domingo, 13 de julho de 2014

No Tempo dos Lampiões de Gás

A primeira cidade a ter iluminação a gás carbônico foi Londres, em 1812,  utilizando o gás extraído da hulha ou carvão-de-pedra. O Rio de Janeiro inauguraria essa modalidade de iluminação em 1854, quarenta e dois anos  depois de Londres. 

 Rua Floriano Peixoto 

Visando dotar Fortaleza desse serviço, o Presidente da província João Silveira de Souza assinou a lei nº 838, de 2 de outubro de 1857, que não se materializou. Nova tentativa ocorre em 1859, quando o contrato para a prestação do serviço é formalizado pelo presidente Silveira de Souza, na Lei 918 de 13 de setembro de 1859, sendo beneficiário da concessão Joaquim da Cunha Freire; também nada de prático resultou dessa norma.
Em 1864, é renovado o privilégio de explorar a iluminação pública pelo período de 59 anos. Dificuldades naturais levaram o empresário cearense a associar-se a Thomas Rich Brandt, com o qual procedeu a negociações internacionais em busca de soluções. Dessa negociação resulta a constituição de um grupo de investidores que, em 1865, institue a firma The Ceara Gaz Company Limited, com sede em Londres.
As operações de transferência para o grupo britânico foram aprovadas pelo governo da província, que inclusive assegurou o terreno adjacente à Santa Casa de Misericórdia, onde foi instalada a usina de gás e a residência do gerente. 


ladeira da Misericórdia, vista no sentido praia/centro com a estrutura do gasômetro e no alto, ao fundo, a Santa casa de Misericórdia

A empresa instalou-se em Fortaleza ocupando o prédio situado à Rua Formosa n° 52, com escritórios e o terreno com frentes delimitadas pelas ruas Senador Pompeu, Formosa e Senador Jaguaribe, na então chamada rampa da Santa Casa, onde foi providenciada a construção do gasômetro e usina de processamento do gás e a edificação da residência do gerente local.
A festiva inauguração oficial da iluminação a gás em Fortaleza ocorreu a 17 de setembro de 1867, após uma experiência  que a Ceara Gaz realizou no dia 7, com atendimento parcial de ruas, do Clube Cearense e outros prédios, todos no centro da cidade. Diante dos resultados positivos do contrato original com a Ceará Gaz, outros benefícios e privilégios foram concedidos pelo governo. Decretos provinciais de 1868 e 1869 concederam isenção de impostos sobre a importação de material de uso na empresa. 


 o gasômetro funcionava ao lado da Santa Casa de Misericórdia 

Fortaleza convivia com um novo serviço urbano que lhe conferia prestígio e modernidade. A aceitação popular e à seriedade com que a empresa inglesa operava o serviço, soma-se a atitude prudente do governo provincial, que transformou em lei o regulamento para fiscalização da iluminação a gás de Fortaleza (Lei n° 1578, de 18 de setembro de 1873).
O crescimento da rede de iluminação pública se processa de acordo com a expansão urbana. Em 1879, por contrato específico de 25 de novembro, é autorizada a instalação de 50 combustores no Passeio Público. No dia 27 de maio de 1888, há um acréscimo de 120 combustores. Dos novos bicos de gás, 80 são localizados no Boulevard Visconde de Cauípe (atual Avenida da Universidade), 22 na Praça de Pelotas (atual Clóvis Beviláqua), 9 na General Sampaio e 9 na Rua Major Facundo. 

 Avenida Visconde de Cauípe (atual Av. da Universidade) e a iluminação a gás


Devido aos bons resultados obtidos e o pelo reconhecimento da população aos serviços prestados, o governo continuava favorecendo o grupo inglês, tanto na isenção de impostos como na prorrogação de privilégios de exploração da iluminação pública. A Lei 1052, de 1911, prorroga o prazo de concessão até 16 de janeiro de 1958, mas estabelece uma condição que será fatal: a Ceara Gaz Company deverá substituir a iluminação a gás pela luz incandescente, a elétrica, na iluminação da capital. Nada ocorreu, entretanto, nesse sentido.

 A Praça Clóvis Beviláqua era um logradouro muito amplo e bem iluminado 

Outro fator de ameaça a Ceara Gaz surge em 1913, quando também em Londres é constituída uma nova empresa a Ceará Tramway Light and Power Company, que no ano seguinte, já instalada em Fortaleza, passa a explorar o transporte de bondes elétricos, a oferecer energia para empresas e residências e a intermediar operações comerciais de compra de motores e implementos elétricos na Inglaterra. A par disto, com a ocorrência da I Guerra Mundial, os custos operacionais cresciam e o fornecimento de gás perdia a vantagem econômica. 

 Primeiro gerador instalado pela Ceará Light em Fortaleza - foto do livro de Ary Bezerra Leite - História da Energia no Ceará 

Novas estratégias deviam ser buscadas pelos dirigentes da Ceara Gaz. Precisavam assegurar a manutenção do privilégio da iluminação pública e defender seu mercado de fornecimento de gás para consumidores comerciais e residenciais. No primeiro caso, consegue relativo sucesso, pois sobrevive por mais 20 anos, encerrando suas atividades de 68 anos a 25 de outubro de 1935. Quanto a clientela particular, é mantida pelo esforço de marketing, quando se tem registro da primeira batalha entre dois produtos concorrentes na história da publicidade no Ceará.


Extraído do livro História da Energia no Ceará
De Ary Bezerra Leite   
fotos do Arquivo Nirez
      

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom, excelente explanação!