sábado, 6 de maio de 2017

A Construção da Avenida Leste-Oeste

a avenida em construção - primeiro trecho asfaltado - 1973

Construída no início dos anos 70, na gestão do prefeito Vicente Cavalcante Fialho (1971-1975), a Avenida Presidente Humberto de Alencar Castelo Branco, conhecida popularmente como Avenida Leste-Oeste, tinha a proposta inicial de melhorar a mobilidade urbana, facilitando a ligação da zona industrial da Avenida Francisco Sá com o Porto do Mucuripe.

O surgimento da via melhorou o acesso ao litoral oeste de Fortaleza, possibilitou a abertura de ruas secundárias e perpendiculares, facilitou o fluxo de pessoas, veículos e mercadorias entre o litoral e o centro. Depois da construção da ponte sobre o rio Ceará, a avenida passou a ser a via de ligação entre os municípios de Fortaleza e Caucaia.

Após a inauguração - postal dos anos 70

Mas a contrapartida da melhoria da mobilidade, foi a desestruturação dos laços de vizinhança para comunidades que residiam na área do bairro Moura Brasil, que precisou se distanciar de vizinhos e amigos, alguns de longa data, e do afastamento da porção do centro comercial, onde mantinham empregos ou ocupações informais.

O bairro Moura Brasil, o mais atingido pelas obras de construção da avenida, localiza-se numa região de antigas dunas e se caracteriza por abrigar uma população de baixa renda, formada originalmente por retirantes da seca de 1915 e 1932. Para evitar que esses migrantes, vindos de várias cidades do interior do Estado, ocupassem ruas e praças da capital, foram criados os chamados “campos de concentração”, onde ficavam confinados. Um desses campos foi montado onde hoje é o bairro Moura Brasil.

trecho desaparecido da comunidade do Oitão Preto - as casam ocupavam até a beira da praia

O final da Rua General Sampaio, conhecida como "Cinza" também desapareceu

Para abrir espaço para a construção da Avenida, a região onde se encontra o bairro precisou ser redimensionada, o que determinou a transferência da população que ocupavam as áreas cortadas pela avenida, composta pelas comunidades das Cinzas, Moura Brasil, Oitão Preto, Braga Torres e Soares Moreno.
Os moradores foram remanejados para áreas periféricas de Fortaleza – como o Conjunto Rondom, Conjunto Palmeiras, Vicente Pinzon –  para o Conjunto Jurema, em Caucaia, e outros.

A avenida foi inaugurada por etapas, e a primeira ocorreu no dia 20 de outubro de 1973. Naquela ocasião, cerca de 20 mil pessoas se aglomeravam no local da solenidade, quando dentro das programações, quatro aviões AT-26 Xavante, pertencentes ao 4º Esquadrão Grupo de Aviação da FAB, da Base Aérea de Fortaleza, subiram e sobrevoaram a baixa altitude, a área onde estava instalado o palanque das autoridades que aguardavam a chegada do então ministro Costa Cavalcante, representante do Presidente da República, General Emilio Garrastazu Médici (1969-1974).


imagens do dia da inauguração

A esquadrilha subiu novamente e, no momento do ponto mais baixo da manobra, iniciou uma descida para um "looping" sobre a Avenida Leste-Oeste. Nesse instante, um dos aviões deixou a formação e entrou em parafuso, dando a impressão de que isso fazia parte das manobras.

Como o Xavante começasse a descer cada vez mais rapidamente em parafuso, a multidão que acompanhava a evolução da esquadrilha, como que reagiu e temeu a um só tempo, pela queda do avião. E, realmente, poucos segundos depois, ele explodia a 500 metros do palanque, num bairro densamente povoado por famílias pobres. Do local, subiu uma nuvem negra de fumaça. Eram 10h20min.

Menos de 10 minutos depois, o Corpo de Bombeiros chegava até onde o avião caíra - na Rua Gomes Parente, no Bairro de Pirambu, a 40 metros da Avenida Leste-Oeste. Uma criança com o corpo todo queimado foi a primeira a ser recolhida, sendo encaminhada, ainda com vida, ao Instituto Dr. José Frota, onde, entretanto, veio a falecer.

Enquanto isso, o corpo de um homem ardia no meio da rua, mas já sem vida. Os moradores da rua Gomes Parente tentavam jogar água nas três casas sobre as quais o avião desabara, mas inutilmente, porque o fogo crescia e atingia mais quatro casebres, que ficaram totalmente destruídos.

O prefeito Vicente Fialho suspendeu imediatamente todas as festividades que marcariam a inauguração da avenida, a primeira obra viária do Nordeste, construída com recursos do Fundo de Desenvolvimento Urbano, criado pelo Banco do Nordeste do Brasil. O Ministro do Interior, Costa Cavalcanti, apenas cumpriu um único ponto de seu programa: a inauguração do novo prédio do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas.

Dom Aloísio Lorscheider, arcebispo de Fortaleza e então presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) esteve na Assistência Municipal e ministrou a benção aos feridos graves. Saldo da tragédia: 15 mortos, entre eles o piloto da aeronave acidentada, Tenente Pedro Rangel Molinos, gaúcho, 24 anos, há oito anos na FAB.

Avenida Leste Oeste no trecho bairro Moura Brasil com a igreja de Santa Teresinha - postal dos anos 70

Desde sua inauguração, no ano de 1973, até os dias atuais, a Avenida Leste-Oeste passou por algumas transformações, inclusive a duplicação finalizada em meados dos anos 2000. Vários equipamentos urbanos e serviços foram instalados, tais como o Instituto Médico Legal, a Estação de tratamento de esgotos da Cagece, o Hotel Marina Park, inúmeras igrejas católicas e evangélicas e um variado comércio.

Avenida Leste-Oeste em 1974 

A Leste-Oeste mede em toda sua extensão 3.500 metros, tendo início na confrontação com a Avenida Dom Manuel, se estendendo  até a Barra do Ceará, na ponte José Martins Rodrigues, sobre o Rio Ceará.

Fontes:
Artigo: Desenvolvimento Urbano e Segregação Socioespacial – um estudo da Avenida Leste-Oeste em Fortaleza, de Carlos Henrique Lopes Pinheiro.
www.desastresaereos.net
fotos arquivo Nirez, O Povo e Anuário do Ceará

  

9 comentários:

Anônimo disse...

Lembro deste dia, tinha 11 e estava com meu pai no centro, mais precisamente na praça do Ferreira quando os AT 26 Xavantes passaram a baixa altitude sobre o centro na proa da Avenida Leste Oeste, bem em cima do prédio do Cine São Luis...está imagem ainda guardo na memória.

Anônimo disse...

Eu lembro bem, estava em casa e ouvi a notícia do acidente pelo rádio.Eu morava próximo a Faço. Dá. A tarde fui ao local.

Claymilton Malaquias disse...


Graça e paz a todos!

Ainda bem que algumas pessoas decidiram guardar fotos e histórias do Ceará e de Fortaleza.
Acredito que o jovem historiador Otávio Farias possua fotos e "estórias" do nosso Ceará e da velha e querida Fortaleza.

Lembro da inauguração da avenida Leste Oeste e o acidente da "queda do avião" muito perto do local onde estavam as autoridades. Por conta dessa "proximidade" com o palanque e o local da queda do avião, também lembro que mesmo sendo do conhecimento público, o fato era pouco comentado entre as pessoas, porque PODERIA ser outra que não "um acidente", e ainda eram tempos de "chumbo quente". Só fato de muito comentar já poderia comprometer a pessoa e essa vir a ser entendida como "subversiva".

Gostaria de lembrar que existem fotos mostrando que o primeiro local onde aviões pousavam ou amerissavam em Fortaleza, era na Barra do rio Ceará onde hoje aina existem vestígios do local chamado "aeroporto Condor" usado por catalinas e hidraviões da Panay do Brasil.

Unknown disse...

Qual foi o ano do término da construção da avenida tipo o último trecho já perto do viaduto.

Anônimo disse...

Hoje,superado tudo isso, acho a leste oeste um cartão postal de Fortaleza.

Anônimo disse...

Também lembro bem desse dia. Tinha 11 anos e estava no jardim de casa,mas dá pra ver os aviões subirem e fazerem as manobras no ar. Bem verdade o que você falou. Quase não se falava no assunto. Hoje lendo esse artigo sou o número real de mortos.
Queria ter ido a essa inauguração, mas meu pai não nos levou e nem deixou ir com ninguém.

Claymilton Malaquias disse...

Graça e paz a todos!
O Brasil não conta "TODA" sua história. e quando alguns tentam fazê-lo só o fazem de forma parcial, e muitas vezes omitindo importantes acontecimentos ou distorcendo os fatos. O maior exemplo disso e a "verdadeira história da independência do Brasil", quando sempre foi omitido que por "combinação" entre Don Pedro e seu pai o rei de Portugal, ficou acertado a divisão do Brasil, quando as províncias do Piauí, Maranhão e a gigante província do Grão Pará ficariam subordinadas ao reino de Portugal como uma "COLONIA PORTUGUESA". Dai se originou a mal contada história das guerras da independência, conflitos envolvendo jagunços e camponeses brasileiros contra 3.500 soldados portugueses bem treinados e armados até mesmo com canhões. Para essas batalhas, o Ceará solidário com os habitantes das províncias do Piauí e Grão Pará, formou logo e enviou para aregião em gerra, um pequeno exército de quase 6.000 voluntários treinados e armados sob o comando do "coronel" Pereira Filgueiras. Essa tropa foi denominada de "JUNTA EXPEDICIONÁRIA" e combateu e obteve algumas vitórias sobre o exército português nos campos do Piauí e Maranhão. Posteriormente, e isto já no ano de 1823, Don Pedro certo de que o acordo com seu pai ruíra e como o Brasil AINDA NÃO POSSUÍA UM EXÉRCITO PRÓPRIO, optou POR CONTRATAR MERCENÁRIOS e os enviou para ajudar na luta contra o exército português. O Brasil venceu e as províncias do Piauí, Maranhão e do grande Grão Pará foram INCORPORADAS ao Brasil independente.

Cláudia Freitas disse...

MUITO INTERESSANTE ESSE BLOG. GOSTO MUITO DESSE TEMA, SOBRE FATOS DE NOSSA CAPITAL. MATÉRIA MUITO BEM FEITA. LI E GOSTEI BASTANTE.

Raimundo Nonato disse...

Estiva no Senai da av carapinima, próximo do Liceu Ceará.tinha 16 anos na época, só fui saber da tragédia quando cheguei em casa, pois meus tios escutavam muito a Ceará Rádio Clube.
Outra tragédia com aviões da FAB na década de 1970 acho que foi no Montese. E em 1967 com um bimotor que causou a morte do Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco nas matas da Messejana(Pajuçara).