sexta-feira, 19 de julho de 2013

Costumes e Histórias Antigas da Capital

Igreja de Bom Jesus dos Aflitos na antiga Vila de Arronches, atual Parangaba (foto do Museu da Imagem e do Som)

Fortaleza de 1887, da festa do Senhor do Bonfim dos Arronches, com a chegada dos caboclos, descendentes dos índios Algodões, os quais  partiam no último domingo de outubro, recebendo antes na sua igreja, a coroa de espinhos da grande imagem do crucificado, para retornarem na tarde do dia 23 de dezembro, dois meses depois, com as esmolas conseguidas em distantes lugares, até mesmo em Caucaia, a fim de condignamente celebrarem o tradicional festejo.


 Fortaleza das novenas de Nossa Senhora da Saúde no Mucuripe, a boa e terna padroeira dos Pescadores, com sua capelinha enfeitada de flores, palmas e luzes, os rapazes da pequenina vila vestindo camisa de flanela de cor e calça branca engomada, com larga faixa vistosa a cintura e as donzelas com vestidos novinhos de chita,  e voltas e braceletes de aljôfares.


Praça do Ferreira 
Fortaleza do carnaval sem malícia, com papangus, dominós e mascarados, os  Maracatus do Outeiro ou do Morro do Moinho, as laranjinhas de cheiro, a tina d’água que o Boticário Ferreira, estabelecido ali naquele prédio em que funcionou até bem pouco tempo a Farmácia Galeno, depois ocupada pelas Lojas Brasileiras, fazia colocar no centro da Praça que tomou seu nome, para nela mergulhar quem quer que por ali passasse e depois oferecer lauto banquete à vitima de sua brincadeira.
Fortaleza das calçadas desiguais, lá pras bandas do Mororó, que por lá ainda não haviam chegado os fios-de-pedra.

 Rua Major Facundo, em 1893. A casa em primeiro plano do lado esquerdo era da família dos Mississipis, com as janelinhas quadradas do sótão e os famosos "jacarés" para descida d'água. Foi remodelada por João Sabóia Barbosa em 1927

Fortaleza dos apelidos espirituosos, mal recebidos a principio, para  findarem adjudicados ao prenome dos crismados – as Pedrocas, filhas de um Pedro de tal; as Itapipocas, por terem vindo daquela localidade; as Mundórias, em vista de seu pai, professor de latim, viver declinando mundus, mundorum;  as Garapas, tias de Gustavo Barroso, porque muita gente recordava ainda o pseudônimo com que o avô do ilustre escritor assinava seus artigos políticos – Zé Garapa; as Mississipis, em razão de o pai ter possuído uma bodega denominada “Ao Mississipi”, aproveitando o intercâmbio forçado do Sul dos Estados Unidos com o Nordeste brasileiro durante a Guerra da Secessão; as Palhabotes, em vista do chefe da família ter montado estabelecimento comercial com o nome de “O Palhabote”...

 cacimba na Praça do Ferreira

Fortaleza dos tipos de rua – do Antônio Galo Chinês, espumando de raiva quando os moleques cantavam de galo próximo a ele; do Sabão Mole, merecendo apelido pela amarelidão do rosto, e que só faltava matar alguém quando lhe perguntavam pela velhinha que antes o acompanhava e depois o abandonara;  do Casaca de Urubu, contínuo do outrora Tribunal da relação, herdeiro forçado dos fraques dos desembargadores, sendo assim alvo das brincadeiras da meninada; e outros mais, todos êmulos da Mimosa, do Lapada, da Siri, do Jararaca, vítimas dos aperreios decorrentes da despreocupada infância daquele tempo.
Fortaleza das “donas” e “doninhas” que serviam água de chuva em copos de barro em salvas de prata, cujas famílias ostentavam louças com iniciais e frisos dourados e possuíam oratórios que eram verdadeiros museus artísticos, com santos de madeira, resplendores de ouro, Nossa Senhora da Soledade e o infalível Menino Jesus;  

  prédio onde funcionou o Hotel Avenida, incendiado nos anos 20

Fortaleza dos incêndios dominados a baldes de água, das dunas errantes e livres como o espírito de sua população, dos passeios calçados com lajes vindas de Portugal, dos chafarizes públicos, como o da rua hoje chamada José Avelino, o da Feira Velha, o da Feira Nova, o da Praça dos Voluntários, o do Outeiro, o da Praça do Patrocínio, do da Misericórdia e o da Praça de Pelotas.
Fortaleza dos frades de pedra, vindos do Reino, feito da chamada pedra de Lisboa, que adornavam vários pontos da cidade, inclusive a Praça do Ferreira.
Fortaleza das cacimbas públicas, hoje desaparecidas, cavadas ali mesmo, na Praça do Ferreira, Capistrano de Abreu e Voluntários.

 Igreja do Carmo

Fortaleza das janelas guarnecidas com gradis de madeira, de fitas estreitas e malhas quadradas, como aquelas da Igrejinha do Rosário e da Matriz do Carmo, ainda conservadas.
Fortaleza dos velhos sobrados de fachadas de azulejos, desaparecidos ou destinados a fins impróprios.

 Rua Major Facundo - trecho Praça do Ferreira

Fortaleza dos boêmios, daqueles e dos presentes, tempos em que um deles disfarçado em escritor modernista, não se envergonhou de cantar – o “cem por cento Cidade-Mulher”; não é sem razão que os poetas te cantam hoje como te cantavam no passado, em versos de oferendas e do mais puro amor, e os fiéis seresteiros, mais ou menos aposentados – ainda teimam apesar de todas as ocorrências – em vagabundear pelas tuas ruas nítidas e vazias, largando a voz no mundo os acordes de um violão que sobrou, à lua lá em cima com seu brilho adamantino, a econômica lua com quem uma vez teus administradores fizeram um incrível contrato, mas tão simples e peremptório , e que só deu certo porque os teus filhos são mesmo lunáticos.

Extraído do livro de Mozart Soriano Aderaldo
História Abreviada de Fortaleza e crônicas sobre a cidade amada


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