quinta-feira, 23 de maio de 2013

"A Cearense" a primeira loja elegante de Fortaleza


 Praça do Ferreira, década de 1920

Em Junho de 1918 Fortaleza era um burgo com pouco mais de 100 mil habitantes. Seu comércio se concentrava ao redor da Praça do Ferreira. O “Moderno” e o “Art Nouveau” recebiam a frequência mais selecionada. O restaurante Rotisserie recebia os clientes com sua orquestra em animadas tertúlias que iam noite adentro.
No centro da praça, o coreto onde a banda da Polícia Militar fazia retretas para a juventude que vinha fazer o footing no logradouro.  Havia ainda o prédio da Intendência Municipal com sua parte térrea tomada de pontos comerciais: A Gruta, o Cascatinha... Quintino Cunha recitava poemas no coreto, Demócrito Rocha agitava as massas com discursos inflamados na pré-revolução de 30, quando nasceu A Cearense, de Aprígio Coelho de Araújo. 


A loja instalou-se na esquina da Rua Pedro Borges (chamada na época de Beco dos Pocinhos), no local onde mais tarde funcionou o Armazém Nordeste. Ali os bondes de vários bairros se cruzavam  para deixar seus passageiros; ali as mocinhas da Escola Normal , de saias vermelhas encantavam os rapazolas; ali a Fortaleza dos tempos do bode Yoyô conheceu sua primeira loja elegante, criada pelo espírito evoluído de Aprígio Coelho de Araújo.

Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco) em 1908

Nos anos 30 Aprígio Coelho deu início a descentralização do comércio de Fortaleza, dominado pela mania da Praça do Ferreira. Comprou o terreno da Rua Barão do Rio Branco, e não faltou quem criticasse a iniciativa “aquilo lá era ponto para comércio...” Aprígio não ouviu as críticas, acreditou no futuro da cidade, lançando as bases promocionais do chamado “quarteirão sucesso”  e construiu sua nova A Cearense. 


Gastou em 18 meses de trabalho na construção a importância de 1 mil contos de Réis, muito dinheiro pra a época. A Cearense tornou-se a mais bonita loja de Fortaleza, talvez do Nordeste. Pra concebê-la Aprígio viajou para os Estados Unidos.  Lá achou tudo desmesurado, grande demais para ser copiado aqui, e ao retornar, seguiu para Buenos Aires e Montevidéu, de modo que a loja era um misto de modelo argentino uruguaio e também americano. 


 Praça do Ferreira no final dos nos 60

Em 1968, quando a loja completou 50 anos de existência, Aprígio vendeu seu tradicional estabelecimento ao grupo pernambucano Lundgren Tecidos, que fechou A Cearense para colocar mais uma Loja Pernambucanas. 


fotos do Arquivo Nirez
extraído do jornal Unitário de 7 de julho de 1968
  

Um comentário:

Rejane M.M.de Souza disse...

Conheci o Sr. Aprígio Coelho de Araújo Neto, na década de 80, nos seus últimos tempos de muita saúde e vida ele morava no bairro Serrinha próximo a Av. Dedé Brasil, ele já estava com mais ou menos na casa dos 90 anos , era um sítio e quando ia aos domingos almoçar juntamente com a família se encontrava nos aposentos lendo jornais como sempre arrumadinho com um boné vermelho, era um homem pequeno na estatura, mas na sabedoria ele tinha pra dar e vender viu, uma figura inigualável, era um privilégio ouvir a conversa dele. Homem inteligente e sábio, deixou muitos netos e que hoje alguns seguiram sua profissão na área de comerciante com tecidos no centro de Fortaleza.
Parabéns pelo documentário e que me fez relembrar minha adolescencia. e sem falar que o Sr. Aprígio Coelho fez parte da história de Fortaleza. Obrigada!