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sábado, 30 de outubro de 2010

Os Antigos Cinemas

Na década de 1940, o cinema ditava a moda em Fortaleza. As mulheres procuravam imitar as deusas da tela, na maneira de vestir, de pentear os cabelos, de pintar o rosto, na maneira de sentar, de andar, de se comportar.

Todas procuravam alguma coisa que as identificassem com as atrizes de Hollywood. Para eternizar as performances, deixavam-se fotografar pelos melhores studios da época: Aba-Film, Foto Moderno, Foto Sales, Foto Oriente, Foto Nelson. 

Cada stúdio procurava caprinhar nas gigantescas ampliações que nada ficavam a dever às fotos das estrelas do cinema americano.

Mas as imitações não se limitavam às caras e bocas: também se copiavam as casas, os famosos bangalôes de Beverly Hills. Por conta do modismo, durante muito tempo a Aldeota ostentou belos e suntuosos bangalôs, todos inspirados nas moradias vistas nas telas de cinemas.

Até uma réplica da mansão de Thara, do filme E O Vento Levou surgiu na Avenida Santos Dumont, graças à planta solicitada ao estúdio produtor do filme.

Nessa época Fortaleza tinha muitas salas de projeção, e era nesses espaços que a população assistia os filmes que viriam a influenciar hábitos, costumes e comportamentos da então provinciana capital do Ceará.

1a foto: entrada do Cine Diogo, no térreo do edifício do mesmo nome. 2a. foto: lateral da entrada do Cine Diogo. Na bilheteria, cartazes anunciando os próximos filmes - 1950

Inaugurado em 1940, o Cine Diogo era a síntese do luxo e do conforto. Desde o seu grande hall onde se encontravam as vitrines dos cartazes, até a sala de projeção, o requinte e o bom gosto predominavam. 

Todo em tons de vermelho, música de intervalo em surdina, luzes filtradas. Efeitos de luzes coloridas e gongo em várias notas musicais, anunciavam o inicio das sessões.

O Diogo era o orgulho da cidade, com grande e solene balcão e duas salas de espera, com cabine telefônica para uso dos espectadores. Seus funcionários usavam uniforme azul marinho, com galões e botões dourados.

A sala de espera do térreo, era de mármore de Carrara, espelhos de cristal bisotados e sofás de veludo azul marinho e lustres alabastro.

platéia do Cine Moderno. Dois detalhes chamam a atenção: os homens de paletó e gravata e ausência de mulheres (só vemos uma na foto)

Localizado na Praça do Ferreira, tinha fachada monumental, lembrando um palácio egípcio, com duas volumosas torres e marquise em forma de cauda de pavão, com vidros multicores. Seu interior, totalmente art-nouveau, as bilheterias de madeira entalhada e gradis de bronze dourado.

A sala de espera formava meias paredes com canais de escoamento, em rico trabalho de talha em madeira entremeada de espelhos bisotados. Tinha sofás estofados em couro negro, integrados às paredes. A sala de projeção era longa e estreita, com pequeno balcão.
Dezenas de portas laterais davam para as áreas externas, que só eram abertas nas sessões noturnas.

Salão de projeção do Cine Teatro Majestic-Palace

Construído por Plácido de Carvalho, já era nos idos de 1945, um cinema popular, apesar da sua beleza nobre, teatro que fora em seus anos dourados de glória e pompa.

Como todo teatro em estilo elizabetano tinha forma de ferradura, com uma série de frisas, o balcão simples e a famosa geral, de tantas confusões e que gerou tanto folclore.

O antigo balcão nobre era ocupado pela cabine de projeção. Na plateia as cadeiras conjugadas eram anatômicas e possuíam um sistema de molas que mantinham os assentos sempre dobrados. 

Nas frisas, cadeiras austríacas, o teto todo trabalhado em placas de chumbo rendilhado com altos e baixos relevos. Frequentado pelo povão, tinha sessões continuas a partir do meio-dia e seu forte eram as séries e as sessões colosso às quintas feiras, quando eram exibidos dois filmes.

Cine Centro

  
Na esquina das avenidas Duque de Caxias e Tristão Gonçalves, estava o Cine Centro. Apesar de funcionar no velho casarão do Centro Artístico Cearense, era muito simples e só tinha uma máquina, o que obrigava a projeção a ser interrompida ao final de cada rolo. Mas era querido bem aceito pela vizinhança.

O Cine Rex, era chamado o cinema das famílias. Localizado na Rua General Sampaio entre as Ruas Pedro Pereira e Pedro I. Era imenso, porém simples e sem conforto. 

O Cine Luz também ficava localizado na General Sampaio, na esquina com a Praça da Estação. Nivelava-se socialmente ao Majestic, e era o preferido dos moradores do Arraial Moura Brasil, do Curral e das Cinzas, em razão da proximidade com aqueles aglomerados. 

No bairro de Otávio Bonfim existiam dois cinemas, o Familiar, anexo ao convento dos frades franciscanos da Igreja Nossa Senhora das Dores e o Nazaré. 

No Mucuripe tinha o Cine Mucuripe e o São José. No distrito de Parangaba, ao lado da matriz havia o Cine Excelsior; o distrito de Messejana tinha um cinema com o mesmo nome.

O Cine América localizava-se na Praça Presidente Roosevelt, no Jardim América. Na Avenida Visconde do Rio Branco, estava o Cine Joaquim Távora. O Cine Ventura ficava na Avenida Barão de Studart, reduto do português Júlio Ventura. Na Praça Benjamin Constant (Cristo Rei) estava o Cine Santos Dumont.


fonte:
Royal Briar a Fortaleza dos anos 40, de Marciano Lopes.
fotos Arquivo Nirez