sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A Anti-rosa Atômica de Madalena

Em julho de 1957 ou 1958, um acontecimento singular ocorreu nos céus de Quixadá, município localizado na microrregião do Sertão de Quixeramobim, a 167 km de distância de Fortaleza. Um jornal da época faz menção a uma grande explosão, enquanto outro noticia um ruído de extrema violência sobre os tetos da cidade, trazendo o depoimento de uma testemunha, segundo a qual, com a explosão, se formou uma coluna de fumaça de altura impossível de calcular. 

Quixadá (foto de Muhammad Said)

A explosão foi noticiada primeiramente em 1960, num livro intitulado Caminhos Brasileiros de Desenvolvimento, de autoria de  Leôncio Basbaum, (Editora fulgor, São Paulo). Na página 21 se lê: "Ainda recentemente os Estados Unidos fizeram explodir uma Bomba A nos céus do Nordeste sem que os governantes e chefes políticos de nosso país se manifestassem de qualquer modo". Leôncio Bausbam, historiador, era natural de Pernambuco.

Anos mais tarde, um artigo publicado num jornal de Fortaleza, reforça a versão de Basbaum para aquele fenômeno: o clarão que ficou na memória dos moradores da área, teria sido de fato, a explosão de uma bomba atômica, resultante de testes nucleares clandestinos realizados pelos Estados Unidos. 

Quixadá (foto de Muhammad said)

Pesquisas indicam que os anos de 1957-59 foram de intensa atividade no que se refere a testes nucleares realizados pelos norte-americanos. E também nesse período aquele país realizou uma série de testes clandestinos. Local dos testes: sul do Atlântico Sul. Os testes clandestinos (no total de 3 explosões de baixa densidade) realizados no Atlântico Sul, receberam o codinome de Operação Argus, foram realizados entre fins de agosto e início de setembro de 1958, a bordo do navio da marinha americana USS Norton Sound,  que fazia parte de uma força tarefa junto com outros navios. 
O Jornal, também conhecido como o jornal dos Pinheiro Maia

Segundo “O Jornal”, periódico que circulava em Fortaleza, os navios estiveram em manobras de rotina no Atlântico desde julho. Apenas em março de 1959, que o jornal The New York Times”, que teve um de seus repórteres convidado para participar da operação, trouxe o assunto à tona. Pareceu, portanto, uma dedução lógica, que as experiências nucleares realizadas no Atlântico e  as explosões ouvidas em Quixadá faziam parte de um mesmo fenômeno.

Uma reportagem do jornal O Povo de 2003, intitulada “Mistério no Céu do Sertão Central” conta que na cidade de Madalena (no sertão central, próxima a Quixadá), um padre americano chamado Richard Lee Cornwall (ou apenas padre Ricardo), realizava pesquisas desde 1998, no intuito de comprovar que a explosão nuclear realmente ocorrera e que tivera como epicentro uma área dentro do município de Madalena. 

Madalena Ceará (crédito imagem: http://www.monolitospost.com/)

Em conversa com os fiéis, o padre tomou conhecimento de um clarão que surgiu nos céus do então distrito de Quixeramobim, ocorrido precisamente no dia 6 de agosto de 1957. O fenômeno se constituiu de um clarão intenso no céu do município, testemunhado por diversas pessoas, segundo alguns em 1957, para outros, em 1958. De acordo com o padre, o número assustador de casos de câncer e de defeitos congênitos ocorridos na comunidade pós fenômeno de 57, parece apontar para um evento específico que apontaria para a utilização de armas nucleares.

Para os que testemunharam o fato na época, a importância que lhe foi atribuída limitou-se apenas ao momento do acontecimento. Sem conseguir uma explicação razoável, a população passou a considerar o evento como um sinal do fim do mundo, fazendo com que o mesmo caísse no esquecimento, sendo recordado 40 anos depois em razão da curiosidade despertada pelo padre.


Testemunhas oculares do evento que ainda vivem, lembram de um clarão brilhante no céu como se fosse um sinal na lua ou uma estrela que explodiu. Uma comunidade refere-se sempre ao evento "o fenômeno de '57'". O clarão foi tão resplandecente que uma pessoa perto do epicentro, em Massapé Grande, falou que ficou quase cego.

Em Sabonete Macaoca as ovelhas e vacas saíram do curral achando que já era dia. Em São Nicolau um homem viu três lampejas alaranjadas dentro do clarão, uma atrás da outra. Em seguida, veio um estrondo tão forte que sacudiu as telhas das casas e balançou redes dentro das casas. Depois, a noite foi extremamente quente, até em cima da Serra do Teixeira. Houve ventania. Uma senhora em Berilândia, Quixeramobim, lembrou o vento frio, que vinha com certeza da atmosfera.

Outro homem morando em Vaca Serrada, um pouco a leste de Madalena, não olhou para fora de casa com medo, em razão do estrondo assustador. "Parecia como que uma banda do mundo caiu", disse. Em Salgadinho um homem lembra como as ovelhas mexeram e a terra estremeceu até o ponto de derrubar um pote de água que ele tinha em casa.

Outra pessoa ao outro lado do rio Barrigas, bem perto de Madalena, escreveu que: "era um clarão de uma intensidade tão grande que a primeira impressão que tive é que fosse um grande fósforo que havia explodido no ar... Fiquei atônito. Para o lado onde eu estava vindo, ou seja, do lado do Teotônio, minha sombra estava projetada no chão como se fosse pintado por alcatrão".

Até hoje, a hipótese da realização de testes nucleares clandestinos, é a mais plausível para o fenômeno acontecido nos céus do sertão central do Ceará na segunda metade dos anos 50. As datas são controversas, julho ou agosto, 1957 ou 1958, em razão dos dados obtidos virem de depoimentos orais, de  pessoas que guardam na memória os eventos daquela noite distante, visto que não há registros nem documentos oficiais a respeito.


Testes Nucleares no Ceará? Memória, Imaginário e Novos Significados. Do clarão em Madalena no fim da década de 1950. Tácito Thadeu Leite Rolim – Mestrado História Social/UFC

Wikipédia


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