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Foi uma dessas figuras populares que povoam as histórias da
Fortaleza antiga dos anos 1920, rejeitada em público, prestigiada no ambiente
privado. Chica Pinote era prostituta, morena, alta e vistosa, que morava no
Beco do São Bernardo, e costumava aparecer no meio do povo, de forma
inesperada. Uma dessas aparições, que causou a maior celeuma, foi numa matinê
do Circo Pery, armado na Praça da Estação.
Espetáculo iniciado, a arquibancada repleta de meninos, as
cadeiras ocupadas pelos adultos, quando entra aquele mulherão, com vasto chapéu
emplumado, faiscante de joias, e ocupa um dos camarotes que até então estava vazio.
Todo o circo crava os olhos na mulher e acompanha seus movimentos um tanto
exagerados. As famílias a olham indignadas, as mais próximas do camarote,
levantam-se e saem.
Chica Pinote passou os olhos cheios de desdém pelo anfiteatro e dobrou o braço no gesto característico de “dar uma banana”, o que desencadeou uma gritaria geral. As famílias vão fazendo uma retirada em massa, e o diretor do circo reclama a presença da Polícia, que a muito custo consegue levar para fora a causadora do tumulto, a qual ameaça o delegado com o guarda-sol de rendas, empurra os soldados, e protesta aos gritos: - paguei o camarote com o meu dinheiro, que é igual ao dos outros! Não saio porque não quero!
O delegado compreende a situação, mas retira à força a Chica Pinote que recebe, aos prantos, a devolução do dinheiro com que pagou o camarote, dinheiro igual ao dos outros. O espetáculo continua, mas sente-se que foi estragado de qualquer modo. Nem os artistas estão trabalhando com o mesmo gosto, nem o público está aplaudindo com o mesmo entusiasmo. As filas de cadeiras e os camarotes estão quase vazios.
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Muito se fala dos tipos populares que habitavam as ruas de Fortaleza do passado, homens meio loucos, meio excêntricos, quase todos mendigos, que viviam da caridade alheia e causavam agitação por onde passavam. Eram importunados nas ruas, alguns reagiam com agressividade, outros pareciam nem perceber que era alvo das chacotas. Mas poucos sabem que também havia muitas mulheres nesse bloco de gente esquisita.
A Micaela era negra retinta, varapau de quase dois metros de
altura, com passo de soldado alemão, vestida de preto e saia arrastando no
chão. Andava nas ruas pelo calçamento e atravessava as praças sempre em
diagonal. Empunhava um grosso porrete, também preto, e a cada esquina parava,
olhava para todos os lados e depois seguia seu caminho.
Diziam que era homem disfarçado de mulher, que botava feitiço, mas a Micaela que causava pavor a tanta gente, era tão somente uma pobre criatura que morava sozinha em uma palhoça para os lados do Prado Velho e só saía a rua para revolver as latas de lixo em busca de comida.
José Cândido, conhecido pela alcunha de Casaca de Urubu, foi
o cobrador de dívidas mais empenhado que essa cidade já viu. Era o terror dos
caloteiros e dos maus pagadores. Quando o credor perdia as esperanças, deixava
a cobrança a cargo do Casaca de Urubu, que era servidor do Tribunal de Relação,
e nas horas vagas, vivia de comissões com a cobrança de contas atrasadas.
Era infalível a intervenção de Casaca de Urubu, conta na sua
mão, era conta recebida. Tinha uma lábia incrível e para ele todos os meios
para fazer o devedor quitar o débito, eram perfeitamente aceitáveis; em último
caso ameaçava com escândalos, com gritaria e polícia na porta.
Ficava nas imediações da Praça do Ferreira à cata de seus
clientes, que fugiam às léguas quando o viam e evitavam transitar pela
praça. O cerco não falhava: chegava uma
hora em que o devedor não tinha mais como fugir e tratava de pagar, porque o
Casaca de Urubu ameaçava, perseguia na rua, falava alto, chamava a atenção de
todas as maneiras.
O apelido veio das roupas que usava rotineiramente, fraques
descartados pelos desembargadores, que geralmente ficavam enormes no homem
baixinho e gorducho. José Cândido era epiléptico, e com frequência sofria
ataques e caía na via pública, acometido do mal, sempre que era alvo da
molecada que o perseguia, aos gritos, com o apelido que o revoltava: Casaca de
urubu... bubu!
Certa vez recebeu a incumbência de cobrar determinado devedor, que não havia meios de lhe pagar apesar de todas as ameaças que costumava lançar mão. Cansado de tanto vai e vem, e em último caso, propôs ao devedor que lhe pagasse ao menos sua parte, os 50% de comissão a que tinha direito. E recebeu. Em seguida, devolveu a conta ao credor e disse-lhe sem a menor cerimônia: “aqui está a parte de sua conta que não consegui receber, sendo que, os 50% da minha comissão eu já recebi”.
Outra personagem bastante conhecida era a Noiva do Tempo, que
estava convencida de haver recebido por herança uma grande fortuna e vivia nos
bancos procurando recebê-la. Contavam que a mulher havia sido abandonada pelo
noivo no dia do casamento, e nas suas andanças pela cidade, usando seu velho vestido de noiva, sujo e esfarrapado, procurava pelo
noivo e delirava sobre sua imaginária riqueza. Um dia a Noiva do Tempo foi
atropelada por um ônibus, no Centro, nas imediações da praça do Coração de Jesus, e levou sua busca para outras dimensões.
Manezinho do Bispo, O Porteiro do Palácio
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| imagem da Internet |
Manoel Cavalcante Rocha, vulgo Manezinho do Bispo começou a
trabalhar no Palácio do Bispo no dia 1° de janeiro de 1884, aos 18 anos de
idade, durante o bispado de Dom Joaquim José Vieira, e lá permaneceu até
morrer, no dia 30 de julho de 1923.
Oficialmente era o porteiro do palácio, mas acabou exercendo
várias funções no local. Era o primeiro a acordar, e o último a dormir, cuidava
da capela, ajudava missa, atendia na portaria, distribuía esmolas aos pobres,
servia refeições. Só punha os pés na rua em caso de necessidade.
Manezinho do Bispo tinha o dom da escrita, elaborava textos e
pensamentos que a muitos parecia sem nexo ou sentido, mas que era motivo de
orgulho do seu autor. Colaborava quase diariamente na seção “ineditoriais” do
Jornal Correio do Ceará, depois reunia em folhetos os seus apreciados
pensamentos, que eram ansiosamente aguardados por seus inúmeros admiradores.
Eis alguns dos originais pensamentos do Manezinho do Bispo,
que fizeram época e o transformaram em motivo de chacota na cidade.
O Passeio Público é um aprazível lugar para quem vai ali com boas intenções.
Amar sem ser amado é correr atrás de um trem e perder
O bacharel pobre que casa com moça pobre dá um tiro com a
pistola do passado nos miolos do futuro.
Gostaria de ser como as borboletas: as borboletas voam e eu não voo.
Conta-se que o bispo D. Joaquim, aborrecido com a grande papelada que enchia o quarto do Manezinho, no Palácio Episcopal, chamou-o um dia e disse que queimasse aqueles folhetos. Manezinho saiu para a rua e queimou-os, vendendo pela metade do preço.Apesar do folclore em torno dos escritos de Manezinho do Bispo, muitos de seus textos são frutos de reflexões e pensamentos muito bem estruturados.
Era um dos personagens mais assíduos das salas de exibição de filmes da velha Fortaleza, nome de batismo ignorado, conhecido pelo apelido de Cangulo, que ganhara nos tempos em que era aluno do Liceu do Ceará, onde cursara o primeiro ano. Popularíssimo no meio estudantil devido a feiura, um dia, resolveu largar a cidade natal e ir morar no Rio de Janeiro. Durante muito tempo, ninguém ouviu falar dele.
Em agosto de 1909, os cinemas exibiam a reportagem do sepultamento do Presidente Afonso Pena, que falecera no mês anterior. O Pathé (primeiro cinematógrafo de Fortaleza, inaugurado em 1908, propriedade do italiano Vitor de Maio) estava literalmente cheio de estudantes, quando apareceu o Cangulo na tela, no melhor estilo papagaio de pirata, de pé por trás do cordão de isolamento dos guardas civis à porta do Palácio do Catete, quando saía o cortejo presidencial. Um grito uníssono sacudiu a plateia: – O Cangulo!!!
Seguiram-se estrepitosas salvas de palmas. Então, por mera coincidência, o Cangulo abriu a bocarra num sorriso sem dentes, como dirigido a seus antigos colegas. Grande aclamação abalou o cinema: – Viva o Cangulo! Viva o Cangulo no Catete! Viva o sucessor de Afonso Pena!
O escritor Gustavo Barroso o encontrou anos depois no Rio de Janeiro, vivendo como indigente, desiludido e acabado. Conseguiu com um amigo que o governo lhe fornecesse uma passagem de volta para Fortaleza, onde vivia seu pai, que vendia bananas na feira. Mas o Cangulo não deu sorte nesse retorno. Pouco tempo depois após uma discussão, foi assassinado a tiros de revólver por um certo Barbosa Lapada.
Mané Coco era a alma do Café Java
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| foto do Arquivo Nirez |
Manuel Pereira dos Santos, vulgo Mané Coco era marmorista, e
não foi só o fundador do Café Java, na Praça do Ferreira, ele era a alma do
lugar, o que dirigiu e imortalizou o estabelecimento. Estava sempre de branco,
de chapéu de palhinha e uma rosa no peito. Mané Coco era o bombeiro voluntário
de Fortaleza. Sentiu cheiro de incêndio, ouviu falar de um, ele ia até lá.
Carregava água para apagar o fogo; isolava os prédios vizinhos, enfiando o
machado nos telhados, salvava vidas ameaçadas. Passava por cima das cumeeiras
em chamas, assume os riscos, salva patrimônios. E não ganhava nada com isso.
Na rotina diária, sem incêndios, era o homem mais pacato
deste mundo, e tinha habilidade para se sair de situações embaraçosas. Certa
feita um grupo de cadetes da escola Militar, famosos pelas arruaças que
promoviam pela cidade, o ameaçaram com uma boa surra, se não lhes dessem,
gratuitamente, no Café Java, um jantar de sustância. Mané Coco promete então
que o jantar ser servido, um jantar de galinha, e marca dia e hora.
No dia acertado, o bando de cadetes abanca-se na mesa já preparada. Ele ordena ao seu empregado: --- seu Chico, sirva o jantar a esses meninos.
O Chico serve cerimoniosamente diante de cada convidado
forçado, um prato cheio de grãos de milho. Os cadetes se entreolharam
surpresos, e quando reclamaram, Mané Coco respondeu com fingida ingenuidade: -
estou cumprindo a promessa. Jantar de galinha não é milho? Os estudantes
acharam muita graça e deixaram-no em paz. Quando morreu, foi uma comoção. Foi
para a eternidade todo de branco, com sua eterna flor na lapela.
Fontes de pesquisa:
Coração de Menino de Gustavo Barroso
Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão
Coisas que o Tempo Levou, de Raimundo Menezes
Fortaleza Descalça, de Otacílio de Azevedo
O Consulado da China de Gustavo Barroso





