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domingo, 16 de março de 2014

Praça Delmiro Gouveia

 

Localizada no bairro Jardim América, em frente ao colégio Paulo VI, na Avenida Jorge Dummar e Ruas Major Weyne, Damasceno Girão e Antônio Mendes. A praça foi criada na gestão do prefeito Álvaro Weyne, através do decreto 294, de 02 de abril de 1936. Mais tarde teve o nome mudado para Delmiro Gouveia, através da lei 1965, de 13 de julho de 1962, no governo do Prefeito Manuel Cordeiro Neto.


foto dos anos 20, com o Matadouro Modelo inaugurado em 1924, no bairro do Barro Preto ou Tauape, hoje Jardim América, no mesmo local onde está atualmente o Colégio Paulo VI. Em primeiro plano, o terreno que agora corresponde a Praça Delmiro Gouveia


 O mesmo trecho atualmente, com o Colégio Paulo VI onde antes estava o Matadouro Modelo
 
O logradouro consta nos mapas antigos da prefeitura. Ocupava um espaço imenso e arborizado, com um chafariz no centro. Posteriormente foi transformada em feira de vendas e trocas de animais, depois feira livre e local de montagens de circos e parques de diversões. Por volta de 1970, a CAGECE instalou uma subestação para fornecimento de água, uma cisterna de 6 metros de profundidade e uma casa de força.
 
Mas ainda sobrou espaço para ser arborizada como Praça.  Mas não foi. A Praça Delmiro Gouveia é o retrato do abandono a que se acham relegadas a maioria das praças de Fortaleza, mesmo as mais antigas, como as do centro. É uma área enorme sem uma única árvore, sem bancos, sem equipamentos, com muros pichados, alguns poucos brinquedos enferrujados e como opção de lazer, apenas e tão somente algumas quadras de esportes.O nome da praça é uma homenagem a Delmiro Gouveia 



 


Para acesso à praça, que é elevada do solo cerca de dois metros, há uma escadaria e uma rampa. Como não há equipamentos comuns às praças, o local está sempre assim, deserto e vazio de pessoas. 

Quem foi Delmiro Gouveia

 imagem do site: http://lampiaoaceso.blogspot.com.br

Delmiro Gouveia nasceu no Ceará, apesar das controvérsias tanto quanto à sua naturalidade e quanto à sua data de nascimento. Por ocasião de sua morte, um jornal de Maceió noticiou que ele nascera na Paraíba; outros diziam que ele era natural de Pernambuco; Plínio Cavalcante afirma que ele nasceu em Sobral; Carlos Lobo (primo de Delmiro) garante que ele nasceu em Ipu. Quanto à data, uns acham que ele nasceu no dia 5; outros dizem que no dia 6; o ano pode ser 1861 ou 1863. O próprio Delmiro contribuía para aumentar a confusão em torno de sua biografia, tanto quanto ao local e data de nascimento, quanto ao estado civil dos seus pais. Oficialmente, Delmiro Gouveia nasceu no dia 5 de junho de 1863, na Fazenda Bonito, em Ipu, Ceará, filho de Delmiro Porfírio Farias e Leonilda Flora da Cruz Gouveia.

Seu pai costumava viajar do Ipu para a zona da mata e agreste de Pernambuco, à cavalo, comercializando couros, gêneros alimentícios e tecidos.  Numa dessas jornadas, hospedou-se na Fazenda Pau d’Alho, em Pernambuco, onde conheceu e se apaixonou por Leonilda, filha de um comendador.  Delmiro raptou a moça e a trouxe para os sertões do Ceará, vivendo algum tempo em Santa Quitéria, mudando-se depois para Ipu, contando com o apoio de parentes. Leonilda era uma moça bonita, de elevada condição social, econômica e financeira. Como o raptor fosse casado e pai de 5 filhos, a família se opôs e passou a persegui-lo,  jurando vingança pela afronta.

Com isso tiveram de viver escondidos, cercados de intrigas, pois na mesma fazenda em que se escondiam, vivia sua primeira esposa.  E foi nesse ambiente de ódio, de vinganças e sobressaltos que nasceu Delmiro de Farias Gouveia. Como a família interferia e dividia  opiniões, consta que seu pai, desgostoso, alistou-se como voluntário para a Guerra do Paraguai e nunca mais retornou.

Ao saber da morte do companheiro, Leonilda, isolada e sem recursos, deixa o Ceará, e à bordo de um vapor volta para Pernambuco, levando um casal de filhos: Maria Augusta e Delmiro. Não procura a família, da qual fora excomungada, como era costume na época. Empregou-se em uma residência, com Delmiro então com três anos de idade, pobre e mal trajado. Não se sabe se frequentou  escolas, ou se aprendeu a ler com sua mãe, mulher distinta e educada. 


 Mercado do Derby criação de Delmiro Gouveia, funcionou onde hoje fica o quartel-general da Polícia Militar em Recife. Foi inaugurado em 1898. Era uma espécie de precursor dos atuais shoppings. 
imagem do site http://lampiaoaceso.blogspot.com.br

Depois de uma infância difícil, Delmiro sentou praça no 2° Batalhão de Infantaria do Exército em Recife, depois trabalhou como mascate, condutor de trens, funcionário de diversas firmas estrangeiras, o que lhe possibilitou fazer mais de uma viagem aos Estados Unidos.  Comerciante habilidoso, inteligente e ativo, tornou-se uma das maiores fortunas do Recife, com seu comércio de couros e peles. Delmiro casou-se em agosto de 1883, com Maria Anunciada de Melo Falcão. Adquiriu os terrenos do Derby Clube e neles construiu um elegante e espaçoso mercado, um hotel internacional, além de parques de diversões com bares e outras atrações.  


 Delmiro Gouveia e o prédio da Usina hidrelétrica, a primeira do Nordeste (foto do livro A História da Energia no Ceará)

No início dos anos 1900, suas vistas se voltavam para a grande cachoeira de Paulo Afonso, visando o aproveitamento daquela água em beneficio da região e de seus moradores. Partiu para a América do Norte e lá contratou engenheiros e técnicos em hidráulica, e importou o material necessário para instalação em Paulo Afonso, de uma usina elétrica. Conta-se que os engenheiros contratados para montarem as máquinas da usina geradora, provaram com dados e números que não havia condições técnicas para a instalação. 

Mas Delmiro insistiu e assim houve o rompimento do contrato; os engenheiros e técnicos voltaram para os Estados Unidos. Delmiro então convocou os caboclos que com ele trabalhavam e os encorajou a montarem as máquinas. Tinha em seu poder as plantas e desenhos, e como falava inglês, traduziu as instruções, e em pouco tempo as máquinas foram montadas. Então, pela primeira vez, foi captada a força da energia de Paulo Afonso, transformando-a em energia elétrica.

  
No local onde hoje se encontra o Memorial da Medicina de Pernambuco (antiga Faculdade de Medicina do Recife), no final do século XIX existia o edifício onde funcionava o Hotel Internacional de propriedade do empresário Delmiro Gouveia.
imagem: http://amigosdedelmirogouveia.blogspot.com.br

Montou-se a fábrica de linhas da Pedra que continuaria a trabalhar, não fosse seu criador assassinado por inimigos implacáveis. As ações da fábrica foram adquiridas por poderoso truste; suas máquinas ficaram paralisadas e depois foram atiradas como ferro velho no Rio São Francisco. Delmiro foi, portanto, o pioneiro da energia elétrica de Paulo Afonso.
Quanto à sua vida amorosa, após separar-se de Maria Anunciada, teve duas mulheres – Eulina e Jovem além de numerosos casos extraconjugais. De sua união com Eulina nasceram 3 filhos que foram seus continuadores. 

 imagem do site: http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br

Apesar de toda a fortuna, a posição e o prestígio, Delmiro vivia sobressaltado. A vida tumultuada que levava, seus casos amorosos proibidos, a posição de dono de uma fábrica naqueles confins, suas desavenças antigas, quando comercializava com peles e couros,  a surra que dera num chefe político de Pernambuco, e tantos outros fatos, contribuíram para que Delmiro vivesse bastante protegido com armas e bastante munição. Sabia que sua vida estava em permanente perigo, tanto que uma das providências que tomou, foi erguer em torno de sua e de outras residências, cercas de arame farpado. Providências que não foram suficientes para evitar o que aconteceu.

No dia 10 de setembro de 1917, às 20 horas, Delmiro estava na residência de Dona Jovem (eles moravam separados), sozinho, lendo um jornal, quando foi assassinado com 3 disparos, feitos por elementos reconhecidamente assalariados, que fugiram apressadamente, deixando no local as armas com que praticaram o crime.  Ficou um mistério quanto a sua morte, com inúmeras versões, principalmente pelo fato de que havia em Pedra mais de 20 vigias e que os numerosos cachorros de raça que Delmiro criava, não deram sinal de aproximação de pessoas estranhas.  Dois empregados da fábrica de Delmiro, foram considerados suspeitos e presos. Ambos se declararam inocentes. 


fontes:
Praças de Fortaleza, de Maria Noélia Rodrigues da Cunha
fotos da praça; Rodrigo Paiva, março/2014