Politicamente inexpressiva,
Fortaleza não passava de um pequeno burgo até as primeiras décadas
do século XVIII. A chegada do primeiro governador do Ceará, Bernardo Manuel de
Vasconcelos, só iria acontecer em 1799. Ao chegar, o governador espantou-se com
a pobreza da capital, onde havia escassez absoluta de todas as coisas de
primeira necessidade. Surpreso, o governador fez um paralelo entre a capital e a Vila de Aracati, onde
havia um comércio estabelecido, numerosa população, acrescentando que “a
civilidade e a polidez de seus habitantes fazem desta vila assaz recomendável,
juntando a isso uma agradável e regular arquitetura das casas, e no grande
número delas, os donos possuem vultosos cabedais”, enquanto a Vila de Fortaleza
era “um montão de areia profundo, apresentando do lado pequenas casas térreas,
encontrando nesta classe a muito velha e arruinada casa dos governadores”. Nesse
mesmo ano Capitania do Ceará foi desmembrada da Capitania de Pernambuco e
Fortaleza foi escolhida capital.
No início do século XIX, Fortaleza
ainda tinha seu crescimento restrito à margem esquerda do Riacho Pajeú,
acompanhando as sinuosidades do rio, principal fonte de abastecimento de água. O
riacho dividia as terras imediatas à fortaleza de Nossa Senhora da Assunção em
duas zonas distintas: o Outeiro da Prainha na margem direita e a margem
esquerda, onde a Vila se estendia.
Por volta de 1810, segundo
registros do inglês Henry Koster, que visitou a Vila do Forte naquela época, o
lugar tinha cerca de dois mil habitantes, e não era compreensível a razão da
preferência pelo local. Não havia rios nem cais e a praia era de difícil
acesso; A vila erguia-se ao pé do forte que lhe deu o nome, e tanto a fortaleza
quanto o paiol da pólvora erguiam-se sobre uma montanha de areia.
Ainda de acordo com o inglês,
a vila apresentava formato quadrangular, com quatro ruas partindo da Praça do
Conselho (atual Praça da Sé), onde se encontravam o pelourinho e a igreja
matriz. As quatro ruas mencionadas por Koster, eram a antiga Rua da Cadeia ou
do Quartel; (atual Gustavo Sampaio), a Rua da Boa Vista, atual Floriano Peixoto;
a Rua dos Mercadores, na margem oriental do riacho Pajeú (atual Conde D’Eu) e a
Rua da Fortaleza, depois chamada de Rua da Misericórdia, atual Rua Dr. João
Moreira; havia ainda outra rua, a das Flores, bem longa, correndo
paralelamente, mas sem conexão, e que passava defronte a matriz. (atual Rua
Castro e Silva).
Em 1813, a Câmara Municipal
possuía uma planta parcial da vila, elaborada pelo engenheiro Antônio José da
Silva Paulet, que posteriormente a complementou, incluindo outras áreas que
demonstravam a viabilidade de expansão no sentido Leste-Oeste.
Por ordem de Dom Pedro I, a
vila é elevada à categoria de cidade, no dia 17 de março de 1823, passando a
ser chamada de Fortaleza de Nova Bragança. Em 1842 há registros de despesas
municipais com o alinhamento de becos e ruas, sendo aplicada uma multa de
trinta mil réis aos que desobedecessem às determinações da Câmara, ou
descumprisse as normas.
No ano seguinte, havia a
preocupação com o nivelamento e aterro das ruas, e posteriormente, os
proprietários das casas tiveram o prazo de apenas 8 dias para pavimentar os
logradouros. A pavimentação era incipiente, não atendia às necessidades, sendo
comuns as reclamações acerca de pedras soltas, que dificultava o tráfego de
veículos. Era proibido o tráfego de carros puxados por bois nas ruas calçadas,
sob pena de multa aos infratores no valor de quatro mil réis ou 8 dias prisão.
Quanto à projeção política só
começou com a emancipação do Brasil de Portugal em 1822 e se processou de forma
muito lenta. Durante o governo imperial, que se estende até 1889, ano da
Proclamação da República, o Brasil viveu uma fase de concentração política. É
dessa fase a criação das províncias do império, entre elas, a do Ceará.
A situação de estagnação só começou a ser superada a partir de 1866, quando a cidade passou a ser o centro coletor de algodão, couro, açúcar e café do Estado. Nessa época, o algodão produzido no interior atingia os maiores preços no mercado internacional, por causa da suspensão da produção nos Estados Unidos, envolvido na guerra de Secessão, entre 1861 e 1864, para a Inglaterra.
O escoamento da produção através do porto de Fortaleza, fez com que a cidade, capital e centro administrativo da Província, ultrapassasse Aracati também em importância comercial. O que fez Fortaleza vencer a disputa pela hegemonia no Ceará foi o fato de ter sido escolhida como capital da província. O sistema político-administrativo do Império criou os mecanismos políticos e institucionais que favoreceram Fortaleza. Este fato e o volume maior da produção para o comércio externo contribuíram para que a maior parte dos investimentos governamentais em edificações, infraestrutura, e serviços fossem aplicados na capital.
Com a abertura de estradas de
ferro da capital para os principais centros urbanos do interior, Fortaleza
assumiu também a hegemonia política. A Estrada de Ferro Baturité foi criada no
dia 25 de setembro de 1870, iniciou as atividades de 1873, e tinha como ponto
final à cidade de Baturité, na região produtora de café. Em 1878 foi criada
outra ferrovia, a Estrada de Ferro Sobral, que ligava Camocim a Sobral. Em
1909, quando a ferrovia alcançava a cidade de Acopiara, a Estrada de Ferro
Baturité foi juntada com a Estrada de Ferro Sobral e criada a Rede de Viação
Cearense.
Fontes:
Revista do Instituto do Ceará: Fortaleza, capital do Ceará: transformações no espaço urbano ao longo do século XIX – autora Maria Clélia Lustosa Costa. 2014/03.
Revista Fortaleza: De Vila à Capital da Província – autor Erivaldo Carvalho. 30/04/2006
Verso e Reverso do Perfil Urbano de Fortaleza, livro de Gisafran Nazareno Mota Jucá
Fotos do Arquivo Nirez - Mapas do livro "A Cidade do Pajeú", de Raimundo Girão








