domingo, 8 de maio de 2011

Símbolo de Distinção

Praça do Ferreira em 1950 - foto Aba Film (Arquivo Ah, Fortaleza!)

Entre o final da década de 1940, inicio de 1950, quando a elegante Casa Sloper encerrou suas atividades, Romeu Aldigheri, que já contava com duas Lojas de Variedades, aproveitou o local para montar a Flama, loja que viria mudar o comportamento, impor parâmetros e fazer modismo na cidade ainda provinciana.
O nome Flama veio da linha de perfumes White Flame, de Helena Rubistein, que era apresentada em embalagens de luxo, com larga aceitação na época. Quanto ao nível da loja, era como se apenas tivesse sido trocado o nome e a administração, porque as instalações passaram por leves modificações, o bom gosto permaneceu o mesmo, o requinte era velho conhecido, as vendedoras selecionadas com rigor.
Precedida de grande publicidade, a Flama já foi inaugurada revolucionando. Não se falava de outra coisa na cidade e em todas as conversas o assunto era a nova loja que substituíra a sofisticada Casa Sloper. Sem televisão, o rádio era o grande veículo de publicidade daqueles tempos e volta e meia podia-se ouvir a voz insinuante e macia de Maria josé Brás, na PRE-9, anunciando o slogan da nova loja - Flama - simbolo de distinção.
A prova mais evidente do sucesso da loja era a sua etiqueta dourada sobre o fundo verde que era colada nos pacotes de presentes. Foram as primeiras etiquetas do gênero usadas no comércio de Fortaleza, e eram de tal modo identificadas pelo público que, quem circulava à tarde, pela Praça do Ferreira ou pelo Quarteirão Sucesso, carregando um pacote com o símbolo de distinção da Flama, chamava a atenção e despertava curiosidades. A Flama e sua etiqueta famosa mudaram comportamentos, revolucionaram costumes  e costumava transformar o astral das pessoas.

Thêmis Araújo, esteticista da linha de cosméticos Charles of the Ritz na Loja Flama

Mais tarde e nunca deixando de inovar, o proprietário Romeu Aldigheri trouxe para a sua loja a representação da sofisticada linha de cosméticos Charles of the Ritz, e os curiosos acorriam para ver a elegante e exótica Themis Araújo, numa tenda de seda cor de rosa, com detalhes em bronze dourado, preparando cosméticos a vista do freguês. Em sua tenda de conotação árabe, a moça manipulava pequenas porções de pós de cores variadas que tirava de inúmeros potes de cristal, colocando numa minúscula balança dourada, e mexia com uma espátula, até acertar a tonalidade de pele da cliente. Os pós era das cores mais extravagantes, roxo, lilás, rosa, branco, esverdeado. 
anos mais tarde a Flama mudou-se para o Quarteirão Sucesso ao lado da Loja A Cearense. Mas faltava ao local, a categoria e a classe do antigo ponto. Ali a Flama não conseguia ter a mesma distinção. Ainda permaneceu uns poucos anos antes de começar a morrer lentamente.  

extraído do livro
Os Dourados Anos, de Marciano Lopes

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Chácara Nous Autres

A Chácara da familia Albano ficava na Avenida Bezerra de Menezes, no Alagadiço, no local onde hoje funciona a Secretaria de Agricultura e Reforma Agrária do Ceará (arquivo Nirez)
A Chácara Nous Autres era uma propriedade cuja dimensão ia da atual Secretaria de Agricultura, na Avenida Bezerra de Menezes, até à beira da praia. 
Nesse espaço aconteciam festas no estilo glamour parisiense. Os copos e taças eram de cristais da Bohemia, o mobiliário francês, uma requintada gastronomia era preparada e servida em peças de porcelana inglesa. 
O lugar funcionava como palco dos encontros da elite econômica, política e cultural da época. Havia ainda um teatro, no qual eram encenadas peças, dramas e recitais de música.
Pertencia a João Tibúrcio Albano, filho de  José Francisco da Silva  Albano, Barão de Aratanha, que vindo do Maranhão para o Ceará, nos primeiros anos do século XX, adquiriu uma gleba de terra no que hoje corresponde a Serra da Aratanha e seus arredores.
Em maio de 1933 o governo do Estado adquiriu a propriedade por 140 contos de Reis, para demolir e construir o prédio da Diretoria Geral da Agricultura, depois Secretaria de Agricultura e Abastecimento e hoje, Secretaria de Agricultura e reforma Agrária.

fonte:
Cronologia Ilustrada de Fortaleza, de Miguel Angelo de Azevedo (Nirez)
Ah, Fortaleza! 

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Os Imigrantes em Fortaleza

Antes mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena
Parabolicamará
(Gilberto Gil)
 desembarque de imigrantes espanhóis - 1928 - (Ah, Fortaleza!)
Portugueses, árabes, espanhóis, italianos, ingleses e franceses foram as principais nacionalidades que vieram aportar em terras cearenses, entre fins do  século XIX e a primeira metade do século XX.  
Tanto na Europa quanto no Oriente Médio, a recessão econômica, a falta de trabalho, conflitos políticos, perseguições religiosas e as duas guerras mundiais, foram os principais motivos que fizeram com que boa parte da população desses continentes partissem em busca  novos horizontes em terras longínquas.
As Américas eram o eldorado na época, atraindo migrantes em busca de liberdade, trabalho, oportunidade de ganhar dinheiro, de qualidade de vida. O perfil do imigrante era quase um padrão: homem, entre 18 e 30 anos, um tipo de mão-de-obra apta a ser alocada em setores da economia, tais como comércio,  indústria, mercado imobiliário e hoteleiro.
Nesse período as agências de navegação possuíam agentes responsáveis pela divulgação dos atrativos e das vantagens do Novo Mundo. A imigração teve rotas para a América do Norte, Central, Latina e para o Brasil. As regiões brasileiras que mais receberam imigrantes foram o Sudeste, Centro-Oeste, Amazônia e Nordeste.
Do final do século XIX até a primeira metade do século XX, Fortaleza recebe um fluxo constante de imigrantes em busca de trabalho; muitos nem ficaram na capital, optaram por explorar os vastos espaços dos sertões e das serras.
Fortaleza já era uma cidade lusitana. Foram os portugueses que legitimaram  a colonização, fazendo de Fortaleza uma réplica na arquitetura, na gastronomia, na religiosidade, isto é, um estilo de vida semelhante ao português.
Os primeiros imigrantes que aportaram por aqui vinham para arriscar. Fixavam residência e iniciava um trabalho, e obtendo êxito, mandavam buscar a família. Os parentes ajudavam nos negócios e exerciam uma função importante, a de recompor os laços afetivos e familiares.  
Os Imigrantes Árabes
Os sirios-libaneses atuam desde muito tempo também no mercado imobiliário e hoteleiro. Um exemplo dessa atuação foi o Hotel Savanhah, na Praça do Ferreira (Ah, Fortaleza!) 
Consta que a imigração árabe para o Brasil começou depois que o imperador Dom Pedro II fez uma visitou diplomática ao Oriente Médio e ficou encantado com a cultura local e com a boa acolhida que recebeu do povo árabe. As primeiras levas de imigrantes  foram atraídas para o Brasil por meio do imperador.
Dominados há séculos pelo Império Turco-otomano, os árabes  viram na emigração uma forma de escapar da violenta dominação imposta pelos turcos. Os turcos, adeptos do islamismo, perseguiam as comunidades árabes que professavam a fé cristã. A pressão demográfica, a pobreza do solo, declínio da industrialização, e a falta de oportunidade de trabalho também foram fatores determinantes  para a emigração em massa.
libaneses no Palace Hotel (Ah, Fortaleza!)
Os primeiros árabes chegaram ao Ceará ao final do Século XIX, inicio do século XX, a maioria proveniente da Síria e do Líbano.  Eram 50 famílias compostas de aproximadamente 170 pessoas. Chegaram com passaportes turcos, sendo confundidos com seus opressores, o que lhes causou problemas de adaptação.
Destacaram-se primeiro como mascates, comerciantes sem endereço comercial fixo, que vendiam direto ao público, de porta em porta, por todo Ceará. Comercializavam perfumes, tecidos, roupas de cama e mesa, joias e outras utilidades.
 libaneses vestidas de odaliscas no carnaval de Fortaleza (Ah, Fortaleza!)
Quando os árabes chegaram, já existiam mascates portugueses e italianos. No entanto,  a mascateação se tornou uma marca registrada da imigração árabe. Nesta atividade, esses imigrantes introduziram inovações que, hoje, são vistas como traços marcantes do comércio popular:
- redefiniram as condições de lucro;
- introduziram as práticas da alta rotatividade e alta quantidade de mercadorias vendidas, das promoções e das liquidações.
Nos primeiros anos de atividade, os mascates, em visita às cidades do interior principalmente, às fazendas de café, levavam apenas miudezas e bijuterias. Mas com o tempo e o aumento do capital, começaram também a oferecer tecidos, lençóis, roupas prontas dentre outros artigos.
À medida que  acumulavam os ganhos, os mascates contratavam um ajudante ou compravam uma carroça; o passo seguinte era estabelecer  uma casa comercial, sendo o último passo a indústria.
Outros grupos de imigrantes  árabes procuravam ganhar a vida por meio de pequenos negócios familiares. Atuavam como proprietários de lojas de tecidos ou armarinhos, no mercado imobiliário e no ramo de hotelaria. Por tradição, se casavam entre si.
Uma das formas dos imigrantes se integrarem a cultura local e assimilarem a linguagem, foi se matricularem nas instituições de ensino da cidade.
 
O clube Libano na Rua Tibúrcio Cavalcante (1956) e a Igreja Nossa Senhora do Líbano década de 1950 (Ah, Fortaleza!) 
Segundo uma pesquisa sobre a migração libanesa para o  Ceará, os primeiros libaneses que chegaram aqui foram os irmãos Dimitri e Elias Dibe, provenientes da cidade de Trípoli, Libano. Vieram para residir em Teresina – Piauí, tornando-se comerciantes. Em uma viagem para Fortaleza teriam gostado do clima e resolveram se mudar para esta cidade, em companhia de uma empregada chamada Teodora, a quem os irmãos ensinaram o idioma e a fazer comida árabe.
Dimitri Dibe mandou vir do Líbano sua mãe Angelina, sua mulher Rufina e sua filha de dois anos de  idade.  Mais tarde, o casal teve mais três filhos, estes já nascidos em Fortaleza.
Dimitri Dibe foi proprietário de uma banca de miudezas no antigo Mercado Central. Depois, da loja Dimitri Dibe e irmãos. Era cristão ortodoxo e desempenhava o papel de sacerdote na colônia libanesa que então se formava.
A colônia libanesa em Fortaleza construiu o Clube Líbano e a Igreja Nossa Senhora do Líbano, marcos da importância desse grupo.
Fonte:
Imigração Árabe, um certo oriente no Brasil. Disponível em www.ibge.gov.br/brasil500/arabes
Motivos da Imigração. Disponível em http://www.tendarabe.hpg.ig.com.br/imigrantes/motivos_da_imigracao.htm
Travessias em Movimento: Os Imigrantes em Fortaleza, de Peregrina F. Capelo Cavalcante.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O Jornal: belo e moderno

Pelas ruas corria a manchete no dia 15 de julho de 1958: um jornal ilumina sua cidade. 
Não só o impresso, mas toda estrutura em volta do projeto impressionava. O prédio, ao lado da Igreja do Coração de Jesus, tinha o nome em neon, algo inédito em Fortaleza. 
Era a única  sede reestruturada para o funcionamento de uma redação, gráfica, setor comercial e administrativo. Cartazes espalhados pela cidade anunciavam  a criação de O Jornal, impresso também conhecido como o jornal dos Pinheiro Maia.
 O contexto era o despertar  do empresariado cearense para o uso político dos meios de comunicação. Naquele ano Fortaleza já contava com nove jornais diários, entre matutinos e vespertinos e o jornal de Bonaparte e Salomão Pinheiro Maia teria que enfrentar concorrentes fortes e a falta de assinantes. 
Todo o investimento necessário foi feito. O jornalista Carlos d’Alge, diretor de redação, havia ido à Europa para conhecer jornais vanguardistas. Bons profissionais, inclusive de outras mídias e de outros estados foram contratados. 
Os salários pagos eram acima da média do mercado e a infra-estrutura era melhor. Quando necessário era disponibilizado até um avião para cobertura de eventos. 
Um dos marcos foi a contratação de um diagramador Jaime de Almeida, vindo do Rio de Janeiro. Foi o surgimento oficial da diagramação. Antes não havia a preocupação de planejar o aspecto visual do jornal, era tudo feito na base da intuição. 
Os jornais concorrentes logo passaram a sentir a necessidade de incorporar as inovações.  E aí surgiram as imagens bens trabalhadas, os suplementos, os tabloides, as colunas sobre diversos temas, como uma coluna trilíngue, escrita em alemão, inglês e português. 
A crônica social era escrita por Lúcio Brasileiro e tomava uma página diária.  O jornal prosperava, com bom volume de publicidade e leitores. 
Mas faltando dois dias para completar dez meses, veio a surpresa: o jornal parou de circular depois de 242 edições.  Na última, do dia 12 de maio de 1959, a justificativa de que a suspensão era temporária. Os irmãos Pinheiro Maia haviam conquistado prestígio e posição política. Salomão foi eleito deputado estadual e Salomão deputado federal, mudando-se para o Rio de Janeiro, sendo este o motivo mais provável para o encerramento das atividades do O Jornal, que jamais voltou a circular.

Fonte:
Revista Fortaleza – fascículo 9

domingo, 1 de maio de 2011

A Cidade que Temos e a Cidade que Queremos

No ano em que completa 285 anos de sua fundação, Fortaleza parece um barco à deriva, sem rumo, sem comando, sem metas, sem porto seguro para lançar âncoras. 
O aniversário da cidade foi intensamente comemorado, com shows por toda a cidade, a despeito da buraqueira, da precariedade dos transportes coletivos, dos engarrafamentos que se tornaram quase que obrigatórios em todas as vias, e da falta de assistência a centenas de moradores de áreas de risco, vítimas das enxurradas das águas de abril.
Gastamos uma fortuna com cantores de axé em fim de carreira, em espetáculos de qualidade duvidosa, pagos com recursos públicos que bem poderiam ser melhores empregados.
 Pobre Fortaleza Bela. Antes não foi assim chamada, fosse Fortaleza apenas, ou de Nossa senhora de Assunção, que nos proteja e guarde. 
Na administração da Fortaleza bela, garis e lixeiros dançam felizes ao som de tambores e batuques ao lado de belas mulheres... na TV. 
Na cidade real não existe mais varrição das ruas e o lixo que não é o doméstico se amontoa pelas calçadas, se movimenta ao sabor da ventania e se espalha democraticamente por todos os bairros da cidade, seja rico, seja pobre. 
Praia do Meireles
Após uma grande polêmica sobre a paternidade dos buracos que tomam as ruas e viram grandes piscinas quando chove, – se são da prefeitura, se são da Cagece, de muito empurra-empurra, de muito toma que o filho é teu – nada foi resolvido, e às crateras velhas se juntaram as novas para atazanar a vida de motoristas, pedestres, motoqueiros, ciclistas e moradores, tudo sob o olhar míope da prefeita que, jura de pé junto, que tudo está às mil maravilhas. 

E quanto ao Centro, ah o Centro. 
Lixo, poluição visual, sonora, ocupação irregular das calçadas, da pista, abandono total e  (e ainda dizem que tem uma regional só para cuidar do centro), estacionamento irregular de carros, feirantes, camelôs e similares. 
Um exército de pedintes, desocupados, sem teto, drogados ocupam as ruas do centro e ameaçam a integridade física dos transeuntes. 
As obras que visam preparar a cidade para receber jogos da Copa do Mundo em 2014 (preparem-se para assistir grandes clássicos  entre seleções de países como Honduras x Chechênia ou Azerbaijão x Botsuana), desmontaram o que restava da cidade, sacramentaram o caos e nunca terminam, nenhum prazo é cumprido, nenhuma meta é atingida. (Taí o PV que não me deixa mentir)
show na Praça do Ferreira
Como esse desmando já dura 7 longos anos, e não há mal que dure para sempre, nem todas as festas do mundo podem mais iludir a população acerca da péssima administração a que a cidade está sendo submetida, uma gestão que está sendo marcada pela incompetência, pela incontinência verbal que não convence, pela omissão no trato com a cidade.
 A coisa está tão séria que até políticos que já tinham sido riscados da vida pública estão de volta, cheios dos discursos, muito bem articulados, usando como argumento o cenário de guerra em que se tornou a nossa cidade.
Essa Fortaleza bela, só é bela sob a ótica distorcida da atual prefeita. Esperemos  que, quando ela se for, leve com ela essa beleza aviltada, suja e esburacada, que ela cultiva com tanto zelo, e deixe a administração municipal para alguém que dê conta do recado, que devolva a cidade que perdemos, que realmente ame e preze a nossa Fortaleza.