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segunda-feira, 27 de abril de 2015

Beira-Mar a Avenida que mudou a cidade




Enquanto a cidade via o centro de Fortaleza se esvaziando com a ausência de novos investimentos e empreendimentos, e a fuga dos equipamentos existentes ocorria, quase que simultaneamente, a valorização da orla marítima, desprezada durante décadas como local de moradia e lazer. 



A ocupação da orla começou pela Praia de Iracema, a partir do final da década de 20, com a abertura de um sistema de avenidas em 1927, ligando o centro à Praia de Iracema (chamada de Praia do Peixe até 1925). Foi um prenúncio da emergência dos anos 30 em diante  da região leste,  enquanto área residencial nobre e como lugar de uma nova fonte de lazer: o banho de mar. O movimento nesse sentido foi iniciado com a construção da bela mansão de veraneio, a Vila Morena, em 1928.  A seguir vieram outros bangalôs, além de bares e clubes praianos.



Em 1950, o Náutico Atlético Cearense trocou sua minúscula sede da Praia Formosa pela monumental sede da Praia do Meireles. Ocupando uma área considerável, numa região ainda pouco valorizada, à beira mar – mas com a frente voltada para a avenida, portanto, de costas para o mar – o Náutico sentia orgulho de seu palácio alviverde, e os abriam seus salões para os visitantes de todos os lugares do Brasil e até do exterior. 

Mas a descoberta do potencial turístico e comercial da região do Meireles ainda demorou algum tempo. Até o início da década de 1960, a única edificação relevante na área, era o Náutico. No mais, era um local de veraneio, com muita vegetação, algumas casas de pescadores e vários estabelecimentos que exploravam a prostituição.
   
A construção da avenida, iniciada em 1961 no Governo do prefeito Manuel Cordeiro Neto (1959-1963), de imediato, expulsou a zona de prostituição para a área do farol do Mucuripe e os pescadores para o alto das dunas e para a Varjota, onde fora construída a Vila dos Estivadores, em 1945.

A abertura da via, que objetivava ligar o centro ao Porto do Mucuripe,  intensificou a ocupação e integrou a orla marítima à malha urbana da cidade. A valorização da praia passa a ser percebida inclusive em termos financeiros, além de se tornar um espaço de lazer para a população. A especulação imobiliária logo descobriu a Avenida Beira Mar

A partir dos anos 1970, o local transformou-se na principal zona de lazer e o local mais procurado para a instalação de negócios ligados ao turismo e ao entretenimento.
Nas décadas de 1980 e 1990 os restaurantes cedem lugar aos hotéis e edifícios residenciais de alto luxo. Durante o dia a praia passou a ser frequentada pela população de baixa renda, e o calçadão por copistas e turistas.  

Além dos hotéis, bares, restaurantes, lanchonetes e barracas, a Beira Mar conta uma grande diversidade de usos ao longo de seus 3 quilômetros de extensão,  com equipamentos como o Jardim Japonês, inaugurado em 2011 em homenagem a passagem do centenário da imigração japonesa no Brasil, espigões urbanizados, que contém o avanço do mar sobre o calçadão, além de servirem como local de lazer e contemplação, e a Feira de Artesanato, que conta com mais de 600 boxes. 

A Avenida também ganhou uma associação de amigos, que se reúnem para fazer exercício, bater papo na Praça dos Estressados, local que conta com bancos e equipamentos de ginásticas. Dentre diversas outras opções de diversão e lazer, podem ser encontrados quiosques de estabelecimentos bancários, trenzinho da alegria para as crianças, e uma variada oferta de serviços de passeios turísticos e shows de humoristas locais. 
 
A Avenida Beira Mar começa na Praia de Iracema, na Rua dos Ararius e termina na confluência com a Avenida da Abolição, no Mucuripe. A orla da Beira-Mar no trecho Praia do Meireles, é  metro quadrado mais caro da cidade, e a especulação imobiliária torna-se cada vez mais forte na determinação da ocupação da cidade em geral e da orla em particular.



Atualmente a Beira-Mar passa por uma nova reforma, uma obra de requalificação orçada em R$ 232 milhões, dos quais R$ 187 milhões estavam assegurados pelos ministérios do Turismo e da Infraestrutura. Iniciada em março de 2013, tinha previsão de entrega em 2015. O projeto prevê a reforma do Mercado de Peixes, um novo espigão localizado em frente ao clube Náutico, um aterro hidráulico, entre as avenidas Rui Barbosa e Desembargador Moreira, pavimentação das vias de tráfego de veículos, estacionamentos, passeios, novos quiosques, sanitários e embarcadouros, além de tratamento paisagístico, requalificação da feira de artesanato e da área de manutenção das jangadas. O passeio terá também ciclovia, pista de cooper e quadras de esporte na areia. 

Tudo está atrasado. O novo Mercado de Peixes, que seria o primeiro a ser concluído, em até 30 dias após o início da obra, até hoje não foi feito, nem tem mais previsão de data. Com relação aos demais itens, a maioria sequer foi iniciado, e os que estão em andamento, como o espigão, também não tem prazo definido para conclusão, em razão, segundo dizem, da falta de repasse das verbas pelo governo federal. 

fotos do arquivo Nirez

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

De Flores e Guerras

Era o dia 18 de agosto de 1942. Tudo começou tão de repente que nunca se soube ao certo como teve início, e quem liderou. A turba furiosa avançou sobre todos os estabelecimentos, escritórios e até residências de cidadãos das chamadas nações integrantes do Eixo. Alemães, italianos e japoneses, e seus descendentes, foram alvo de incontrolável manifestação de ódio por parte da massa insatisfeita, com a posição dúbia do governo brasileiro em relação ao conflito.  O povo não admitia a posição oficial brasileira, refletindo a ideologia fascistoide do Estado Novo de Getúlio Vargas. 

Jantar do Rotary Club no Palace Hotel, em 1936, onde estão as bandeiras da Alemanha e da Suástica. As boas relações entre os dois países, fez com que o Governo de Vargas demorasse a assumir uma postura frente ao conflito mundial. (foto Nirez) 

Durante a manifestação de 18 de gosto, a turba desenfreada buscou além dos estabelecimentos dos súditos do Eixo, também as casas comerciais cujos proprietários teriam tido ou ainda tinham ligação com o Integralismo. No meio da multidão, alguém gritava o nome de uma loja qualquer como de propriedade de um integralista. E logo a violência se voltava contra ela. Assim aconteceu com “ O Gabriel”, veterano estabelecimento comercial de miudezas, localizado à Rua Floriano Peixoto, em frente à sede dos Correios. Seu proprietário, Gabriel Jardim, era uma figura conhecida por na cidade. Sua loja era a maior venda de imagens de anjos e santos, ramo em  que também se especializou outro comerciante muito católico, “O Epitácio”. 


Como a Igreja católica tinha naquela fase histórica, profunda inclinação direitista, com numerosos membros militando no Integralismo. Gabriel, por certo sem nenhum embasamento ideológico, aproximou-se dos “camisas verdes”.
Outros estabelecimentos atingidos pelas mesmas razões, foram a loja “A Cruzeiro”, que por essa época funcionava nos baixos do Excelsior Hotel e o armarinho “Ubirajara”, na Major Facundo quase esquina com a Guilherme Rocha.

A loja Pernambucanas foi incendiada e saqueada. (foto do Livro Ah, Fortaleza!)

Outro alvo das manifestações de ódio foi o japonês Guilherme Fujita  (nascido Jusaku Fujita) que cultivava um jardim e fornecia flores para as cerimônias festivas ou tristes da Fortaleza provinciana daquela primeira metade do século.
Com o fruto do seu trabalho árduo, o imigrante japonês mantinha com desvelo e carinho a numerosa prole nascida no Estado do Ceará. Ignorando esse fato, na irracionalidade das atitudes das massas descontroladas, os manifestantes invadiram o bucólico Jardim Japonês, no Otávio Bonfim, destruindo tudo e ameaçando a própria vida da família oriental.
Vizinhos que presenciaram o drama protegeu a família da ameaçadora agressão. Durante vários dias os Fujitas tiveram o abrigo de pessoas amigas, numa prova de que em momentos de insanidade coletiva, muitos conseguem manterem-se serenos e lúcidos, para impedir as consequências mais graves do desvario geral.
Terminada a guerra, superadas as desavenças, o japonês Fujita conseguiu se recuperar voltou a trabalhar com suas rosas e flores no Jardim Japonês, que funcionou no seu antigo local, na atual Avenida Bezerra de Menezes, onde hoje se encontra um supermercado,  até a década de 60.

fontes:
Blanchard Girão em O Liceu e o Bonde
Jornal O Povo

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Bairro Meireles

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O bairro do Meireles surgiu basicamente depois da construção da Avenida Beira Mar, em 1963, contíguo ao bairro da Aldeota e situado junto à orla. A partir dos anos 1990, novos elementos passaram a interferir na dinâmica urbana da faixa litorânea. Além da especulação imobiliária, Fortaleza virou alvo de consideráveis investimentos turísticos. Isso aconteceu pela aplicação do capital privado, com a instalação de hotéis, restaurantes e parques aquáticos, ou pela ação do Estado, no sentido de criar uma infraestrutura capaz de atrair turistas e vender a imagem de uma cidade atraente. Nesse aspecto, nenhum bairro foi tão beneficiado quanto o Meireles, considerado um dos bairros de melhor qualidade de vida de Fortaleza.




Segundo dados da Secretaria Executiva Regional II, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Meireles é de 0,916, número superior ao dos Estados Unidos, que é de 0,902 (um dos maiores do mundo);
A orla marítima do bairro se estende da Praia de Iracema ao Mucuripe e compreende em sua extensão o metro quadrado mais caro de Fortaleza (cerca de R$ 7 mil).
A renda média por pessoa equivalente a R$ 3,6 mil, corresponde a quase seis vezes o salário mínimo regional;
Nada menos que 99,5% dos domicílios são atendidos por rede de esgoto e mais de 96% das moradias da área têm acesso à rede de água tratada.




Em relação à geração de renda, podem ser encontradas no Meireles várias lojas, centros comerciais e hotéis de grande porte, restaurantes de alto padrão, agências bancárias, estabelecimentos de diversão e lazer, e todo tipo de serviços turísticos,  já que o bairro também inclui em seus limites as avenidas Dom Luiz e Beira-Mar, esta, o principal corredor turístico de Fortaleza.




Os imóveis localizados no Meireles são alugados rapidamente, apesar de custarem mais caros em relação aos outros bairros. Muita gente ainda quer morar perto da praia, fator que contribui para o maior preço nessa região. Atualmente, o valor médio do aluguel de um apartamento de 70 m² a 80m² gira em torno de R$ 1.800,00", afirma a diretora Comercial da SJ Imobiliária, Lídia Vieira. 




No entanto, isto não significa que seja um bairro homogêneo em relação à classe social.  O bairro chique, que conta com mais equipamentos, e os melhores serviços, também tem suas contradições, representadas pelo abismo social existente entre os moradores dos luxuosos edifícios e os moradores dos becos e vielas, que estão ali, dividindo o mesmo espaço.





Apesar do empenho do poder público em embelezar o bairro, há muitas reclamações por parte dos moradores, as principais são que, em muitos locais, o lixo se amontoa nas calçadas, não há fiscalização sobre a circulação das bicicletas e patinadores na orla, e a reforma do calçadão, que a Prefeitura tomou por concluída, está incompleta e malfeita




Localização:  entre os bairros Praia de Iracema, Aldeota, Mucuripe e Varjota.
Área: 2.528m²
Limites:
Norte – Oceano Atlântico
Leste – Rua Frei Mansueto
Sul – Avenida Dom Luiz e Rua Pereira Filgueiras
Oeste – Rua Dr. João Cordeiro
População – 36.982 habitantes, 
sendo 16.171 homens e 20.811 mulheres





Com relação à segurança pública, o bairro não apresenta nenhum diferencial em relação ao ao restante da cidade. A área dos condomínios é repleta de seguranças particulares,  exercendo funções que são da competência exclusiva do Estado;  as áreas públicas contam com policiamento ostensivo e insuficiente. Há na Avenida Beira Mar a presença constante de meninos e adolescentes, praticando furtos, inúmeros pedintes, além dos inconvenientes "flanelinhas". 
 



O Campo do América é um "espaço de resistência" dentro do bairro e a principal opção de lazer dos moradores menos favorecidos. Também pode ser considerado uma ilha em meio a um mar de concreto: localizado numa das áreas com o metro quadrado mais caro de Fortaleza, resistiu ao tempo e hoje é o único campo que resta na região. Fica entre as Ruas José Vilar, Nunes Valente, Pereira Filgueiras e Tenente Benévolo, a duas quadras da Avenida Barão de Studart.

Embora conhecido como Campo do América desde os anos 60, nunca foi do clube. Na época, o América trocou seu campo, localizado entre as ruas Tibúrcio Cavalcante, Oswaldo Cruz, Tenente Benévolo e Pereira Filgueiras, na Aldeota, pelo terreno na Avenida Dom Manuel, no centro, onde construiria sua sede, vendida em 1991 para quitar dívidas.
Como a comunidade ficou sem campo, que cedeu espaço para residências, o nome foi incorporado. O primeiro nome desse campo foi Vargas Filho, um conhecido time de futsal. Só com o fim do primeiro campo do América  é que passou a ser usado. Naquela época o campo ficava cerca de um metro acima do nível da rua. 


fotos: Fátima Garcia/Fortaleza em Fotos
pesquisa:
Fortaleza, uma breve história, de Artur Bruno e Airton de farias
Revista Fortaleza
IBGE