quarta-feira, 6 de abril de 2011

Canto de Amor à Fortaleza

foto tirada do 8° andar do edificio situado na Avenida Heráclito Graça com Avenida  Dom Manuel. Ao fundo à esquerda,  as torres da Catedral e a Praia de Iracema

Cidade das velhas serenatas,
Das doces pastorinhas e fandangos
Das retretas românticas, das valsas,
De usanças que o tempo já não traz,
Quem foi que sepultou teus violões,
Tuas festas de Reis, tuas lanternas,
Teus sobrados, serões e bandolins?
Quanto sofro por ti, pois te desnudam
E te tornam uma girl made in U.S.A
E já não ouves os sinos que te chamam
Cidade das lagoas circundantes
E de becos solitários e cruéis
Na Praça do Ferreira – desvairada
Teu coração se encontra palpitando
E sofre as tuas dores e retém
A memória gentil de tua infância.

Extraído do poema Canto de amor a Fortaleza 

terça-feira, 5 de abril de 2011

Fortaleza e a Evolução Urbana

Fortaleza - 285 anos 


A evolução urbana de Fortaleza foi lenta no século XIX e com baixo crescimento demográfico. A população era de 12.195 habitantes em 1813. Em 1837 passou para 16.557 habitantes, e chega ao final do século com 50.000 moradores. Em 1800 a cidade contava com um arruador, que organizava o traçado das ruas, e treze anos depois, havia uma planta parcial da Vila, elaborada pelo engenheiro Silva Paulet.

Poucas edificações se destacavam. O sobrado do Comendador Machado, com três pavimentos, era o mais alto. A época de maior desenvolvimento de Fortaleza inicia-se a partir da metade do século XIX, possuindo o hoje centro histórico, 1.418 casas, das quais 517 eram de tijolo e telha.


Cartão postal do Mercado de Ferro (arquivo Ah, Fortaleza!)

No período compreendido entre a metade do século XIX e a 2ª Guerra Mundial no século XX, é que foi construído praticamente todo o patrimônio edificado de maior significação de Fortaleza, e ele era composto por um harmônico conjunto de edifícios residenciais e, inserido nele, um moderado número de monumentos arquitetônicos, na sua maioria, de construção modesta, mas significativo para recontar do seu crescimento.

A arquitetura da cidade compondo com seu entorno imediato, foi um dos legados mais importantes deixados para a nossa história. Tinha seu ponto alto na riqueza dos conjuntos edificados, geradores dos seus espaços urbanos, que eram coerentes, extremamente proporcionais, harmoniosos em beleza, formas e cores, que delinearam a silhueta da cidade.

Foi esse espaço organizado de maneira apurada, que deu importância à cidade de Fortaleza. A largura das ruas, os espaços abertos, as praças, o dimensionamento dos lotes, a altura homogênea, fizeram essa coerência.


Cartão postal do Colégio Imaculada Conceição e sua Igreja do Pequeno-Grande. (arquivo Ah, Fortaleza!) 

É precisamente nesse período que grandes empreendimentos envolvendo novas tecnologias construtivas foram feitos no Estado e mais precisamente, em Fortaleza. A estrada de ferro, inaugurada em 1873, insere na construção a estrutura metálica na execução de suas pontes e armazéns, chamando a atenção para essa nova forma prática de construir. A cidade começava a despontar no cenário político econômico da região, passando por um processo de modernização, provocado pelo florescimento da ciência  e da tecnologia, gerado pela revolução industrial. 

O algodão foi o produto impulsionador desse crescimento, e o intercâmbio comercial com a Europa, fez com que as informações sobre novos produtos chegassem aqui com muita rapidez, através de serviços de tecnologia moderna como o telégrafo e a telefonia (1883).

Nesse contexto surge a ideia de um mercado público para Fortaleza, executado em ferro. A ideia, contudo, só foi concretizada mais de duas décadas depois. O Mercado da Carne foi inaugurado em 1897.


Cartão postal que mostra a atual sede do Ipham, o Theatro José de Alencar e o centro de saúde na rua Liberato Barroso (arquivo Ah, Fortaleza!).

área interna do Theatro José de Alencar (foto: Fortaleza em Fotos -2011)

A partir desse evento, a cidade adota de maneira fugaz essa nova forma de construir. A capela do Pequeno Grande, com sua bela estrutura coberta, foi inaugurada em 1903. As praças se enchem de quiosques, coretos, bancos de jardins, balcões, varandas e uma infinidade de novos elementos que passaram a compor de forma graciosa a arquitetura de Fortaleza, que chegou ao seu momento de maior esplendor com a construção do Theatro José de Alencar, em 1910.


Fonte:
Capelo Filho, José. Patrimônio Edificado de Fortaleza.


segunda-feira, 4 de abril de 2011

Parque Pajeú

Fortaleza - 285 anos 

O Parque Pajeú foi criado em 1982 pela Prefeitura de Fortaleza. Em 1997 a Prefeitura, o Clube dos Diretores Lojistas e vários artistas plásticos transformaram o parque numa área de exposição permanente de esculturas, que passou a ser conhecido também como Parque das Esculturas. 
Naquele ano de 1997 foram colocadas 16 esculturas de renomados artistas cearenses. Com o passar do tempo várias obras sumiram da área do parque, não se sabe se foram retiradas para recuperação, ou se foram roubadas. 
O Parque Pajeú fica localizado entre a Avenida Dom Manuel e a Rua 25 de Março.






A área do parque de cerca de 15 mil metros quadrados, é cortada pelo Riacho Pajeú, cuja urbanização foi uma das motivações para a criação do parque. A estrutura do parque conta com bancos, muitas árvores, pontes e serviços de limpeza. Pelo menos, observei alguns garis fazendo a varrição e não há acúmulo de lixo dentro da área interna do parque. 
Mas a limpeza que se faz mais urgente é certamente, a das águas do Pajeú.








O Pajeú  tem sua nascente (hoje aterrada) nas imediações da Rua Silva Paulet, percorre quase 5.000 metros até sua foz, na Praia Formosa.
O riacho já foi chamado de Marajaik, na época da ocupação holandesa. Mais tarde foi chamado de Ipojuca, Telha e por último, Pajeú.
 Corre a céu aberto em alguns trechos, como atrás do Mercado Central, no bosque do Paço Municipal e no Parque Pajeú. A maior parte está canalizada em galerias subterrâneas.



As intervenções no riacho foram iniciadas ainda no século XIX, segundo alguns escassos registros. A obra de canalização de maior destaque, porém, foi realizada no início da década de 1980, numa extensão de 3.360 metros. 
Documentos oficiais da Prefeitura de Fortaleza dão conta de que, nesse processo, o leito original foi modificado e o curso desviado por causa das edificações já existentes, evitando os altos custos das indenizações



Hoje o riacho histórico, que viu nascer a cidade, jaz numa vala fétida, cujo odor é sentido de longe. O Pajeú foi  assassinado por intervenções desastrosas, aterramentos, toneladas de lixo e esgotos clandestinos.
 Em suas águas escuras e poluídas, o reflexo do abandono e da incompetência de uma cidade que não preza nem a beleza nem a importância de seus recursos naturais.

fotos de Fátima Garcia
abril/2011

domingo, 3 de abril de 2011

O Café do Pedro Eugenio

Fortaleza - 285 anos

Avenida Visconde de Cauípe, atual Avenida da Universidade (Arquivo Ah, Fortaleza!)

O antigo Café do Pedro Eugênio ficava na segunda seção da linha do Benfica, ao lado dos números pares. Tendo ao lado frondosas mangueiras, eram colocados bancas de mármore e cadeiras desmontáveis, com assentos e encostos de madeira envernizada. 

Era semelhante ao Café Java, na Praça do ferreira. Era feito de taliscas de madeira pintada de verde, com detalhes brancos. O proprietário morava vizinho e quando, quando apareciam altas horas da noite um bando de seresteiros notívagos, Pedro Eugênio levantava-se e ia abrir o estabelecimento a fim de servi-los com a melhor cachaça de Aracati.

Em 1906, ao se deitar certa noite, ouviu que estavam cantando em frente ao seu quiosque, mas o cansaço e o sono eram tão grandes que não teve coragem de se levantar para abrir o estabelecimento.

Pela manhã, quando foi abrir o café, percebeu assombrado que a porta havia sido aberta á força. Constatou surpreso que, sobre uma das mesas de mármore, havia um livro de poesias e muitas quadras escritas à lápis no mármore, todas assinadas pelos respectivos autores: Raimundo Ramos, Fernando Weyne, Quintino Cunha, Virgilio Brandão, Amadeu de Castro, Carlos severo, Carlos Gondim e os músicos Mamede Cirino, Elesbão, Abel Canuto e Pompílio. O livro de poesias era Cantares Boêmio, de Raimundo Ramos, conhecido como Ramos Cotoco.

O episódio  chamou a atenção de todos e um jornal da época escreveu uma reportagem sobre o fato, que saiu publicada na Revista O Malho, de grande circulação em todo o país. 
A pedra na qual foram escritas as trovas foi conservada durante vários anos, coberta com vidro e enviada para o Rio de janeiro, em 1915, quando Pedro Eugênio faleceu. 

No Café do Pedro Eugênio iam centenas de pessoas, de sábado a domingo, de todos os bairros de Fortaleza, saborear o delicioso cardápio, cantar, recitar, discutir política.
Atendendo ao pedido de sua mulher que se achava cansada de tanto trabalho, Pedro Eugênio vendeu o café,  muito contra a vontade, e mudou-se para um local distante. 

Com sua saída, o café começou a decair e a freguesia a procurar outros locais. Um dia, Tomé Mota, proprietário da Empresa Ferro Carril – de bondes puxados a burro – descobriu que a linha do Benfica não estava dando lucro, o que se devia ao fraco movimento do café. O empresário procurou o velho Eugênio e propôs recomprar o estabelecimento e entregá-lo novamente ao antigo dono. Pedro Eugênio não hesitou, e voltou alegre e feliz ao antigo local de trabalho. 

bonde elétrico da linha do Benfica (arquivo Cepimar)

Logo depois da instalação da nova Companhia de Bondes Elétricos, estabeleceu-se uma parada em frente ao café. Pedro Eugênio residia no casarão vizinho onde funcionou o Dispensário dos Pobres. 


Extraído do livro

sábado, 2 de abril de 2011

Os Primeiros Mapas

Abril mês do aniversário de 285 anos de Fortaleza


A história oficial da cidade, ainda nem havia começado. Datam de tempos anteriores à elevação do povoado à condição de vila, os primeiros registros cartográficos da área onde hoje se encontra a Capital do Ceará. Há notícia, ainda dos remotos anos de 1600, de mapas que representam a incipiente ocupação portuguesa às margens do Rio Ceará, definindo de modo precário, a localização da aldeia de Nova Lisboa, fundada por Pero Coelho.
O começo da história da vila de Fortaleza foi mapeada pelos holandeses, que escolheram a margem esquerda do riacho Pajeú para erguer um pequeno forte, do qual surgiria a Fortaleza que emprestou o nome à vila. 


Mapa de Matias Beck "Planta do Forte Schoonenborch da bahia de Mucuriba e do Monte Itarema situados no Siara aos 28 de abril de 1649 (Arquivo Nirez) 


É atribuído a Matias Beck o mapa de 1649 que mostra a costa de Fortaleza, do Mucuripe à barra do Ceará, localizando o forte e vários acidentes geográficos, bem como o caminho para as minas de Itarema. 
Foi a ocupação portuguesa, no entanto, que iniciou o desenho definitivo da cidade que se ergueria sobre o areal da Prainha, a leste da Vila Velha do Rio Ceará, a oeste da Enseada do Mucuripe, onde os primeiros europeus teriam pisado o solo cearense.
Deve-se em parte, ao capitão-mor Manuel Francês o esforço para transformar em vila o pequeno povoado do Forte. A Capitania do Ceará já tinha a sua vila, a de Aquiraz, instalada em 1713. Manuel Francês e o padre João de Matos Serra intensificam um movimento junto à Coroa para criação de outra Vila, no forte, o que acontece em 1726. 


Planta feita pelo capitão-mor Manuel Francês quando da instalação da Vila de Fortaleza de Nossa senhora d'Assunção do Ceará Grande (Arquivo Nirez)


É também a Manuel Francês que se deve o primeiro registro iconográfico da pequena Vila. O mapa, que hoje se encontra no Arquivo Ultramarino de Lisboa, foi descrito pelo padre Serafim Leite: 
Em cima do mapa, no ângulo direito, está a Fortaleza, com a bandeira portuguesa e três peças de artilharia visíveis, uma a disparar. Entre o Forte e a regata, uma casa assobradada, e entre a regata e o mar, outras. A seguir à Fortaleza, na mesma linha para o interior, uma casa pequena e depois a Casa da Câmara, com doze portas e outras tantas janelas. Em frente da Câmara e do Forte, a praça com os símbolos municipais, coincidindo o pelourinho com a frente da Câmara, e a forca com a da Fortaleza.



Maquete de Fortaleza feita por Sérgio Marques, Edite Colares, Cartaxo de Arruda Jr. e Wanderley Palmiro, a partir de desenho feito pelo Capitão-Mor Manoel Francês em 1726.
  Acervo do Museu do Ceará


O risco forte do Riacho Pajeú marca o mapa. E seria por muito tempo, o limite – a leste – do desenho urbano da pequena vila, futura capital. 
Nasce o Século XIX e a Vila de fortaleza ainda termina na margem do Pajeú. Para além dali, a leste, apenas a picada que ligava ao Mucuripe e poucas casas.

 

No mapa riscado pelo capitão de fragata Antonio Marques Giraldes, que tinha o intuito de registrar a geografia da enseada da vila, para alcançar a tão sonhada meta de instalar um porto na região da Prainha, aparecem algumas edificações que podem ser localizadas: além do forte e da Matriz, aparece também a Igreja do Rosário, a mais antiga edificação de Fortaleza que permanece de pé até os dias atuais.  


fontes:
Cronologia Ilustrada de Fortaleza, de Miguel Ângelo de Azevedo, Nirez
Revista Fortaleza, fascículo 10, de 11 de junho de 2006.