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sábado, 22 de abril de 2023

Pedro Álvares Cabral, a viagem do descobrimento

 


Prevista para acontecer em um domingo, 8 de março, a partida da armada de Pedro Álvares Cabral, um fidalgo de origem nobre de apenas 33 anos, foi adiada, por causa do mau tempo, para o dia seguinte. A frota de Cabral era formada por nove naus, três caravelas e uma naveta de mantimentos. Além do formato das velas, o que diferenciava uma embarcação da outra era o tamanho: enquanto as caravelas mediam 22 metros de comprimento e transportavam até 80 homens, as naus podiam chegar a 35 metros e tinham capacidade para 150 tripulantes.


Com o tempo bom e o vento favorável, Cabral e sua tripulação zarparam de Lisboa, rumo a Calicute, na Índia, no dia 9 de março de 1500. Curiosamente, o homem a quem o então rei de Portugal, Dom Manuel I, confiara a maior, a mais cara e a mais poderosa armada portuguesa nunca tinha comandado uma esquadra antes.


A armada tinha como destino a Índia e tocou a costa brasileira por acidente. É possível que Portugal já suspeitasse da existência de terras naquela região, mas a verdade é que Cabral e seus homens foram apanhados de surpresa. A chegada ao Brasil foi, portanto, um acidente de percurso de uma jornada que tinha objetivos estratégicos bem definidos. A Índia era a prioridade número um da coroa de Portugal.




Com apenas oito dias de viagem, a frota enfrentou sua primeira tormenta. Tão forte que, próximo ao arquipélago de Cabo Verde, a nau comandada por Vasco de Ataíde, que transportava 150 homens, sumiu do mapa. A cada três navios que partiam de Portugal, um desaparecia no mar.


Não à toa, o Atlântico era conhecido como "Mar Tenebroso". Além de perder um de seus barcos, Cabral teve de enfrentar, no primeiro trecho da viagem, 20 dias de calmaria. Quando isso acontecia, por falta de ventos, o barco ficava quase totalmente parado no meio do oceano. Isso aumentava o tédio e o calor a bordo.


Ao todo, os 13 navios transportavam 1,5 mil homens, entre médicos, boticários, religiosos, calafates e até degredados, isto é, condenados à morte que aceitavam trocar sua pena capital pelo exílio em terras desconhecidas. Na maioria das vezes, eram os primeiros a desembarcar. Se fossem atacados por selvagens, não fariam falta.


Do total de 1,5 mil homens, apenas 500 conseguiram voltar, sãos e salvos, para casa. O restante morreu no mar, vítima de naufrágios ou de doenças, como o escorbuto, que provocava sangramento nas gengivas. Em algumas expedições, a proporção de médicos para marinheiros era de um para três mil. Viajar era tão arriscado que, antes de zarpar, muitos marujos já deixavam seus testamentos assinados.


A tripulação, em linhas gerais, podia ser dividida em marinheiros, soldados e religiosos. Os marinheiros executavam as tarefas náuticas, como içar velas, baixar âncoras ou manejar instrumentos, como o astrolábio, usado para medir a altura do Sol ao meio-dia e das demais estrelas à noite. Já os soldados, a maioria sem formação militar, eram os responsáveis pela artilharia e munição. As embarcações portuguesas, foram as primeiras a singrar os mares com artilharia pesada a bordo. Os religiosos — em sua maioria, frades franciscanos — eram incumbidos de rezar missas e ouvir confissões. Seu superior era Dom Henrique Soares de Coimbra, que, no dia 26 de abril, na praia de Coroa Vermelha, no litoral da Bahia, celebrou a primeira missa no Brasil, assistida de perto pela tripulação e, ao longe, por cerca de 200 indígenas.


A presença de mulheres a bordo não era permitida. Já crianças e adolescentes podiam embarcar. A maioria, de nove a 15 anos, era alistada pelos pais que, em troca, embolsavam o soldo dos filhos. Durante a viagem, desempenhavam as funções de grumetes e de pajens.


Alguns dos mais tarimbados navegadores da época, como Bartolomeu Dias (1450-1500), participaram da aventura. Doze anos antes, ele ficou famoso por ter sido o primeiro navegante a contornar o cabo da Boa Esperança, ao sul da África.


Por uma trágica ironia, na madrugada do dia 23 de março, uma tormenta desabou sobre a frota de Cabral e afundou quatro dos 13 navios. Quatrocentos homens, incluindo Dias, foram "engolidos pelo mar". Estavam próximos ao cabo da Boa Esperança, chamado de Cabo das Tormentas antes da viagem bem-sucedida do próprio Dias.


Ao todo, a jornada durou 44 dias. No dia 21 de abril, os marinheiros começaram a avistar os primeiros "sargaços" (um tapete flutuante de algas marinhas) nas águas e "fura-bruxos" (um bando de pássaros semelhantes a gaivotas) nos céus. No dia seguinte, a uns 60 quilômetros da costa, alguém gritou: "Terra à vista!". Era o entardecer do dia 22 de abril de 1500.




Depois de ancorar sua nau a 35 quilômetros da costa, em frente a um monte batizado de Pascoal, o capitão Nicolau Coelho foi o escolhido para fazer o reconhecimento do território. A bordo de uma embarcação pequena, movida a remo, ele presenteou os nativos com um gorro vermelho, uma carapuça de linho e um chapéu preto. Em troca, ganhou um cocar de plumas e um colar de contas.


Estima-se que, na época da chegada dos portugueses, havia entre 500 mil e um milhão de indígenas habitando o litoral brasileiro. "Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse as vergonhas", descreveu Pero Vaz de Caminha (1450-1500), um dos sete escrivães da frota, na famosa carta do "achamento do Brasil". "Traziam nas mãos arcos e setas."




A naveta de mantimentos, comandada por Gaspar de Lemos, foi mandada de volta a Portugal. Sua missão era comunicar ao rei o "achamento" da nova terra. Até ganhar o nome de Brasil, o território foi chamado de Ilha de Vera Cruz por Pedro Álvares Cabral e de Terra de Santa Cruz pelo rei Dom Manuel I.


A segunda parte da viagem durou pouco mais de cinco meses. No dia 13 de setembro de 1500, a frota de Cabral, reduzida a seis navios, chegou ao seu destino: Calicute. Na Índia, a esquadra sofreu novas baixas. Pero Vaz de Caminha, o autor da famosa "certidão de nascimento" do Brasil, foi morto, no dia 16 de dezembro, em um ataque de mercadores árabes.


De volta a Portugal, o que restou da esquadra atracou no Porto do Restelo, no dia 21 de julho de 1501. Apesar de ter sofrido perdas, a missão foi um sucesso. Depois de seu regresso, Cabral recebeu várias honrarias, mas não voltou a ser nomeado para o comando de qualquer expedição relevante.

 


Fonte: https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2021/04/4919541-descobrimento-do-brasil-os-bastidores-da-viagem-de-44-dias-que-levou-pedro-alvares-cabral-ao-pais.html

fotos da Internet



quarta-feira, 12 de abril de 2023

Vicente Pinzon, antes de Pedro Álvares Cabral

 

As origens de Fortaleza remontam às primeiras tentativas de colonização do Ceará pelos portugueses. Um dos primeiros marcos assinalados nessa história, é a chegada do açoriano Pero Coelho de Souza, em 1603, que organizara uma expedição com a finalidade de expulsar os franceses da costa cearense e escravizar indígenas.




Mas, segundo consta, um século antes da chegada do açoriano, um outro europeu já pusera os pés em terras cearenses, mais precisamente na enseada do Mucuripe. Foi o navegador espanhol Vicente Pinzon, que por conta de um gigantesco erro de navegação, veio bater com os costados no Mucuripe no dia 26 de janeiro de 1500, “inaugurando” as terras fortalezenses, e descobrindo o Brasil antes de Cabral.


Vicente Yanez Pinzon, com a autorização de viagem em mãos, deixou o porto de Palos de la Fronteira, no dia 19 de novembro de 1499.  Providenciaram alimentos, bebidas e mantimentos, para uma frota composta por quatro caravelas, entre elas a Pinta e a Nina da frota de Colombo, e cerca de 100 tripulantes, arregimentados entre parentes e amigos, para uma viagem com duração estimada em um ano e meio.



Porto de Palos de La Fronteira, no sul da Espanha, ponto de partida de grandes navegadores, como Vicente Pinzon e Cristóvão Colombo 

Navegando sob influência dos ventos e das correntes, depois de perder a Polar (a estrela que ainda hoje serve de referência as navegações no Atlântico Norte), Pinzon e seus homens ficaram perdidos no meio do Atlântico, pois não acharam nenhuma estrela que lhes permitisse uma melhor orientação. Navegaram rumo ao desconhecido, em uma direção nunca percorrida por nenhum europeu. Para completar, um temporal os afastou da rota que vinham obedecendo, mas conseguiram retomá-la.  Depois, enfrentaram uma cerração, um extenso nevoeiro, navegaram mais 240 léguas, até chegarem ao Porto do Mucuripe. Depois de tomar posse do local em nome do reino de Castela, deu-lhe o nome de Santa Maria de La Consolacion.


Ao perceber as águas calmas da enseada do Mucuripe, ainda ao largo, Pinzon fez uma sondagem para verificar a profundidade da água e observou que era de 16 braças (1 braça equivale a 2,2 metros). Em seguida, em pequenos botes, ele e um grupo de oficiais navegaram até a praia, em busca de um rio ou uma fonte de água. Viram grandes pegadas humanas e se assustaram.  Pinzon teria permanecido dois dias em terra (e dormido nas caravelas), partindo depois no rumo nordeste, por não ter encontrado água para reabastecer seus navios.


Sempre navegando pelos ventos e correntes, encontrou uns três dias depois, a foz de um rio de que ele chamou de Fermoso. Era a foz do atual Rio Curu, a cerca de 120 km de Fortaleza. A passagem de Pinzon pelo Mucuripe está ricamente documentada no Arquivo Geral das Índias, em Sevilha e documentada em mapas como o do cartógrafo Juan de La Cosa, exposto no Museu Real de Madrid.



Mapa original de Juan de La Cosa, exposto no Real Museu Naval, em Madrid

Pinzon registrou a viagem e suas dificuldades ao retornar a Palos em setembro de 1500. Em seus relatos disse ter encontrado no Mucuripe uma enseada mansa, de praia com areias finas e brancas, cheia de árvores. Pouco tempo depois, os reis Fernando e Isabel nomearam Pinzon capitão-governador da região que se estendia de Santa Maria de La Consolacion, no Mucuripe, até Santa Maria de La Mar Dulce, no Amazonas. A nomeação, bem como a própria descoberta de Pinzon na costa cearense, não foi reconhecida pela coroa portuguesa por conta do Tratado de Tordesilhas.




O Tratado de Tordesilhas foi um acordo feito entre Portugal e Espanha, em 7 de junho de 1494, que definiu os limites das áreas de exploração entre os dois reinos na América do Sul. A divisão se daria a partir de um meridiano estabelecido a 370 léguas de Cabo Verde. Nessa partição, as terras descobertas a oeste da linha imaginária pertenceriam aos espanhóis e as terras descobertas a leste pertenceriam aos portugueses. O fim do tratado se deu com a formação da União Ibérica, quando os reinos de Portugal e Espanha foram unificados.



Alguns historiadores relatam esses mesmos fatos, mas dão como certo que o local batizado por Pinzon como "Santa Maria de La Consolacion", seria o Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco; como também há historiadores que afirmam que essas narrativas de viagens são totalmente equivocadas, e que Pedro Álvares Cabral foi o primeiro europeu a chegar ao Brasil.    

 


Fontes: 

Caravelas, Jangadas e Navios, uma história portuária, de Rodolfo Espínola.

Veja mais sobre "Tratado de Tordesilhas" em: https://brasilescola.uol.com.br/historiab/tratado-de-tordesilhas.htm