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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Os Patronos da Educação em Fortaleza

 

Geralmente a escolha dos nomes das escolas públicas envolvem homenagens a educadores, figuras históricas ou personalidades relevantes para a comunidade. O nome ideal deve ser fácil de lembrar, transmitir o diferencial da escola, e ser único para evitar confusões com outras instituições. As escolas de Fortaleza não fogem a regra, com predomínio de em nomes de educadores e políticos. 

Professores – Intelectuais

EM Professor José Valdevino de Carvalho – R. Guará, 98, bairro Parangaba


José Valdevino (Valdivino) de Carvalho (1911–1987) foi professor, poeta, escritor e acadêmico cearense. Graduado em Direito, foi professor de Português e Francês, destacando-se no magistério. Membro da Academia Cearense de Letras.

EM Manuel Lima Soares – Rua Cento Trinta, 60 - Parque Dois Irmãos

Manuel Lima Soares (1923–1990) professor, intelectual, jornalista e político cearense, radicado em Fortaleza. Atuou como vereador, redator e ocupou cargos na Secretaria de Educação do Ceará, sócio efetivo do Instituto do Ceará.

EMEIF Thomaz Pompeu Sobrinho – Rua José Meneleu, 531 – bairro Itaperi

Thomaz Pompeu de Sousa Brasil Sobrinho nasceu em Fortaleza em 1880. Formou-se em engenharia pela Escola de Ouro Preto, MG, com atuação em várias obras públicas. Foi membro efetivo do Instituto do Ceará e membro da Academia Cearense de Letras. Faleceu em 1967.  

EEFM Joaquim Alves – Rua Estado do Rio, 955 – bairro Demócrito Rocha

Joaquim Alves de Oliveira foi historiador, nascido em 1896. Membro efetivo do Instituto do Ceará, fundador da Sociedade Cearense de Geografia e História, e membro da Sociedade Brasileira dos Amigos de Astronomia e do Instituto do Nordeste.

EEEP Joaquim Moreira de Sousa – Rua Caio Prado, 2 – bairro Parangaba

Joaquim Moreira de Sousa foi diretor Geral da Educação no Ceará, cargo que ocupou entre 1933 e 1936. Ao ser exonerado, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro.

EMEIF Waldemar Barroso – Rua Cônego Lima Sucupira, 410 – bairro Serrinha

Waldemar Barroso de Souza Cordeiro nasceu em 1909, em Trairi-Ce. Foi juiz de direito em diversas comarcas quando se aposentou em 1961. Faleceu em Fortaleza em 1997.

EMTP Cláudio Martins – Rua Barão de Canindé S/N – Bairro Montese

Foi advogado, escritor, poeta e professor cearense, além de ter sido Presidente da Academia Cearense de Letras. Foi Secretário de Estado e titular das pastas da Fazenda e Educação. Nasceu em Barbalha em 1910 e faleceu em Fortaleza em 1995

EMTI Professora Antonieta Cals – Rua Monsenhor Salazar, 1480 – Bairro Tauape

Maria Antonieta Cals de Oliveira, educadora cearense, primeira mulher a gerir a Secretaria de Educação do Estado do Ceará. Pedagoga formada pela Uece, ela foi secretária de educação municipal e estadual, além de presidente do Conselho Estadual de Educação. 

EEEP Professor Joaquim Antônio Albano – Rua Júlio Siqueira, 390 – bairro Dionísio Torres

O Professor Joaquim Antônio Albano foi um educador e figura notável em Fortaleza, cujo legado é perpetuado na educação estadual.

EEFM Professor Jader Moreira de Carvalho – Rua Heloísa Ferreira Lima, 420 – Bairro Serrinha

Jáder Moreira de Carvalho (1901–1985) intelectual que atuava como professor, jornalista, advogado e escritor modernista, autor de romances como "Aldeota". Fundador do jornal Diário do Povo e membro da Academia Cearense de Letras. 

EMTI Professor José Júlio da Ponte – Rua Mario de Andrade s/n Bela Vista

José Júlio da Ponte Filho (1935–2013) agrônomo, pesquisador e professor emérito da Universidade Federal do Ceará, referência nacional em Fitopatologia. Pioneiro no uso de alternativas naturais a agrotóxicos, e pela pesquisa com manipueira no combate a pragas.

EEMTI Professora Adalgisa Bonfim Soares – Avenida Penetração Norte, 150 – bairro Conjunto Esperança

Adalgisa Bonfim Soares (1921–1979) foi uma educadora cearense, nascida em Redenção, Ceará, reconhecida por sua brilhante trajetória profissional no magistério.

EMTI Filgueiras Lima – Avenida dos Expedicionários, 3910 – bairro Jardim América


Antônio Filgueiras Lima (1909/1965). Educador, poeta e político cearense, fundador de diversas escolas e defensor da pedagogia funcional no Ceará. Fundou o Colégio Lourenço Filho e atuou como Secretário de Educação e Saúde do Ceará.

EEEP Joaquim Nogueira – Rua Moreira de Sousa, 327 – bairro Parquelândia



Joaquim da Costa Nogueira (1866-1935) foi um educador, diretor de colégios, fundador do Instituto de Humanidades em 1904, e editor de livros didáticos em Fortaleza, reconhecido por sua dedicação ao ensino e à educação do Ceará.   

EMEIF Professora Maria Odnilra Cruz Moreira – Avenida das Adenanteras, 800 – bairro Cidade 2000

Maria Odnilra Cruz Moreira nasceu em Juazeiro do Norte, CE, em 1922. Exerceu o magistério em várias unidades escolares, das redes municipal e estadual exercendo os cargos de professora e vice-diretora. Faleceu em 2001.

EMTI Professora Maria José Ferreira Gomes – Rua Cônego de Castro, 8617 – Bairro Parque Presidente Vargas

Maria José dos Santos Ferreira Gomes foi professora e educadora brasileira.  Atuou no Colégio Sant'Ana e no Dom José Tupinambá da Frota em Sobral. Faleceu em 2015, aos 86 anos.

EMEIF Ismael Pordeus – Rua Desembargador Faustino Albuquerque, 511 – bairro Jardim das Oliveiras

Ismael de Andrade Pordeus (1912–1964) historiador, pesquisador e sócio do Instituto do Ceará. Atuou como técnico de pesquisas no Arquivo Público e publicou diversas obras sobre fatos históricos. 

EMEIEF Mozart Pinto – Rua Jorge Dumar, 2078 – bairro Jardim América

Mozart Pinto Damasceno foi professor, conferencista, musicólogo, nascido em Canindé, em 1886. Membro da Academia Cearense de Letras e professor do Colégio Militar de Fortaleza e da Escola Normal. Faleceu em 1948.

EEEP Dona Creusa do Carmo – Avenida Sargento Hermínio, 2006 – bairro Monte Castelo


EM Creusa do Carmo Rocha – Rua Duas Nações, 1055 –bairro Granja Portugal


Creuza do Carmo Rocha (1897-1974) foi diretora-presidente do jornal O Povo, casada com Demócrito Rocha.


Religiosos

EMEIF Dom Manuel da Silva Gomes – Rua Samuel Uchoa, 550 – Bairro Bom Futuro




Dom Manuel da Silva Gomes (1874–1950) primeiro Arcebispo Metropolitano de Fortaleza entre os anos de 1915 a 1941. Nascido em Salvador, atuou ativamente na assistência social durante a seca de 1915 e impulsionou a criação das dioceses de Crato, Sobral e Limoeiro do Norte. 

EM Padre Felice Pistone – Rua Júlio César, 1810 – bairro Damas

Padre Felice Pistone foi um sacerdote católico, italiano, associado à congregação Sagrada Família de Nazaré, conhecido no Brasil por seu trabalho na educação e assistência social.  Está ligado ao desenvolvimento de ações voltadas a crianças e adolescentes, no contexto da expansão dos Colégios Piamarta no Brasil, que teve início em 1957.

EEFM Padre Rocha – Rua Coronel Alves Teixeira, 525 – bairro Joaquim Távora

Antônio Cândido da Rocha (1854-1932), Padre Rocha para os seus conterrâneos, padre, orador, jornalista, professor, Deputado Provincial e Constituinte, Diretor da Escola Normal de Fortaleza e Dramaturgo nasceu em Jaguaruana.


Escritores

Escola Municipal Antônio Sales – Rua Tavares Iracema, 675, bairro Rodolfo Teófilo

Antônio Sales foi poeta, romancista, jornalista e político cearense, reconhecido como um dos maiores nomes da literatura no Ceará. Nascido em Paracuru, destacou-se como fundador e líder da Padaria Espiritual.

CEJA Professor Moreira Campos – Rua Júlio Braga, 101 – bairro Parangaba


José Maria Moreira Campos (1914–1994) foi contista brasileiro, professor e membro fundador do Grupo Clã, fundamental na literatura cearense. Catedrático de Literatura Portuguesa, professor emérito da UFC, recebeu a Medalha da Abolição, destacando-se por contos traduzidos para diversos idiomas.


Políticos – Militares

EMTI Carolino Sucupira – Rua Mundica Paula s/n – bairro Itaoca

Carolino Cavalcante Sucupira foi um dos voluntários da Pátria, que se apresentaram espontaneamente para lutar na Guerra do Paraguai que durou de 1864 a 1870, obtendo a patente de Major durante o conflito. Depois da guerra fixou residência em Jundiaí (SP), onde faleceu em 1897.

EEFM – Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco – Rua Álvaro Fernandes, 913 – bairro Montese



EEMTI – Presidente Humberto de Alencar Castelo Branco – Rua Irmã Bazet, 210 – Bairro Montese



Humberto de Alencar Castelo Branco (1897-1967) foi marechal do Exército brasileiro e o primeiro presidente do regime militar (1964-1985), governando de abril de 1964 a março de 1967. Nasceu em Fortaleza em 1897 e faleceu em 1967 em um desastre aéreo.

EEM – Adauto Bezerra – Rua Monsenhor Liberato, 1850 – bairro Fátima

José Adauto Bezerra de Menezes, militar, empresário e político brasileiro, governador do Ceará entre 1975 e 1978. Nasceu em Juazeiro do Norte em 1926 e faleceu em Fortaleza em 2021.

EEM Dr. César Cals – Avenida Domingos Olímpio, 1800 – bairro Farias Brito

César Cals de Oliveira foi fundador do Centro Médico Cearense e um dos seus presidentes no período de 1937 a 1944. Também foi Presidente do Sindicato Médico Cearense de 1940 a 1943 e da Fundação D. Libânia Holanda, de 1941 a 1944. Na política, foi Prefeito de Fortaleza, em 1930 e 1931.

EEM Figueiredo Correa – Rua Marechal Deodoro, 733 – Bairro Benfica

Joaquim de Figueiredo Correia (1920–2003) foi um político cearense, educador e advogado, atuando como deputado estadual, vice-governador do Ceará (1963) e deputado federal (1967-1981) pelo MDB. Conhecido por sua atuação na educação e na oposição moderada durante a ditadura militar.

EMEIEF Vicente Fialho – Rua Irmã Bazet, 193 – bairro Montese

Vicente Cavalcante Fialho foi prefeito de São Luís (MA), de 1969 a 1971 e prefeito de Fortaleza de 1971 a 1975 por indicação do governador do Ceará César Cals. Foi deputado federal e Ministro das Minas e Energia, professor e engenheiro, nasceu em 1938 em Tauá-CE e faleceu em Fortaleza em 2022, em Fortaleza.

EEMTI Deputado Paulino Rocha – Rua Professor José Silveira, 528 – bairro Passaré

Paulino Rocha (1933–1979) foi um famoso comentarista esportivo cearense, conhecido como "campeão de audiência", e político influente. Eleito deputado estadual no Ceará em 1974 e 1978 pelo MDB, destacou-se como incentivador da construção do estádio Castelão. Faleceu aos 46 anos em Fortaleza.   

EEM Dr Ubirajara Índio do Ceará – Rua 751 s/n Bairro Conjunto Ceará

Ubirajara Índio do Ceará (Quixadá, 1912 — Fortaleza, 1979) foi um destacado magistrado, político e integrante do movimento integralista no Brasil. Atuou como delegado do Ministério do Trabalho, procurador e presidiu o Tribunal Regional do Trabalho da 7ª Região (TRT-7) no Ceará em 1970.

EMEIEF Paulo Sarasate – Rua Pedro Muniz, 250 – bairro Pan Americano

   

Paulo Sarasate Ferreira Lopes nasceu em Fortaleza em 1908 e faleceu no Rio de Janeiro em 1968. Foi advogado, jornalista e político brasileiro. Ocupou o cargo de Deputado Federal por quatro legislaturas e Governador do Ceará de 1955 a 1958.  

EEFM Félix de Azevedo – Rua Monsenhor Furtado, 757 – bairro Rodolfo Teófilo 

José Félix de Azevedo e Sá (1781–1827) foi militar e político brasileiro, nascido em Fortaleza. Atuou como presidente da província do Ceará em dois mandatos, de 1824 a 1826. Faleceu em Caucaia em 1827 aos 46 anos de idade.

EEEP Juarez Távora – Rua Ministro Joaquim Bastos, 747 – bairro Fátima

Juarez do Nascimento Fernandes Távora (1898-1975). Político e militar, Participou de vários movimentos revolucionários como a Revolta dos 18 do Forte, A Revolta Paulista de 1924, a Coluna Prestes em 1926, a Revolução de 1930 e a Revolução Constitucionalista.

EMEIEF Francisco Andrade Teófilo Girão – Rua Unidos Venceremos, 2040 – bairro   Passaré

Francisco Andrade Teófilo Girão foi um político cearense, eleito vereador de Morada Nova em 1970 e deputado estadual a partir de 1982. Atuou no parlamento em defesa dos municípios cearenses.


Fontes:

https://www.academiacearensedeletras.org.br/revista/revistas

https://www.institutodoceara.org.br

Jornal O Povo/Diário do Nordeste/Wikipédia/Prefeitura de Fortaleza/Governo do Estado do Ceará

Fotos Google/internet

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Moreira Campos: Dizem que os Cães veem Coisas

José Maria Moreira Campos nasceu em Senador Pompeu no dia 06 de janeiro, no ano de 1914, filho de Francisco José Gonçalves e Adélia Moreira Campos. Teve dois irmãos – um irmão e uma irmã – que morreram cedo.
O estudo inicial, básico foi feito no interior, em Lavras da Mangabeira. Em 1930 a família veio morar em Fortaleza, por um motivo que foi considerado pelo escritor como trágico: seu pai passou a se dedicar ao comércio em 1924. Em Lavras da Mangabeira, mantinha um bem-sucedido comércio de algodão, peles e cera de carnaúba. O desastre começou quando a fábrica se incendiou e não estava no seguro. Devido às dificuldades financeiras, a família mudou-se para a capital.

Moreira Campos aos 12 anos de idade

Em Fortaleza Moreira Campos ingressou no Educandário Moacir Caminha; lá fez o vestibular e ingressou no secundário. Acostumado à vida pacata do interior, onde passou a infância e parte da adolescência, encantou-se e impressionou-se com os serviços que encontrou na capital. Um dos maiores encantos foi andar de bonde, outro foi o cinema. Gostava tanto de cinema que chegava a assistir ao mesmo filme quatro vezes.

A Praça do Ferreira que Moreira Campos conheceu quando chegou à Fortaleza em 1930. O coreto foi demolido em 1933, na gestão do prefeito Raimundo Girão. 

Depois do Educandário Moacir Caminha estudou no Liceu, mas não pode terminar o curso em razão do falecimento dos pais. O pai faleceu aos 44 anos em 1931; ano seguinte morreu a mãe, aos 38 anos. Pobre e sozinho foi acolhido por um primo, e morou em casa de algumas tias. Mais tarde conseguiu um emprego de ajudante de arquivista na Secretaria do Interior e da Justiça e foi morar numa pensão.

Retomou os estudos fazendo um Curso Madureza, trabalhando de dia e estudando à noite. Fez vestibular para Direito e concluiu o curso em 1946. Depois, ingressou na Faculdade Católica de Filosofia e Formou-se em Letras.
A vida literária começou quando ainda era muito jovem. Ainda no interior, gostava de ler romances, e aos 13 anos já fazia sonetos sem sequer saber ao certo o que seria um soneto, posto que não conhecia métrica e rima. Retomou a vida literária quando chegou a Fortaleza.

Junto com os colegas do Liceu criou a Escola Moça de Cultura. Depois surgiram os moços do grupo Clã, grupo que consolidou o movimento modernista no Ceará. A denominação Clã – Clube de Literatura e Arte – era porque no início o grupo contava com literatos e artistas plásticos: Antônio Bandeira, Aldemir Martins, Barbosa Leite e Márcio Barata. Depois os artistas plásticos foram embora, ficaram apenas os intelectuais.

A Escola Moça de Cultura, foi um grupo literário que surgiu espontaneamente, sem sede, sem estatutos, sem regimentos. As reuniões ocorriam nos cafés da Praça do Ferreira.

com D. Maria José e os 3 filhos

O escritor casou-se em 14 de dezembro de 1937 com Maria José Nogueira Alcides, que trabalhava com Moreira campos na mesma repartição – Secretaria do Interior e da Justiça. O casal teve três filhos: Natércia, Marisa e Cid.
Moreira Campos foi funcionário público e diretor de repartição, mas sonhava com o magistério. Foi professor de Geografia na Fênix Caixeiral e lecionou Português no Colégio Padre Champagnat. Em 1965, Ingressou no magistério, na UFC, e fez novo vestibular para licenciatura em Letras na Faculdade Católica de Filosofia. 

com a escritora Rachel de Queirós

O seu livro de estreia foi Vidas Marginais em 1949. Em 1957 lançou o segundo livro Portas Fechadas, editado pela Cruzeiro no tempo de Assis Chateaubriand. Em seguida veio o Terceiro livro: As Vozes do Morto, em 1963. Foi publicado pela Editora Francisco Alves, mas o autor não gostou da edição e mandou tirar de circulação. Em 1969 lançou O Puxador de Terço, que retrata uma figura que o autor conheceu no sertão.
Depois veio o quinto livro: Os Doze Parafusos, em 1978, que relata um caso que foi contado ao autor: uma mulher neurótica, com ciúme exacerbado, que para mostrar sacrifício ao marido, retirou dezoito parafusos de uma janela para se atirar lá de cima. Ao escrever o conto o autor reduziu os parafusos a doze por achar que dezoito era muito.
Contos Escolhidos de 1981, é uma seleção feita pelo autor de histórias publicadas nos livros anteriores. Depois foi lançado em 1985, A Grande Mosca no Copo de Leite, livro que o ator considera de cunho erótico.
O último livro a ser lançado por Moreira Campos foi Dizem que os Cães Veem Coisas, de 1987. O título é uma tradição do folclore. Dizem que os animais veem e pressentem acontecimentos da natureza antes dos humanos. Há ainda um livro de poesias: Momentos.

Moreira Campos participa de cerca de catorze antologias, entre nacionais e estrangeiras. Suas obras já foram traduzidas para o francês, italiano, inglês, alemão e hebraico. Foi membro da Academia Cearense Letras, da Academia Cearense de Língua Portuguesa e Professor Emérito da Universidade Federal do Ceará; foi agraciado com diversos prêmios e comendas ao longo de sua existência. O escritor e poeta faleceu em Fortaleza, no dia 6 de maio de 1994, aos 80 anos de idade.



Dizem que os cães veem coisas
(conto)

Ela chegou diáfana, transparente, no vestido branco que lhe descia até os pés calçados pelas ricas sandálias de pluma. Ninguém lhe ouviu os passos. Sentou-se à beira da grande piscina, cruzando as pernas longas. Chegou antiquíssima, atual e eterna, com a sua cara de máscara. Moldada em gesso? Apenas uma presença, porque pousou como uma sombra. Mas por um fragmento de tempo, um quase nada, reinou entre todos um silêncio largo, que se estendeu pelo vasto terreno murado da mansão ensombrada pelas árvores, dominou a enorme piscina e emudeceu as próprias crianças pajeadas pelas babás de aventais bordados, e vejam que as crianças são indóceis.
              Um presságio.
              Fragmento de tempo apenas, porque o homem gordo, de ventre imenso, saltou dentro da piscina com o copo de uísque na mão. Espadanou água por todos os lados, a piscina transbordou. Muitos se molharam, outros saltaram da cadeira de lona.
              - Bruto! – disse alguém íntimo, sem que ele se aborrecesse, bêbado.
              A onda de água despejou-se sobre Ela, que não se moveu: era trespassável e transparente. Floco de névoa pronto a esvoaçar. Permaneceu parada, a cara imóvel, nenhum ricto. Apenas parecia consultar no pulso um relógio invisível, para marcar o tempo. O homem de ventre enorme já estava à beira da piscina, gotejante e trôpego, para uma nova dose de uísque, os dedos graúdos catando no balde os cubos de gelo. Mulheres seminuas, o cordão do biquíni, as nádegas reluzentes de sol e gotas d’água. As rodas, as conversas, os garçons que circulavam, as bandejas de salgadinhos.
              Uns óculos escuros sofisticados no sutiã mínimo:
              - Por favor.
              O garçom atendia, solicito, perdendo os olhos ávidos nos seios mal contidos, oferecidos e inatingíveis.
              - Obrigada.
              O garçom mantinha a dignidade, ereto. A menina chegou e segurou a mãe pelo queixo:
              - Mãe-ê, quero uma Coca-Cola.
              A mãe não lhe dava atenção em flerte com o recente campeão de vôlei, uma estrutura de tórax (a mãe da menina contrariava-se apenas com o tufo de pelos que ele tinha no peito, quase imoral). A menina impacientava-se:
              - Mãe-ê, uma Coca-Cola.
              - Deixa de ser chata!
              O campeão levantou-se para apanhar o refrigerante. Em roda mais distante conversavam os homens graves: a última medida do governo, a crise econômica.
              - O país vai à bancarrota.
              - Vai o quê?
              - A bancarrota.
              - Fazia tempo que eu não ouvia essa palavra.
              - Mas vai.
              Aceitava-se a bancarrota sem muita convicção. Na grande varanda, as senhoras grisalhas e indesnudáveis, pulseiras tilintantes na flacidez dos braços, discutiam os novos valores morais e comentavam o recente desquite.
              - A menina dela não tem um ano de casada.
              - É a segunda que se separa.
              - Como?
              - A segunda.
              Aniversário da dona da mansão, que se acompanhava ao violão com graça, aplaudida pelos que estavam em volta. O garçom (ou maitre, porque era solene) curvou-se ao seu ouvido. Ela se livrou do violão, levantou-se e bateu palmas chamando todos para o almoço à americana, as mesas sob as árvores. Cada um apanhou o seu prato, formaram-se as filas, o homem gentil cedeu lugar a umas nádegas rijas, cortadas sempre pelo cordão do biquíni:
              - Faz favor.
              - Obrigada.
              Os cães de raça latiam e uivavam desesperadamente nos canis (e dizem que os cães veem coisas). Foi preciso que o tratador viesse acalmá-los, embora eles rodassem sobre si mesmos e rosnassem. A distância, a piscina quase olímpica, agora deserta: toalhas esquecidas. O vidro de bronzeador, o cinzeiro sobre a mesinha cheio de pontas de cigarro marcadas de batom.
              As filas. Alguém tangeu o gato que lutava com um pedaço de osso. Lenita fez o prato do marido, preparou também o seu. Mordia a fatia de peru com farofa, quando se lembrou do filho:
              - Cadê o Netinho?
              Certa angústia na voz. Chamou o marido, gritou pela babá, que se distraía com as outras na varanda. Olhos espantados e repentino silêncio talvez maior de qualquer outro. Refeições suspensas, uma senhora mantinha no ar o garfo cheio. Tentavam segurar Lenita. Ela se desvencilhava:
              - Cadê o Netinho? Cadê?
              As águas da grande piscina eram tranquilas, apenas levemente franjadas pelo vento. Boiava sobre elas uma carteira de cigarros vazia. Mas a moça que se aproximava parecia divisar um corpo no fundo, preso à escada. Voltaram a afastar Lenita, o marido a envolveu nos braços possantes, talvez procurando refúgio também. O campeão de vôlei atirou-se à piscina e veio à tona sacudindo com a cabeça os cabelos longos: trazia sob o braço um corpo inerme, flácido, de apenas quatro anos e de cabelos louros e gotejantes.
              O médico novo, de calção, tentou a respiração artificial, e boca-a-boca (os lábios de Netinho estavam arroxeados), e levantou-se sem palavras e sem olhar para ninguém. Lenita soltou-se e agarrou-se ao filho:
              - Acorde, acorde! Pelo amor de Deus, acorde?
              Conseguiram afastá-la mais de uma vez, quase desmaiou. A amiga limpava-lhe com os dedos a sobra de farofa que se grudava ao seu rosto. Os cães de raça voltavam a latir desesperadamente, e dizem que os cães veem coisas.
              Lenita ficou para sempre com a sensação do corpo inerte e mole entre os braços. Uma marca, uma presença, que procurava desfazer com as mãos. Cabelos louros e gotejantes. Às vezes, ela despertava na noite:
              - Acorde, acorde!
              A presença também daquele instante de silencio que pesara sobre a piscina. Um pressentimento apenas? Precisamente o momento em que Ela chegara, transparente e invisível, e se sentara  à beira da piscina, cruzando as pernas longas, antiquíssima, atual e eterna.

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Fontes: 
CAMPOS, José Maria Moreira. Dizem que os cães vêem coisas. Fortaleza: Edições UFC, 1987.
Roteiro Sentimental de Fortaleza/ Depoimentos de História Oral de Moreira Campos, Antonio Girão Barroso e José Barros Maia/ Coordenadores: Simone de Souza e Sebastião RogérioPrefácio de José Carlos Sebe B. Meihy; transcriadores: Oswald Barroso, Caterina de Saboya Oliveira e Sebastião R. Ponte. Fortaleza: UFC-NUDOC/SECULT-CE, 1996.


terça-feira, 13 de março de 2012

Antônio Girão Barroso



Antônio Girão Barroso nasceu em Araripe (CE) aos 6 de junho de 1914 e morreu, em Fortaleza (CE) em 1990. Realizou a poesia, o conto, a crítica, sendo jornalista e professor universitário - graduado em Direito, fez doutorado em Economia. 

Foi membro do Grupo Clã,  movimento artístico que nos anos 1940, sedimentou as conquistas modernistas no Ceará, ao lado de Aluísio Medeiros, Artur Eduardo Benevides, Eduardo Campos, João Clímaco Bezerra e Moreira Campos, dentre outros.

As Três Pessoas

Eram três pessoas distintas mas uma só, na verdade:
eu, o Floro e o Assis.
Três corpos numa lama só.
(O povo dizia que nós éramos
três amizades perfeitas
e meninos de futuro, sim senhor.)
Depois veio o tempo mau
o tempo que tudo leva
e levou o Floro pro céu.
O Assis ficou na terra.
Eu não sei onde fiquei.



Obras:

Os hóspedes (poesia), 1946.
Novos poemas (poesia), 1950.
30 poemas para ajudar (poesia, com Cláudio Martins e Otalício Colares), 1968.
Universos (poesia), 1972.
Dois tempos (miscelânia com Inácio A. Almeida), 1981.
Poesia incompleta (poesia), 1994.
 Participou de antologia e colaborou em periódico.

da esquerda p/direita - Fran Martins, (não identificado), Aluízio Medeiros e Antônio Girão Barroso (foto de 1951)

Boêmio legítimo, costumava frequentar o Estoril na Praia de Iracema ou o Country Clube,  para lavar a alma numa cervejinha e, já no ponto, cantar versos de um velho bolero: porque não paras relógio?

Pois o poeta Girão era o mais distraído dos boêmios, desses que quando saía para viver a noite, se desligava de tudo o mais. Andava nas nuvens. Numa época, nos idos da década de 1960, o poeta ocupava o cargo de Diretor do Departamento de Cooperativas da Secretaria da Agricultura, e tinha um carro à sua disposição.

Ao chegar a noite, Girão encostava o carro num barzinho aconchegante e passava a tomar sua cerveja com os amigos de copo. 

Um dia ao se dirigir ao carro para voltar para casa, não mais o encontrou. Ficou desnorteado: então haviam roubado o veículo da repartição?

Foi aconselhado a prestar queixa, registrar na polícia o furto do bem público, quem sabe, agindo com rapidez a polícia poderia recuperá-lo. Foi o que fez. A Polícia entrou em ação, expedindo comunicados, controlando as divisas do Estado e pondo seus agentes na rua  numa grande operação policial.

Girão tomou um taxi, muito contrariado com o acontecido e foi para casa. Ao chegar, para sua alegria, avistou o carro na garagem: “então já o encontraram?”. Dona Alba, sua mulher, informou-o que ele não saíra de carro naquela tarde.


na Praça Pedro II, da esquerda p/a direita -  em pé: José Júlio Cavalcante, Otacílio Colares e Antônio Girão Barroso. Sentados: Stélio Lopes de Mendonça, Milton Dias, Murilo Luz, José Peroles Aires e Aluízio Medeiros. 

No dia seguinte, o poeta pegou o carro e dirigiu-se ao Cemitério São João Batista para o enterro de uma conhecida escritora cearense.  Ao passar pela Praça da Sé, foi cercado por um grupo de policiais, que grosseiramente lhe deram voz de prisão, sob a acusação de ter roubado o carro da Secretaria de Agricultura.

O episódio só ficou esclarecido na delegacia, depois de muitas explicações do boêmio distraído. 

fonte:
Porque hoje é Sábado, de Juarez Leitão
Jornal da Poesia disponível em http://www.jornaldepoesia.jor.br/agirao.html#três