Mostrando postagens com marcador açudes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador açudes. Mostrar todas as postagens

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A Inauguração do Serviço de Abastecimento e Saneamento de Fortaleza

Em 21 de junho de 1911, o presidente Nogueira Accioly inicia as obras de abastecimento,  com a construção de duas caixas d’água de ferro, na Praça Visconde de Pelotas e a implantação dos canos para o fornecimento e distribuição de água, tendo à frente o Engenheiro João Felipe. O trabalho foi interrompido com a revolta de 1912.

   fotografia feita do alto das caixas d'águas da Praça Visconde de Pelotas (arquivo Nirez)

O serviço foi abandonado e ficou parado muitos anos. Tão abandonado que as caixas d’água criaram ferrugem e os canos ficaram expostos até se destruírem. Depois foi retomado, em meados da década de 1920, com um projeto inicial de Saturnino de Brito. Mais tarde  veio a firma americana Dwight P. Robinson e Co. Inc. fazer a fase de ampliação e terminar o serviço de água e esgoto, daí é que surgiu o projeto de tratamento de água do Acarape, similar ao que era usado em Castle, nos Estados Unidos.

No dia 3 de maio de 1926, foi oficialmente inaugurado o sistema de abastecimento de água e as caixas d’água da Praça de Pelotas. 


As caixas d'águas foram construídas no inicio do século XX, no governo de Nogueira Accioly (arquivo Nirez)

Vitoriano Borges de Melo, que tinha executado o projeto, e fez a apresentação do sistema, explicou que não havia perigo de vir nenhum peixe na adutora, porque a estrutura do peixe não suportaria a pressão da água com três atmosferas, como era a tomada d’água. 

Depois de muito aplaudido na apresentação técnica do serviço, ele passa o controle do registro ao governador, José Moreira da Rocha (1924-1928), vulgo Moreirinha para a abertura das torneiras. 


Governador do Estado no período de 1924 a 1928, José Moreira da Rocha, mais conhecido como "Desembargador Moreira" (e pelos íntimos como "Moreirinha") fez um dos piores governos da história do Ceará 

Quando o Moreirinha deu a primeira volta do registro, salta um peixe no calçamento.  O povo gritava: pega o peixe! numa tremenda gozação.  
Borges de Melo não sabia como justificar a presença do peixe, já que ele havia demonstrado, tecnicamente,  que aquilo não podia acontecer.  Enquanto a meninada corria para pegar o peixe, Borges de Melo ficou num silêncio constrangido, sem perder a calma, até o fim da solenidade.

No dia seguinte foi que ele deduziu o que havia de fato acontecido:  na véspera da inauguração, tinha havido o rompimento de um cano na Lagoa de Porangabussu, e esse peixe deve ter vindo em uma bolha de ar na cabeceira do jato d’água, e aí, na inauguração, ele saltou. O peixe não foi esmagado porque estava dentro de uma ampola de ar. Então o Borges de Melo voltou ao local para explicar ao povo o que tinha acontecido.

O fornecimento de água na cidade voltou a ser alterado em 1975, com a inauguração em 30 de setembro, do primeiro reservatório do sistema Pacoti, o Açude Gavião. 


fontes:
Cronologia Ilustrada de Fortaleza, de Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez)
Roteiro Sentimental de Fortaleza - depoimento de José Barros Maia (Mainha)
http://www.enciclopedianordeste.com.br/biografia-desem.php

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Quando o Mar era o Açude do Boris

Porto do Mucuripe ainda em construção, década de 1940 (foto Ah, Fortaleza!) 

O que teria levado Alphonse Boris a buscar o Ceará e a se integrar ao cotidiano da capital com tanto ânimo e determinação?  Quando desembarcou em Fortaleza, no dia 6 de agosto de 1865, do vapor Paraná, a cidade não tinha jeito de capital.  O francês deve ter passado maus momentos ao desembarcar  do navio ancorado ao largo, e embarcar no bote que o traria até a praia. Acertara um ponto perdido do mapa, entre a opulência de Pernambuco e o Maranhão, que já fora França Equatorial.

A ligação do Ceará com a Europa começara desde a remessa, em 1809, de produtos da terra, e amostras de algodão para Londres. No ano seguinte, o irlandês William Wara fundaria a primeira casa de comércio exterior.

Com as ideias fora do lugar, em plena vigência da escravatura, a firma Albano & Irmão  declarava aos fregueses do interior da província que não se encarregaria da venda nem do embarque de escravos.  Sinal dos tempos: o Hotel de França precisava de um ajudante de cozinha e preferia que fosse livre a escravo.

Hotel de France (foto Ah, Fortaleza!)

Theodore Boris chegou dois anos depois, desembarcando no Recife e refazendo a travessia das boiadas até o Icó. Da ribeira do Salgado até Fortaleza, enfrentou uma enfadonha viagem em lombo de burro. O pretexto era conhecer melhor a terra onde se fixariam e atuariam , em 1869, com a firma Theodore, Boris & Frères.

Em 1867, Fortaleza inaugurava sua biblioteca pública e o arquivo da província; Dom Luiz Antônio dos Santos, primeiro bispo do Ceará, investido em 1861 viajava para Roma, e o Seminário da Prainha formava as elites desde 1864. A água encanada jorrava das torneiras de cobre e inaugurava-se a iluminação parcial da cidade e de alguns edifícios, como o Clube Cearense.  A Associação Comercial tinha sido fundada no final deste ano.

Palacete Ceará, que abrigou, em seus andares superiores, o Clube Iracema (arquivo Nirez) 
 
Nunca ninguém buscou tantas oportunidades e soube criar tantos negócios como os Boris, apontando em uma globalização avant la lettre (antes de o termo existir), visto que eles haviam estabelecido a matriz em Paris, a capital do século XIX.

Naquele instante o Ceará vivia seu maior período sem estiagens, os quarenta anos de bonança (1846/1876), que antecipariam a seca de 1877/79, quando um quarto da população da província sucumbiria à fome e às epidemias.  A primeira temporada cearense dos Boris foi curta. A guerra franco-prussiana entre 1870/1871 os levou de volta para a Europa. 

Theodore retornaria em 1872, em companhia de Achille e Adrien; Isaie só chegaria em 1878. Em pouco tempo faziam parte da vida da cidade, preocupados que estavam em impulsionar a nossa economia.
O Cemitério São João Batista, implantado em 1866, obrigaria a sepultar os judeus fora de seus muros, assim foram enterrados Aron Braun, Josephine Levy, Lazare Gradvhol, e Adrien Boris.  Anos mais tarde, a expansão do campo santo trouxe os excluídos para o lado de dentro dos seus muros.

A partir de 1875, o aformoseamento mudaria as feições da cidade, com a construção dos boulevards, dos jardins, de alguns prédios públicos. Fortaleza se preparava para ser capital. Isaie fez parte da comissão que negociou a participação cearense na Feira de Chicago em 1893, com direito a catálogo bilíngue, nossa primeira peça de propaganda institucional.

Os Boris foram importadores e exportadores, representaram o Banco do Brasil, operaram com seguros, trabalharam com algodão, e traçaram planos de construção de ferrovias, das serras para o sertão , como meio de escoar a produção de frutas que pretendiam vender para a Europa.

Casa Boris (foto de Mauricio Cals)
Poderosos   na navegação e nos afretamentos, se fixaram no imaginário popular , como os donos do mar, esse açude sem fim. Nunca desanimaram e mesmo nos instantes mais difíceis continuavam com sua Casa, os mais velhos passando o comando para os mais novos.

Chegaram a tal grau de integração cultural que conheceram Padre Cícero,  acolheram o beato José Lourenço na fazenda Serra Verde em Caririaçu (depois do massacre de 1936), e receberam na mesma fazenda , a visita de Patativa do Assaré, em 1956, que os presenteou com versos improvisados , por ocasião do aniversário de Dona Janine:

Eu vivo a pensar de cá
no senhor Bloc-Boris,
Sebastião e Assis, 
e demais amigos de lá, 
tudo em minha vida está,
do velho, o moço, a criança, 
da terra cor de esperança, 
doce passado relembro,
dezenove de setembro, 
vive em minha lembrança.

O mar não é mais o açude do Boris, mas ficaram as memórias e os feitos dos empreendedores franceses nas terras de Iracema, que mudaram o sotaque, escreveram e protagonizaram uma parte da história do Estado e principalmente, de Fortaleza.

Extraído do artigo
Quando o Mar era o Açude do Boris, do professor Gilmar de Carvalho.