terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O Outeiro da Prainha


vista do bairro do Outeiro da Prainha em 1900.
  
Subindo o Corredor do Bispo, hoje Rua Rufino de Alencar, entrava-se no bairro do Outeiro da Prainha, acompanhando o chamado Quintal do Bispo, uma grande área primitivamente pertencente à chácara do português Antônio Francisco da Silva, parente da família Albano.  Posteriormente ali habitou o comendador Joaquim Mendes da Cruz Guimarães, em cuja residência se instalou o Palácio do Bispo. Esta área estava compreendida entre as ruas Rufino de Alencar e a Costa Barros – a antiga Rua do Sol – e estendia-se para o nascente até as proximidades da Praça do Cristo Redentor, onde se localizava a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Prainha e seu velho Seminário.


 Chácara do português Antônio Francisco da Silva, depois sede do Bispado e atual Paço Municipal 

Em 1937, a Empresa de Terrenos Ltda., adquiriu do Patrimônio de São José, do Arcebispado de Fortaleza, a permissão para lotear essa grande área do antigo bairro do Outeiro da Prainha. Desse loteamento surgiram as ruas Afonso Viseu, Pedro Ângelo, Pereira Filgueiras e João Lopes. As duas primeiras foram nomeadas por indicação de Luiz Vieira – um dos sócios dessa empresa, que homenageava assim pessoas de sua amizade e admiração. 

 Igreja da Conceição da Prainha, construída em 1840, num local ermo e afastado da parte urbanizada da cidade.

Na parte mais alta do Outeiro, Luiz Vieira reservou um aprazível sitio com o objetivo de construir uma vila residencial para sua família. Ergueu seu casarão no canto formado pelas ruas Pedro Ângelo e Rufino de Alencar e, a seguir, edificou ao seu lado, as residências dos seus filhos Jaime e Mário Câmara Vieira, compondo a Vila Vieira. Contíguo a esta, na Rua Pedro Ângelo, residiu o comerciante e hoteleiro Pedro Lazar e depois, na mesma residência, Edmundo Rodrigues dos Santos, sócio da empresa Casa Quirino Rodrigues S/A. A residência de Luiz Vieira, no Outeiro da Prainha, foi inaugurada com festejos que se prolongaram por mais de uma semana, de 8 a 19 de outubro de 1946, quando foram realizados os casamentos de duas de suas filhas e a comemoração do aniversário de sua esposa. Sua construção fora entregue ao engenheiro Alberto Sá, que pela primeira vez utilizou em Fortaleza, o concreto armado na confecção dos seus forros.  


Ladeira da Prainha, ao lado a casa de Siá Pio, onde mais tarde residiu o Mister Hull
 
No alto da barranca do Outeiro, compondo a ladeira que nascia no adro da Igreja da Conceição da Prainha, residia a filha de Antônio de Oliveira Borges de Castro, a Sinhá Pio das crônicas antigas, matriarca dos Pio Borges. A casa culminava com um torreão, do qual se podia apreciar o mais belo panorama da cidade. voltado para o mar, esse mirante servia a José Pio Moraes de Castro, esposo de Sinhá Pio, para o controle do movimento portuário, função que lhe cabia como agente da empresa Lloyd de Navegação. Os quintais da casa, com pomares e roseirais, desciam, flanqueando o lado da sombra, até o término da ladeira que se chamava Ladeira do Seminário ou Ladeira da Prainha, hoje conhecida pelo nome de Rua Almirante Jaceguai. Nesta escarpa o bonde não alcançava a igreja, impedido de prosseguir por conta de um lance de escadas que antigamente ali existia. A casa dos Pio Borges foi adquirida por Mr. Francis Hull, cônsul inglês no Ceará, que viveu muitos anos em Fortaleza. O inglês fez um observatório da torre da residência, estudando o clima e prenunciando bons invernos para o Ceará. Na outra esquina da ladeira, morava o Barão de São Leonardo, Leonardo Ferreira Marques, agraciado com as comendas da Ordem da Rosa de Cristo por sua atuação na Guerra do Paraguai ao lado do futuro Duque de Caxias. 


 

Praça Cristo Redentor e sua torre, inaugurada em 1922 em comemoração ao centenário da Independência do Brasil 

Ainda na atual Praça do Cristo Redentor, com sua coluna inaugurada em 1922, que veio a se tornar um dos monumentos símbolos da cidade, residia a poucos metros de Siá Pio, sua filha Maria Pio Borges de Castro, casada com seu primo legítimo, Luiz Borges da Cunha, despachante das mercadorias da Alfândega. Sua residência, que Mozart Soriano Aderaldo, apontou como primeiro bangalô de Fortaleza, ocupava um vasto terreno que se estendia até abaixo do outeiro, terminando ao nível da praia, na antiga Rua do Chafariz. Mais tarde a residência de Maria Pia Borges seria propriedade dos ingleses ligados à Empresa de Navegação The Boot Streamship Line, com sede em Liverpool. 
 
 a antiga Rua do Seminário, hoje Avenida Monsenhor Tabosa, início do século XX 

Mais adiante, na Rua do Seminário – atual Avenida Monsenhor Tabosa – erguia-se a residência do imortal poeta José Albano e a Chácara de Vicente de Castro. Nesta, um córrego atravessava seus extensos quintais que alcançavam a Rua do Chafariz – atual Rua José Avelino. Proprietário da firma V. Castro e Filho, agente da Companhia de Seguros Anglo-Sul-Americana.
O Bairro Outeiro da Prainha desapareceu com a expansão daquela região, e hoje está inserido parte no Centro, parte no bairro Praia de Iracema.   


Extraído do livro Ideal Clube – história de uma sociedade
De Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos: arquivo Nirez e IBGE

 

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