juiz Álvaro Dias Martins, assustado com a vitalidade da velha cavaleira.

Temida pelo povo, não era só medo que ela despertava nas pessoas. Quando viajava de Lavras para Iguatu, onde tomava o trem para Fortaleza, e se hospedava na casa do chefe político da cidade, despertava imensa curiosidade. O povo ia à casa do coronel para vê-la, corria às calçadas a fim de lhe assistir a passagem e, na hora do embarque, uma multidão se comprimia na plataforma da estação ferroviária para ver aquela mulher perigosa, valente, cheia de coragem, que mandava matar gente.

Essas viagens faziam parte de seu relacionamento com o Presidente da Província. Mas Fideralina abusava às vezes dessas boas relações. Chegou a exigir em carta ao Presidente que nomeasse um amigo analfabeto para o posto de professor de grego do Liceu de Fortaleza. Provavelmente era ela mesma quem escrevia as próprias cartas. Tinha uma bela letra e assinava Federalina, com a letra E no lugar do I, como era conhecida.

Graças a seu poder político e econômico, Dona Fideralina podia manter certos hábitos interditos à mulher. Falava o que lhe viesse à cabeça, usava palavrões em qualquer oportunidade, alteava a voz com os homens. Conta-se que, hospedada na casa do filho mais moço, Chico Correa, em Lavras, não mais de duas léguas do Tatu, pôs-se a tomar a fresca, vestida com uma espécie de camisa, quando o cunhado, tenente Raimundo Tomás de Aquino, marido de sua irmã Florípes, disse-lhe que não era hora de rapariga estar na janela. Rapidamente recebeu sua resposta: “Nem de homem macho estar na rua”.

Os hábitos da matriarca não diferiam muito dos costumes do coronelato da região: tinha um grupo de cabras para proteger a propriedade e garantir a família, andava sempre com um bacamarte sobre as pernas, ou ao alcance das mãos, tinha um filho cujo padrinho era o Padre Cícero, e era muito religiosa. Rezava diariamente, com a família e as escravas, o rosário, – provavelmente o folclórico, confeccionado de orelhas – que, segundo parentes, não foi acrescido das orelhas dos assassinos de seu neto. É que quando o bando chefiado por Zuza Lacerda, cangaceiro renomado, chegou à cidade de Princesa não encontrou mais os criminosos. Haviam padecido de estranha febre epidêmica. No entanto, os adversários de Fideralina, bem como o povo, juram que essas orelhas vieram a enriquecer o seu famoso rosário.

Ficou como tradição a frase sacramental dos matadores enviados por Dona Fideralina no momento em que atacavam os inimigos da velha senhora: “Tá aqui que Dona Fideralina mandou”.

Talvez viesse desse estranho rosário a capacidade que a velha possuía de atrair e manter o poder. O tempo em que ele fugiu de suas mãos, após a queda dos Aciolly, quando seus parentes, partidários do oposicionista Franco Rabelo, mandaram em Lavras, foi insignificante em relação ao período em que esteve com ela. Depressa retomou o domínio da situação, tornando a fazer jus a certas quadrinhas populares.

“O Belém manda no Crato
Padre Cícero em Juazeiro
Na Missão Velha, Antônio Rosa
Barbalha, Neco Ribeiro
Das Lavras, Fideralina
Quer mandar no mundo inteiro.”

Em 1914 reuniu cabras, armas e munições, e enviou, aos cuidados do filho Gustavo, como ajuda a seus partidários, numa tentativa de retomar o poder, apoiando a “Revolução de 14″. O episódio, vitorioso, chamado pelos rabelistas “A Sedição de Juazeiro”, devolveu o poder às oligarquias antigas, dele alijadas após o movimento popular ocorrido por volta de 1911.

Estação ferroviária de Lavras, em 1922 

Dois anos antes de morrer, a sua grande influência fez chegar a Lavras a via férrea que tornariam mais fáceis e menos lentas as viagens à capital. No dia da inauguração da estação, a velha mostrava-se alegre, forte; com o imenso corpo jogado numa cadeira de balanço conversava em altos brados. Sempre gritou. Na primeira vez em que baixou a voz, teve-se a certeza de que realmente chegara a doença que a levaria à morte, aos 87 anos.

Em agosto de 1919 termina a história de Fideralina, mas não a do seu reinado. Gustavo substituiu a mãe, dando lugar a seus próprios filhos, João Augusto e Raimundo Augusto, fortes e violentos. A oligarquia só largou o poder – e por força dos acontecimentos – mais de meio século após a morte da matriarca. Na década de 70, pela primeira vez, os Augusto não conseguiram eleger o prefeito de Lavras. 


Extraído do artigo: Matriarcas do Ceará – D. Federalina de Lavras
Rachel de Queiroz e Heloisa Buarque de Hollanda

terça-feira, 7 de março de 2017

Os Pioneiros do Comércio em Fortaleza

Fundada em 1821, a Farmácia Theodorico foi a primeira farmácia de Fortaleza

No meio do terceiro quarteirão da Rua Major Facundo, erguia-se um velho sobrado residencial, com muitas portas no pavio térreo e apenas duas ou três janelas no andar superior, de propriedade do português José Smith de Vasconcelos. Chegando ao Ceará em 1831, esse português fez fortuna como panificador em Fortaleza, foi proprietário de “O Barateiro”, a primeira padaria da cidade instalada na Rua Major Facundo esquina com a Castro e Silva. Ali se estabeleceria mais tarde, a Fábrica Iracema de Cigarros de Philomeno Gomes e Filho e a Empresa de J. Tomé de Saboia. 

Edificio J. Lopes, um dos primeiros do Centro
Alcunhado de “Zé Barateiro”, esse tio do Barão de Studart tornou-se o 1° barão de Vasconcellos. Voltou a residir na Europa e faleceu no Rio de Janeiro em 1903. No lugar do sobrado de sua residência encontra-se atualmente o Edifício J.Lopes. Antes da construção desse edifício funcionou o Restaurante Palhabote, de Antônio Dias Pinheiro, Pedro Muniz e Guilherme Moreira da Rocha. Tempos depois esse prédio foi ocupado pelo Cassino Cearense com o Cinema Júlio Pinto, uma das primeiras casas de espetáculo cinematográfico de Fortaleza. Num dos espaçosos salões desse Cassino, todo iluminado a luz elétrica, inaugurou-se o cinema, em 18 de setembro de 1909, com a presença de várias autoridades, entre outros pelo presidente Nogueira Accioly e todo seu secretariado.

Vizinha à residência do Barão de Vasconcellos localizava-se a casa comercial de José Gomes de Moura – cônsul do Paraguai – e a loja de tecidos de seu cunhado – cônsul da Bolívia – Maximiano Leite Barbosa. 
Nas proximidades encontrava-se ainda a moradia do português João Antônio Albernás do Amaral, casado com uma Correia de Mello, membro da família proprietária da Casa de Ferragem Amaral e Filhos. Dentre os seus descendentes destacam-se seus filhos José Correia do Amaral e Isaac Correia do Amaral, conhecidos abolicionistas e o cônego Ananias Correia do Amaral, um dos fundadores do Colégio São José em Fortaleza.

propaganda da firma Conrado Cabral & Cia, publicada no Almanaque Hénault-1912/13

Nessa residência instalou-se mais tarde, a Casa Contado Cabral, fundada em 1884, propriedade da família de Raul Conrado Cabral. Esse quarteirão abrigaria também o escritório de Joaquim Markan. Próxima loja de Ferragens de Conrado Cabral instalou-se a antiga Farmácia Teodorico, da família Eloy da Costa, na Rua Major Facundo. A Farmácia Teodorico era a casa comercial mais antiga da cidade, contemporânea do Brasil-reino, fundada pelo pai do velho Teodorico. Três gerações dessa família dirigiram a farmácia, a começar por Antônio Eloy da Costa, nascido em Recife em 1797, a quem foi concedida licença para abrir uma botica. A instalação da farmácia em Fortaleza ocorreu em 1821.

Na esquina das ruas Major Facundo e São Paulo, onde hoje funciona a Livraria Paulinas residiu o Major Facundo de Castro Menezes, covardemente assassinado em sua residência por adversários políticos. Depois a Casa Villar ocupou esse casarão durante 105 anos, até novembro de 1959. A família Villar é uma das treze famílias descritas por Raimundo Girão em seu livro “Famílias de Fortaleza”, junto com as famílias Albano, Amaral, Bastos, Borges, Brasil, Cals, Ellery, Gaspar de Oliveira, Teóphilo, Gouveia, Machado, Mamede e Salgado. A maior parte delas tem origem em portugueses que imigraram para Fortaleza em meados do século XIX e aqui desenvolveram o comércio da cidade.

Anúncio da Casa Ribeiro, de Luiz Severiano Ribeiro - Almanaque Hénault - 1912/13
fachada da loja Torre Eiffel, de Paulo Morais

No quarto quarteirão dessa rua sobressaía-se o sobradão de cinco portas térreas e cinco janelas avarandadas do cônsul de Portugal Manoel Caetano de Gouveia, rico e socialmente influente. Na sua vizinhança Fernando de Alencar Pinto instalaria os escritórios de sua empresa. Da sociedade dos Irmãos Pinto, surgiria a Companhia Importadora de Máquinas e Acessórios Irmãos Pinto – Cimaipinto. Em suas imediações ficava a Loja Torre Eiffel de Paulo Morais, adquirida de Antônio Fiuza Pequeno e Álvaro Mota; a Livraria Humberto, de Humberto Correia Ribeiro; a Casa Dummar; a Livraria Ribeiro, de Luiz Severiano Ribeiro.

prédio de propriedade de Plácido de Carvalho, onde funcionou a empresa de Adolpho Quixadá

Num prédio de Plácido de Carvalho, que por muito tempo apresentaria no alto da fachada uma estátua de bronze representando o deus Mercúrio em tamanho natural, funcionaria a Companhia Quixadá, fundada por Adolpho Quixadá; próximo a ela encontrava-se a sede da Livraria e Papelaria Comercial, de Meton Gadelha.

Fechando o quarteirão estava o sobrado do comendador Machado, com três portas para a Rua Major Facundo e quatro para a Rua Guilherme Rocha, onde hoje se ergue o Excelsior Hotel. No antigo casarão hospedou-se em 1859, a Comissão Científica que veio ao Ceará com a participação de Gonçalves Dias e outros. 

Ao final do século XIX, a firma Gradvohl e Fils ocupou seu andar térreo, com o proprietário residindo na parte superior. Os Gradvohl eram franceses originários da Alsácia-Lorena. Eram proprietários da Casa Gradvohl Frères. A exemplo da Casa Boris, a Gradvohl Frères teve grande duração no Ceará.
Mais tarde o térreo do sobrado do Comendador Machado foi ocupado pelo famoso Café Riche, de propriedade de Alfredo Salgado e Luiz Severiano Ribeiro, estabelecimento frequentado por literatos, escritores e poetas.

Extraído do livro: 
Ideal Clube – história de uma sociedade de Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos do arquivo Nirez

   

quarta-feira, 1 de março de 2017

O Velho Farol do Mucuripe


Em 1829, o marechal-de-campo português Manuel Joaquim Pereira da Silva, governador do Ceará, fazendo um reconhecimento do litoral da cidade, ante a presença cada vez mais frequente de embarcações lusitanas e estrangeiras, decidiu mandar construir um farol sobre “um montículo de areia defendido da vaga por alguns rochedos coralíneos”. Reunindo informações sobre o lugar, Pereira da Silva elaborou um arrazoado sobre a necessidade de construção desse farol e o despachou no dia 13 de maio. A resposta positiva, foi assinada em 17 de agosto de 1829.

A ordem do Imperador Dom Pedro I recebeu o competente registro e o “cumpra-se” em 3 de fevereiro de 1829. A planta do primeiro farol não chegou a ser enviada para Fortaleza, que provavelmente constava de um pequeno torreão de alvenaria, em cujo topo, por trás das vidraças que o defendiam do vento e da chuva, se acendiam aqueles candeeiros de azeite de peixe, que o presidente mandara comprar antes mesmo de obter autorização para realizar a obra. Não restou nenhum documento iconográfico que possa dar uma ideia de como era esse primeiro farol, nos anos distantes do Primeiro Reinado e da Regência



Já o mesmo não aconteceu com o segundo farol, que lhe sucedeu com a maioridade de D. Pedro II. Esse durou até as primeiras décadas do século XX, e dele existem gravuras e fotografias, até mesmo em que figura como verdadeiro símbolo da capital do Ceará. Iniciadas suas obras em 10 de maio de 1840, pelos engenheiros Júlio Álvaro Teixeira de Macedo e Luiz Albuquerque, somente foram concluídas em 17 de novembro de 1846. Foi construído com mão-de-obra escrava, passou por inúmeras reformas e foi desativado no fim da década de 1950.

Esse farol constava com um edifício básico em alvenaria, sobre a qual estava montada uma torre cilíndrica de ferro, que dava acesso ao andar superior. Era um farol dióico, de quarta ordem, com 33 m acima do nível do mar, que permitia sua visualização aos navios que passassem até a uma milha de distância. O monumento relembra os tempos da colonização, quando navegadores portugueses e espanhóis aportaram no litoral cearense. Em estilo barroco, a fachada do prédio é composta por oito paredes de tamanhos iguais. Por dentro, uma escada helicoidal leva ao topo do prédio, de onde se tem uma visão panorâmica da Praia Mansa e de todo o bairro do Mucuripe.

    
 De acordo com o pesquisador Rodolfo Espínola, esse é o segundo farol construído no Mucuripe. Do primeiro nada restou, nenhum documento, nenhuma imagem (foto do arquivo Nirez)

Passados alguns anos, referido farol começou a apresentar problemas de funcionalidade, exigindo profundas reformas, porque nem segurança oferecia para os que nele trabalhavam, nem estava mais transmitindo boas informações aos navios que passavam ao longe. Foi construído então um terceiro farol, mais moderno, mais alto e mais bem equipado para orientar os navios que estavam chegando ao novo porto de Fortaleza


farol do Mucuripe (atual) 

Do velho farol, hoje abandonado, restam apenas lembranças, embora ainda guarde sua imponência de vigilante do mar. Durante um tempo abrigou o Museu do Jangadeiro, projeto que também foi abandonado. Em 1982 foi tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico da Secretaria da Cultura.

fontes:
 Caravelas, Jangadas e Navios, de Rodolfo Espínola
secultfor