sábado, 13 de março de 2021

A Capital da Província

 

Politicamente inexpressiva, Fortaleza não passava de um pequeno burgo até as primeiras décadas do século XVIII. A chegada do primeiro governador do Ceará, Bernardo Manuel de Vasconcelos, só iria acontecer em 1799. Ao chegar, o governador espantou-se com a pobreza da capital, onde havia escassez absoluta de todas as coisas de primeira necessidade. Surpreso, o governador  fez um paralelo entre a capital e a Vila de Aracati, onde havia um comércio estabelecido, numerosa população, acrescentando que “a civilidade e a polidez de seus habitantes fazem desta vila assaz recomendável, juntando a isso uma agradável e regular arquitetura das casas, e no grande número delas, os donos possuem vultosos cabedais”, enquanto a Vila de Fortaleza era “um montão de areia profundo, apresentando do lado pequenas casas térreas, encontrando nesta classe a muito velha e arruinada casa dos governadores”. Nesse mesmo ano Capitania do Ceará foi desmembrada da Capitania de Pernambuco e Fortaleza foi escolhida capital.



Fortaleza na época em que foi elevada à categoria de Vila, em 1726. Desenho atribuído ao capitão-mor Manuel Francês, que a instalou. Era a Praça do Conselho, atual Praça da Sé. Em cima, à direita, o forte de N.S. da Assunção, com a bandeira portuguesa. 

No início do século XIX, Fortaleza ainda tinha seu crescimento restrito à margem esquerda do Riacho Pajeú, acompanhando as sinuosidades do rio, principal fonte de abastecimento de água. O riacho dividia as terras imediatas à fortaleza de Nossa Senhora da Assunção em duas zonas distintas: o Outeiro da Prainha na margem direita e a margem esquerda, onde a Vila se estendia.       

Por volta de 1810, segundo registros do inglês Henry Koster, que visitou a Vila do Forte naquela época, o lugar tinha cerca de dois mil habitantes, e não era compreensível a razão da preferência pelo local. Não havia rios nem cais e a praia era de difícil acesso; A vila erguia-se ao pé do forte que lhe deu o nome, e tanto a fortaleza quanto o paiol da pólvora erguiam-se sobre uma montanha de areia.

Ainda de acordo com o inglês, a vila apresentava formato quadrangular, com quatro ruas partindo da Praça do Conselho (atual Praça da Sé), onde se encontravam o pelourinho e a igreja matriz. As quatro ruas mencionadas por Koster, eram a antiga Rua da Cadeia ou do Quartel; (atual Gustavo Sampaio), a Rua da Boa Vista, atual Floriano Peixoto; a Rua dos Mercadores, na margem oriental do riacho Pajeú (atual Conde D’Eu) e a Rua da Fortaleza, depois chamada de Rua da Misericórdia, atual Rua Dr. João Moreira; havia ainda outra rua, a das Flores, bem longa, correndo paralelamente, mas sem conexão, e que passava defronte a matriz. (atual Rua Castro e Silva).

Em 1813, a Câmara Municipal possuía uma planta parcial da vila, elaborada pelo engenheiro Antônio José da Silva Paulet, que posteriormente a complementou, incluindo outras áreas que demonstravam a viabilidade de expansão no sentido Leste-Oeste.



A planta de Silva Paulet, de 1813, reproduz a vila avistada por Koster. No mapa já estão presentes os caminhos que orientam o seu crescimento, dispostos de forma radioconcêntrica: estradas de Jacarecanga, do Soure, do Arronches, de Aquiraz, da Precabura e a Picada de Macoripe. A cidade cresceu obedecendo ao traçado xadrez proposto por Paulet.
   

Por ordem de Dom Pedro I, a vila é elevada à categoria de cidade, no dia 17 de março de 1823, passando a ser chamada de Fortaleza de Nova Bragança. Em 1842 há registros de despesas municipais com o alinhamento de becos e ruas, sendo aplicada uma multa de trinta mil réis aos que desobedecessem às determinações da Câmara, ou descumprisse as normas.

No ano seguinte, havia a preocupação com o nivelamento e aterro das ruas, e posteriormente, os proprietários das casas tiveram o prazo de apenas 8 dias para pavimentar os logradouros. A pavimentação era incipiente, não atendia às necessidades, sendo comuns as reclamações acerca de pedras soltas, que dificultava o tráfego de veículos. Era proibido o tráfego de carros puxados por bois nas ruas calçadas, sob pena de multa aos infratores no valor de quatro mil réis ou 8 dias prisão.


Rua Floriano Peixoto - início do séc. XX

Quanto à projeção política só começou com a emancipação do Brasil de Portugal em 1822 e se processou de forma muito lenta. Durante o governo imperial, que se estende até 1889, ano da Proclamação da República, o Brasil viveu uma fase de concentração política. É dessa fase a criação das províncias do império, entre elas, a do Ceará. 

A situação de estagnação só começou a ser superada a partir de 1866, quando a cidade passou a ser o centro coletor de algodão, couro, açúcar e café do Estado. Nessa época, o algodão produzido no interior atingia os maiores preços no mercado internacional, por causa da suspensão da produção nos Estados Unidos, envolvido na guerra de Secessão, entre 1861 e 1864, para a Inglaterra.  

O escoamento da produção através do porto de Fortaleza, fez com que a cidade, capital e centro administrativo da Província, ultrapassasse Aracati também em importância comercial. O que fez Fortaleza vencer a disputa pela hegemonia no Ceará foi o fato de ter sido escolhida como capital da província. O sistema político-administrativo do Império criou os mecanismos políticos e institucionais que favoreceram Fortaleza. Este fato e o volume maior da produção para o comércio externo contribuíram para que a maior parte dos investimentos governamentais em edificações, infraestrutura, e serviços fossem aplicados na capital. 


Rua da Lagoinha, depois Rua do Trilho de Ferro -  um estreito caminho que, depois de alargado com mais de 40 palmos para o poente, serviria à primitiva Estrada de Ferro de Baturité

Com a abertura de estradas de ferro da capital para os principais centros urbanos do interior, Fortaleza assumiu também a hegemonia política. A Estrada de Ferro Baturité foi criada no dia 25 de setembro de 1870, iniciou as atividades de 1873, e tinha como ponto final à cidade de Baturité, na região produtora de café. Em 1878 foi criada outra ferrovia, a Estrada de Ferro Sobral, que ligava Camocim a Sobral. Em 1909, quando a ferrovia alcançava a cidade de Acopiara, a Estrada de Ferro Baturité foi juntada com a Estrada de Ferro Sobral e criada a Rede de Viação Cearense.


Fontes:

Revista do Instituto do Ceará: Fortaleza, capital do Ceará: transformações no espaço urbano ao longo do século XIX – autora Maria Clélia Lustosa Costa. 2014/03.

Revista Fortaleza: De Vila à Capital da Província – autor Erivaldo Carvalho. 30/04/2006

Verso e Reverso do Perfil Urbano de Fortaleza, livro de Gisafran Nazareno Mota Jucá

Fotos do Arquivo Nirez - Mapas do livro "A Cidade do Pajeú", de Raimundo Girão     

  

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