quarta-feira, 29 de agosto de 2018

A Praia do Futuro do Passado e do Presente


A única forma de chegar àquele local até meados dos anos 50, era de jipe. Todos os dias o engenheiro Waldir Diogo de Siqueira, fundador da FIEC (Federação das Indústrias do Estado do Ceará), subia no veículo com capota de lona e desbravava as dunas que davam acesso à faixa de litoral que, mais tarde ficaria conhecida por Praia do Futuro.

Lançamento do loteamento na Praia do Futuro: na foto, José Coelho Guimarães, Murilo Mota, governador Faustino Albuquerque (de roupa escura), Waldir Diogo Vital de Siqueira, Adahil Barreto e Paulo Cabral de Araújo - abril de 1950 (foto Arquivo Nirez). 


Em princípio, o interesse comercial naquelas terras do chamado Sitio Cocó, de propriedade do industrial Antônio Diogo – pai de Waldir Diogo – resumia-se a extração do sal marinho e à criação de gado para salga da carne, com vistas à exportação pelo Porto do Mucuripe.

Por isso, quando Waldir Diogo resolveu lançar um loteamento no local, em abril de 1950, foi difícil encontrar compradores. O acesso à ampla faixa de terra loteada que se estendia por 7 quilômetros de costa, do Farol do Mucuripe à foz do Rio Cocó, exigia dos eventuais interessados uma boa dose de espírito aventureiro.

terrenos demarcados na Praia do Futuro: os lotes mediam 20x40 metros. Postal dos anos 70


Para nivelar o terreno e dar uniformidade aos lotes, Waldir Diogo recorreu a maquinário pesado, aplainando uma série de dunas naturais. Em meados da década de 1960, surgiram ali, ainda timidamente, os primeiros estabelecimentos de lazer: o restaurante Chez Pierre e o Fortune Drive-in, precursores das atuais barracas.

Em 1973, quando a Praia do Futuro continuava sendo um local ermo e distante, o engenheiro civil Cornélio Diógenes resolveu fazer ali um novo loteamento. Negociou uma gleba de 12 hectares com a família Diogo. Apressou-se em dotar o terreno de água, calçamento e energia. Construiu dez casas, a fim de definir o padrão do loteamento, batizado com o nome de “Vereda Atlântica”.

Loteamento Vereda Atlântica, o primeiro residencial localizado na Praia do Futuro, construído na década de 1970 - foto O Povo - 1977


Em 1975 o engenheiro foi um dos primeiros a se mudar com a família para “aquele fim de mundo”, como definiam os amigos escandalizados com sua decisão. Cornélio, que em 1978 faria o loteamento Lago Jacarey, morou durante 7 anos no Vereda Atlântica, de onde saiu por questões pessoais; avalia que “A Praia do Futuro continua sendo a praia do futuro”. Hoje acredita que tomaria decisões diferentes: “ – é uma trabalheira fazer um loteamento. Se fosse agora não faria nenhum dos dois. No caso do Vereda procurei preservar, mas tive que mexer com as dunas. No Jacarey o problema foi o lago, cavamos para aprofundar ao mesmo tempo que aterramos uma parte do entorno. Na época nós não tínhamos tanta consciência ambiental, reconhece.”

Logo depois do Vereda, o ex deputado Jeová Costa Lima fez outro grande loteamento, por trás da Igreja Nossa Senhora de Lourdes, indo da Avenida Trajano de Medeiros à Dolor Barreira.


O loteamento do ex deputado, todo construído no alto de dunas remanescentes, vendeu bastante, e com o passar do tempo acabou se transformando num novo bairro: Lourdes (ou Dunas), apartado da Praia do Futuro. Foto de 2012 - Fortaleza em Fotos


Com a ampliação da Santos Dumont, em 1976, estabeleceram-se dois tipos de fluxos simultâneos para o local. A população de baixa renda residente nas adjacências do Farol, iniciou um processo de migração para a Praia do Futuro, fixando-se no Vicente Pinzon e em outras regiões circunvizinhas. As classes média e alta também se sentiram atraídas pela nova faixa de praia virgem aberta pela expansão imobiliária, a partir da conclusão da Avenida Zezé Diogo, em 1984, e pela urbanização do calçadão, em 1993.

Avenida Dioguinho, construída em 1969, reformada e melhorada nos anos 70. E uma Praia do Futuro quase vazia - Foto Anuário do Ceará
  

Contudo, o projeto de tornar a Praia do Futuro uma versão cearense da Barra da Tijuca – bairro de classe alta do Rio de Janeiro, caracterizado pela presença de mansões e condomínios de luxo – esbarrou na salinidade típica da área. A chamada “maresia”, que corrói estruturas metálicas, eletrodomésticos e automóveis, foi um empecilho à efetiva consolidação do uso residencial do local. Segundo especialistas, a ausência de arborização, só agravou o problema.

A despeito do notório revés, a zona das dunas remanescentes foi ocupada por residências de alto padrão. E o trecho de praia após o cruzamento da Zezé Diogo com a Avenida Santos Dumont, apesar da polêmica sobre a pertinência e a legalidade da instalação das tradicionais barracas de praia (na verdade, grandes complexos de lazer com playgrounds, restaurantes, piscinas, chuveiros, lojas, banheiros e gramados), firmou-se como área de recreação preferencial da cidade.

Interior de uma barraca na Praia do Futuro - Fortaleza em Fotos
panorâmica da Praia do Futuro - foto Diário do Nordeste


Há anos uma disputa judicial remexe as areias de tais complexos, que oferecem infraestrutura, mas limitam a circulação democrática, impondo uma ocupação elitista ao espaço que deveria ser de livre acesso. Em sua defesa, os donos dos empreendimentos apontam a atração de turistas, os empregos gerados e a oferta de opção segura de lazer – que já faz parte da cidade de Fortaleza.

Em 2005 o Ministério Público Federal moveu uma ação tratando de irregularidades graves cometidas pelos empresários – apropriação clandestina de trechos da praia, ocupação de áreas que excedem os limites determinados e instalação de obstáculos para banhistas que não são clientes. Na época, o MPF recomendou que 60 barracas abandonadas ou em precárias condições fossem demolidas, enquanto a Advocacia Geral da União (AGU) definiu todos os 154 equipamentos como irregulares, pedindo a limpeza da área.

ruínas à venda - foto Fortaleza em Fotos

De lá para cá, debates, campanhas e mobilizações se sucederam, até que, em 6 de agosto de 2013, o Tribunal Regional Federal da 5ª. Região decidiu que os obstáculos de acesso a praia devem ser retirados, mas as barracas podem permanecer onde estão, já que não foram construídas na área de praia, mas na chamada berma (pós praia).  Como parte da defesa, foi invocada a “Lei de Mercado”, sob alegação que, se o negócio imobiliário não pode desenvolver-se a contento, a vocação turística se impôs com vigor na Praia do Futuro.


Extraído do livro 
História Urbana e Imobiliária de Fortaleza
de Lira Neto
  

Um comentário:

rafaela disse...

Amo esse blog! Por favor, não pare nunca.