segunda-feira, 6 de julho de 2015

Origem e Urbanização do Benfica

Ao longo da segunda metade do século XIX, a província de Fortaleza foi assolada por sucessivas epidemias de cólera e febre amarela. Em 1862 foi constatada a presença de um surto de cólera-morbus que se propagou para Maranguape e Pacatuba. A falta de controle sobre os doentes gerou o temor que a água consumida pela população estivesse contaminada.

Estrada do Arronches (atual Parangaba) em 1919 - foto Brasiliana Fotográfica 

O sitio Benfica estava localizado na Estrada de Arronches, fora dos limites urbanos de Fortaleza. Começou a ser valorizado quando a epidemia de cólera-morbus assolou a cidade. Devido a distância do núcleo urbano, as terras do sítio foram consideradas aptas para resolver o problema de abastecimento de água, por estarem distantes de qualquer foco de contaminação dos cemitérios e por contar com inúmeras fontes de águas limpas.

Pela resolução n° 1023, de 27 de novembro de 1862, foi concedido ao proprietário do Sítio Benfica, José Paulino Hoonholtz, o privilégio de explorar  por 50 anos o fornecimento de água. O documento obrigava a instalação de no mínimo quatro chafarizes em diferentes pontos da cidade, e ordenava o fechamento de todas as cacimbas residenciais. No ano seguinte Hoonholtz transferiu a concessão do abastecimento para a empresa Ceará Water Company Ltd., que explorou o serviço até 1877, quando foi paralisado por falta de água e a companhia foi à falência. A seca de 1877 perdurou até 1879.

Igreja de N. S. dos Remédios 

Em 1878 foi iniciada a construção da primeira igreja do bairro, a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Era desejo de um certo Antônio do Amaral  construir uma capela em terreno de sua propriedade no Benfica, com a denominação de Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, por ser esta a padroeira de freguesia onde nascera, numa das ilhas Açores. Vindo, porém, a falecer sem realizar seu intento, coube à sua mulher dar execução ao desejo do marido. Obtida a competente autorização, começaram os trabalhos, levantando-se as paredes do edifício, mas faltaram recursos e as obras ficaram paralisadas por cerca de 15 anos.

Então, alguns moradores mais abastados do Benfica, tendo a frente o Coronel João Gentil de Carvalho e sua família, fizeram vultosos donativos, que somados a outros recursos de fontes diversas, permitiram a conclusão e inauguração do templo, em agosto de 1910. Após a inauguração, a igreja passou a ocupar lugar de destaque na vida do bairro: tudo que se concretizasse no campo cultural, social ou religioso, tinha origem na igreja. Segundo historiadores, a Igreja dos Remédios é um legado da família Gentil aos moradores do Benfica: durante muitos anos eles foram responsáveis pelas despesas de manutenção e conservação do templo.

Anexa a Igreja dos Remédios foi erguida a Casa das Missões, inaugurada em 1927, também com recursos provenientes de doações, que passou a abrigar os padres lazaristas.  Mais tarde esse prédio abrigou o Hospital Mira Y Lopez, e foi demolido em março de 2013.

residência do empresário José Gentil, hoje Reitoria da UFC 

Em 1909, a chácara localizada na Avenida Visconde de Cauípe (atual Avenida da Universidade) foi adquirida pelo empresário José Gentil, que ergueu no local, em 1918, um palacete para sua moradia. Em torno da casa construiu vilas e ruas com residências de vários tamanhos e estilos, praças e áreas verdes, lugar que ficou conhecido como Gentilândia.

A Gentilândia tornou-se uma verdadeira cidade modelo que serviu de padrão às novas construções e vilas da cidade. Até meados da década de 1940, o bairro esteve em evidência com a execução das obras da Gentilândia, até que o plano de edificação da Imobiliária José Gentil começou a ser gradativamente desativado.

ônibus que fazia a linha do Prado 

No início da década de 1950, o lugar começou a entrar em decadência; antigos moradores começaram a deixar o bairro em busca de novos espaços, esvaziamento acentuado em razão da tendência de crescimento  da cidade para a Aldeota e para o litoral. Com a debandada dos ricos, o palacete de José Gentil foi posto à venda e adquirido pelo reitor da Universidade Federal do Ceará, em 1956. Posteriormente em 1959, foi construída a Concha Acústica, o maior auditório ao ar livre do Ceará, com capacidade para 3.000 pessoas. 

Avenida Visconde de Cauípe

Ao longo dos anos a vila de casas construída em 1931, sempre foi enquadrada pelos mapas da cidade como parte do Benfica. No entanto, em julho de 2000 foi aprovada a Lei Municipal n° 8480, criando o bairro da Gentilândia, englobando o quadrilátero urbano compreendido entre as Avenidas da Universidade, Treze de Maio, Expedicionários e Eduardo Girão, se constituindo no menor bairro de Fortaleza. Mas o nome Gentilândia não foi reconhecido pela população, e as ruas que estariam dentro da área do bairro, são consideradas como pertencentes ao Benfica. O CEP (código de endereçamento postal) assinala o bairro como sendo o Benfica.
  
Estádio Presidente Vargas na década de 1940 

O Benfica acolheu a primeira universidade e os primeiros estádios de futebol da cidade, o Campo do Prado e mais tarde o Presidente Vargas, inaugurado em 21 de setembro de 1941. O Presidente Vargas é o único estádio da capital para jogos de médio porte (capacidade para pouco mais de 20 mil pessoas). Conforme depoimento de moradores, em dias de jogos a maior parte do bairro se transforma em campo de batalha: gangues, bêbados,  agressões a transeuntes e moradores, poluição sonora, acúmulo de lixo, vandalismo, roubos e assaltos, patrocinados por parte do público que frequenta o estádio, são comuns nessas ocasiões.

 
Foto atual do Benfica, com o Shopping Benfica e a Estação do Metrofor 

O Benfica (incluindo a Gentilândia) está localizado na porção centro-oeste de Fortaleza, ocupando uma área de 143,1 hectares. Limita-se ao Norte pela Rua Antônio Pompeu; a Leste pela Rua Senador Pompeu e Avenida dos Expedicionários; ao sul, pela Avenida Eduardo Girão e a Oeste, pela Avenida do Imperador, Rua Carapinima e Avenida José Bastos. 

Fonte: Subsídios a Elaboração a Agenda 21 Local - Diagnóstico Participativo do Bairro do Benfica - Dissertação de Mestrado - autora: Fátima Garcia
fotos do arquivo Nirez

7 comentários:

Jorge Luiz de Castro e Silva disse...

Excelente texto sobre o bairro que já morei, o Benfica. Parabéns pela sua dissertação de mestrado. Lastimamos a falta de visão de alguns governantes e também de empresários que não fazem nada para preservar construções antigas da história de Fortaleza. Felizmente, podemos reviver e lembrar do Benfica através das fotografias do seu blog.

Prof. Jorge Luiz de Castro e Silva

Fátima Garcia disse...

obrigada professor.

Wendell Rodrigues disse...

Senti falta do papel do IFCE, antiga Escola de Aprendizes Artífices, que foi instituída em 1909 no Benfica.

Daniel dros disse...

Amo o bairro que moro e amei saber da história. Saber que ele sempre foi boêmio.

Fátima Garcia disse...

tem razão. Wendel

Fátima Garcia disse...

Sempre boêmio Daniel dros, é a vocação do bairro

Anônimo disse...

Olá. Tenho bastante interesse em saber a história da torre onde hoje fica localizado o ca de Psicologia, no CH2 da Ufc. Ninguém sabe a história dele, nem mesmo a Universidade! É uma torre amarela, com um terraço. Sua construção não aparenta ser uma casa. Terias como pesquisar sobre?