quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Energia Elétrica na Iluminação Pública de Fortaleza


 Apesar de perder consumidores residenciais, numa difícil disputa de mercado, a Ceará Gaz Company prosseguia com a iluminação pública, mantendo em ruas e praças, 2554 lampiões a gás no início dos anos 30. 

Até a primeira metade da década de 30, a capital cearense permaneceu com suas ruas e praças iluminadas por nostálgicos lampiões a gás. Tudo por força da lei de 1911 que prorrogou a concessão firmada em 1865, concedendo a Ceará Gaz Brasil esse privilégio até 1958. As diretrizes do governo revolucionário que se implanta no Brasil em 1930 levam à revisão de todos os contratos para prestação de serviços públicos em vigor, e nesse caso, finalizaria os direitos da empresa de gás, antecipadamente, para 30 de junho de 1934. Foi uma reviravolta surpreendente. A prefeitura de Fortaleza, por ordem do prefeito interino, bacharel Ubirajara Coelho de Negreiros, estabelece pelo Edital n° 24, de 5 de julho de 1934, condições para que as firmas apresentassem propostas de fornecimento de energia elétrica, pelo período de um ano, para iluminação de ruas e logradouros públicos. 


Antecederam a essa medida, vários estudos alternativos. Foi recusada a proposta da Ceará Gaz de reduzir o custo mensal do contrato, na moeda da época, de 65 para 55 contos de réis. Também já não mais se cogitava, por desistência do proponente, a contratação do suprimento dos 125 kw requeridos pela iluminação pública pelo valor de 50 contos. Descarta também o governo local a ideia de resolver o problema assumindo ele próprio um serviço municipal de iluminação pública, desestimulado pelo alto custo do investimento inicial. Restou a opção de contrato provisório de iluminação, animado pela oferta da Ceará Light de cobrar o quilowatt a 757 réis, enquanto o consumidor particular pagava 1$200 réis pelo mesmo. 

usina no Passeio Público
 O contrato provisório favorecia a única empresa capacitada para a prestação desse serviço, a Ceará Tramway Light and Power, que desde 1913, por concessão em vigor até 1987, explorava os serviços de tramways e fornecia energia elétrica aos consumidores particulares na área de Fortaleza, atendendo ainda o setor industrial. Com estrutura administrativa  e potencial de geração necessários para ampliar seu atendimento, a Light esperava apenas que se lhe abrisse o novo mercado de consumo. As obras de instalação da The Ceará Tramway Light and Power, foram iniciadas em 1912, ocupando o terreno no nível do terceiro plano do Passeio Público para montar suas usinas. 
 

construção da usina da Ceará Tramway Light and Power, no Passeio Público em 1912

Com a obtenção dos serviços de iluminação pública, a Light voltou a investir no seu parque de geração, adquirindo várias máquinas e equipamentos. As mudanças ocorridas na iluminação pública, na passagem do lampião a gás para a iluminação incandescente, foram para a cidade um salto qualitativo no seu progresso urbano. Toda a área central e grande parte dos bairros alcançados pelo melhoramento determinaram o aumento do consumo residencial de energia elétrica, entre 1944 e 1946, fato que não é acompanhado nos dois anos seguintes, notadamente em 1947, quando há crise de fornecimento de energia em razão dos constantes defeitos nas turbinas.
O custo do combustível usado nas caldeiras, a lenha, foi um fator crucial para a Ceará Light. Na sua fase final, o consumo diário representava 25 vagões ferroviários de lenha, transportada do interior pela Rede Viação cearense. Custos ascendentes foram enfrentados com os fornecedores, dos quais o maior deles foi o lusitano José Maria Cardoso, que ficaria conhecido pela construção de sua residência no bairro Damas, popularizada como Casa do Português, objeto  de noticiário até na BBC de Londres, por seus excessos arquitetônicos.

 José Maria Cardoso, proprietário da "Casa do Português" era um dos fornecedores de lenha para a usina da Ceará Tramway Light and Power 

O reflexo nocivo no meio ambiente, pelo desmatamento, não era ainda preocupação, visto que não eram discutidas as questões ecológicas. Mesmo assim, no citado relatório do interventor da Light, o problema é levantado: o efeito calamitoso do emprego desse combustível na devastação de nossas florestas é por demais evidente, não necessitando de demonstração.
Havia ainda as dificuldades decorrentes da II Guerra Mundial, que reduziu as possibilidades de ligação marítima com a Europa.  os graves problemas tornaram-se insustentáveis. É esse quadro que a interventoria reconhece e atribui toda a culpa pelas dificuldades à própria Light, que mesmo contando com justos lucros, preferia enviá-los à sede em Londres, ao invés de aplica-los na concessionária cearense. Numa síntese realista, o interventor descreve a situação, para que ficasse claro que o desmoronamento do empreendimento decorreu pela natureza própria da companhia termoelétrica e pelas condições do meio (combustível difícil e caro; salários elevados; obrigações sociais onerosas e pobreza do meio).

 Ante esse quadro de crise extrema, restou então à direção da Ceará Tramway Light and Power, solicitar a intervenção do governo federal como recurso para continuar operando. Efetivada a intervenção em 1° de junho de 1946, segue-se a ela, 14 meses depois, a autorização para encampação pelo governo municipal em ato assinado pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, em 1948. É o fim da presença britânica nos serviços públicos na capital cearense.

Extraído do livro História da Energia no Ceará
De Ary Bezerra Leite 
fotos do livro acima citado e do Arquivo Nirez
   

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