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sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Bairros de Fortaleza: entre Parques e Jardins

Por ser de lá
Na certa por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão boiada caminhando a esmo

Nem só de figuras masculinas, a maioria desconhecida da população, vivem os bairros de Fortaleza.  Há ainda muitos parques, jardins, granjas e algumas praias. Os praianos são em menor número, mas são também os mais conhecidos. Afinal, quem nunca esteve nos Bairros Praia de Iracema e Praia do Futuro?

O Praia de Iracema é antigo reduto da boemia, da praia do peixe, dos armazéns do porto, dos estivadores, dos marinheiros, dos botecos e biroscas, e das zonas de baixo meretrício que ficavam por ali, a meio caminho, entre a praia e o centro. Depois virou lugar turístico, os armazéns viraram casas de show, os botecos se sofisticaram e os boêmios viraram senhores respeitáveis e abandonaram as farras noturnas. Hoje, a Praia de Iracema é só mais um bairro tentando sobreviver e de manter a tradição de lugar turístico.

A Praia do Futuro era só a praia deserta e de difícil acesso até o dia que chegaram os primeiros condomínios. Hoje o bairro foi dividido em dois e o movimento de visitantes e moradores se resume a orla e as gigantescos barracas, que oferecem muitas opções de culinária, diversão e lazer. A especulação imobiliária chegou, mas não vingou na Praia do Futuro.  

Os bairros de Fortaleza foram sendo criados ao longo do tempo, de acordo com a divisão territorial da cidade. Assim, à medida que a cidade crescia e áreas rurais, antes ocupada por grandes sítios e chácaras, foram sendo ocupadas, surgiram alguns espaços que receberam denominações que historicamente lembram áreas de paz e calmaria.

Os Jardins


praça do Jardim América (2012)


O Jardim América deve ser um dos bairros mais antigos a ostentar no nome o status de jardim. O espaço resultou de um plano para aumentar a demanda por áreas residenciais em Fortaleza. Primeiro, surgiu a Praça Presidente Roosevelt, em homenagem ao ex-presidente dos Estados Unidos, e daí surgiu o primeiro nome do bairro: Jardim das Américas, depois resumido para Jardim América. Em determinada época, o bairro chegou a ser chamado de bairro Laguna, devido ao fato de estar sempre alagado por conta dos escoadouros das lagoas, que depois foram direcionadas a um extenso canal. Ali, chegavam as águas das lagoas da Parangaba, do Bessa (localizada no bairro do Rodolfo Teófilo) e as do Tauape, que foi aterrada.


Bairro Bom Jardim, trecho com o Rio Maranguapinho (2013)

O Bom Jardim fica na região sudoeste de Fortaleza, limita-se com os bairros Granja Portugal, Granja Lisboa, Siqueira e Canindezinho. Segundo moradores mais antigos, os primeiros moradores chegaram no início da década de 1960. Até então aquela área era ocupada por uma grande fazenda, a qual foi loteada pelo empresário João Gentil.

O Jardim Guanabara fica na área de jurisdição da Regional 1, entre os bairros Quintino Cunha e Barra do Ceará. Antes da criação do bairro, aquela região pertencia a família do coronel José Antônio de Carvalho, com o nome de Parque Vila Velha. Com a criação do bairro, em 15 de outubro de 1970, passou a ser denominado Jardim Guanabara, nome escolhido pelos moradores.

O bairro Jardim Iracema fica na mesma região do Jardim Guanabara, zona Oeste da cidade, e tem histórias muito parecidas. O bairro também surgiu do parcelamento de terras que pertenciam a família do coronel José Antônio de Carvalho, na localidade denominada Sitio Santo Amaro. Era repleto de hortas e riachos, exploradas por posseiros, que abasteciam de frutas e verduras o Mercado São Sebastião. Depois de loteado, o lugar passou a ser chamado de Paulistinha, e passou a ser Jardim Iracema, a partir de 2008, quando o bairro foi criado oficialmente, através da lei Ordinária 435, de 25 de novembro de 2008.


Capela Nossa Senhora Aparecida, no Jardim das Oliveiras (foto Diário do Nordeste)

O Jardim das Oliveiras está localizado na região sudeste de Fortaleza, entre os bairros Aerolândia, Salinas, Cidade dos Funcionários. Por volta de 1910 a família Cordeiro veio do bairro Água Fria para mora no bairro Santa Luiza do Cocó (hoje Jardim das Oliveiras). A localidade era conhecida como Sete Sítios; pois essa era a quantidade de famílias tradicionais residentes no local na época: Estas eram as famílias, cada qual residindo em seu respectivo sítio: Porfírio, (antigo proprietário do Sitio Tunga, que deu origem a outros bairros da região); Rocha, Cordeiro, Branco, Mendes, Maranhão e Cocó. A família Cordeiro deu início a história do atual Jardim das Oliveiras, quando promoveu o loteamento de suas terras.

Jardim Cearensea existência do bairro parece uma peça de ficção criada pela prefeitura, uma vez que os moradores da área onde deveria estar o bairro Jardim Cearense, negam a existência do mesmo e se declaram moradores da Maraponga. De acordo com os mapas da prefeitura, o Jardim Cearense fica entre os bairros da Maraponga, Dendê e Mondubim.   

Os Parques

Praça no Parque Araxá ( imagem DN)

O Parque Araxá – Até por volta da década de50, a região era coberta de mata, com poucas casas e terrenos alagados devido a existência de algumas lagoas. A família Diogo era proprietária das terras, que eram administradas por um certo Zé Crateús. A região era toda conhecida por Otávio Bonfim. Então ainda nos anos 50 os terrenos foram loteados e começaram a ser vendidos. Uma das imobiliárias chamou o loteamento de Araxá, em alusão a cidade mineira de águas termais e suas propriedades terapêuticas. O Parque Araxá fica os bairros Farias Brito (Otávio Bonfim), Parquelândia e Rodolfo Teófilo.

Parque Manibura – Bairro localizado na zona sul da cidade, entre os bairros Luciano Cavalcante, Cidade dos Funcionários e Cambeba. É um local quase que exclusivamente residencial, com predomínio de casas, reduto de classe média alta.    

Parque Iracema – o bairro surgiu numa área desmembrada do bairro da Messejana. Fica entre os bairros do Cambeba, Cidade dos Funcionários, Cajazeiras e Messejana.

Parque Dois Irmãos – localizado entre os bairros Mondubim, Dendê, Passaré, Prefeito José Walter e Itaperi, o bairro surgiu em meados dos anos 70. Os primeiros moradores contam que naquela época o local era coberto de mato, quando foi lançado um loteamento chamado Parque Dois Irmãos. No início as casas eram pequenas e simples. Hoje o bairro é bastante populoso.

Parque Santa Maria – Criado pela Lei Ordinária nº 9.064, de 21 de dezembro de 2005, com área desmembrada do Ancuri. Limita-se com os bairros Jangurussu, Messejana, Paupina e Ancuri.    

Parque Santa Rosa – a localidade é bem antiga. Surgiu com a chegada das irmãs que faziam parte da congregação do Bom Pastor e, posteriormente, com a vinda dos padres jesuítas, que na década de 1980 percorriam o território nacional para disseminar a evangelização. Os moradores mais antigos atualmente, chegaram ao bairro há mais de 30 anos, e contam que o lugar era cheio de mato, sem pavimentação, sem eletricidade e poucas residências. O Rio Maranguapinho que corta o bairro, era fonte de alimentação e lazer. O Parque Santa Rosa está localizado entre os bairros Conjunto Esperança, Parque Presidente Vargas, Canindezinho e Mondubim.  

Parque São José – localizado na região conhecida por Grande Bom Jardim, fica entre os bairros Vila Pery, Bom Jardim, Canindezinho e Vila Manoel Sátiro. O bairro surgiu por volta de 1935, quando foram construídas as primeiras casas, onde as ruas eram de areias, e a iluminação era à base de lamparinas, já que não havia energia elétrica. Hoje moram no Parque São José cerca de 17 mil pessoas.   

Parque Presidente Vargas – localizado na região do Grande Mondubim, o bairro surgiu a partir de um loteamento irregular, onde os compradores não receberam os documentos devidos. Até hoje o problema persiste, com grande número de imóveis sem registro. Está em curso uma ação da Defensoria Pública visando a regularização fundiária no bairro. Fica entre os bairros Canindezinho, Parque Santa Rosa, Mondubim e o município de Maracanaú. Cerca de 7.500 pessoas residem no local.   

 

 Consultados:

 https://issuu.com/oliiveiraph/docs/jardim_das_oliveiras_-_diagn_stico//jornal Diário do Nordeste//Jornal O Povo//https://www.seduc.ce.gov.br// https://desenvolvimentosocial.fortaleza.ce.gov.br/images/Mapa_Regionais_Fortaleza.pdf//https://globoplay.globo.com//https://www.defensoria.ce.def.br/noticia/regularizacao-fundiaria-do-bairro-presidente-vargas// 

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Memórias do Cine Nazaré, no Otávio Bonfim (Farias Brito)

 

Antigamente na confluência dos atuais bairros Otávio Bonfim e Parque Araxá, havia uma lagoa denominada Lagoa da Onça, localizada a um quarteirão do Cercado do Zé Padre, na Rua Padre Graça. Naquelas imediações foi inaugurado um cinema, o Cine Nazaré, em 1945, final da guerra. Por causa lagoa, quando chovia, as ruas ficavam inundadas e o povo assistia aos filmes no Nazaré, com os pés dentro d’água, mas ninguém reclamava. O cinema se constituía a grande diversão do bairro, junto com o outro cinema, o Familiar, localizado em frente a Praça de Otávio Bonfim, que funcionava sob orientação dos frades franciscanos. Fora os cinemas, só havia as novenas e as quermesses da Igreja das Dores.


Região do bairro Otávio Bonfim, com a Igreja das Dores, e o fundo  estação da RVC
foto do arquivo Nirez

Não havia controle de acesso, todos podiam entrar, as mulheres geralmente levavam os filhos, mesmo que fossem crianças de colo, a não ser que o filme fosse censurado, no caso, aqueles de terror, ou os mais insinuantes, com mulheres de maiô ou cenas de beijos.

O Cine Nazaré foi tão marcante naquela época, que na exibição do “Ladrão de Bagad” foi necessário abrir uma segunda seção. Tinha tanta gente esperando do lado de fora e na lateral do cinema, que o muro caiu. O povo começou a se amontoar e a empurrar. Quando o muro caiu, quem já estava assistindo o filme nem ligou, continuou assistindo.

A sala cinematográfica tinha capacidade para 300 pessoas, com dois tipos de ingressos: 200 nas cadeiras com assento e encosto de madeira e 100 na geral, bem em frente a tela, com bancos sem encosto. Na geral, onde o preço do ingresso era menos de metade das cadeiras   (400 reis), quando chovia era um sufoco, a água minava do chão já que todo o terreno ao redor da Lagoa da Onça ficava encharcado.


Região onde ficava a Lagoa da Onça, nas proximidades da estação da RVC
foto Lucas Jr/Facebook/Fortaleza Antiga

Para minimizar o problema, oito pisos foram sobrepostos para aumentar o nível do chão, cuja base foi construída abaixo do nível da lagoa. Nesse caso, havia duas opções: ou o espectador ficava de cócoras sobre o banco, ou tirava o calçado e ficava com os pés na água, enquanto assistia o filme. Do lado de fora, esperando os cinéfilos para o lanche, estavam os vendedores de bolo, tapioca e café. A pipoca ainda não era moda.           

O primeiro arrendatário do cinema foi o marchante José Marcelino, que tinha uma banca de venda de carne no Mercado São Sebastião. Naquela época, final dos anos 40, início dos 50, os cinemas passaram a ser a principal diversão da cidade. E as salas se multiplicaram, havia diversas espalhadas nos bairros e no Centro. A partir dos anos 60, os cinemas fora do centro começaram a fechar: encerraram as atividades o Ventura, na Aldeota, o Dioguinho, na praça do Colégio Militar, e muitos outros. O Nazaré também fechou. Em 1968 foi a vez do Cine Familiar.


Cine Nazaré e seu proprietário Sr. Raimundo Carneiro de Araújo, no centro
foto Diário do Nordeste

O Cine Nazaré fechou e reabriu muitas vezes, capricho e menina dos olhos do seu proprietário desde 1970, o radiotécnico Raimundo Carneiro de Araújo, conhecido por Vavá. Foi durante muito tempo o único (e o último) cinema de bairro da cidade. Mas seu Vavá faleceu esse ano, em fevereiro de 2022, e levou com ele a luz que guiava os filmes de sonhos que animavam o Cine Nazaré, agora, definitivamente fechado. 


Fonte: 

Jornal Diário do Nordeste "Cine Nazaré conta a história do bairro", de 05/06/2006