segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O Disciplinamento das Ruas

A rua é uma rede emaranhada de vivências, cuja origem se perde no tempo e se confunde com a existência das cidades, fazendo parte da memória do mundo, abrigando tanto os grandes acontecimentos como os pequenos incidentes do cotidiano. É local de intenso fluxo de mudanças, de movimento e de novas relações sociais. Tem a sua importância como um dos lugares das experiências humanas nas cidades.


atual Rua Formosa - 1908

A partir de princípios do século XIX a rua vai ganhando um novo prestígio dentro do nosso sistema de relações sociais. Ela deixa de ser apenas um lugar para as águas servidas dos sobrados, da escuridão, de poças de lama, bicho morto, etc, e passa a ganhar dignidade e importância social.
Um dos exemplos dessa mudança é o aparecimento no início do século XIX dos primeiros Códigos de Posturas Municipais, que procuravam defender a rua, inibindo os abusos cometidos por particulares e das residências, que se instalavam nas cidades com os mesmos modos e com a mesma arrogância da casa de engenho ou da fazenda, fazendo da calçada picadeiro de lenha, atirando no meio da rua o bicho morto, o resto de comida, a água servida, e as vezes, até a sujeira do pinico.


atual Rua Liberato Barroso s/data

Tais posturas fixaram, assim, a importância, a respeitabilidade e os direitos da rua, antes tão violados. Com elas criaram-se restrições à liberdade dos particulares, proibindo-se, aos proprietários das casas, certos absurdos, como o hábito de criar animais soltos na via pública, e as bicas que lançavam águas pluviais sobre as calçadas. Também foram proibidas a lavagem de roupa nas bicas do centro da cidade pelas negras dos mucambos, e a surra de escravos por parte dos senhores depois que o sino da matriz badalasse nove horas da noite.
No entanto, o que se procurou com esses códigos de Posturas, foi dar uma nova e mais eficaz funcionalidade à cidade, para que seu ordenamento de hábitos, de sociabilidade e dos espaços de vivências estivessem de acordo com as pretensões civilizatórias e modernas.


Lagoa do Garrote, no Parque da Liberdade (Cidade da Criança)

No relato de suas memórias de infância, Gustavo Barroso nos fala de um passeio pela manhã de 5ª. Feira, dia de folga (não houve aula), que realizara com sua tia até o Parque da Liberdade, onde existia “....grande lago represado em magelas de cimento como um tanque, que foi a antiga Lagoa do Garrote”. Naquele dia, ele vira no reservatório do Pajeú, “caboclinhos e moleques” a tomarem banho livremente, o que lhe causou inveja, mesmo que por um instante, por não poder brincar como eles, porque era um filho-família. O episódio por si só demonstra a diferença de hábitos, sendo o banho de lagoa e/ou rio um costume que não deveria ser mais praticado, por ir de encontro às posturas do município, que não só proibia o banho nos reservatórios públicos, como ameaçava com punição ao infrator. O titulo VI em capitulo de n° II legisla sobre “bulhas, vozerias, obscenidades e ofensas à moral” com a novidade: punição para a pessoa que se banhar à luz do dia “no corrente da Rua do Poço, na Lagoa do Garrote, Pajeú e outros lugares expostos às vistas dos viandantes ou de quem estiver em casa”. 


O Açude do Pajeú ficava no atual Parque Pajeú (ou Parque das Esculturas) localizado entre a rua 25 de Março e a Avenida Dom Manuel. (foto anuário do Ceará)

Entretanto, essa regra municipal que atenta para a condução e preservação de um pudor e de uma moral comunitária, já estava presente em códigos anteriores, em que os banhos na Lagoa do Garrote, em que se empenhavam os rapazes nus, provocou a vigência do artigo 70, de posturas de 11 de maio de 1849, proibindo a apresentação de qualquer pessoa despida das seis da manhã às 6 da tarde.
Se as mudanças do espaço urbano se deram já na primeira metade do século XIX, seria no entanto, a partir da segunda metade que a rua iria sofrer significativas alterações, isso porque essas modificações eram fruto de um processo de transformação capitalista do mundo, e da expansão de uma nova ordem burguesa que ora se mundializava atingindo em cheio as mais diversas áreas.
Em decorrência, o que aconteceu nesse contento foi a emergência de uma ordem urbano-industrial que exigiu desse espaço público sua adequação aos padrões desejados de modernidade e progresso. Assim, a rua refletiu a transformação do espaço e a reordenação da vida.


Portão de acesso ao Passeio Público, onde a Avenida Caio Prado era a vitrine das elites durante o período conhecido como Belle Epoque 

Em Fortaleza essas mudanças coincidiram com o início do período conhecido como belle époque, onde a elite formada por comerciantes e profissionais liberais vindos de outras regiões do Brasil e do exterior, ajudou a promover diversas mudanças importantes em Fortaleza. De influência francesa e baseada em ideais de civilidade, esse contingente teve atuação destacada no período compreendido entre 1860 até por volta da metade dos anos 1920, onde a cidade foi amplamente influenciada pelas ideais de modernidade estética e comportamental.

Extraído do livro 
Humor, Vergonha e Decoro na Cidade de Fortaleza (1850-1890)
De Marco Aurélio Ferreira da Silva 
Coleção Outras Histórias
fotos do Arquivo Nirez e postais antigos

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

A Construção da Mobilidade

Quando visitou a então Vila de Fortaleza em 1810, o visitante britânico Henry Koster ressaltou a grande dificuldade de transportes terrestres, e a falta de um porto. “As terríveis secas que assolam a região afastam algumas ousadas esperanças no desenvolvimento de sua prosperidade”. Contra todas as evidências, contra o areal que parecia não ter fim, contra o sol escaldante, Fortaleza cresceu. Principalmente a partir da segunda metade do século XIX, por conta de um ditame econômico.

O algodão produzido no interior, beneficiado pela crise que abalara o mercado norte-americano do produto, passava pela capital para abastecer em grande medida, a indústria da Inglaterra e fomentar o capitalismo europeu. 

Ponte Metálica - Arquivo Nirez

Os ingleses suplantaram as empresas portuguesas na área e os empresários locais se aproveitaram sabiamente da conjuntura para realizar negócios com os anglo-saxões. Foi um período de esplendor financeiro, artístico, urbanístico, científico para Fortaleza.
Mas, por muito tempo, o porto foi de trapiches que se seguravam de pé à revelia do vento. Somente em 1906 surge a Ponte Metálica, erguida em concreto – um escoadouro menos improvisado para uma cidade que fazia sua fortuna da exportação de algodão pela via marítima. Localizada na Avenida Tamandaré, a Ponte Metálica seria o porto oficial da cidade até a década de 1950, quando a função foi transferida para o Mucuripe, lugar, cuja profundidade permitia a atracação de embarcações de maior porte.


Avenida Almirante Tamandaré, que já foi chamada de Avenida Atlântica (acervo Jesuíno Vianna)

Em julho de 1873, dormentes e trilhos, com a Via Férrea de Baturité passam a ligar a capital ao interior – primeiro Baturité, depois Sobral. A importância não se limitava ao simples “advento da máquina”. Era uma mudança de hábitos. O trem compartilhava o jornal, o boato; servia de relógio e esperança; despertava a necessidade de novos serviços e edificações.
O marco foi a inauguração da Estação Central; depois vem ao sul a Estação da Parangaba, antiga Arronches, inaugurada também em 1873, e, em seguida, as de Mondubim e Maracanaú (1875), Marítima (1878), Pajuçara (1918), Otávio Bonfim (1922) e Couto Fernandes (1940). Ao norte, Antônio Bezerra, Caucaia (1917) e Álvaro Weyne (1926).




A construção da Estrada de Ferro Baturité e a conexão de trem com o porto, marcam o período da economia calcada no cultivo de algodão num contexto muito favorável à Fortaleza e a todo o Estado. A cidade abre-se ao mundo e amplia sua relação com o sertão. Para que os mascates fortalezenses ganhassem dinheiro, o trem teve de se expandir e se conjugar com o porto. Mas acabou ajudando a modernizar a urbe.


Depois vieram os bondes. Só embarcava nos bondes quem estivesse decente.  Decente, no vocabulário do século XIX queria dizer paletó, colarinho, sapato. O aviso servia tanto para o transporte público, lançado em 1880, por atração animal, quanto para o elétrico, de 1913.

Os primeiros bondes, 25 ao todo, com 25 lugares cada, andavam 7.500 metros, de meia em meia hora, e enquanto houvesse passageiros nas avenidas centrais. Os bondes significaram novo e importante espaço de sociabilidade; em livros, jornais e revistas não é raro encontrar referências a conversas e acontecimentos advindos de seus bancos.

Em 1895, a concessionária dos transportes urbanos, a Companhia Ferro Carril do Ceará, contava com 11.527 metros de linha, atendendo a diversos pontos da cidade e arrabaldes, como a linha da Praia, a da Estação do Caminho de Ferro, a da Rua Padre Mororó, a de Pelotas, a da Fábrica de Tecidos, do Benfica, e a do Bouvelard Visconde do Rio Branco

A instalação dos serviços de transportes coletivos, possibilitou o crescimento da cidade em direção aos arrabaldes, uma vez que os que residiam fora do núcleo central passaram a utilizar os bondes em seus deslocamentos. O crescimento orientou-se para as zonas sul e oeste, no sentido oposto ao litoral. A expansão acompanha as antigas estradas do Jacarecanga, Soure, Arronches e Aquiraz.      

Foram, assim como as ferrovias, objetivados como símbolo de modernidade; não por acaso, pouco tempo depois surgiu um pasquim intitulado o Bond, contemporâneo de outros ditos jocosos. Os bondes elétricos exigiam certas características que a cidade ainda se recusava a ter.

As calçadas e os calçamentos – se estenderam ainda mais sobre o areal em brasa; as praças, sem bordas ou limites, foram redimensionadas; e o pedestre se adaptava a um trânsito ainda incipiente. Segundo Mozart Soriano Aderaldo, foi o automóvel que obrigou os administradores a melhorar a pavimentação, imaginando-se a situação provisório do trilho de pedra para ônibus, seguida do piso de concreto e, finalmente, de asfalto.

O primeiro automóvel chegou em 1909; a primeira linha de ônibus, em 1928. Mais rápidos e mais lucrativos, os ônibus aposentariam os bondes em 1947. A prefeitura vende os trilhos de aço e os fios de cobre e dá fim a uma era. Começava assim a Fortaleza movida a petróleo.

vista de Fortaleza na década de 1930

A população se multiplica vertiginosamente: 16 mil habitantes em 1863; 27 mil em 1887; 50 mil em 1900; em 1930 ultrapassa os 100 mil; em 1950, 270 mil; em 1960, 500 mil; na década de 70, atinge a casa de 1 milhão.

O quadrilátero formado pelas avenidas Duque de Caxias, Dom Manuel e Imperador, data de 1875, quando Adolfo Herbster desenhou a Planta Exacta de Fortaleza. Durante muito tempo foram as vias que delimitavam o centro da cidade. As ligações com o sertão foram determinantes neste desenho. Mas a expansão veloz a oeste e leste desafiava os urbanistas. 

fonte: Anuário de Fortaleza 
fotos arquivo Nirez

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O Legado da Oligarquia comandada pelo Governo Accioly


A partir de 1896, com a posse do Comendador Antônio Pinto Nogueira Accioly na presidência do Ceará, recrudesceram os investimentos na normatização urbano-social de Fortaleza. Guilherme César da Rocha, Intendente de Fortaleza desde 1892, permaneceria no cargo até 1912, sendo a sua a mais longa administração de Fortaleza.
Durante este período, o intendente embelezou a cidade copiando modelos franceses. Sua primeira grande obra foi a conclusão do Mercado de Ferro, em 1897. Fabricado na França por Guillon Pelletier, de Orleans, de acordo com projeto do arquiteto Lefevre. O novo mercado iniciava uma série de melhoramentos na cidade, sob influência da cultura francesa, com seu espírito de progresso e civilização apoiado no senso de solidez e elegância.


Depois do mercado, vieram as remodelações das três principais praças da cidade: a do Ferreira, em 1902, a Marquês de Herval em 1903, e a Caio Prado, em frente à Igreja da Sé, todas inauguradas com grandes festejos populares.

Nestes logradouros foram introduzidos canteiros de flores, avenidas, réplicas de estátuas gregas, vasos importados, chafarizes e largos pavilhões para ocorrência de retretas, patinação e ginástica. A regeneração das praças, portanto, vai muito além do mero aformoseamento: facilitava a circulação e determinava novas regras de convivência e utilização do espaço público, além de estimular a prática de exercícios físicos nos jovens e estudantes, tidos como saudáveis aos costumes e à saúde.

Praça José de Alencar
Praça Caio Pado (Praça da Sé)

Atento e vigilante ao embelezamento da cidade, Guilherme Rocha também procurou fazer cumprir o Código de Posturas de 1893, que prescrevia a adoção de uma padronização formal nas platibandas, obrigatórias nas fachadas de frente, bem como nos vãos de portas e janelas externas. Para manter a harmonia do conjunto urbano, tentou impedir as construções que não obedecessem às linhas gerais definidas pelo Código. Com base no artigo 12 do Código, o intendente exigiu que as esquinas fossem cortadas em dois ângulos obtusos, o que provocou reação da oposição.

Outra importante iniciativa desse período, foi a criação da Faculdade Livre de Direito do Ceará, instalada oficialmente em 1° de março de 1903.  O curso passou a funcionar no primeiro andar do prédio da Assembleia Legislativa (atualmente ocupado pelo Museu do Ceará), sendo aclamado primeiro Diretor o Dr. Antônio Pinto Nogueira Accioly, que nessa época, embora não ocupasse o cargo de presidente do Estado, interferia direta e decisivamente em todas as decisões políticas.


No período entre 1900 a 1904, o Estado foi governado por Pedro Borges. A administração Pedro Borges nasceu sob o signo da oligarquia comandada por Accioly. O vínculo político que o mantinha ligado ao Dr. Nogueira Accioly fez de sua administração um elo partidário ligado a corrente que governou o Ceará por longo período, uma continuação da administração de Accioly. Quase nada ficou registrado em termos de realização.

Nogueira Accioly voltou ao posto de presidente, num segundo mandato, em 1904, administrando os conflitos registrados no interior, principalmente com relação às desavenças entre os coronéis. Não se interessou pelos problemas sociais, nem investiu no progresso do Estado, limitando-se aos interesses políticos.

Accioly foi novamente eleito, para um terceiro mandato iniciado em 1908. Nesse mesmo ano foi iniciada a construção do que seria a maior realização do longo governo Accioly: o Teatro José de Alencar. Inaugurado oficialmente no dia 17 de junho de 1910, a casa de espetáculos foi entregue ao público da província pelo Presidente do Estado, com direito a longo discurso proferido por Júlio César da Fonseca, e um concerto pela Banda de Música do Corpo de Segurança do Estado, sob as batutas dos maestros Luis Maris Smido e Henrique Jorge.


O Teatro José de Alencar, raro espécime de arquitetura eclética foi erguido entre dois outros edifícios, uma escola (Escola Normal) e um quartel de polícia (Batalhão de Segurança). Além da sala de espetáculos, em ferro fundido e madeira importada da Europa, compunham o teatro um primeiro prédio que o guardava do contato da praça, e uma caixa de cena em tijolo e madeira, com inovações técnicas até então inusitadas para o teatro local.

Nogueira Accioly e o Intendente Guilherme Rocha encerraram suas carreiras políticas e seus longos mandatos a frente do Estado e da Prefeitura no ano de 1912, quando uma grande revolta popular transformou Fortaleza num campo de batalha. Deposto, o ex-presidente embarcou para o Rio de Janeiro, onde fixou residência, até seu falecimento em 14 de janeiro de 1921.Decorridos 105 anos do fim da Oligarquia comandada por Nogueira Accioly, algumas de suas realizações ainda marcam presença na cidade.  

mercado dos Pinhões e da Aerolândia (foto Fortaleza em Fotos e G1)

O Mercado de Ferro era constituído de dois pavilhões idênticos, com uma “avenida” coberta unindo-os. A partir do início dos anos 30 começou a perder sua função de centro de abastecimento de produtos frescos, e foi desmontado em 1938, na gestão do Dr. Raimundo de Alencar Araripe. Um dos pavilhões foi transferido para a Praça Visconde Pelotas, e é conhecido por “Mercado dos Pinhões”. A outra metade foi montada na Praça São Sebastião, e posteriormente, novamente desmontado e levado para a Aerolândia, às margens da BR-116, onde permanece até hoje. Foi recuperado recentemente e encontra-se em pleno funcionamento.  


a Faculdade de Direito foi federalizada em 9 de abril de 1934, sem nenhum ônus para os cofres da União. Em 12 de maio de 1938, o Curso foi oficialmente reconhecido pelo Governo Federal através do Decreto-Lei Nº 421. Em 8 de dezembro de 1935 foi assentada a pedra fundamental do prédio da Faculdade de Direito, na então Praça de Pelotas, depois Praça da Bandeira, atual Praça Clóvis Beviláqua.  A inauguração ocorreu quase três anos depois, no dia 12 de março de 1938.

portaria do Teatro José de Alencar (foto Fortaleza em Fotos)
Teatro José de Alencar (imagem portal G1 - agência Diário)

O Teatro já foi restaurado diversas vezes desde a sua inauguração em 1910. Jardim do Paisagista Burle Marx, que conta com palco ao ar livre, foi inaugurado em 1975 e reinaugurado em 1991. Com plantas nativas, tem a cara da terra de Iracema: cajueiros, jucás, juazeiros, oitizeiros, palmeiras e pau brasil. Tem a maior cascata verde do Ceará, com mais de 10 metros de altura. É até hoje, um dos mais belos teatros do Brasil.

fotos: Arquivo Nirez e Ah, Fortaleza!


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Os Clubes de Subúrbios

A elite e a classe média dividiam espaço no recesso dos clubes elegantes da Fortaleza durante  décadas, até por volta dos anos 60/70:  Ideal, Náutico, Iracema, Diários, Maguary, Comercial e Massapeense. Os grandes eventos e os encontros de amigos aconteciam no ambiente distinto e seguro das maiores agremiações.

Fortaleza, porém, não era feita apenas do mundo elegante. Outros segmentos tinham seu espaço próprio e participavam ativamente de animadas reuniões festivas, especialmente nos finais de semana. Em muitos bairros existiam clubes, a maioria pequenos, mas não menos movimentados. Alguns típicos de classe média, outros, de classes menos favorecidas, mas, todos vivendo uma fase de grande efervescência. Eram os chamados "suburbanos", clubes localizados nos bairros, fora do circuito dos clubes elegantes (Aldeota, Meireles, Praia de Iracema).  

O Clube de Regatas, localizado na Barra do Ceará, imediações da foz do Rio Ceará, era o maior deles. Iniciou suas atividades nos anos 60. No lançamento, os proprietários fizeram uma ação de marketing para a venda de ações, com a planta do clube e seus diversos atrativos. Assim, o Regatas tinha associados na Capital e no Interior.

Projetado pelo arquiteto Ivan Bezerra, em modernas instalações, contava com piscina, quadra de tênis, garagem para embarcações, e salão nobre com um imenso lustre de cristal comprado em São Paulo. O Clube de Regatas não foi pensado nem se destinava ao lazer das pessoas mais humildes da região que já começava a se proletarizar. Em sua origem era frequentado por pessoas que vinham de outras regiões. Os sócios do clube que moravam em áreas mais distantes, enfrentavam areal, piçarra e areia frouxa para chegar ao Regatas. 

Clube de Regatas Barra do Ceará
O Clube de Regatas foi palco para shows de artistas de renome nacional, bailes de formatura e festas de confraternização de empresas, empresários ou políticos. Outro atrativo interessante do Regatas eram os bingos com prêmios que iam de automóveis a passagens aéreas passando por eletrodomésticos. O Regatas entrou em declínio já no final da década de 60, quando os clubes sociais começaram a competir com outras formas de lazer.

Os militares de patentes mais baixas, suboficiais e sargentos, frequentavam suas próprias agremiações: o Clube General Sampaio congregava o pessoal do exército. Tinha sede no Benfica, com bar e restaurante organizados, sempre com boa freqüência. Encerrou as atividades em 1964; Os sargentos da Aeronáutica tinham seu ambiente especial no Ícaro, na Avenida Visconde do Rio Branco, bairro de Joaquim Távora, com festas de grande prestígio aos sábados e domingos.

No mesmo bairro Joaquim Távora, bem próximo ao Ícaro, ficava o Suerdieck, que viveu uma fase de grande esplendor, promovendo bailes monumentais, inclusive patrocinando concursos para a escolha da "Miss Suburbana", uma espécie de miss Ceará alternativa.

Ainda na Visconde do Rio Branco já próximo ao centro, estava o 24 de Maio, que aliava sua condição de time de futebol de muita força na Segunda Divisão, a uma intensa atividade social em sua sede, onde às festas costumavam comparecer centenas de jovens.

Clube Santa Cruz na Rua Padre Mororó (google)

Havia o Santa Cruz, que teve como presidente Francisco Dutra, um dos primeiros sócios do Ferroviário e antigo árbitro de futebol da Primeira Divisão do futebol cearense. Apesar da proximidade com o Cemitério São João Batista, promovia grandes bailes de carnaval e festas nos finais de semana, com muitos frequentadores.

Não menos animados eram os bailes do Jabaquara, onde a presença mais notada era a de Valfrido Coelho, o “Pimpolho” ex-jogador de futebol, folião de primeira hora, e um dos criadores do famoso Cordão das Coca-Cola. O Jabaquara teve seus tempos áureos quando mantinha sede na Avenida Carapinima, no Benfica.

Clube Secai, no Pirambu - imagem: Antônio Viana

Também no Benfica ficava o Gentilândia Futebol Clube, onde a freqüência, notadamente a masculina era predominantemente de alunos da Universidade, daí o apelido de dado pela imprensa de time dos acadêmicos.

Localizado no Bairro Nossa Senhora das Graças (grande Pirambu), o SECAI foi fundado em 14 de setembro de 1960 e destacou-se pela atuação na área de esportes, lazer, qualificação profissional, junto aos jovens moradores do bairro. 


Na Fortaleza provinciana também havia festas animadas nos salões do Terra e Mar, no Mucuripe, do Rio Branco, no Antônio Bezerra, do Trilho, na Volta da Jurema, no Romeu Martins no Montese, no Vila União, no bairro homônimo, no Tiro e Linha, no Mênfis Club, no Clube Recreativo Aerolândia, no Tiradentes, e em inúmeros outros pequenos e médios clubes suburbanos, que agitavam fins de semana e períodos carnavalescos, hoje, alguns em plena atividade e outros, há muito desaparecidos. 


Fontes:
Sessão das Quatro, cenas e atores de um tempo mais feliz
Blanchard Girão
Do Clube de Regatas Barra do Ceará ao Cuca Che Guevara
David Aragon disponível em 
 <http://www.ujsceara.org.br/2009/08/do-clube-de-regatas-barra-do-ceara-ao.html>
 


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Relembrando o Curral das Éguas

Quem tem boa memória decerto haverá de se lembrar do Curral das Éguas – na Praia Formosa – no bairro então denominado Arraial Moura Brasil, nos anos de 1920 a 1960. Quem descia aquela ladeira da Rua General Sampaio, ao lado da Estação Central e da Casa de Detenção em direção à praia, sabia, sem dúvida, que perderia a castidade e a inibição. 

Rua General Sampaio, a parte final da rua desapareceu em função da construção da Avenida Leste-Oeste

À primeira vista de quem olhava do alto da ladeira, tinha-se a visão de um arraial feericamente iluminado. As casas, estilo chalés, situadas do lado esquerdo de quem descia a rua inclinada, guardavam os ninhos do amor vendido a granel, onde as moças escondiam seus tesouros. Lá predominava a mancebia entre jovens que se acautelavam das doenças venéreas, comuns na mocidade, e para uns, principal sinal de virilidade.

No Curral do Arraial Moura Brasil tinha de tudo e mulher para todo gosto. A variedade de tipos, vindas de todo o interior do Ceará e até de outros Estados, com o ar, costumes, trajes e sotaque caipira, mas com a brejeirice sertaneja, atendia às mais diversas simpatias e preferências que exigiam o rigor do amor.

Era um mundo diferente para as moças simples, chegadas do interior, que ali se apresentavam para fazer o seu meio de vida assumindo a profissionalização. Na pensão, onde fixavam residência, a primeira providência da madame – a dona da pensão -  era apresentar a hóspede na Chefatura de Polícia, para abrir uma ficha e receber a carteira, registrando-a com prontuário de ocorrência sanitária. A burocracia obrigava a rapariga a comparecer mensalmente, para revalidar o documento e passar por exames para saber se tinha pegado “coruba” ou “doença do mundo”, muito comuns naquela época.Era a juventude que comandava os dias daquelas mulheres, desfrutando o que a vida proporcionava, e se deixando dominar pela lascívia e o prazer de viver num mundo de fantasias e ilusões. 

 A Subdelegacia de Polícia da Rua Franco Rabelo (que também desapareceu) atendia ocorrências na zona de prostituição 

No local destinado a dança – Salão Bola Preta, dancing de primeira classe, com verdadeira orquestra, aconteciam animadas noitadas, passando pelos mais variados ritmos e contando com a presença de representantes masculinos da fina flor da sociedade, que compareciam às escondidas das mulheres e namoradas.

Com o passar do tempo vieram outros salões em épocas diferentes, como o “Rancho Fundo”, “Salão Azul” e o popular “Salão da Farinhada”, cuja iluminação era a base de gás carbureto, onde os frequentadores usavam tamancos por pertencerem à classe proletária, embora a alegria fosse a mesma de um salão grã-fino.

Um dos pontos altos da noite no Curral era o clássico trottoir: as damas da noite vestiam roupas de seda, subiam e desciam os dois primeiros quarteirões da Rua General Sampaio, a fim de atrair os fregueses que se postavam na parte mais alta da rua, ou sentados nos botequins da ladeira, a soltar galanteios para iniciar o rápido romance, que as vezes terminava na alcova.

Com trocas de olhares, nesse vai-e-vem subindo e descendo a ladeira, o jovem se aproximava da dama e logo se envolviam num ligeiro diálogo, para adentrar o pequeno quarto do lupanar reservado para o encontro, que não durava mais que meia hora. Terminada a função e recebido o pagamento, separavam-se com atenciosa despedida ou promessa de novos encontros em dia aprazado. A mulher já saía do quarto com traje diferente do que usara antes, para não ser reconhecida pelos circunstantes, porque precisava reiniciar sua batalha em busca de novo freguês.

Fora do trabalho, seu mundo se resumia a um pequeno dormitório da pensão alegre, pagando diária para ter direito ao almoço, jantar, guarda-roupa, e uma penteadeira repleta de adornos, bibelôs, perfumes, objetos de toucador, e um pequeno lavatório num tripé de ferro, acoplando bacia, jarra de ágata e saboneteira com o infalível sabonete Eucalol, pequena toalha, e “caxeiro” para os rapazes, que as mulheres faziam assepsia.

Não se falava de AIDS nem de preservativos. A rapaziada se curava nas prodigiosas mãos dos enfermeiros Mundico, Dr. França, Almeida e Varejão, que tinham seus ambulatórios no Centro, faziam ligeiras intervenções cirúrgicas, e de certa forma, praticavam a medicina profilática da juventude que se iniciava sexualmente. Eram os doutores das “doenças do mundo”, como eram popularmente conhecidos. Os casos mais graves iam para o Dr. Olavo Rodrigues ou Dr. José Oswaldo Soares – os grandes urologistas do Ceará, tudo em segredo, evitando que o assunto chegasse ao conhecimento da família – das namoradas, nem sonhar, acabava-se até casamento, se fosse noivo. 

 trecho do bairro Moura Brasil que desapareceu com a construção da Avenida Leste-Oeste

Ao lado do Curral das Éguas havia outras pensões – o conhecido Oitão Preto e a Pensão da Olímpia, que por ser de outra categoria, não se misturava com a plebe do Curral. Assim, nesse ambiente de atmosfera pesada, havia também os tipos folclóricos, que preenchiam lacunas de excentricidade. Iniciava a lista uma doida de pedra chamada de “Barra Azul”, que ao ouvir o apelido, “soltava os cachorros”; "Siri", "Ferrugem" e "Tristeza", afora as doidivanas que compareciam para dançar e aproveitar o tempo.

A ordem era mantida por um delegado de polícia muito rigoroso – Rodrigues, assessorado pelos policiais Pedro Moura e Chico da Usina e um destacamento de cavalaria que assegurava a tranquilidade na área. Havia muitos bares e botequins que serviam refeições ligeiras e bebidas alcoólicas até as 22 horas, abastecendo o território mundano do velho Curral, que no final dos tempos nada legou à posteridade.

Avenida Leste-Oeste,  postal dos anos 70 

De lembrança, ficou a igrejinha de Santa Teresinha, ali, ao lado da Leste-Oeste, para remir os pecados dos endiabrados frequentadores da zona que virou cinza, e o tempo levou deixando apenas recordações.


Extraído do artigo 
Histórias da Fortaleza Antiga, de Zenilo Almada
publicado na Revista do Instituto do Ceará - 2004  
fotos do arquivo Nirez