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sexta-feira, 12 de julho de 2024

O Pajeú e a Lagoa do Garrote

 

A capital do Ceará nasceu em fins do século XVII, início do século XVIII à sombra dos muros do forte português fundado pelos holandeses, que defendia o grande maceió ou pocinho, formado na embocadura do riacho Pajeú. Os holandeses chamavam o riacho de Marajatiba e a fortaleza de Schoonemborch. Em memória desse pocinho, se chamava Beco do Maceió o prolongamento da antiga Rua do Chafariz, atual José Avelino.

Avenida Alberto Nepomuceno, por onde corria o riacho Pajeú

Entre as duas colinas em que se erguia a fortificação, corria o Pajeú, que vinha das matas da aldeota, divagando ao sabor do relevo. A cidade surgiu numa ala de pequenas casas perpendiculares à parte de trás do forte, a Rua do Quartel. Depois formou uma praça, a da Sé, localizada numa volta do riacho e se estendeu pelo seu tortuoso vale, acima e abaixo, formando a Rua Direita, que foi rua de Baixo, Conde D’Eu, e Sena Madureira. Mais tarde teve um trecho alargado, chamado de Alberto Nepomuceno.

Por esse tempo, dois córregos cortavam as colinas, cujo ponto culminante ficava na antiga Rua Formosa atual Barão do Rio Branco, onde se erguia o sobrado do Conselheiro Rodrigues Junior e hoje existe o Edifício Diogo. O primeiro desses córregos, vindo da parte norte da antiga Lagoinha, na avenida Tristão Gonçalves, fluía pelas ruas Senador Pompeu, Barão do Rio Branco,  Major Facundo e Floriano Peixoto, entre a travessa das Hortas, depois Senador Alencar e a Rua das Flores, atual Castro e Silva.

Praça da Lagoinha, já sem a lagoa que já havia sido aterrada

Justamente na sua passagem pela Rua Major Facundo, o negociante Pacheco construiu um grande sobrado, por volta de 1845 a 1847. Depois, empobrecido, suicidou-se em Paris. Depois, pertenceu ao Barão de Aquiraz. Esse imóvel foi vendido ao coronel José Gentil que o demoliu. Em frente a esse sobrado, ficavam as cocheiras e o quintal da residência do Dr. Rufino de Alencar, que dava para a Rua Floriano Peixoto. Descendo por esse quintal via-se a marca da continuação do leito. Esse ribeiro ia desaguar no Pajeú, na parte meridional da atual Praça da Sé.

Documentava o curso do segundo córrego o escoamento das águas pluviais no trecho da rua Barão do Rio Branco, além do sobrado do conselheiro Rodrigues Junior. Vinha do lado meridional da lagoinha, cruzava as ruas 24 de Maio, General Sampaio e Senador Pompeu, descia pela Pedro I e, na Major Facundo, na quadra que antecede a praça do Carmo, entrava por um bueiro no quintal da antiga residência do dr. Gil Amora, na rua Floriano Peixoto, e das residências da rua da Assunção, ajudado por uma nascente ali existente, ia formar a lagoa do Garrote, de onde sangrava para o Pajeú.

Lagoa do Garrote, antes da criação do parque 

Assim, esse curso d’água que foi vital para o surgimento da cidade, devia seu maior volume de águas ao tributo de duas lagoas, a Lagoinha e a do Garrote. Formavam-no sob os pés de cajueiros e jatobás do Outeiro e da Aldeota, vários ribeiros e as águas que corriam dos alagadiços e baixadas paralelos ao antigo calçamento de Messejana, atual avenida Visconde do Rio Branco.

Perto da lagoa do Garrote, e separado pelo calçamento de Messejana, o Pajeú foi represado num açude de alvenaria de tijolos com comportas, construído na seca de 1845, pelo presidente José Martiniano de Alencar, e restaurado mais tarde pelo Dr José Júlio de Albuquerque Barros, Barão de Sobral.

Dessa obra, que existiu até 1920, não existe mais nenhum vestígio. Por sua vez a Lagoa do Garrote também foi cercada para se tornar o lago central do jardim público que existia no local, no governo do coronel Luís Antônio Ferraz, com base em projeto do engenheiro Romualdo de Barros.

Parque da Liberdade/Cidade da Criança onde funcionou um jardim de infância 
 
Há duas versões para o nome Garrote, dado à lagoa, e por extensão, durante certo tempo, ao bairro compreendido entre o Pajeú e a Rua da Assunção, a praça do Coração de Jesus, e a dos Voluntários. Uma das versões é a seguinte:

Perto da praça, na Rua do Cajueiro, atual rua Coronel Bezerril, ficavam os açougues da cidade. A área era semideserta e cheia de mato, o gado era abatido debaixo das árvores. Havia pequenos currais, onde o gado ficava confinado. Certa vez um garrote destinado ao abate fugiu de um desses cercados e se perdeu nos matagais das proximidades. Durante um tempo foi perseguido sem que ninguém conseguisse capturá-lo, apesar das batidas e da espera a beira da lagoa. Um dia, o laçaram e o mataram. Desse episódio veio o nome da lagoa. A outra versão é de que ali era o local de descanso dos comboieiros que, que conduziam gado e outros produtos pelas estradas do Ceará.


Extraído do livro: À Margem da História do Ceará/Gustavo Barroso/Imprensa Universitária do Ceará/Fortaleza:1962/publicação FortalezaemFotos. Fotos do Arquivo Nirez 


    

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O Disciplinamento das Ruas

A rua é uma rede emaranhada de vivências, cuja origem se perde no tempo e se confunde com a existência das cidades, fazendo parte da memória do mundo, abrigando tanto os grandes acontecimentos como os pequenos incidentes do cotidiano. É local de intenso fluxo de mudanças, de movimento e de novas relações sociais. Tem a sua importância como um dos lugares das experiências humanas nas cidades.


atual Rua Formosa - 1908

A partir de princípios do século XIX a rua vai ganhando um novo prestígio dentro do nosso sistema de relações sociais. Ela deixa de ser apenas um lugar para as águas servidas dos sobrados, da escuridão, de poças de lama, bicho morto, etc, e passa a ganhar dignidade e importância social.
Um dos exemplos dessa mudança é o aparecimento no início do século XIX dos primeiros Códigos de Posturas Municipais, que procuravam defender a rua, inibindo os abusos cometidos por particulares e das residências, que se instalavam nas cidades com os mesmos modos e com a mesma arrogância da casa de engenho ou da fazenda, fazendo da calçada picadeiro de lenha, atirando no meio da rua o bicho morto, o resto de comida, a água servida, e as vezes, até a sujeira do pinico.


atual Rua Liberato Barroso s/data

Tais posturas fixaram, assim, a importância, a respeitabilidade e os direitos da rua, antes tão violados. Com elas criaram-se restrições à liberdade dos particulares, proibindo-se, aos proprietários das casas, certos absurdos, como o hábito de criar animais soltos na via pública, e as bicas que lançavam águas pluviais sobre as calçadas. Também foram proibidas a lavagem de roupa nas bicas do centro da cidade pelas negras dos mucambos, e a surra de escravos por parte dos senhores depois que o sino da matriz badalasse nove horas da noite.
No entanto, o que se procurou com esses códigos de Posturas, foi dar uma nova e mais eficaz funcionalidade à cidade, para que seu ordenamento de hábitos, de sociabilidade e dos espaços de vivências estivessem de acordo com as pretensões civilizatórias e modernas.


Lagoa do Garrote, no Parque da Liberdade (Cidade da Criança)

No relato de suas memórias de infância, Gustavo Barroso nos fala de um passeio pela manhã de 5ª. Feira, dia de folga (não houve aula), que realizara com sua tia até o Parque da Liberdade, onde existia “....grande lago represado em magelas de cimento como um tanque, que foi a antiga Lagoa do Garrote”. Naquele dia, ele vira no reservatório do Pajeú, “caboclinhos e moleques” a tomarem banho livremente, o que lhe causou inveja, mesmo que por um instante, por não poder brincar como eles, porque era um filho-família. O episódio por si só demonstra a diferença de hábitos, sendo o banho de lagoa e/ou rio um costume que não deveria ser mais praticado, por ir de encontro às posturas do município, que não só proibia o banho nos reservatórios públicos, como ameaçava com punição ao infrator. O titulo VI em capitulo de n° II legisla sobre “bulhas, vozerias, obscenidades e ofensas à moral” com a novidade: punição para a pessoa que se banhar à luz do dia “no corrente da Rua do Poço, na Lagoa do Garrote, Pajeú e outros lugares expostos às vistas dos viandantes ou de quem estiver em casa”. 


O Açude do Pajeú ficava no atual Parque Pajeú (ou Parque das Esculturas) localizado entre a rua 25 de Março e a Avenida Dom Manuel. (foto anuário do Ceará)

Entretanto, essa regra municipal que atenta para a condução e preservação de um pudor e de uma moral comunitária, já estava presente em códigos anteriores, em que os banhos na Lagoa do Garrote, em que se empenhavam os rapazes nus, provocou a vigência do artigo 70, de posturas de 11 de maio de 1849, proibindo a apresentação de qualquer pessoa despida das seis da manhã às 6 da tarde.
Se as mudanças do espaço urbano se deram já na primeira metade do século XIX, seria no entanto, a partir da segunda metade que a rua iria sofrer significativas alterações, isso porque essas modificações eram fruto de um processo de transformação capitalista do mundo, e da expansão de uma nova ordem burguesa que ora se mundializava atingindo em cheio as mais diversas áreas.
Em decorrência, o que aconteceu nesse contento foi a emergência de uma ordem urbano-industrial que exigiu desse espaço público sua adequação aos padrões desejados de modernidade e progresso. Assim, a rua refletiu a transformação do espaço e a reordenação da vida.


Portão de acesso ao Passeio Público, onde a Avenida Caio Prado era a vitrine das elites durante o período conhecido como Belle Epoque 

Em Fortaleza essas mudanças coincidiram com o início do período conhecido como belle époque, onde a elite formada por comerciantes e profissionais liberais vindos de outras regiões do Brasil e do exterior, ajudou a promover diversas mudanças importantes em Fortaleza. De influência francesa e baseada em ideais de civilidade, esse contingente teve atuação destacada no período compreendido entre 1860 até por volta da metade dos anos 1920, onde a cidade foi amplamente influenciada pelas ideais de modernidade estética e comportamental.

Extraído do livro 
Humor, Vergonha e Decoro na Cidade de Fortaleza (1850-1890)
De Marco Aurélio Ferreira da Silva 
Coleção Outras Histórias
fotos do Arquivo Nirez e postais antigos

quarta-feira, 15 de junho de 2016

As Igrejas mais Antigas de Fortaleza

O catolicismo tem sido a principal religião do Brasil desde o descobrimento. Foi introduzido por missionários que acompanharam os exploradores e colonizadores portugueses desde os primórdios. Muitas cidades do interior surgiram a partir de aglomerados que cresceram em torno de uma capela.

A Igreja católica fez-se presente no Ceará desde as primeiras tentativas de conquistas da terra. A colonização portuguesa era legitimada pelo Papa e estava ligada a necessidade de expansão da fé católica. É sintomático que uma das tentativas de conquista do território cearense tenha sido encabeçada por dois jesuítas, Francisco Pinto e Luís Figueira, em 1607.

Em 1611, outro colonizador – Martim Soares Moreno – trouxe consigo o padre Baltasar João Correia, erguendo ao lado do forte de São Sebastião, na atual Barra do Ceará, uma pequena ermida de taipa, dedicada a Nossa Senhora do Amparo. Sem muito êxito na sua missão, o religioso retirou-se por volta de 1615.


Franciscanos e Jesuítas sempre marcaram presença em terras cearenses, catequizando índios e mantendo estreita convivência com fazendeiros e pessoas simples do campo. Não por coincidência, os templos mais antigos de Fortaleza são todos de fé cristã. Alguns desses templos foram construídos por irmandades.  No período colonial, as irmandades religiosas tinham uma grande influência na vida da população. Tendo origem nas confrarias da Europa medieval, consistiam em associações religiosas de leigos, cujo propósito era cultuar um santo através de procissões, festas, construção de templos, prática de caridade.

Estas são primeiras igreja de Fortaleza, que já foram fundadas nos mesmos locais onde se encontram até os dias atuais. Algumas foram reconstruídas com características totalmente diferentes dos modelos originais, como as Igrejas do Coração de Jesus e a de São José (Catedral Metropolitana); a maioria, no entanto, sofreram poucas modificações em relação a construção original. 

Igreja do Rosário  1730 


A Igreja do Rosário foi construída pelos negros da Irmandade de Nossa Senhora dos Pretos, em uma época em que havia separação de raças e classes sociais em templos religiosos. Era uma pequena capela de taipa e palha, erguida com donativos ofertados pelos fiéis, num arrabalde da vila, que muitos anos mais tarde se tornaria a atual Praça General Tibúrcio.

Em 1753, a capela foi reconstruída com pedra e cal, porque ameaçava desabar. A capela mor ficou pronta em 1755. No período de 1821 a 1854, Igreja do Rosário serviu de matriz enquanto a Catedral Metropolitana passava por reformas. Construído em estilo barroco, é o mais antigo templo de Fortaleza, tombada pelo Estado em 1983. Fica na Rua do Rosário, s/n, Praça General Tibúrcio, Centro. 

Igreja de São José (Catedral Metropolitana) - 1795 


A construção da primeira capela mor de Fortaleza foi decidida em fevereiro de 1699, mas a autorização só ocorreu por Ordem Régia de 12 de fevereiro de 1746. Concluída em 1795, a igreja foi demolida em 1820, quando foi vistoriada e encontradas diversas rachaduras no arco, ficando resolvida sua demolição para a construção de um novo templo.

As peças sacras foram transferidas para a Igreja do Rosário, e só retornariam no dia da bênção da nova matriz, no dia 2 de abril de 1854, que recebeu o nome de Igreja de São José. A Igreja foi elevada à Catedral quando houve o desmembramento da Diocese de Pernambuco e foi criada a do Ceará.

Em 1938 novamente sob a alegação de que estava prestes a ruir, esta também foi demolida e a pedra fundamental da atual catedral foi lançada em 15 de agosto de 1939, à época do arcebispado de Dom Manuel da Silva Gomes. 

A construção da nova catedral demorou mais do que o esperado, em razão do início da Segunda Guerra, e da ocorrência das grandes secas, cujo socorro aos flagelados era sempre prioridade e demandava grande volume de recursos. Finalmente foi inaugurada no dia 22 de dezembro de 1978, tendo o padre Tito Guedes à frente de suas obras e como Arcebispo Metropolitano, Dom Aloísio Lorscheider. Localizada na Praça da Sé, s/n. 



Consta que em 26 de outubro de 1839, Antônio Joaquim Batista de Castro, morador no Outeiro da Prainha, requereu uma licença à Câmara Municipal, para que ele e outras pessoas pudessem construir uma capela de invocação a Nossa senhora da Conceição.  A licença foi concedida no dia 30 do mesmo mês.

Os fiéis resolveram então, organizar uma irmandade e escolher o lugar onde seria edificado o templo. Concordaram que o local seria sobre a colina fronteira à praia, ficando a capela de frente para o oriente. A planta do novo templo foi de autoria do arquiteto José Antônio Seifert.

A primeira missa foi celebrada no dia 8 de dezembro de 1841. Atrás da igreja havia o Cemitério da Prainha, que funcionou entre 1811 e 1847. A igreja foi utilizada pelo seminário durante o tempo em que funcionou no local, passou por ampliação e serviu aos ofícios realizados pelos padres e seminaristas.

A igreja da Prainha fica na confluência das avenidas D. Manuel e Monsenhor Tabosa, junto à Praça do Cristo Redentor, no antigo bairro Outeiro da Prainha. O prédio é contíguo ao Seminário da Prainha e os dois edifícios compõem um conjunto arquitetônico de interesse histórico e artístico na cidade. Tombamento Estadual de 2006. 



A pedra fundamental da Igreja do Patrocínio foi lançada em 02 de fevereiro de 1850, que ficaria pronta dois anos mais tarde. Em 1849 o cabo da esquadra Fortunato José da Rocha disparou um tiro contra o Capitão Jacarandá, mas acertou o joelho do Alferes Luís de França Carvalho, que estava ao lado do capitão. Vendo-se em risco de perder a vida, Luís de França fez voto a Nossa Senhora do Patrocínio, que se escapasse, faria uma igreja em sua devoção.

No ano seguinte, curado do ferimento, lançou a pedra fundamental da igreja, ao norte da atual Praça José de Alencar). O oficial teve que deixar Fortaleza e os trabalhos de construção passaram a ser muito lentos, apesar da ajuda de muitos fiéis que apoiaram a ideia do militar. A planta do templo foi feita pelo mestre Antônio de Rosa e Oliveira.

As obras iniciadas por França só foram concluídas devido aos esforços do cônego João Paulo Barbosa, que contou com o auxílio de particulares, das Assembleias Provinciais, da Sociedade Auxiliadora dos Templos, e dos materiais que de ordem do governo lhe foram doados no período da seca. Situada na Rua Guilherme Rocha, 536, Praça José de Alencar, Centro. 




Em 1854 o Tenente Bernardo José de Melo construiu uma pequena igreja de taipa em honra de Nossa Senhora do Bom Parto. No primeiro inverno, com a força das chuvas que caíram, a capela foi ao chão. Graças ao seu prestígio, o tenente Bernardo conseguiu um empréstimo do governo no valor de Oitocentos Mil Réis, para ser pago em parcelas de cinquenta mil Réis por ano. Com esse dinheiro construiu a atual Igreja de São Bernardo, a qual sofreu um único acréscimo em relação a construção original: a sacristia, feita por Monsenhor Quinderé, durante os 40 anos como Reitor da igreja.

Inicialmente o povo chamava a Igreja do Seu Bernardo, que com o tempo mudou de Seu para São. Ficou sendo a Igreja de São Bernardo, embora a devoção maior fosse em louvor a Nossa Senhora do Bom Parto. Para justificar o batismo da igreja o Tenente Bernardo mandou vir da Espanha uma bela imagem de São Bernardo, que passou a ser o titular da igreja.

A Igreja de São Bernardo conta com dois altares herdados da antiga Igreja da Sé, demolida em 1938: o Altar de São José e o de N. S. do Bom Parto.  Fica na esquina das ruas Senador Pompeu e Pedro Pereira, no centro. 

foto Panorâmio

A Igreja de N. S. da Conceição, fundada em 1871, instituída canonicamente em 1873, conforme provisão episcopal de D. Luís Antônio dos Santos, primeiro bispo do Ceará. A igreja foi construída inicialmente pelos jesuítas, que nesse mesmo local ergueram uma capela, em cuja base foi erigida a igreja atual. Localizada na Rua Joaquim Bezerra, em Messejana. 

Igreja de São Benedito – 1885 

 foto de Muhammad Said

A inauguração da Igreja de São Benedito ocorreu na manhã do dia 8 de abril de 1885.  Na tarde do mesmo dia acontece a transladação das imagens de São Benedito, Santa Tereza de Jesus, São Roque e São Caetano, da Igreja do Patrocínio para o novo templo. Era uma igrejinha pequena, original, com quatro frentes para os quatro pontos cardeais, com torre de madeira envidraçada, situada ao lado oriental do Boulevard  do Imperador.

No dia 27 de julho de 1938 foi instalado o Santuário da Adoração Perpétua, na Igreja de São Benedito. Depois foi construída uma nova igreja na Rua Clarindo de Queirós, que fica ao lado, e o antigo templo foi transformado em uma livraria, e mais tarde, demolido. 



Inaugurada em 25 de março de 1886, a construção da Igreja do Sagrado Coração de Jesus foi uma iniciativa do casal José Francisco da Silva Albano e Liberalina Angélica da Silva Albano (Barão e Baronesa de Aratanha), com o apoio do bispo Dom Luís Antônio dos Santos. Ficou conhecida como Igreja dos Albanos.

A grande seca de 1877-1879 deixou um grande número de flagelados em Fortaleza, para aproveitar essa mão-de-obra e dar emprego a essa gente é que foi construída a igreja, em frente a Lagoa do Garrote, no Parque da liberdade (atual Cidade da Criança), no Morro do Pecado, onde já existia uma capela em louvor a Nossa Senhora das Dores. O templo era simples, em linhas neoclássicas e neogóticas, se assemelhava à Igreja do Carmo.

Em 1952, os engenheiros Luciano Pamplona e Valdir Diogo aumentaram a altura da torre e colocaram um imenso relógio trazido de Roma na fachada. Cinco anos depois, em 1957, a torre cedeu e soterrou a entrada da igreja. Não houve vítimas. Ao invés de reconstruirem a igreja, pois apenas a torre fora afetada, os capuchinhos optaram por derrubar toda a igreja para construírem um templo maior, com rampas para subida dos carros, uma torre vazada e uma grande cúpula sobre a nave principal.  A nova igreja foi inaugurada em 1961. Localizada na Avenida Duque de Caxias,135, Centro. 



A história da Igreja do Pequeno Grande está intimamente ligada à história do Colégio da Imaculada Conceição.  A pedra fundamental foi lançada em 1898, pelo padre Chevalier, reitor do Seminário e capelão do Colégio da Imaculada.  As obras, mal iniciadas, sofreram paralisação no ano seguinte, sendo retomadas em 1898 até a sua conclusão em 1903, quando se verificou a benção do templo.

Para que o templo ficasse concluído, a Irmã Chambeaudrie doou à igreja uma herança de família. Por sua vez, os membros de diversas associações – Filhas de Maria, Senhoras de Caridade e as próprias freiras se dedicaram a missão de angariar recursos para a obra. Situada na Avenida Santos Dumont, 55, Centro. 

Igreja do Carmo – 1906 


A paróquia de Nossa Senhora do Carmo que domina a praça, foi a quarta paróquia a ser criada em Fortaleza. Originalmente ali era a capela de Nossa Senhora do Livramento, um pequeno templo erigido pela Irmandade dos Pardos, administrada pela Paróquia do Patrocínio.

A capela se erguia em área distante do centro, cercada de árvores, com uma lagoa nas proximidades. No início do século XX, foi decidida a construção de uma igreja em substituição à capela, que se encontrava em péssimas condições. Ainda na construção, a autoridade diocesana permitiu que fosse mudada a invocação para Nossa Senhora do Carmo.

O templo foi inaugurado em 25 de março de 1906, com muita solenidade, sendo o primeiro capelão monsenhor José Gurgel do Amaral. A imagem que ocupa o centro do altar-mor tem uma história de desencontro: o Padre Dantas tinha encomendado a imagem de Nossa Senhora do Carmo em Portugal. Quando a efígie da santa chegou a Fortaleza, ele foi avisado de que deveria pagar os direitos alfandegários para que pudesse recebê-la, o que ele não fez por esquecimento.

Então a imagem foi a leilão, tendo sido arrematada pelo Sr. José Rossas, que procurado pelo padre negou-se a cedê-la por qualquer preço. Dias depois José adoeceu gravemente, de paratifo, e fez uma promessa de entregar a imagem à Igreja caso ficasse curado. Alguns dias depois, mandou que sua esposa procurasse o Pe. Dantas para entregar-lhe a imagem da Virgem Maria, sem qualquer compensação.  A Igreja do Carmo fica na Avenida Duque de Caxias, s/n, Centro. 

obras consultadas:
FONTES, Eduardo. As Pouco Lembradas Igrejas Fortaleza: subsídio à história dos templos católicos de Fortaleza. Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto, 1983.
BEZERRA DE MENEZES, Antonio. Descrição da Cidade de Fortaleza. Introdução e notas de Raimundo Girão. Fortaleza: Edições UFC/Prefeitura Municipal de fortaleza, 1992 
AZEVEDO, Miguel Ângelo (NIREZ). Cronologia Ilustrada de Fortaleza. Roteiro para um turismo histórico e cultural. Fortaleza: banco do Nordeste, 2001.
Catedral Metropolitana de Fortaleza – Oficina de projetos S/S Disponível em
http://www.ofipro.com.br/preservando/catedral.htm
fotos do Arquivo Nirez e Fortaleza em Fotos





segunda-feira, 31 de março de 2014

Na Força das Águas

Nascido de olhos d’água, a menos de 5 quilômetros da praia e despejando-se no mar,  o riacho Pajeú dividia a vila em dois bairros. Na sua margem direita e em direção ao nascente, elevava-se o planalto do Outeiro da Prainha, com seus sítios carregados de coqueiros, de onde se descortinava, do alto e ladeira abaixo, a orla ensolarada da vila banhada pelas águas do  Atlântico. 

 Forte Schoonenborch, construído pelos holandeses e transformado em N. s. da Assunção pelos portugueses

Do outro lado do riacho ficava a Colina da Misericórdia, onde foi levantada a fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Ao seu redor, em terras ligeiramente acidentadas e protegidas pelos bastiões do forte, crescia o comércio, o centro administrativo e o primeiro bairro residencial de Fortaleza que, a partir de 1823 adquiria foros de cidade. 
Partiam da vila em diversas direções as Estradas do Cocó e de Jacarecanga, assim como os antigos caminhos que levavam aos aldeamentos indígenas: o de Soure (Caucaia), o de Paupina (Messejana) e aquele que se voltava para os sertões dirigindo-se para o Caminho de Arronches (Parangaba).
Logradouros e casarões contam a história de Fortaleza, desvelando famílias que por ali viveram e marcaram a crônica da cidade em diferentes épocas, pelo seu destaque na vida econômica, política e social. Dirigindo-se ao caminho de Arronches, através de crônicas antigas, velhos casarões evocam um caleidoscópio de imagens de pessoas e fatos que promoveram a construção da cidade. Dominando logradouros com suas imponentes fachadas, essas antigas moradas – registro de uma época – alinharam e deram nomes ás ruas. Em seus festivos salões, iniciou-se o cultivo da sociabilidade requintada, antecedendo a formação dos grandes clubes e a história elegante de Fortaleza. 


Praça Clóvis Beviláqua - anos 20/30 

A colina da Praça de Pelotas, hoje Clóvis Beviláqua marcava o início do Benfica. As águas deste elevado desciam e, juntando-se às mais volumosas que vinham da Lagoinha, formavam na atual Praça do Coração de Jesus, a Lagoa do Garrote.
Pelas encostas do Outeiro, ocupadas depois de um grande espaço de tempo, pelo bairro da Aldeota, baixavam córregos que se juntavam ao Pajeú. Acrescido dessas águas, corria o riacho livremente, deslizando por seu vale tortuoso com seu movimento regulado pelas forças vivas das lagoas do Garrote e da Lagoinha. 



O bairro do Garrote nasceu de aterros e construções na Lagoa do Garrote. Em homenagem à abolição da escravatura, as últimas águas dessa lagoa foram represadas, criando ali o Parque da Liberdade. Construído pelo engenheiro Romualdo de Carvalho Barros e auxiliado por Isaac Correia do Amaral, o parque mudou de nome no tempo do centenário da Independência, passando a se chamar de Parque da Independência, para mais tarde ser reconhecido pelo seu primeiro nome. Popularmente, no entanto, é chamado de Cidade da Criança, desde que ali se instalou em 1937, uma escola dirigida pela professora Alba Frota. O Largo do Garrote, agora Praça dos Voluntários, comunicava-se livremente com o Parque da Liberdade até 1939, quando se formaram dois logradouros distintos, depois da construção nesta passagem, da sede própria do Clube Iracema.  

casa onde residiu Maximiano Leite Barbosa, na Rua Solom Pinheiro ao lado do Parque da Liberdade. Ali funcionou a Biblioteca Pública do Estado, hoje é a sede da Associação Beneficente Cearense de Reabilitação - ABCR
 
Maximiano Leite Barbosa, pai do fundador do ideal Clube, residiu em um palacete que ladeava o Parque da Liberdade. Herdado por sua filha Maria Luiza, o imóvel já abrigou a Biblioteca Pública do Estado, e é ocupado atualmente pela Associação Beneficente Cearense de Reabilitação.  Outros membros da família ocupavam os casarões vizinhos, e alinhado a estes, está a casa onde nasceu o ex-presidente Humberto de Alencar Castelo Branco. 
 casa na Rua Solon Pinheiro em frente ao Parque da Liberdade onde nasceu o ex-presidente Humberto de Alencar Castelo Branco

No largo do garrote, circundado por  três alinhamentos de casas sombreadas por frondosas castanholeiras e mangueiras, encontrava-se uma das principais residências dos meados do século, o palacete de Vitoriano Augusto Borges. Em 1873 esta residência foi adquirida pelo Tesouro provincial para instalação do antigo Liceu do Ceará. Um pouco mais adiante, seguindo o movimento das águas, margeando o Pajeú na esquina do Beco do Pocinho, situava-se a chácara do português Manuel Caetano de Gouveia, que exerceu enorme influência econômica e social em Fortaleza. Nesta chácara localizava-se o famoso Cajueiro do Fagundes, que em tempos coloniais serviu de ponto de venda  do açougueiro Fagundes.  O Comendador Manuel Caetano de Gouveia deu origem á família Gouveia em Fortaleza.

 Igreja da Sé 1914

Descendo o riacho Pajeú, deparava-se com a cidade velha, sua Matriz no meio da Praça do Conselho, onde hoje se encontra a  Catedral Metropolitana, e em frente dessa, o pelourinho. Por ali passava a Rua da Matriz, que se seguia com o nome de Rua dos Mercadores, concentrando o comércio. Atualmente estas duas vias são as Ruas Conde D’Eu e Sena Madureira. 

Praça da Sé, 1915

Defronte a matriz havia um alinhamento de casas, antigas moradas dos capitães-mores. Com sua demolição surgiu o Largo da Matriz, hoje Praça da Sé, onde se ergue a estátua de bronze de Dom Pedro II, inaugurada em 1913. O traje envergado pela estátua, esculpida em Paris, pelo francês Mailard, utilizou como modelo a farda de gala do Almirante Alexandrino de Alencar, figura de relevo da Marinha Nacional, sobrinho-neto de Bárbara de Alencar.
Por trás desse monumento Pedro Augusto Borges ergueu sua residência, onde posteriormente seria instalada a Pensão Bitú. Nesta pensão se hospedariam os membros da Comissão da American Carnegie Institution, que vieram ao Ceará observar, na cidade de Sobral o eclipse solar de 29 de maio de 1919, de importância para o estudo da Teoria da Relatividade de Einstein


extraído do livro
 Ideal Clube, História de uma Sociedade, de Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos antigas do Arquivo Nirez

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Um Par de Becos e Meia Dúzia de Ruas

Segundo Mozart Soriano Aderaldo, nossa capital, a exemplo de Roma, é construída sobre colinas. As elevações repartiam os cursos d’água que iam ter com o mar, o Pajeú ou o Cocó. O riacho que partia da Praça do Ferreira em direção ao Pajeú, alcançando-o na altura do Mercado Central, era um eles. Outro curso d’água se dirigia da Praça Clóvis  Beviláqua em demanda da lagoa do Garrote, passando nas proximidades da Praça do Livramento (atual Praça do Carmo). Esses riachos serpenteavam entre os outeiros.


Lagoa do Garrote, hoje um lago canalizado dentro da Cidade da Criança (Parque da Liberdade)
  
O caminho das águas foi interrompido pelas ruas. O forte, contíguo ao quartel da Guarda Nacional, serviu de parâmetro, daí surgindo a rua do Quartel, hoje General Bezerril, e a rua de Baixo, à margem esquerda do Pajeú ou dos Mercadores, ou Rua Direita (atuais Avenida Alberto Nepomuceno, e ruas Sena Madureira e Conde D’Eu. Os bairros apareciam identificando a cidade: do Outeiro, da Prainha e do Comércio, este último representando a cidade propriamente dita.


estrada Fortaleza-Parangaba, em 1929 (foto O Povo)

Sendo Fortaleza meia dúzia de ruas, duas praças e um par de becos (o Beco das Almas, que cresceu Rua São José e o Beco da Apertada Hora, renomeado Rua Governador Sampaio). Distantes as estradas de Messejana, Parangaba e Jacarecanga. Até a metade do século XIX, a cidade se via nas ruas: era a Rua da Amélia, Praça do Ferreira, Praça Carolina, Rua das Flores (Castro e Silva), pelo rastro dos mortos. Travessa da Municipalidade (Rua Guilherme Rocha), por ladear o prédio da Intendência Municipal; da Misericórdia (Dr. João Moreira), por conta da Santa Casa; São Bernardo (Pedro Pereira), devido a Igreja de São Bernardo; Rua do Cajueiro (Pedro Borges). As travessas da Assembleia (São Paulo) do Gasômetro (Senador Jaguaribe) e do Chafariz (José Avelino) são autoexplicativas.


Ladeira do Gasômetro, sentido praia/sertão com o prédio da Santa Casa no alto 

Em 1817 os vereadores determinaram o uso de placas com o nome dos logradouros. Mas o povo continuava a se orientar pelos nomes conhecidos e pelo cotidiano de flores, almas, trincheiras e chafarizes. O costume era tão arraigado entre a população que até os responsáveis pelas procissões davam ciência dos itinerários através de publicações na imprensa, comunicando que a procissão passaria em frente à casa de pessoas conhecidas da população.


Igreja de São José, a antiga Catedral de Fortaleza

Um exemplo desse hábito corrente na Capital é o anúncio publicado no jornal “A Constituição” pelo vigário interino da catedral sobre o percurso da procissão de encerramento do mês mariano de 1864:
Hoje às 4h da tarde sairá em procissão a imagem da Santíssima Virgem conduzida pelos fiéis, cuja direção será a seguinte:
Sairá da Catedral pela Rua de Baixoentrará na Rua do Garrote pela travessa que existe diante da casa do Sr Cônsul Gouveia, e daí prosseguirá em direção à Praça da Municipalidade, passará na frente da casa do Sr. Feijó, em cuja travessa entrará em direção ao Palácio Episcopal, prolongando-se pela rua abaixo, voltará na quina do Senhor Cônsul Rocha Júnior, em procura da frente do Senhor Barbosa, e daí entrará na travessa mais próxima, que é a do Senhor Santos, encaminhando-se à casa da Carolina, passará na frente do Senhor Paes Pinto, onde voltará para a Catedral da Sé.
Assinado: João Leite de Oliveira – vigário interino.     

fontes:
Revista Fortaleza, fascículo 9
Fortaleza Velha, de João Nogueira
fotos do Arquivo Nirez