sábado, 15 de janeiro de 2022

Benjamin Abrahão - De Padre Cícero a Lampião

 

Lampião surgiu no cenário dos sertões nordestinos em 1921, quando entrou para um grupo de cangaceiros que aterrorizavam a população do sertão, comandados por Sinhô Pereira. O jovem Virgulino Ferreira da Silva, de 23 anos, teria muito a aprender, ao assumir a liderança do bando no ano seguinte, quando Sinhô Pereira, se retirou do cangaço e abandonou o grupo.




Durante anos a figura de Lampião, o rei do cangaço, que assaltava cidades e fazendas, promovia saques, matava gado e gente e escapava da caçada empreendida pelas volantes, era presente no imaginário das gentes simples do sertão e das autoridades. Até que dia esses personagens ganharam rostos, aparências e vestimentas, graças a ousadia de alguns fotógrafos, que adentraram a caatinga, em busca da confiança e das imagens desses homens rústicos, famosos pela violência que empregavam nas suas atividades ilegais.


No Ceará, o autor da façanha foi o sírio Benjamin Abrahão Calil Botto, nascido em 1901, em Zahle (na época, cidade na Síria e, atualmente, do Líbano), de acordo com familiares. Segundo o próprio, havia nascido em Belém, local de nascimento de Jesus Cristo. Em 1915, Benjamin desembarcou no Recife, fugindo do alistamento militar da sua cidade, que recrutava soldados para a primeira Guerra. Passou a morar com parentes, que atuavam no comércio de ferragens.




Depois de dois anos perambulando pelo sertão, atuando como caixeiro viajante, ele se deparou com um grupo de romeiros que ia a Juazeiro para receber a bênção de Padre Cícero. De Juazeiro tinha conhecimento de que era um ótimo local para o comércio, e do padre tinha ouvido falar nos milagres e no prestígio. Decidiu se juntar aos romeiros e partiu para a cidade dos milagres. A presença do gringo, alto e meio alourado no meio dos milhares de nordestinos, chamou a atenção do padre.


A beata Mocinha (Joana Tertuliana de Jesus, secretária e tesoureira do padre Cícero) se aproximou, a mando do padre, para saber de onde vinha o forasteiro. Foi aclamado quando disse que vinha da Terra Santa. “Padre Cícero se dirige aos fiéis e diz: meus amiguinhos, Benjamin que está aqui é conterrâneo de Jesus”. Bastaram 15 dias para Abrahão se converter e ser nomeado secretário pessoal do padre.




A morte do padre em 20 de julho de 1934, aos 90 anos de idade, deixou o sírio órfão. Todas as suas atividades e seus conhecimentos decorriam da ligação com o padre Cicero. Benjamin trabalhou para o padre Cicero entre 1917 e 1934, e após a morte deste, lançou-se em nova profissão: a de fotógrafo. Para começar, filmou o enterro do padim e ofereceu a filmagem a Ademar Albuquerque, que no mesmo ano fundou a Aba Film. Depois, procurou a empresa fotográfica para um novo projeto: uma sessão de fotos e um filme sobre Lampião e seu bando, que à essa altura já era notícia até no "The New York Times". Adhemar Albuquerque forneceu a Benjamin equipamentos e filmes, junto com as instruções de básicas de como utilizá-los.


Benjamin já conhecia Lampião porque o cangaceiro havia visitado o Padre Cícero no Juazeiro, em 1926, no polêmico encontro entre o padre e o cangaceiro que gerou muita controvérsia e acusações de que o padre protegia bandidos.




Durante 18 meses Benjamin perambulou pela caatinga, viajou pelo sertão de Alagoas, Bahia, Paraíba, Pernambuco e Sergipe, e encontrou-se duas vezes com Lampião. O chefe dos cangaceiros não apenas fez pose para a foto como chamou o bando de todo o Nordeste para se reunir nas fotos. O fotógrafo Benjamin pode registrar vários hábitos dos cangaceiros, como a reza da missa de domingo, celebrada pelo próprio Lampião, o almoço e a maneira de se vestirem e se comportarem. Revelou também que Maria Bonita, devido a uma promessa não trabalhava aos sábados, domingos e segundas-feiras. Fascinado por cinema e pela oportunidade de aparecer nas telas, muitas vezes o próprio Lampião assumiu a direção da filmagem. O resultado:  Noventa fotos de qualidade heterogênea e um filme de 35 mm (hoje restam 15 minutos dele na Cinemateca Brasileira) em que Lampião é transformado em garoto propaganda da Bayer, que patrocinou o filme.


Ao longo do ano de 1937, o material produzido por Benjamin foi divulgado pelos Diários Associados. As fotos e detalhes da vida no Cangaço foram divulgadas por diversos órgãos como o Jornal O Povo, Diário da Noite, Diário de Pernambuco, e a revista o Cruzeiro. Nas matérias escritas, sempre havia questionamentos sobre o fato de Lampião e seu bando continuar solto, já que podiam ser encontrados para fotos e reportagens




As fotografias dos cangaceiros em poses que transmitiam orgulho e segurança irritaram o presidente Getúlio Vargas, fato que impulsionou o definitivo esforço de repressão que exterminaria os bandoleiros do sertão. Além disso, o documentário sobre Lampião foi apreendido. O filme foi exibido no Cine Moderno, em Fortaleza, em sessão exclusiva para autoridades policiais do Estado.



 

Benjamin Abrahão foi assassinado com 42 facadas, em Águas Belas, hoje Itaíba, no interior de Pernambuco, em 7 de maio de 1938. Saiu do bar rumo à pensão onde se hospedava quando as ruas principais da cidade ficaram às escuras. Foi atacado, gritou por socorro e seu amigo Antônio Paranhos foi ao seu encontro, mas foi detido pela voz de um desconhecido que o avisou “Arreda, cabra, que é encrenca”. 

 

As hipóteses vão desde a possibilidade de um crime passional até a de queima de arquivo, já que ele sabia do envolvimento de autoridades com Lampião. Em sua missa de sétimo dia, só estava presente o padre celebrante, Nelson de Barros Carvalho. Com seu jeito malandro de ser, Benjamin Abrahão conviveu e ganhou a confiança de duas das figuras mais notórias da história do Ceará: padre Cicero e Lampião.




A divulgação de fotos e a propaganda sobre o Cangaço contribuiu para acirrar a perseguição aos cangaceiros, e em 28 de julho, pouco mais de 2 meses depois da morte de Benjamin, na grota de Angico, em Sergipe, o bando de Lampião foi cercado por uma força volante comandada pelo tenente João Bezerra da Silva. Além de Lampião, foram mortos sua mulher, Maria Gomes de Oliveira, conhecida como Maria Bonita, e os cangaceiros Alecrim, Colchete, Elétrico, Enedina, Luiz Pedro, Macela, Mergulhão, Moeda e Quinta-feira. Foram todos decapitados.


As cabeças decapitadas dos cangaceiros, após exposição nas escadarias da prefeitura de Piranhas em Alagoas, seguiram para a capital, Maceió. De lá, seguiram para Salvador, onde ficaram no Museu Nina Rodrigues. Em 1969, as cabeças de Lampião e Maria Bonita foram enterradas no cemitério Quinta dos Lázaros, na mesma cidade.



Fontes: 

Lampião e outros cangaceiros sob as lentes de Benjamin Abrahão<disponível em> https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?tag=padre-cicero

Benjamin Abrahão, Entre Anjos e Cangaceiros. Frederico Pernambucano de Mello. Ed. Escrituras. 352 páginas.

Benjamin Abrahão, o homem que iludiu o sertão. <Disponível em> https://blogs.oglobo.globo.com/prosa/post/benjamin-abrahao-homem-que-iludiu-sertao-482892.html

Jornal O Povo

Fotos: Brasiliana Fotográfica, O Globo, Aba Film

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Na Vigência da Lei de Gerson


Estava na fila do Correio da Av. Gomes de Matos, quando entrou um homem muito idoso, andando devagar, com dificuldade, com alguns papéis em mãos. Imediatamente, foi encaminhado para o início da fila dada sua condição de prioritário, até mesmo pelos outros da mesma condição que também esperavam na fila. Depois que ele foi atendido, acompanhei sem sair do lugar, a saída do homem, preocupada em saber se ele iria atravessar a Avenida Gomes de Matos, via onde carros e motos  estacionam em cima das calçadas, os pedestres caminham  pelo asfalto disputando espaços inclusive com ônibus, atravessam a pista correndo, enquanto a AMC (Autarquia Municipal de Trânsito), que de vez em quando passa por lá, faz de conta que não vê. 





Que nada! Na calçada, uma mulher jovem, robusta esperava pelo homem, pegou  um volume que ele retirou no Correio, embarcou-o num carro (estacionado em cima da calçada),  e levou-o embora.  

Concluí que ali estava uma fiel cumpridora da Lei: da Lei de Gerson. São muitos os que usam seus idosos ou suas crianças para usufruírem de benefícios a que não fazem jus, que ocupam vagas de deficientes sem serem especiais,  que “dormem” nos ônibus, confortavelmente sentados em assentos destinados a um público  específico e do qual ele(a)  não faz parte. São os que acham que o tempo deles é mais valioso do que o do resto do mundo, os espertalhões que não respeitam as filas, os vivaldinos, que infringem as regras de boa convivência, e que querem se dar bem sempre, em qualquer circunstância, em qualquer lugar. 
  
Em alguns estabelecimentos os responsáveis pelos estacionamentos são obrigados a colocar obstáculos para impedir que essa gente incivilizada pare nas vagas de idosos e deficientes. Note-se que a falta de educação e a esperteza não estão relacionadas à classe social dos infratores, muito pelo contrário, a maioria anda de carro (joga lixo pela janela) e anda bem vestida. 

Sem querer, Gerson criou uma lei   

Gerson foi um jogador que fez parte da seleção brasileira de futebol, que se sagrou tricampeã do mundo em 1970, no México. Craque da bola, teve participação importante e decisiva na conquista da taça, ganhou respeito dos torcedores e da mídia, e ao que se sabe, não há nada que desabone ou ponha em dúvida o caráter do homem ou do atleta. 

A história da “Lei de Gerson” surgiu de um comercial de cigarros veiculado pela TV, numa dessas propagandas ambíguas, em  que o “tiro sai pela culatra” e acaba repercutindo negativamente no produto ou no anunciante. Nesse caso, sobrou para o Gerson. Depois de exaltar as qualidades do produto, Gerson termina com a frase: “gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também, leve o cigarro tal...”. Desde logo, a expressão virou símbolo da esperteza, do indivíduo que faz uso de subterfúgios para obter vantagens, que atinge seus objetivos sem cumprir os trâmites legais.

Segundo o Wikipédia, A "Lei de Gérson acabou sendo usada para exprimir traços bastante característicos e pouco lisonjeiros do caráter midiático nacional que passa a ser interpretado como caráter da população, associados à disseminação da corrupção e ao desrespeito a regras de convívio para a obtenção de vantagens."
Fossemos um país mais civilizado, a lei de Gerson já teria sido revogada. 

foto da Avenida Gomes de Matos (google)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

A Hospedaria Getúlio Vargas na seca de 1958

 

Localizado no antigo bairro Alagadiço, atual São Gerardo, o prédio foi construído para hospedagem provisória dos “Soldados da Borracha”, trabalhadores nordestinos convocados para trabalhar para o governo federal, na extração do látex de borracha, em terras da Amazônia. A hospedaria foi erguida no início da década de 1940, no contexto da segunda guerra mundial.




Passado o período do conflito, o local continuou com suas funções de abrigar retirantes decididos a migrar para diversas cidades do país, com ajuda do governo. Como os períodos de seca sempre acontecem, a hospedaria estava sempre lotada, e acabou se tornando um depósito de miseráveis, carentes de tudo: alimentação, assistência médica, péssimas instalações, alto grau de insalubridade, condições de vida sub-humanas.


O lugar tinha, em teoria, capacidade para receber 1.200 pessoas, com garantia de pouso, alimentação diária e redes. Na prática, nunca funcionou dessa maneira. Os anos 50 encontraram a Getúlio Vargas com uma superlotação nunca vista. A seca de 1958 logo assumiria proporções catastróficas, com a capital mais uma vez sendo invadida por levas de retirantes, que eram direcionados para a Getúlio Vargas. Os oito galpões da hospedaria receberam em torno de 8.000 pessoas, com homens, mulheres e crianças amontoados, maltrapilhos, muitos doentes e todos passando fome. A cozinha tinha capacidade para o preparo de 300 refeições; não havia creche nem enfermaria. Havia um único médico que estava sempre presente, o Dr. Tarcísio Soriano Aderaldo. A água potável era insuficiente e as instalações sanitárias eram praticamente inexistentes. 




 
 

A certa altura, como não havia mais lugar dentro da hospedaria, cerca de 200 famílias ficaram debaixo dos cajueiros que circundavam o lugar, expostos ao calor, à sujeira e ao ataque de moscas e insetos que eram constantes. Para amenizar um pouco, pelo menos a fome das crianças, começou a ser distribuído um leite em pó, produto de doação internacional, que era desviado e vendido em estabelecimentos de Fortaleza.




O governo também enviaria ao Ceará remessas de charque e feijão, e autorizaria a admissão de milhares de flagelados como trabalhadores nas rodovias da região. Açudes seriam construídos para mitigar os efeitos da seca e empregar os necessitados. Essas medidas, todavia, teriam pouco efeito: os recursos liberados pelo governo federal, não chegavam aos flagelados, eram desviados por políticos e cabos eleitorais, ou transformados em alimentos estragados e de baixa qualidade que eram oferecidos aos hóspedes da Getúlio Vargas e aos de outros abrigos similares existentes no Ceará.


Não havia planejamento e ninguém se identificava como coordenador ou responsável pelo andamento da hospedaria. Era um caos, onde morriam cerca de 10 crianças por dia. Os problemas relacionados à escassez de comida foram parcialmente resolvidos com a ajuda do Exército que passou a distribuir 2000 refeições por dia. Para evitar os desvios comuns naquela situação, o próprio Exército fazia a distribuição entre os flagelados.


A superpopulação da hospedaria começou a diminuir com a migração de centenas de famílias para o Norte e o Sudeste do País, e um novo destino que despontava: Brasília. O outro fato relevante para o esvaziamento, foi o fenômeno natural que permeia as esperanças e o renascer do povo nordestino, a volta das chuvas. A Hospedaria Getúlio Vargas cumpriu sua sina de depósito de gente até 1972, quando foi desativada.


  Fontes: 

Reportagem de Edmar Mórel, publicada no O Seminário, ano 1958 <Disponível em>   http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=149322&pagfis=1734&url=http://memoria.bn.br/docreader#

Nordestinos fogem da seca e da Fome <Disponível em> http://memorialdademocracia.com.br/card/retirantes-fogem-da-seca-e-da-fome 

fotos Google      

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Incêndios em Fortaleza Nos Tempos Antigos

 

Na Fortaleza de antigamente, até por volta do início dos anos 30, os incêndios na capital eram combatidos à base dos baldes de água, dependendo também de haver água disponível.  Sem maiores recursos a serem empregados na atividade, geralmente os incêndios se extinguiam por si mesmos, depois de queimar tudo o que tinha para queimar, com perda total dos bens. 


 

Em razão da inexistência de equipamentos de combate ao fogo, diversos estabelecimentos desapareceram, consumidos pelas chamas. Os incêndios ocorriam com maior frequência no centro da cidade, onde se concentrava o maior número de estabelecimentos comerciais. Há registros de vários incêndios naquela região.  


No dia 13 de junho de 1885, um incêndio destruiu a Casa Conrado Cabral, loja que comercializava máquinas, ferragens e acessórios, de propriedade de Raul Conrado Cabral, situada na Rua Major Facundo; 

em 31 de agosto de 1886, um incêndio consumiu a casa de negócios de José Pinto Coelho, na esquina das Ruas Major Facundo e Liberato Barroso; 

Já em 1902 um grande incêndio acabou com o sobrado do coronel José Eustáquio Vieira, na esquina da Rua Barão do Rio Branco com Rua Senador Alencar. O que restou foi demolido em 1907. Hoje nesse endereço está o Palacete Guarani, construído em 1908, por Geminiano Maia, o Barão de Camocim.



À medida que a cidade se expandia, e aumentava o número de comércios e serviços, o alcance e os prejuízos causados pelo fogo sem controle, aumentavam também. Assim, no 20 de junho de 1907, um incêndio consumiu a mercearia de José Carvalho, na esquina das ruas Barão do Rio Branco com Liberato Barroso;


Em 24 de janeiro de 1924, um incêndio de grandes proporções, destruiu o prédio do Ceará Sporting Club, a mercearia de Rios e Companhia, a Sapataria Catete e a Alfaiataria Cyrino, todos localizados na Rua Senador Pompeu.


13 de março de 1925 foi a vez da Fábrica de Redes Iracema, essa situada fora do centro comercial, na Avenida da Universidade, de propriedade de Casimiro de Melo e Benjamin Nogueira. Duas pessoas perderam a vida nesse sinistro.


17 de julho de 1925 a Farmácia Fênix, localizada na Rua Floriano Peixoto, foi destruída por um incêndio;


O mesmo ocorreu no 5 de fevereiro de 1926, na mercearia Cabo Velho, de Frutuoso Afonso de Lima, na Avenida Visconde do Rio Branco, esquina com a Pedro I. 

  

A 24 de agosto de 1926 o fogo destruiu um armazém de algodão, de propriedade de Isaac Telles de Menezes, localizado na Rua Floriano Peixoto.


No dia 17 de novembro de 1927, incendiou-se a Farmácia Globo, na Rua Major Facundo, esquina com a Rua São Paulo.


Em 20 de fevereiro de 1928, o fogo atingiu três estabelecimentos comerciais, localizados na Rua Floriano Peixoto, trecho Praça do Ferreira: as lojas A Capital, de Braga e Irmão; Estiva e Miudezas, de j. Leopoldino da Silva; e Germânia, de José Cabral Ribeiro.


A 13 de outubro de 1929, o prejudicado foi o coronel Plácido de Carvalho, que viu o prédio de sua propriedade, situado na Praça Capistrano de Abreu, onde funcionava a empresa Torrefação Iracema, ser totalmente queimado.


Outro incêndio de grandes proporções, que causou prejuízos incalculáveis, foi o que ocorreu numa madrugada de setembro de 1929, e teve início no Hotel Avenida, prédio de três andares localizado na esquina das ruas Barão do Rio Branco com Guilherme Rocha. O fogo irrompeu a partir do térreo, e rapidamente tomou conta de todo o prédio.


Era por volta de 1 hora da madrugada, todos dormiam e o proprietário, um certo “Seu” Abílio, saiu batendo de porta em porta, acordando os hóspedes, alertando-os para que abandonassem o local rapidamente. Além do Hotel Avenida, o incêndio consumiu o Café Poty, que ficava bem ao lado, a Casa Primor, A Fascinadora, a Alfaiataria Job, e a Relojoaria Cancão, deixando ainda grandes prejuízos na Casa Zenith e na Samaritana. Não houve vítimas por conta da pronta intervenção do proprietário, mas os hóspedes perderam tudo, até as roupas. Hoje no local está a loja Esmeralda.


Hotel Avenida, antes e depois


Incêndios devastadores, como o do Hotel Avenida, convenceram de vez as autoridades da necessidade da criação de uma corporação pública, destinada ao combate de incêndios na cidade. Assim, atendendo a reivindicações de comerciantes e de autoridades, o governador José Moreira da Rocha determinou a criação do pelotão de Bombeiros de Fortaleza, em 8 de gosto de 1925, subordinado ao Regimento Policial do Ceará. Desaparelhado e sem autonomia, o pelotão de bombeiros tinha uma atuação discreta e ineficiente.


No dia 28 de dezembro de 1931, um grande incêndio consumiu a Casa Maranguape, de Agapito Sales e a Casa Simpatia, de Elias Áfora, ambas localizadas na Rua Major Facundo, Praça do Ferreira.


A 3 de janeiro de 1932, outro incêndio que atingiu a loja Para Todos de Vicente Alves Monteiro e o Foto Sales, de Tertuliano Sales, na Praça do Ferreira.


Em 20 de janeiro de 1933, também em estabelecimentos localizados na Praça do Ferreira um incêndio consumiu o Café Art-Nouveau, e o Restaurante Chic, e causou danos a Casa Mário Campos, A Gávea, a Casa Parente, a Sorveteria Nice e ao restaurante A Gruta. 

   

quartel do Corpo de Bombeiros

Em 1º de janeiro de 1934, a corporação começou a funcionar de fato, sob o nome de Corpo de Bombeiros de Segurança Pública do Estado. Tendo como comandante o primeiro-tenente Francisco das Chagas Nogueira Caminha e com um efetivo de 30 homens, advindos do Corpo de Segurança Pública (hoje Polícia Militar do Ceará) e da extinta Guarda Civil. O prédio que viria a abrigar o quartel do Pelotão de Bombeiros foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1934, na então Praça Fernandes Vieira, atual Praça Gustavo Barroso, no bairro Jacarecanga.   

  

Café Java


Quando havia qualquer incêndio na cidade, Mané Coco, o folclórico proprietário do Café Java, localizado na Praça do Ferreira, era chamado, com urgência, para apagar os incêndios, e aparecia sempre sozinho, munido unicamente de dois baldes de madeira e uma machadinha. Desse modo, Mané Coco, comerciante, admirador das letras e das artes, acumulava também as funções de bombeiro.


Fontes:

Cronologia Ilustrada de Fortaleza: roteiro para um turismo histórico e cultural/ Miguel Ângelo de Azevedo(Nirez)-Fortaleza, Banco do Nordeste, 2001

Um Certo Contato com a Lua, depoimento de Antônio Girão Barroso em Roteiro Sentimental de Fortaleza, Coordenação de Simone de Souza e Sebastião Rogério Ponte. Fortaleza: UFC-NUDOC/SECULT-CE, 1996.

Coisas que o Tempo Levou: crônicas históricas da Fortaleza antiga/Raimundo de Menezes: introdução, Sebastião Rogério Ponte – Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2000.  

https://www.bombeiros.ce.gov.br/institucional/

fotos do Arquivo Nirez, Pinterest e postais antigos

     

sábado, 4 de dezembro de 2021

Irapuan Lima, O Chacrinha do Ceará, Rei do Carnaval e da Televisão Cearense

 


Para início de conversa, já que o assunto é o passado da TV, necessário em primeiro lugar, esclarecer quem é o Chacrinha original, o cidadão Abelardo Barbosa, o “velho guerreiro”, o apresentador escrachado que inventou as chacretes, oferecia (e jogava) bacalhau na e para a plateia, mandava um alô para a Teresinha e comandava a massa buzinando os calouros e lançando cantores que se tornaram ídolos nacionais. Chacrinha apresentava seu programa semanalmente, passou por todas as emissoras de TV existentes (uma por vez), entre o final da década de 50 até 1988, quando apresentou seu último programa. Chacrinha foi referência na TV e inspirou diversos apresentadores que seguiram sua linha de apresentação. Um desses artistas, era o Irapuan Lima.




O programa do Irapuan Lima, apresentado nas tardes de sábado, era muito mais modesto, tanto em termos de atrações, quanto ao montante de recursos empregados. A proposta era também de revelar novos talentos, os famosos calouros e mostrar shows de variedades. Irapuan veio do rádio, dos programas de auditório da Rádio Iracema. Mas foi na televisão que ele alcançou seu maior sucesso e ficou no ar por 17 anos, de 1975 a 1992, passando por três emissoras, TV Ceará, Cidade e Manchete. No palco do programa, um grupo de dançarinas, identificadas como “Irapuetes”e um júri que avaliava os candidatos. Os participantes do show de calouros levavam como prêmio um frango e um pacote de macarrão.




Era daqueles apresentadores que se impunha, “apesar de não ser bonito, de não ser charmoso, de não ter uma voz agradável (daquelas dos velhos locutores de rádio), de se  vestir de modo cafona", dizia o professor Gilmar de Carvalho. Irapuan tinha preferência por programas ao vivo, chegando a ter quatro horas e meia de duração; não seguia roteiros, tinha apenas um guia que lhe dava muita liberdade para improvisos. Ele mesmo era o produtor do programa, quem criava os quadros e decidia como tudo ia acontecer.


Versátil como era, Irapuan Lima, antes de se popularizar como apresentador de televisão, foi o Rei Momo do Carnaval Cearense nos anos 1959, 1960, 1961. Desistiu depois de ter presenciado (e quase participado) de um grave incidente ocorrido na segunda feira gorda, nas dependências do Country Clube, agremiação fundada por ingleses, localizada na Aldeota. Na segunda feira todos os clubes elegantes suspendiam seus respectivos bailes de carnaval, só havia o do Country. O clube recebia todos os foliões dos clubes chiques. Era o baile mais animado, mais famoso, o mais prestigiado, e a cidade não falava de outra coisa.




O Rei Momo e sua corte iniciaram a noite visitando os clubes de subúrbio que só paravam na quarta feita de cinzas. No percurso, o Santa Cruz – nas imediações do Cemitério São João Batista, o Ícaro – o clube da Base Aérea no Joaquim Távora, o Marajaique. Quando chegaram no Country Clube já era madrugada e a festa estava parada. Estava em curso uma fiscalização promovida pelo Juizado de Menores, acompanhados de policiais. Queriam que os menores de idade fossem retirados. Como autoridades e diretores não chegaram a um acordo, acabaram se formando dois grupos dentro do grande salão de baile; de um lado, os foliões; do outro, a polícia e os funcionários do juizado.


bloco de carnaval em um dos clubes da cidade

Do nada, alguém teve a ideia de jogar um copo na direção dos policiais. O que se seguiu foi uma chuva de copos, atirados de todos os lados, sobre as cabeças dos policiais, que reagiram com tiros de metralhadora. Para o alto, diga-se de passagem. Mas a correria foi grande. Irapuan Lima, vestido de Rei Momo, com cetro e coroa, não sabe como, conseguiu pular o muro do clube, e caiu na calçada, bem do lado de um carro da Rádio Patrulha. O sargento até que foi amistoso, e aceitou levar o rei Momo até sua casa. Mas, já dentro da viatura, Irapuan raciocinou que estava em um carro de polícia e corria perigo (por causa da confusão no clube). Alegou que ficaria ali mesmo, que estava perto da casa de uma parenta, e acabou indo para casa a pé, sozinho, de madrugada. No dia seguinte, na terça-feira, o Rei não desfilou mais. Mandou colocar uma faixa preta no carro alegórico, e encerrou seu reinado.


Irapuan Lima interrompeu suas atividades na televisão por conta de uma cirurgia na vesícula, que evoluiu para uma pancreatite. Depois disso, ele fez apenas aparições em comerciais na TV e faleceu, em 2002, por conta de uma embolia pulmonar. O programa que Irapuan comandava não era muito diferente dos outros da época, com auditório sempre cheio e apresentadores cativantes. Sua grande audiência decorria de ele se mostrar como uma pessoa comum, com quem o público se identificava. Ele era espontâneo, carismático e muito criativo. 


Fontes: 

A imaginação de uma criança e as lembranças de um vovô contam a história de um “reinado " Disponível emhttp://www.repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/35236/1/1999_art_ilima.pdf

Irapuan Lima: o Chacrinha do Norte disponível emhttp://www.impressoesdigitais2ed.ufc.br/index.php?option=com_content&view=article&id=17

Jornal o Povo

Fotos da Internet