quarta-feira, 28 de maio de 2014

A Queda do Governador Clarindo de Queiroz

foto muito antiga da Praça general Tibúrcio (antigo Largo do palácio) no século XIX 

O general José Clarindo de Queiroz, ex-presidente da província do Amazonas, “herói” da Guerra do Paraguai, ficou a frente do governo cearense por apenas dez meses, consequência direta do apoio que prestou ao fracassado golpe de Estado de Deodoro da Fonseca em novembro de 1891 no Rio de Janeiro – por tal razão, Deodoro renunciou.
A ascensão de Floriano Peixoto à presidência da República e sua caça aos governadores que apoiaram Deodoro, soou como uma desgraça para Clarindo de Queiroz. Contando com o apoio do Congresso cearense, de parte da imprensa, da maioria dos oficiais do 11° Batalhão do Exército e até com certa simpatia popular, o general começou a sofrer intensa pressão do Presidente da República para que deixasse o governo. Recebeu de delicados memorandos pedindo seus serviços na capital do país a agressivos ultimatos.  A oposição bem articulada por Nogueira Accioly conspirava abertamente contra Clarindo. Este, a tudo resistiu, pelo menos até 16 de fevereiro de 1892.
Nessa data, após o governo federal mandar o 11° Batalhão “realizar exercícios práticos” em Maranguape (no intuito de esvaziar o apoio a Clarindo), alunos do Colégio Militar, marinheiros e o restante da força federal dirigidos pelo major Bezerra de Albuquerque, se revoltaram e usando canhões e metralhadoras, exigiram a renúncia do general.  


Uma multidão se postou nas imediações do Palácio da Luz, onde o governador Clarindo de Queiroz resistiu por uma noite, ao cerco dos revoltosos que queriam sua saída do governo do Ceará

O centro de Fortaleza virou uma praça de guerra. Clarindo de Queiroz  apoiando-se numa minguada força policial e em alguns civis (entre os quais o Conselheiro Rodrigues Junior) resistiu aos golpistas. Os oposicionistas levantaram barricadas, bombardearam a sede do governo na Praça general Tibúrcio. O tiroteio se estendeu por toda a noite e provocou pânico na população. Na manhã do dia 17, com o Palácio da Luz crivado de balas, o governador sem munição para continuar a luta, rendeu-se aos inimigos e entregou o cargo ao tenente-coronel José Freire Bezerril Fontenele, deputado e comandante interino do Colégio Militar. Treze pessoas perderam a vida no confronto. A praça foi completamente destruída – num canto desta, curiosamente, encontrou-se a estátua do General Tibúrcio, tombada de seu pedestal, em pé, após ser atingida por tiros de canhão. 

 aspecto da Praça General Tibúrcio depois do cerco ao Palácio da Luz


Clarindo em seguida, partiu para o Rio de Janeiro, onde em dezembro de 1893 viria a falecer em decorrência das torturas sofridas na prisão, pois fora um dos 13 generais desterrados por decreto de Floriano Peixoto ao pedir a renúncia deste. A 18 de fevereiro de 1892. No dia posterior ao golpe, Bezerril passou o comando do executivo cearense ao vice-presidente Liberato Barroso.  Começa então, uma intensa perseguição aos partidários de Clarindo de Queiroz e Deodoro da Fonseca. O grupo dos maloqueiros e Rodrigues Junior eram os mais visados. Foram efetuadas várias prisões arbitrárias e demissões de funcionários públicos e até de quatro desembargadores do Tribunal de Apelação (atual Tribunal de Justiça) e 12 juízes do interior. Além disso revogou-se a Constituição Estadual de 1891, promulgada durante a gestão de Clarindo de Queiroz e dissolveu-se o congresso cearense – composto por câmara, e senado estadual de maioria pró-Deodoro – sendo convocado outro com poderes constituintes a 12 de maio. Este novo congresso, promulgou a segunda Constituição do Ceará em 12 de julho de 1892. Na mesma data, Liberato Barroso deixou o governo do Estado, sendo substituído interinamente por Nogueira Accioly, eleito pelo Congresso primeiro vice-presidente. A 27 de agosto empossou-se no governo o tenente-coronel José Freire Bezerril Fontenele, escolhido também indiretamente pelos deputados estaduais.
 

a Praça em 1900

O grande articulador e vitorioso com a queda de Clarindo de Queiroz foi Nogueira Accioly. Contando com o apoio dos cafinfins, do Comendador Boris (da Casa Boris), do Barão de Ibiapaba e do governo federal, seu grupo ascendeu ao controle da máquina administrativa cearense. Durante o governo de Bezerril consolidou-se do regime republicano no Brasil e no Estado. O governador procurou adequar os municípios ao novo regime, e aqueles que não cumprissem as novas exigências, seriam anexados ao vizinho que tivesse a situação já regularizada. Vários adversários acabaram perseguidos e forçados a emigrar. O presidente Bezerril não realizou nenhuma obra de relevo para o Estado. Limitou-se a arrecadar quantia considerável de recursos  através de uma eficiente máquina tributária. Era o que ele chamava de “reserva sagrada”. Nisso tudo, Nogueira Accioly – escolhido senador em 1894 – contribuía, participava, influenciava. Em 1896 foi escolhido como sucessor de Bezerril. Nas décadas seguintes sofreria o Estado nas mãos de uma das mais duradouras oligarquias de sua história: a Oligarquia Accioly.


Extraído do livro de Airton de Farias
História do Ceará         

2 comentários:

Luiz lacerda Lacerda disse...

PARABENS PELA DIVULGAÇÃO DE NOSSA HISTÓRIA, O POVO HOJE PREOCUPADO APENAS COM ATUALIDADES DEIXAM PRA LÁ VERDADEIRA RELÍQUAS DO NOSSO PASSADO.

Anônimo disse...

muito o texto. informação é cultura.