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sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

A Hospedaria Getúlio Vargas na seca de 1958

 

Localizado no antigo bairro Alagadiço, atual São Gerardo, o prédio foi construído para hospedagem provisória dos “Soldados da Borracha”, trabalhadores nordestinos convocados para trabalhar para o governo federal, na extração do látex de borracha, em terras da Amazônia. A hospedaria foi erguida no início da década de 1940, no contexto da segunda guerra mundial.




Passado o período do conflito, o local continuou com suas funções de abrigar retirantes decididos a migrar para diversas cidades do país, com ajuda do governo. Como os períodos de seca sempre acontecem, a hospedaria estava sempre lotada, e acabou se tornando um depósito de miseráveis, carentes de tudo: alimentação, assistência médica, péssimas instalações, alto grau de insalubridade, condições de vida sub-humanas.


O lugar tinha, em teoria, capacidade para receber 1.200 pessoas, com garantia de pouso, alimentação diária e redes. Na prática, nunca funcionou dessa maneira. Os anos 50 encontraram a Getúlio Vargas com uma superlotação nunca vista. A seca de 1958 logo assumiria proporções catastróficas, com a capital mais uma vez sendo invadida por levas de retirantes, que eram direcionados para a Getúlio Vargas. Os oito galpões da hospedaria receberam em torno de 8.000 pessoas, com homens, mulheres e crianças amontoados, maltrapilhos, muitos doentes e todos passando fome. A cozinha tinha capacidade para o preparo de 300 refeições; não havia creche nem enfermaria. Havia um único médico que estava sempre presente, o Dr. Tarcísio Soriano Aderaldo. A água potável era insuficiente e as instalações sanitárias eram praticamente inexistentes. 




 
 

A certa altura, como não havia mais lugar dentro da hospedaria, cerca de 200 famílias ficaram debaixo dos cajueiros que circundavam o lugar, expostos ao calor, à sujeira e ao ataque de moscas e insetos que eram constantes. Para amenizar um pouco, pelo menos a fome das crianças, começou a ser distribuído um leite em pó, produto de doação internacional, que era desviado e vendido em estabelecimentos de Fortaleza.




O governo também enviaria ao Ceará remessas de charque e feijão, e autorizaria a admissão de milhares de flagelados como trabalhadores nas rodovias da região. Açudes seriam construídos para mitigar os efeitos da seca e empregar os necessitados. Essas medidas, todavia, teriam pouco efeito: os recursos liberados pelo governo federal, não chegavam aos flagelados, eram desviados por políticos e cabos eleitorais, ou transformados em alimentos estragados e de baixa qualidade que eram oferecidos aos hóspedes da Getúlio Vargas e aos de outros abrigos similares existentes no Ceará.


Não havia planejamento e ninguém se identificava como coordenador ou responsável pelo andamento da hospedaria. Era um caos, onde morriam cerca de 10 crianças por dia. Os problemas relacionados à escassez de comida foram parcialmente resolvidos com a ajuda do Exército que passou a distribuir 2000 refeições por dia. Para evitar os desvios comuns naquela situação, o próprio Exército fazia a distribuição entre os flagelados.


A superpopulação da hospedaria começou a diminuir com a migração de centenas de famílias para o Norte e o Sudeste do País, e um novo destino que despontava: Brasília. O outro fato relevante para o esvaziamento, foi o fenômeno natural que permeia as esperanças e o renascer do povo nordestino, a volta das chuvas. A Hospedaria Getúlio Vargas cumpriu sua sina de depósito de gente até 1972, quando foi desativada.


  Fontes: 

Reportagem de Edmar Mórel, publicada no O Seminário, ano 1958 <Disponível em>   http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=149322&pagfis=1734&url=http://memoria.bn.br/docreader#

Nordestinos fogem da seca e da Fome <Disponível em> http://memorialdademocracia.com.br/card/retirantes-fogem-da-seca-e-da-fome 

fotos Google      

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Caio Prado

Na Praça dos Mártires (Passeio Público), tem a Avenida Caio Prado, mas ele não foi um dos mártires envolvidos na Confederação do Equador, que acabaram fuzilados naquele logradouro; durante algum tempo, a atual Praça da Sé foi denominada Praça Caio Prado, em homenagem ao mesmo personagem. Afinal, quem foi Caio Prado?

 Avenida Caio Prado, no Passeio Público de Fortaleza 

Antônio Caio da Silva Prado foi sem dúvida uma das figuras mais interessantes que apareceu na provinciana Fortaleza daqueles tempos: filho de tradicional família paulista, irmão do escritor Eduardo Prado, rico, bonito, intelectual, educado na Europa, vivido e escolado no modus vivendi parisiense, depois de pouco mais de 7 meses a frente do governo de Alagoas, "caiu de paraquedas" no cargo de governador do Ceará, nomeado por Sua Alteza Imperial Dom Pedro II.

Nascido em São Paulo, em 13 de junho de 1853, chegou aqui aos 35 anos de idade. Assumiu o governo do Ceará em 21 de abril de 1888, cercado de admiradores e elogios de simpatizantes, mas com reservas da imprensa local. Ao tomar posse no cargo, logo se viu cercado de dificuldades de todos os tipos. Para começar, o Estado enfrentava mais um período de seca, a chamada “seca dos três oitos”, com a capital Fortaleza, mais uma vez, invadida por retirantes, em busca de alimentos, abrigo, trabalho e assistência social; e mais uma vez, exposta ao risco de epidemias, que costumavam surgir nessas situações de caos.

Talvez pelo desconhecimento no trato de problemas com os quais nunca tivera contato, talvez por não saber distinguir as especificidades da terra que aceitara governar, o presidente Caio Prado permaneceu alheio e distanciado das graves crises que o Estado atravessava.

Para agravar o quadro, o presidente cercara-se de amigos e correligionários, nomeando-os secretários, assessores, e para os demais postos oficiais do governo, todos inexperientes e tão descompromissados quanto o próprio.

Apesar das críticas que vinham de diversos setores da sociedade, e acusado de negligência em relação aos problemas que assolavam o Estado, Caio Prado não se abalou, e entregou-se à convivência dos intelectuais da terra e pessoas da sociedade, abrindo os salões do Palácio do Governo para receber a elite que o acompanhava às tertúlias e aos piqueniques domingueiros em sítios e chácaras de Fortaleza e Maranguape. 


Sitio do livreiro Gualter, no Benfica, que o presidente Caio Prado costumava frequentar. A segunda foto, identifica os presentes na primeira. 

O Palácio da Luz tornou-se um salão de festas aberto todo o tempo, as festas e recepções eram contínuas, os gastos altíssimos. As viagens ao interior do Estado eram tratadas como alegres excursões, sempre em companhia de amigos e correligionários.
Enquanto as festas palacianas aconteciam, a seca continuava implacável, trazendo para a Capital a miséria, a fome e um exército de retirantes. Somente após os rumores da existência de ações que visavam sua interdição, o governo decidiu adotar algumas providências ainda que tardias e iniciou a assistência aos flagelados através dos serviços públicos.

 embarque os chamados "soldados da borracha", que partiam em busca da sobrevivência e de melhorias de vida na Amazônia. Noticiais de jornais da época davam conta que em apenas dois vapores da Companhia Brasileira, embarcaram 2.720 emigrantes; outro jornal revelava que no período entre 19 de setembro a 12 de janeiro do ano seguinte, deixaram a província 5641 pessoas com destino ao sudeste e 2421 cearenses foram para o Norte. 

E a ajuda veio em maior intensidade em forma de migração, principalmente para a Amazônia e para o Sudeste, solução bastante comum em outras secas, sob outros governos. O “inferno verde” e os trabalhos nos cafezais atraíam os nordestinos expulsos pela seca, que sonhavam com dias melhores nos eldorados dos seringais e dos cafezais.

A administração de Caio Prado não fugiu à regra; apesar dos elogios recebidos pelas iniciativas tomadas em socorro dos necessitados, como a construção de açudes, foi muito criticado pela imprensa pelas atitudes tomadas, e por incentivar a migração de cearenses para outras regiões do país. Apesar das críticas, cada vez mais contundentes, o Presidente continuou incentivando a emigração, e não apresentou nenhuma outra proposta, nenhuma outra solução.

Para completar a tragédia da falta de chuvas, como sempre acontecia nessas situações com grandes aglomerações, fragilizadas pela falta de alimentos, carentes de higienização, de assistência médica ou de  vacinas, proliferou no Ceará uma violenta epidemia de febre amarela, agravando o quadro de miséria para milhares de pessoas.

Com a epidemia instalada no Ceará, o próprio presidente foi uma das vítimas; acometido da doença, faleceu em 25 de março (ou maio) de 1889.

 a antiga Praça Caio Prado, atual Praça da Sé, nos anos 40

Com características tão marcantes, Caio Prado seria imortalizado no livro “A Normalista”, de Adolfo Caminha, um romance regionalista que trata dos costumes da época em Fortaleza.

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"Uma tarde em que o Mendes, o juiz municipal e a mulher, tinham ido passear ao Trilho, João da Mata entrou alvoroçado, sem fôlego, com uma notícia a escapulir-lhe da boca – Sabem quem está muito doente?

Todos voltaram-se surpreendidos, com o olhar cheio de curiosidade.

– Não, ninguém sabia. Algum conhecido? 
– O presidente, o Dr. Castro, teve um ataque há pouquinho. A rua está cheia. Diz que está bem mal.
– De quê, menino, interrogou o juiz muito admirado e já nervoso. Houve logo um interesse comovido dos circundantes.

E João, sentando-se sem apertar a mão aos Mendes, pálido, limpando a testa, foi dizendo o que sabia:

– Muita gente defronte do palácio. Tinham sido chamados todos os médicos, e todos menos o Dr. Melo, eram de parecer que se tratava de um caso de febre amarela. O presidente tinha acabado de jantar e lia à cabeceira da mesa a correspondência do sul chegada naquele momento, quando começou a sentir-se mal – embrulho no estômago, tonteira, calafrios. Imediatamente ergueu-se, lívido, e ao dar o primeiro passo, caiu fulminado!...

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Maria do Carmo passou a noite nervosa com insônias, sentida com a doença do Dr. Castro, muito apreensiva.

Não podia se conformar com a ideia da morte do presidente, o homem da moda, o querido das moças, o grande amigo do Ceará, que tantos benefícios fizera a essa província, mandando construir açudes no sertão, reconstruindo o Passeio Público, ativando obras do porto, facilitando a emigração, prodigalizando esmolas, e finalmente introduzindo em Fortaleza certos costumes parisienses, como por exemplo, o sistema de passear a cavalo a chouto, de aparar a cauda aos animais de sela.

Lembrava as qualidades pessoais do fidalgo paulista, o seu modo de falar num sotaque aportuguesado, muito moderado na conversação intima, as suas maneiras delicadas, os seus belos dentes branquejando sob um bigode sedoso e bem tratado...”

Trecho do romance A Normalista, de Adolfo Caminha

fonte:
GIRÃO, Valdelice Carneiro. A Emigração Cearense no Governo Caio Prado (1888-1889). Fortaleza: Revista do Instituto do Ceará, 1990.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A Ocupação do Solo no Montese

A grande maioria dos terrenos que hoje formam a região hoje conhecida como Grande Montese  pertencia aos franceses, cuja influência na sociedade fortalezense era notória. Como prova disso, algumas ruas do bairro receberam nomes de personalidades francesas. A firma Boris e Frères liderou a venda de terrenos na antiga Pirocaia, no loteamento Parque Coqueirinho. 


Rua Aquiles Boris (imagem google)

No entanto, a ocupação do solo no Montese apresenta determinadas irregularidades: os chamados “Arigós” ou “paroaras” como eram conhecidas as pessoas que viajavam para a Amazônia atraídas pelas promessas de enriquecimento fácil, na extração da borracha e não mais voltaram. Muitos não tiveram condições financeiras para retornar e outros morreram, principalmente de malária, enfermidade comum naquela região. Entre esses se incluem também os “soldados da borracha”.


embarque dos soldados da borracha em Fortaleza (foto gazeta do povo)

O jornalista e escritor Hélio Pinto Vieira conta que passou por esta experiência. Levado pelo patriotismo, no ardor da juventude,  embarcou para a Amazônia, e lá foi abandonado, na selva, como muitos outros companheiros que jamais voltaram. Ele teve sorte, conseguiu retornar para contar a trágica história, sofrida por causa de um acordo celebrado entre o Brasil e os Estados Unidos. 
Era o chamado Acordo de Washington, celebrado entre os dois países durante a 2ª. guerra, que levou mais de 30 mil cearenses, que formaram o Exército da Borracha, cuja missão era extrair o látex para a fabricação de pneus, isolantes, calçados e outros produtos derivados da borracha. O recrutamento era feito através do Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores (SEMTA), que funcionava no local onde hoje está a antiga Escola Industrial, atual IFCE, próximo ao quartel do 23° BC.  


Antiga Escola Industrial de Fortaleza, na Av.  13 de Maio onde era feito o recrutamento dos soldados da borracha. Hoje no local está o IFCe. (Foto Nirez) 

Para atrair interessados, a Amazônia era apresentada como um verdadeiro paraíso, com o slogan “A Extração da Borracha da Vitória”.
Voltando aos terrenos do Grande Montese,  pelo que se sabe muitas dessas pessoas que seguiram para a Amazônia, haviam adquirido terrenos no loteamento do Coqueirinho, e esses imóveis ficaram abandonados, sendo ocupados por terceiros, que ainda continuam com a posse sem a documentação pertinente ou irregular, à exceção de quem requereu e ganhou na justiça o direito de usucapião.

Igreja de Nossa Senhora Aparecida (imagem google)

A escritura do terreno da Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, onde foi edificada a matriz, foi feita dentro do mesmo sistema. Conclui-se que a maioria das terras dessa região era de terras devolutas, isto é, não cultivadas, e foram adquiridas pelos antigos donos através de contratos de enfiteuse (um instituto jurídico de transferência de bens, atribuindo a outrem o domínio útil de um imóvel, reminiscência das chamadas comunidades “mão morta”, do tempo do Feudalismo), como consta nas escrituras o que gera a cobrança do laudêmio pela empresa responsável pelo loteamento.
Além dos franceses havia outros proprietários que venderam terrenos no Montese, como José Chaves, José Monteiro, Manoel Fonseca, Dr. Manoel Sátiro dentre outros. 
Nessa década de 40, a região era uma extensa área verde muito pouco habitada. Os terrenos eram de propriedade de algumas famílias e se constituíam de grandes sítios onde predominavam cajueiros, mangueiras e plantas medicinais como mangirioba-do pará e melão caetano. Alguns sítios tinham nomes que são conhecidos até hoje: Bom Futuro, Mata do Dummar, Mata do Parreão, Pirocaia, Jardim América...


fonte:
De Pirocaia a Montese fragmentos históricos, 
de Raimundo Nonato Ximenes         

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Os Soldados da Borracha

A ocorrência de períodos de seca sempre esteve associado ao fluxo migratório  às capitais, manifestando-se de forma mais intensa na capital do Ceará.  Uma das formas encontradas pelo governo para evitar a presença maciça de flagelados na capital, foi incentivar a migração, a principio para a Região Norte, e posteriormente, de modo simultâneo, para o Sul.  

cartaz da propaganda oficial (imagem Museu da UFPA)

Na época do Estado Novo, milhares de cearenses foram recrutados para o Exército da Borracha. O tal exército surgiu em decorrência de um acordo assinado entre instâncias do governo brasileiro e a Rubber Reserve Company, do governo americano. Conhecido como acordo de Washington, e assinado em 22 de dezembro de 1942, foram encaminhados a Belém-PA, 10.123 trabalhadores, contratados com base nesse acordo. 

embarque de seringueiros (imagem: portal são francisco)

De fevereiro de 1944 a abril de 1945 foram transportados 30.818 pessoas, entre trabalhadores, esposas, filhos e agregados. Desse total, só regressaram ao Nordeste, até 1947, 4.292 pessoas,  conforme dados do Ministério do Trabalho. Esses imigrantes eram em sua maioria vaqueiros, lavradores, pequenos proprietários, que tinham sido levados na esperança de ganharem duzentos cruzeiros por dia. 

O desejo de melhoria na qualidade de vida contrastava com as condições de trabalho e de assistência social da região, apesar dos direitos assegurados nos contratos assinados. Dentre os direitos dos trabalhadores, constavam o fornecimento gratuito de vestuário, alimentação, transporte e assistência médica.  

embarque (imagem portal são francisco)

O contrato era por dois anos;  seria pago um auxílio financeiro de vinte cruzeiros quando da assinatura do contrato; mais vinte cruzeiros na chegada a Belém e duzentos cruzeiros quando do inicio do trabalho;  60% da borracha que cada um produzisse; além da reserva de um hectare de terra a ser cultivado livremente, sem nenhum compromisso com o dono do seringal. 

Depois de alistados, examinados e dados como habilitados nos alojamentos em Fortaleza (Prado e Alagadiço), os soldados da borracha recebiam um kit básico de trabalho na mata, constituído de  uma calça de mescla azul, uma camisa branca de morim, um chapéu de palha, um par de alpercatas, uma mochila, um prato fundo, um talher (colher-garfo), uma caneca de folha de flandes, uma rede, e um maço de cigarros Colomy. O ponto de partida para muitos deles foi a Ponte Metálica. Outros viajaram em caminhões.  

Embora as vantagens da migração fossem estampadas nos jornais, a realidade só seria conhecida no ano seguinte, quando se anunciava o regresso de 150 pessoas, que relataram as condições de trabalho a que foram submetidos. 

balsa transportando borracha no Rio Acre (IBGE)

Conforme relatos de alguns que conseguiram retornar ao Ceará, as promessas do governo de assistência médica, acomodação e alimentação não se cumpriram. Para vestir, os trabalhadores receberam somente dois pares de calças;  não havia alojamentos, então, para dormir, os trabalhadores construíam cabanas com madeira e folhas de palmeira; sem médicos nem hospitais, milhares morreram de malária, hepatite ou febre amarela. Outros foram atacados por onças e jacarés ou sucumbiram a picadas de cobra.

Os que tentavam sair, recebiam seu pagamento e ouviam que estavam livres para ir. Mas perto dali havia pistoleiros contratados para atirar neles, tomar seu dinheiro e traze-los  de volta para o acampamento.

O convênio do governo brasileiro com os Estados Unidos, voltado à produção de borracha, só vigorou até a queda de Berlim em 1945. Por isso o governador Faustino de Albuquerque proibiu o êxodo cearense para a Amazônia, convocando os promotores públicos do interior para processar  os aliciadores de camponeses, com base no artigo 207 do Código Penal Brasileiro.

tapera de acampamento de seringueiros divisa Rondônia/Acre (IBGE)

Mas a saga dos soldados da borracha na Amazônia  não terminou junto com a guerra, pois foram abandonados pelo governo e passaram a constituir a “legião dos esquecidos”, tanto do grande capital quanto do governo brasileiro. Só muitos anos depois é que foram “reconhecidos” como “soldados da borracha”, tendo direito a um soldo irrisório frente a contribuição que deram ao Brasil e ao mundo.


Pesquisa: 
Verso e Reverso do Perfil Urbano de Fortaleza, de Gisafran Nazareno Mota Jucá
Wikipédia

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Fortaleza e a Participação na 2ª. Guerra

O dia a dia da população modificou-se desde a eclosão do conflito mundial em 1939, e sofreu mais mudanças com a entrada do Brasil na Guerra. Houve racionamento de comida, de combustível e energia. Eram formadas grandes filas para adquirir produtos básicos. 

veiculo movido a gasogênio
Por medida de economia, restringiu-se e depois se proibiu a circulação de carros particulares, os quais, na falta de gasolina usavam gasogênio, um gás obtido através da queima de carvão, num equipamento acoplado à traseira dos veículos.

Eram realizados exercícios de defesa passiva antiaérea, nos quais se desligava a precária iluminação pública, de modo que a cidade ficasse às escuras, tudo porque se temia ataques germânicos.
Os moradores por sua vez, deveriam tomar precauções nas residências, colocando abajures em volta das lâmpadas e panos pretos ou papelão nas portas e janelas de vidro, para não revelar nenhuma réstia de luz. 

Foi decretado toque de recolher às 22 horas, patrulhas do exército vasculhavam as ruas da cidade. Foi criada a figura do inspetor de quarteirão, um morador da quadra era designado para vigiar o comportamento das demais famílias, e orientar os demais, em caso de necessidade. 

Suspeitava-se da existência de espionagem nazista no Nordeste, mantendo-se sob vigilância qualquer antigo membro da Ação Integralista Brasileira. Vários deles chegaram a ser detidos.
As pessoas temiam  ataques por parte de navios ou aviões alemães ou de serem denunciadas caluniosamente como espiãs e acabarem presas.

flagrante da passeata do dia 18/08/1942. Um popular carrega um retrato de Getúlio Vargas pedindo ao presidente que saia de cima do muro. (Ah, Fortaleza!)

Em 18 de agosto de 1942, diante de uma nova onda de torpedeamento de navios brasileiros, foi realizada uma grande passeata liderada pelos acadêmicos da Faculdade de Direito. Tal passeata, feita aos gritos de Morra Hitler, acabou provocando o incidente que resultou num grande quebra-quebra, onde populares enfurecidos depredaram e saquearam vários estabelecimentos e residências de propriedade de alemães, japoneses, italianos e simpatizantes do Eixo.

Revolta popular liderada pelos estudantes da Faculdade de Direito, promovem quebra-quebra para forçar a entrada do Brasil na Guerra com o Eixo - Alemanha, Itália e Japão  (Ah, Fortaleza!) 

As Lojas Pernambucanas da firma Lundgren & Cia são incendiadas pela população. (Ah, Fortaleza!)
Foram destruídos estabelecimentos como as Lojas Pernambucanas, a Casa Veneza, a Camisaria O Aluard, o Consulado da Alemanha, e até  o Jardim Japonês da família Fujita, que vivia do cultivo de flores. 

Em novembro do mesmo ano foi instalada a secção local da Liga de Defesa Nacional, que, em campanha junto aos cearenses, articulou a arrecadação de ferro, alumínio e outros metais para a construção de artefatos de guerra: capacetes,  armamentos, navios. 

Os jornais locais davam atenção ao confronto. A PRE-9 Ceará Rádio Clube, então a única emissora do Estado, mantinha um programa ao meio dia, dedicado especialmente aos pracinhas – soldados brasileiros enviados para lutar na Europa

Em 1943 os alunos da Faculdade de Direito, motivados pelas vitórias aliadas, dois antes do encerramento do conflito, ergueram o obelisco da Praça Clóvis Beviláqua, em comemoração á futura vitória dos Aliados. 

embarque dos soldados da borracha (foto: Portal São Francisco)

Outro fato que repercutiu no cotidiano de Fortaleza, foi o recrutamento dos chamados “soldados da borracha” – sertanejos e populares que foram atraídos por uma fabulosa propaganda do governo, na intenção de extrair látex da Amazônia, como esforço de guerra para ajudar o Brasil. (Os Estados Unidos estavam sofrendo com a falta de borracha). 

A propaganda maciça deu-se no contexto da seca de 1942, que mais uma vez levou milhares de sertanejos a migrarem para Fortaleza em busca de auxilio, elevando a tensão social. Os “recrutas” após um exame médico superficial eram alojados para esperar os trens, caminhões e navios que os levariam para o Norte brasileiro. 

Interior da Hospedaria Getúlio Vargas (imagem O Povo)

Vários deles ficavam nas hospedarias modelo, como a Getúlio Vargas, inaugurada em 1943, na distante área do Alagadiço (atual bairro de São Gerardo). Nos alojamentos as tropas eram mantidas sob firme disciplina militar. 

Cercados de arames e vigias, os alojamentos pareciam campos de concentração. Os sertanejos chegavam a realizar exercícios  físicos – na verdade eram apenas trabalhadores, aos quais o governo buscava passar um discurso de luta e esforço nacionais, confundindo uma atividade extrativista com a guerra na Europa. 

Os soldados da borracha eram mal vistos pelos setores sociais dominantes, que os tinham como arruaceiros e vagabundos. Por esse motivo a rígida disciplina a que eram submetidos os trabalhadores e a localização da Hospedaria Getúlio Vargas, numa área longe do centro da capital.
 
Ao final da guerra, os soldados da borracha foram abandonados no Norte. A Pátria não precisava mais deles. 

pracinhas da Força Expedicionária Brasileira desembarcam na Itália (imagem: Diário do Nordeste)


Enquanto isso, 337 cearenses foram engajados nas tropas da Força Expedicionária Brasileira – FEB para lutar na Itália.  Em geral esses pracinhas vinham de famílias de classe média ou baixa, originários de vários municípios do Estado. Morreram seis pracinhas cearenses na guerra. 

O final do conflito, em 1945, deu motivos a muitas comemorações e festejos na cidade, pela vitória dos aliados e pelo fim das privações pelas quais passava a população.