quinta-feira, 30 de julho de 2015

A Fortaleza do tempo da "A Normalista" 1/2

No romance publicado em 1893, a normalista Maria do Carmo é o pretexto para Adolfo Caminha apresentar aos leitores sua visão de Fortaleza de fins do século XIX. De um lado, o povinho miúdo: o pequeno funcionário público, a mulher que vendia rendas, o barbeiro, o guarda-livros, etc. de outro lado, o governador da província, o coronel Sousa Nunes, seu filho Zuza – estudante de direito – o jornalista José Pereira, o diretor e os professores da escola Normal. É a propósito da vida da normalista que o autor vai delineando quadros da vida da capital: uma aula na Escola Normal, o footing no Passeio Público, uma festa de casamento, um enterro, etc.

a então Praça Marquês de Herval (atual José de Alencar) com o prédio da Escola Normal

Neste painel de costumes o autor quer mostrar toda a mesquinha sordidez da vida social na Fortaleza do seu tempo. O mau humor para com a cidade é evidente e costuma ser apontado pelos críticos de Adolfo Caminha como uma espécie de vingança: o autor jamais teria perdoado seus conterrâneos pelas críticas aos seus amores adúlteros com a mulher de um colega. 

Os Lugares da Normalista 

“João Maciel da Mata Gadelha, conhecido em Fortaleza por João da Mata, habitava, há anos, no Trilho, uma casinhola de porta e janela, cor de açafrão, com a frente encardida pela fuligem das locomotivas que diariamente cruzavam defronte, e donde se avistava a Estação da linha férrea de Baturité”. p.11

João Maciel morava com sua companheira D. Teresinha e sua afilhada Maria do Carmo, aluna da Escola Normal. O Trilho, forma abreviada de Rua do Trilho de Ferro, é hoje a Avenida Tristão Gonçalves. Pela descrição feita, João da Mata residia no lado oeste da rua (lado da sombra) próximo à Praça Castro Carreira, pois de sua casa se avistava o prédio da Estação da linha férrea de Baturité. 

“Davam nove horas na quando todos se ergueram”. p.14 


A Sé em questão era a antiga Igreja de São José, que por volta de 1854 inaugurou o primeiro relógio público de Fortaleza. Seus ponteiros decretavam a hora oficial, e por eles, as fábricas, o comércio, as escolas e os habitantes, ajustavam  seus relógios. A Igreja de São José foi demolida em 1938. No mesmo local foi construída a atual Catedral da Sé.

“A noite estava escura e calma as estrelas tinham um brilho particular, altas minúsculas como cabeças d’alfinete em papel de seda. Ouvia-se distintamente, como por um tubo acústico, a toada dos soldados rezando à Virgem da Conceição no quartel de linha...” p.15

O quartel de linha ficava onde hoje se encontra a 10ª RM. O antigo quartel do 11° Batalhão de Infantaria teve sua construção iniciada na administração do coronel Antônio José Vitoriano Borges da Fonseca, governador da Capitania no período de 1765 a 1781, em terreno de propriedade do padre José Rodrigues, que o oferecera ao governo juntamente com a capela de Nossa Senhora da Assunção, edificada por ele.

“Desde a saída de Maria do Colégio das Irmãs de Caridade tinha se operado uma mudança admirável nos hábitos de João da Mata... Aquela Maria do Carmo do Imaculada Conceição, toda santidade...” p.16


Antes da Escola Normal, Maria do Carmo fora aluna interna do Colégio da Imaculada Conceição. O Imaculada Conceição foi fundado em 1865 como escola para menores órfãos e abandonados. Dirigido pelas freiras francesas da Ordem das Filhas de Caridade de São Vicente de Paula, chegadas em Fortaleza naquele ano. A partir de 1867 o colégio funcionou num prédio construído para abrigar um hospital. Ocupava a área equivalente a um quarteirão quadrado, na parte setentrional da Praça Filgueiras de Melo, o mesmo local que ocupa até os dias atuais. 

Havia meses Maria do Carmo cursava a Escola Normal.” P.17


Tanto João da Mata quanto D. Terezinha, padrinhos e tutores de Maria do Carmo eram de opinião que o Colégio da Imaculada Conceição não era o lugar ideal para uma menina inteligente como Maria. “Não compreendia  como pudesse instruir-se na prática indispensável da vida social uma criatura educada a toques de sineta, no silêncio e na sensaboria de uma casa conventual entre paredes sombrias, com quadros  alegóricos das almas do purgatório e das penas do inferno.”
A Escola Normal Pedro II, inaugurada em 1884 na Praça Marquês de Herval destinava-se a formação de professores para as  escolas do Estado.  O surgimento da Escola Normal provocou uma grande polêmica na sociedade, por causa da proposta de formar professoras profissionais, numa época em que as mulheres eram destinadas ao casamento e a criação de filhos. O antigo prédio da Escola Normal atualmente é ocupado pelo IPHAN, localizado na Praça José de Alencar. 

Até a Praça do Patrocínio, como uma grande senhora independente” p.17.

Até 1870 a atual Praça José de Alencar , onde estava localizado o prédio da Escola Normal, chamava-se Praça do Patrocínio, por causa da igreja de N. S. do Patrocínio, construída  no largo e inaugurada em 1852. Em 1893, data em que o romance foi publicado, a Praça já se chamava Marquês de Herval.

A fama da normalista encheu depressa toda a capital. Não se compreendia como uma retirante saída a pouco das Irmãs de Caridade fosse tão bem feita de corpo, tão desenvolta e insinuante ....Nas reuniões do Club Iracema era ela a preferida dos rapazes...” p.17
 
O Clube Iracema foi fundado no dia 28 de junho de 1884, pelos recusados do Clube Cearense, que se formava à margem do mundo aristocrático de então,  um ascendente grupo social médio-alto, constituído por comerciários, despachantes e guarda-livros, muitos deles, já na década de 1870, participantes de atividades  literárias e jornalísticas, e ativos militantes abolicionistas. No início funcionou em prédio na esquina das Ruas Senador Pompeu e Guilherme Rocha. Depois se mudou para a Rua Barão do Rio Branco, onde mais tarde se instalou a Faculdade de Farmácia e odontologia. Hoje, no local, tem uma agência do Banco do Brasil.  

“João da Mata inflava. Certo não a entregaria por preço algum a qualquer rapazola como o filho do coronel Souza Nunes. Entretanto, o Zuza era um rapaz da moda. Montava a cavalo, fazia versos, assinava a Gazeta Jurídica, frequentava o palácio do presidente...” p.17


O Palácio do presidente era o Palácio da Luz, à época a residência oficial do presidente da Província do Ceará, localizado na Praça General Tibúrcio. Foi construído no final do Século XVIII, com auxilio de mão-de-obra indígena, para servir de residência do capitão-mor Antônio de Castro Viana. O primeiro presidente a ocupar o imóvel foi o governador Luís Barba Alado de Menezes, em 1809.

“Sobre a cômoda, ao pé do oratório, ardia uma lamparina de azeite” p.18

No final do século XIX, onde se situa temporalmente o romance, as casas eram iluminadas por candeeiros, lamparinas e velas, enquanto que nas ruas, praças e demais espaços públicos já havia iluminação a gás carbônico. O material para instalação do gasômetro de Fortaleza chegou em 9 de outubro de 1866, sendo concessionária do serviço a empresa Ceará Gás Company, com sede em Londres.

”O capitão Bernardino de Mendonça chegou a Fortaleza pela estrada nova de Messejana” p. 18 

A Estrada de Messejana ou Calçamento de Messejana é o antigo nome da Avenida Visconde do Rio Branco. 

“Ao cabo de 12 longos dias em que paravam para repousar à sombra d’alguma árvore que ainda verdejava ou nalguma palhoça abandonada, avistaram o campanário branco e alegre do Coração de Jesus” p.21


A descrição se refere à viagem feita pelos pais de Maria do Carmo quando se retiraram do interior de Campo Alegre em direção a Fortaleza fugindo da seca de 1877. Mas a igreja do Coração de Jesus não existia nessa época, visto que só foi inaugurada em 1886, aproveitando justamente a mão-de-obra de retirantes da seca, que vagavam pela capital em busca de trabalho.


“Maria lembrava-se de tudo. Depois ela ficara sozinha em companhia dos padrinhos. Nesse tempo moravam na Rua de Baixo” p. 23  

A antiga Rua de Baixo é a atual Rua Conde d’Eu


“ o certo, porém é que o procedimento de D. Amanda não escandalizava a sociedade. Vivia na sua modesta casa do Trilho, muito concentrada, num respeitoso isolamento, saindo à rua poucas vezes em companhia da filha, não frequentando bailes nem o Passeio Público” (26)





D. Amanda era viúva, morava em frente a casa de João da Mata, em companhia de sua filha Lídia, colega de Maria do Carmo na Escola Normal. Apesar da vida reservada, mãe e filha eram vítimas da maledicência popular. 
Inaugurado em 1880 o Passeio Público era um espaço ajardinado, arejado, reservado para a fruição daqueles belos tempos, onde o footing (passeio a pé), o meeting (encontro entre pessoas) e o flert (paquera) eram praticados regularmente. Sobranceiro ao mar e bem arborizado, o logradouro foi murado e decorado com estátuas representando divindades mitológicas gregas, além de canteiros, coreto, café, passarelas pavimentadas e longos bancos. Atração imperdível  às quintas e domingos o Passeio lotava-se de gente elegante exibindo as últimas novidades trazidas pelos navios vindos da Europa. A banda municipal embalava os namoros, os flertes e o passeio dos frequentadores. 


“ Era hora do almoço. O amanuense estava apressado porque tinha de ir à praia ao embarque do conselheiro Castro e Silva que seguia para o Rio de Janeiro... No porto havia grande lufa-lufa de gente que embarcava e desembarcava simultaneamente, bracejando, falando alto... ” p.31




Na época o porto de Fortaleza era o da Prainha, situado entre o Centro e a Praia de Iracema. A Ponte Metálica, que funcionou como local de embarque e desembarque durante muitos anos, só foi construída em 1906.  


“Um carro parou à porta da Escola de Aprendizes Marinheiros: era o conselheiro, metido numa sobrecasaca muito comprida, cheio de atenções” p.32


A Escola de Aprendizes Marinheiros foi instalada em 31 de março de 1865 na Rua da Praia (atual Avenida Pessoa Anta), perto do porto, portanto, em casas pertencentes ao barão de Ibiapaba; em 1908 mudou-se para o Jacarecanga.

continua.....

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