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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A Criação da TV Ceará

 
Sede da TV Ceará em foto de 1960, na Estância, atual Dionísio Torres

Na década de 1950, Assis Chateaubriand instalou algumas emissoras de TV pelas cidades de São Paulo e Rio de janeiro. O fato despertou interesse de um grupo de cearenses que desejava a implantação de um canal de Televisão em Fortaleza. Nesta época existiam duas estações de rádio e dois jornais ligados aos Diários Associados: em Fortaleza a Ceará Rádio Clube e no interior a Rádio Araripe do Crato; e os jornais Correio do Ceará e Unitário.

Com o êxito da Ceará Rádio Clube (PRE-9) e o desenvolvimento deste complexo meio de comunicação pela região sudeste, o diretor João de Medeiros Calmon, desejava que os Diários Associados no Ceará tivessem também uma emissora de TV, fazendo a proposta a Assis Chateaubriand da implantação do canal.  

Aceito o desafio, foram iniciadas as vendas de ações populares pela cidade, e os Diários Associados entraram com a parte de fornecimento dos equipamentos, adquiridos nos Estados Unidos. Desse modo a estação foi construída e ficou pronta para funcionar no final de 1960, sob a direção dos Diários Associados.
Guilherme Neto, cantor e produtor
 
Para que as atividades e programação contassem com boa qualidade técnica, foram promovidos cursos de aperfeiçoamento para os profissionais que iriam operar o canal. O antigo diretor artístico da Ceará Rádio Clube, Guilherme Neto, compôs uma equipe que se deslocou para Recife, para fazer estágio em programação de TV. Quando a equipe retornou, a TV Ceará canal 2 foi inaugurada.

Péricles Leal acabou por assumir a direção artística da TV Ceará. Os ensinamentos de Péricles deram á emissora a certeza do profissionalismo, pois ele já estava com 10 anos de trabalhos, em teatro, cinema, rádio e artes em geral. Para Péricles televisão era um veículo, uma manifestação artística, com identidade própria.
 
Emiliano Queiroz, foi um dos profissionais que mais contribuiu para o aperfeiçoamento de artistas que estavam iniciando o trabalho na TV Ceará

Sob a direção do escritor Péricles Leal também foram realizados alguns cursos de aperfeiçoamento na própria TV Ceará, cujo destaque foi o CPET – Curso de preparação de estética de tv , destinado a formar profissionais aptos para o papel de realizador.  Este tinha a responsabilidade de administrar os espetáculos, cenários, figurinos, roteiro, ou seja, assumia o conjunto completo do espetáculo.


Nesse período foram contratados profissionais vindos de São Paulo e Rio de janeiro: um operador de vídeo, um operador de master e um iluminador, sendo os demais funcionários escolhidos em Fortaleza. 

A origem dos artistas contratados pela TV Ceará era o teatro e, principalmente, os programas de rádio. Os programas transmitidos eram ao vivo e em cenário preto e branco. Logo depois de inaugurada a emissora realizou novelas de curta duração, chamadas de TV Romance, que eram adaptações de clássicos da literatura e o Videorama, que eram novelas de caráter regional. 

anúncio da programação da TV Ceará em meados da década de 1960

Além das novelas foram realizados outros espetáculos e programas que tiveram grande relevância para o desenvolvimento da TV no Ceará. Dentre os principais espetáculos destacam-se Os Deserdados, de autoria do Superintendente da TV Ceará, Eduardo Campos e dirigido por Hildeberto Torres em 1967, e o programa Sete dias em Destaque, que homenageava com uma pequena jangada as pessoas que, durante a semana tivesse se destacado nas áreas econômica, política e social no Estado.



 Cena da peça Os Deserdados, de Eduardo Campos. No destaque, karla Peixoto
 
A TV Ceará, que funcionou até julho de 1980, inspirou e incentivou o aparecimento de outras estações de televisão em Fortaleza, e principalmente, formou um grande número de profissionais que passaram a contribuir com as demais emissoras criadas a partir de então, no Ceará. 

fonte:
Equipamentos Culturais no Ceará
Secult – 1966-2006
jornal Correio do Ceará, diversas edições
TV Ceará, a fábrica de sonhos, de Eduardo Campos
fotos dos livros
TV Ceará a Fábrica de Sonhos,
 Coisas que o Tempo Levou, a era do rádio no Ceará
e do jornal Correio do Ceará.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

TV Ceará canal 2 – A Fábrica de Sonhos

Studio A - Cenário dos dramas de rua e de lutas encenados na programação


Inaugurada em 26 de novembro de 1960, a TV Ceará iniciou sua programação logo no dia seguinte a sua festa inaugural.

A chegada da TV à Fortaleza, dez anos depois da sua inauguração no Brasil, representou muito mais do que uma simples opção de lazer – foi um acontecimento, um fenômeno social que revolucionou a vida da cidade.

Na Fortaleza dos anos sessenta as pessoas tinham o hábito de sentar na calçada, o rádio ligado. As rodas de cadeiras na calçada às vezes se desfaziam durante uma novela ou um programa, mas logo se recompunham.

Naquelas pequenas assembleias formadas por vizinhos, se falava (mal) de tudo, da vida alheia, do governo, do custo de vida, sobre os acontecimentos do dia a dia. As crianças se entretinham com as brincadeiras de roda, com o jogo de bola na rua. Quando a televisão chegou, botou todo mundo para dentro de casa.

A programação era ao vivo, gerada com talento local: cantores, atores, escritores e diretores, técnicos. O Diretor de Programação Péricles Leal veio do Rio trazendo uma programação mais ou menos nos moldes das TV’s de São Paulo e do Rio de Janeiro: teatro de romance, videorama, contador de histórias e aos domingos, um show musical e mais os programas TV de mistério e TV de comédia.

O cearense Emiliano Queiroz, um dos pioneiros na TV, conta que todos eram polivalentes; que ele, em uma semana, fazia cinco ou seis personagens, escrevia os comerciais ao vivo, fazia contato com clientes, ensaiava e levava ao ar, realizava sorteios de carnês das lojas Romcy Magazine e era também apresentador.

Adaptou contos, e escreveu textos para o “Contador de Histórias”.

“O Contador de Histórias” foi um ambicioso projeto dirigido por Péricles Leal, onde adaptações de peças teatrais de autores famosos foram apresentados na série.

Havia um show, patrocínio da “Linholene”, que trazia para Fortaleza cantores do eixo Rio-São Paulo, onde se apresentaram Ângela Maria, Dalva de Oliveira e Norma Suely.

No departamento das anunciadoras, (as garotas-propaganda) cinco delas se tornaram estrelas de televisão: Rita, (que anunciava a loja Flama – símbolo de distinção); Stelinha (Banco União Sociedade Anônima, para servi-lo); Shirley, Adalgisa e Tatiana.

A TV ao vivo era pródiga em acidentes.

No teleteatro, numa cena entre Emiliano Queiroz e João Ramos – o grande nome do rádio e televisão do Ceará – numa cena de briga, o primeiro não desviou o rosto a tempo e teve o nariz quebrado no ar.

Em outra ocasião, em determinada cena, o ator deu um soco tão forte na borda de uma cama que ela quebrou e o cortinado do dossel caiu sobre sua cabeça. O programa saiu do ar por alguns minutos. Entrou o slide do indiozinho com a música. Minutos depois a cena continuou com a cama, sem o dossel. Ninguém reparou.

Com o advento do vídeo-tape, mudou o modo de se fazer televisão no Brasil. O avanço tecnológico possibilitou a gravação dos programas, permitiu a correção dos erros e o estabelecimento de horários dos programas, mas, em compensação, decretou o fim da programação ao vivo. A teledramaturgia estava com os dias contados.


Estúdio B em dia de programa de auditório. Os programas eram
animados por Augusto Borges

Jane Azeredo, Augusto Borges, (que também era apresentador) no centro, entre dois figurantes. Destaque para o guarda-roupa de época.

Cena do romance A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas. Emiliano Queiroz é o galã . Cleyde Holanda, a própria Dama

João Ramos e Emiliano Queiroz, vivendo papéis
importantes, em peça ambientada no século passado. Possivelmente cena do romance Lucíola, de José de Alencar

Emiliano Queiroz, Cleyde Holanda, Glice Sales, Maria Luiza e Lourdes Martins, no cenário concebido para o romance Diva, de José de Alencar

Ao fundo Augusto Borges e Rinauro Moreira.
À frente: Emiliano Queiroz e Wilson Machado). Em "A morte prepara o laço"



fontes:
LETÍCIA, Maria. Emiliano Queiroz na sobremesa da vida. Imprensa oficial: São Paulo, 2006.
CAMPOS, Eduardo. TV Ceará a Fábrica de Sonhos. UFC – Casa José de Alencar – Programa Editorial, 1999.