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segunda-feira, 27 de agosto de 2018

A Origem da Água Potável em Fortaleza

Em 1904, 0 sanitarista Rodolfo Teófilo denunciava: a cidade era abastecida por fontes de procedência duvidosa, onde burricos e carregadores atentavam contra higiene pública.




É difícil encontrar-se uma cidade mais infestada de pedintes do que Fortaleza. A razão da estupenda mendicidade está nas secas. Cada flagelo que passa, deixa na Capital algumas centenas de inválidos, a aumentar a cifra já bastante crescida de inúteis. Recordo-me perfeitamente de Fortaleza antes de 1877. Havia pedintes a esmolar pelas ruas. Eram poucos, então.

Hoje, nos dias de sábado, vê-se uma procissão de esmoleres, rua abaixo e rua acima, e tão crescida que espanta. A falta de brio da arraia miúda em Fortaleza, chegou ao ponto de santificarem o sábado. Reservam este dia para as esmolas... As lavadeiras, por exemplo, não trabalham nos sábados, pedem esmolas. Posso afirmar isso de visu porquanto as lavadeiras são poços à flor da terra disseminados pelas areias de Fortaleza, e todas as vezes que por eles passei no mencionado dia, não vi uma lavadeira sequer.

É de buracos também nessa área suburbana que a população da Capital se abastece de água. Sabia que a água que se bebe em Fortaleza vinha das areias, mas nunca imaginei que fosse tirada de semelhantes fontes. Fiquei escandalizado quando vi um desses pequeninos pântanos, abertos naquela areia sáfara, exposta totalmente ao sol, cercado de aguadeiros e seus burricos.

E como é colhida a água? O animal, ordinariamente um jumento, é levado para a beira do poço, e enquanto ele se farta de água, se lhe enchem os canecos (barris de madeira). O focinho do animal lavado ali, causa menos nojo e é menos repugnante do que as cabeludas pernas dos aguadeiros que às vezes na fonte entram até meia canela. Porcos por índole e por educação, mui naturalmente pisam na água e nela lavam o rosto e depois levam-na a vender aos habitantes da capital, que imprevidentes como o aborígene, deixam de construir cisternas para recolher as águas das chuvas, esperando que o poder público melhore as aguadas.

Este, em sua habitual despreocupação, esquece por completo o lado utilitário dos negócios públicos e cuida de embelezar a cidade, ornando-a de avenidas e jardins. Quem nos visita sabe que temos bons logradouros, vê as nossas avenidas, mas não sabe de onde vem a água que bebemos. Quando será que os homens que nos governam tomarão mais a sério a saúde pública do que o embelezamento da cidade?

O abastecimento de água fora objeto de concessão dada pelo governo em 1862, por 50 anos, a José Paulino Hooholtz, a fim de fazer o encanamento de água potável do seu sítio no Benfica, para chafarizes espalhados pela cidade, tendo sido celebrado o contrato a 27 de maio de 1863. Além da exclusividade da venda de água, o contrato previa que a empresa deveria vender água em carroças por toda a cidade, pelo dobro do preço cobrado nos chafarizes.

O Chafariz da então Praça José de Alencar (atual Waldemar Falcão) foi instalado em 1836, no Largo do Palácio, pelo presidente da Província José Martiniano de Alencar

Em 1866 a concessão foi transferida para a empresa inglesa Ceará Water Works Co, que tentou organizar o serviço de abastecimento por meio de uma pequena rede distribuidora de água apanhada em cacimbas, de onde era captada por meio de bombas para dois reservatórios instalados no Benfica. Dali a água era canalizada para o centro da cidade, aproveitando-se o declive do terreno que facilitava o escoamento. Com a seca de 1877-79, as cacimbas e as demais fontes secaram e o abastecimento foi suspenso. 

Barragem do Açude Acarape 

Passado o período mais agudo da escassez de água com a volta das chuvas, e não contando a cidade com um concessionário oficial, a distribuição voltou aos padrões anteriores a 1862, onde a água potável era obtida em chafarizes, riachos ou aguadas. A localização desses mananciais não é precisa, alguns são localizados genericamente como “nas areias”. 

Sabe-se que não havia nenhum tipo de controle ou preocupação com a higiene. Água para tomar banho, lavar roupas, cozinhar, beber, e para outras atividades, provinha da mesma fonte, assim, não era de se estranhar a forte presença de lavadeiras e banhistas nos riachos, açudes e lagoas. Os documentos existentes descrevem essas aguadas como locais marcados pelas brigas e falta de asseio. Como figura central no abastecimento de água principalmente em residências, estava o aguadeiro, primeiro em burricos, mais tarde em carroças. E foi esse o cenário visitado e descrito por Rodolfo Teófilo. 

Os logradouros públicos dispunham de cacimbas e cataventos para manutenção dos jardins - Praça Marquês de Herval - atual Praça José de Alencar - 1912

Sorte de quem tinha uma cacimba no quintal. Mas construir um reservatório como este, custava caro, e poucos podiam pagar. Por conta do solo arenoso da cidade, era imprescindível o forro interno para evitar desmoronamento e assoreamento.

Somente em 1911, no governo Nogueira Accioly, o Dr. João Felipe elaborou um projeto que não foi concretizado de imediato em razão da deposição do governador. Mesmo assim haviam sido construídos dois reservatórios na então Praça Visconde de Pelotas, atual Praça Clóvis Beviláqua, com capacidade de 760.000 cada uma, além do estabelecimento de 42 km de canos pelas ruas. 

O prosseguimento dos trabalhos ocorreu em 1923, quando Ildefonso Albano contratou uma empresa americana, e o serviço foi inaugurado oficialmente no dia 3 de maio de 1926.
ao lado, a Praça Clóvis Beviláqua com os canos que seriam utilizados no sistema de abastecimento de água
Praça Clóvis Beviláqua já com os reservatórios em funcionamento - década de 1930

Até a data da inauguração do sistema de água do Açude Acarape, a distribuição de água ainda era feita em lombos de jumentos com depósitos de madeira. Algumas fontes dedicaram-se a esse comércio tornando-se conhecidas no mercado, por terem ampliado a oferta através de um grande número de vendedores avulsos que se lançaram no comércio ambulante.

O fornecimento voltou a ser alterado em 1975, com a inauguração em 30 de setembro, do primeiro reservatório do sistema Pacoti, o Açude Gavião.   


Fontes:
Fortaleza e a Crônica Histórica, de Raimundo Girão
História Urbana e Imobiliária de Fortaleza, de Lira Neto
O Abastecimento de Água em Fortaleza - CE (1813-1867), de Emy Falcão Maia Neto - Revista Espacialidades [online] 2014.v.7. n° 1
fotos do Arquivo Nirez



segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Antiga Praça Visconde de Pelotas

A Antiga Praça Visconde de Pelotas é a atual Praça Clóvis Beviláqua. O nome homenageava o Visconde de Pelotas e herói da Guerra do Paraguai, Marechal José Antônio Correa da Câmara. A praça tinha uma singularidade, pois ficava a 24,41 metros de altitude e se constituía uma das mais elevadas da cidade. 

Foi por isso, o local escolhido para se instalar os reservatórios de água potável da cidade. Em 1867, a "Ceará Water Work Co. Ltd" abasteceu a cidade a partir dali, por meio de chafarizes. Esta companhia inglesa, explorou o serviço de abastecimento até a grande seca de 1877-1879, quando deixou de funcionar por falta de água. 

Em 1911, na administração do presidente da Província Nogueira Accioly, foram instaladas as caixas d'água com material importado. Com a deposição de Accioly do governo do Estado, o serviço ficou paralisado. 


A partir de 1938, com a instalação da Faculdade de Direito em sua área, a Rua Meton de Alencar foi prolongada, dividindo a praça transversalmente. Como era comum nas antigas praças de Fortaleza, nela predominava o verde, primeira preocupação dos urbanistas da cidade. Os jardins eram bem cuidados, com as árvores contornadas por cercas vivas; a praça possuía um coreto com bancos para as retretas das bandas de música. 


Em frente à Faculdade de Direito erigiram um obelisco, em homenagem à participação brasileira na 2a. Guerra Mundial. Centralizando o lado poente da praça, localizava-se o palacete do Barão de Camocim, ladeado pelo jardim da Baronesa. Este importante casarão integrante do patrimônio histórico arquitetônico da cidade, revela um pouco da sociedade da época. 

Inaugurada no século XIX, o palacete foi construído com planta  adquirida em Paris por Geminiano Maia, o Barão de Camocim. A residência conservava preciosidades que ornamentavam a antiga residência do casal, em Paris, quando ele então gozava do convívio e amizade da família imperial brasileira, exilada na França, depois da Proclamação da República
 

O palacete era composto de cinco dormitórios na parte superior, vários aposentos na parte de baixo, além de um porão habitável. A vasta propriedade em seus primeiros tempos, compreendia o casarão e seu extenso jardim,  com pomar e a Ala da Baronesa - um recanto predileto da senhora de Camocim, na parte esquerda do edifício principal. Depois do  casamento de sua única filha e mais tarde, dos netos, os jardins foram cedendo espaço para a construção de seis casas residenciais da família. 


Em 1925 o palacete recebeu o casal D. Pedro de Alcântara e sua filha a Condessa de Paris. Ele era o primogênito da princesa Isabel e do Conde D'Eu. Outras recepções marcariam também a Vila de Camocim, como os casamentos e as festas de quinze anos das netas e bisnetas do Barão. 

O Barão de Camocim nasceu em Aracati - primeiro entreposto da civilização cearense - em 1847, filho de Cosme Afonso Maia e Teresa de Jesus Maia. Geminiano e seus irmãos José e Vicente fundaram em 1872, em Fortaleza, o conceituado estabelecimento denominado "Louvre", uma casa de modas, com artigos finos, importados de Paris. 


No lado nascente da Praça de Pelotas, quase esquina da rua Senador Pompeu com a Rua Clarindo de Queiroz, localizava-se a residência de Ernesto de Alencar Araripe  e sua mulher, Carolina Pereira de Alencar Araripe

Na esquina sudeste do logradouro, no cruzamento das Ruas Senador Pompeu  e Antônio Pompeu, erguia-se os fundos do prédio que foi o Cine Araçanga, e depois Cine Art. Esses cinemas tinham a frente voltada para a Rua Barão do Rio Branco.


Na face sul da Praça, esquina das Ruas Senador Pompeu e Antônio Pompeu, erguia-se a residência de Meton de Alencar Pinto, construída em 1931, com 3 pavimentos. Filho de Júlio Pinto do Carmo e Júlia de Alencar Pinto, Meton de Alencar e seus irmãos fundaram a Companhia Importadora de Máquinas e Acessórios Irmãos Pinto - Cimaipinto. Os jardins e os espaços externos foram destruídos, mas a casa continua lá.
 
Vizinho a residência de Meton de Alencar morava Raymundo de Alencar Araripe, que foi prefeito de Fortaleza por quase dez anos (18 de maio de 1936-30 de outubro de 1945). Durante seu governo, pavimentou as ruas de Fortaleza, construiu o Estádio Presidente Vargas e criou a Assistência Municipal, instalada na vizinhança de sua residência. 


Em seguida, convidou o médico Dr. José Frota para dirigir este posto médico. O nome de José Frota serviria posteriormente de referência para a rede de pronto-atendimento médico do Município de Fortaleza. O Serviço de Educação Infantil, mantido pela municipalidade, foi criado em 1938, por iniciativa deste prefeito, instalando sua sede no antigo Parque da Independência, que passou a ser chamado de Cidade da Criança. 

uma terceira caixa d'água foi instalada mais tarde.

Em 1926 a Praça Visconde de Pelotas teve o nome mudado para Praça do Encanamento, em razão da instalação do 1° sistema de abastecimento de água. Em 1937 passou a ser chamada de Praça da Bandeira. Por fim passou a ser Clóvis Beviláqua, em 10 de julho de 1959, na gestão do prefeito Cordeiro Neto (1959-1963). 

fontes: Ideal Clube - história de uma sociedade
fotos do arquivo Nirez, O Povo, Marciano Lopes e Fortaleza em Fotos 

domingo, 13 de julho de 2014

No Tempo dos Lampiões de Gás

A primeira cidade a ter iluminação a gás carbônico foi Londres, em 1812,  utilizando o gás extraído da hulha ou carvão-de-pedra. O Rio de Janeiro inauguraria essa modalidade de iluminação em 1854, quarenta e dois anos  depois de Londres. 

 Rua Floriano Peixoto 

Visando dotar Fortaleza desse serviço, o Presidente da província João Silveira de Souza assinou a lei nº 838, de 2 de outubro de 1857, que não se materializou. Nova tentativa ocorre em 1859, quando o contrato para a prestação do serviço é formalizado pelo presidente Silveira de Souza, na Lei 918 de 13 de setembro de 1859, sendo beneficiário da concessão Joaquim da Cunha Freire; também nada de prático resultou dessa norma.
Em 1864, é renovado o privilégio de explorar a iluminação pública pelo período de 59 anos. Dificuldades naturais levaram o empresário cearense a associar-se a Thomas Rich Brandt, com o qual procedeu a negociações internacionais em busca de soluções. Dessa negociação resulta a constituição de um grupo de investidores que, em 1865, institue a firma The Ceara Gaz Company Limited, com sede em Londres.
As operações de transferência para o grupo britânico foram aprovadas pelo governo da província, que inclusive assegurou o terreno adjacente à Santa Casa de Misericórdia, onde foi instalada a usina de gás e a residência do gerente. 


ladeira da Misericórdia, vista no sentido praia/centro com a estrutura do gasômetro e no alto, ao fundo, a Santa casa de Misericórdia

A empresa instalou-se em Fortaleza ocupando o prédio situado à Rua Formosa n° 52, com escritórios e o terreno com frentes delimitadas pelas ruas Senador Pompeu, Formosa e Senador Jaguaribe, na então chamada rampa da Santa Casa, onde foi providenciada a construção do gasômetro e usina de processamento do gás e a edificação da residência do gerente local.
A festiva inauguração oficial da iluminação a gás em Fortaleza ocorreu a 17 de setembro de 1867, após uma experiência  que a Ceara Gaz realizou no dia 7, com atendimento parcial de ruas, do Clube Cearense e outros prédios, todos no centro da cidade. Diante dos resultados positivos do contrato original com a Ceará Gaz, outros benefícios e privilégios foram concedidos pelo governo. Decretos provinciais de 1868 e 1869 concederam isenção de impostos sobre a importação de material de uso na empresa. 


 o gasômetro funcionava ao lado da Santa Casa de Misericórdia 

Fortaleza convivia com um novo serviço urbano que lhe conferia prestígio e modernidade. A aceitação popular e à seriedade com que a empresa inglesa operava o serviço, soma-se a atitude prudente do governo provincial, que transformou em lei o regulamento para fiscalização da iluminação a gás de Fortaleza (Lei n° 1578, de 18 de setembro de 1873).
O crescimento da rede de iluminação pública se processa de acordo com a expansão urbana. Em 1879, por contrato específico de 25 de novembro, é autorizada a instalação de 50 combustores no Passeio Público. No dia 27 de maio de 1888, há um acréscimo de 120 combustores. Dos novos bicos de gás, 80 são localizados no Boulevard Visconde de Cauípe (atual Avenida da Universidade), 22 na Praça de Pelotas (atual Clóvis Beviláqua), 9 na General Sampaio e 9 na Rua Major Facundo. 

 Avenida Visconde de Cauípe (atual Av. da Universidade) e a iluminação a gás


Devido aos bons resultados obtidos e o pelo reconhecimento da população aos serviços prestados, o governo continuava favorecendo o grupo inglês, tanto na isenção de impostos como na prorrogação de privilégios de exploração da iluminação pública. A Lei 1052, de 1911, prorroga o prazo de concessão até 16 de janeiro de 1958, mas estabelece uma condição que será fatal: a Ceara Gaz Company deverá substituir a iluminação a gás pela luz incandescente, a elétrica, na iluminação da capital. Nada ocorreu, entretanto, nesse sentido.

 A Praça Clóvis Beviláqua era um logradouro muito amplo e bem iluminado 

Outro fator de ameaça a Ceara Gaz surge em 1913, quando também em Londres é constituída uma nova empresa a Ceará Tramway Light and Power Company, que no ano seguinte, já instalada em Fortaleza, passa a explorar o transporte de bondes elétricos, a oferecer energia para empresas e residências e a intermediar operações comerciais de compra de motores e implementos elétricos na Inglaterra. A par disto, com a ocorrência da I Guerra Mundial, os custos operacionais cresciam e o fornecimento de gás perdia a vantagem econômica. 

 Primeiro gerador instalado pela Ceará Light em Fortaleza - foto do livro de Ary Bezerra Leite - História da Energia no Ceará 

Novas estratégias deviam ser buscadas pelos dirigentes da Ceara Gaz. Precisavam assegurar a manutenção do privilégio da iluminação pública e defender seu mercado de fornecimento de gás para consumidores comerciais e residenciais. No primeiro caso, consegue relativo sucesso, pois sobrevive por mais 20 anos, encerrando suas atividades de 68 anos a 25 de outubro de 1935. Quanto a clientela particular, é mantida pelo esforço de marketing, quando se tem registro da primeira batalha entre dois produtos concorrentes na história da publicidade no Ceará.


Extraído do livro História da Energia no Ceará
De Ary Bezerra Leite   
fotos do Arquivo Nirez
      

segunda-feira, 31 de março de 2014

Na Força das Águas

Nascido de olhos d’água, a menos de 5 quilômetros da praia e despejando-se no mar,  o riacho Pajeú dividia a vila em dois bairros. Na sua margem direita e em direção ao nascente, elevava-se o planalto do Outeiro da Prainha, com seus sítios carregados de coqueiros, de onde se descortinava, do alto e ladeira abaixo, a orla ensolarada da vila banhada pelas águas do  Atlântico. 

 Forte Schoonenborch, construído pelos holandeses e transformado em N. s. da Assunção pelos portugueses

Do outro lado do riacho ficava a Colina da Misericórdia, onde foi levantada a fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Ao seu redor, em terras ligeiramente acidentadas e protegidas pelos bastiões do forte, crescia o comércio, o centro administrativo e o primeiro bairro residencial de Fortaleza que, a partir de 1823 adquiria foros de cidade. 
Partiam da vila em diversas direções as Estradas do Cocó e de Jacarecanga, assim como os antigos caminhos que levavam aos aldeamentos indígenas: o de Soure (Caucaia), o de Paupina (Messejana) e aquele que se voltava para os sertões dirigindo-se para o Caminho de Arronches (Parangaba).
Logradouros e casarões contam a história de Fortaleza, desvelando famílias que por ali viveram e marcaram a crônica da cidade em diferentes épocas, pelo seu destaque na vida econômica, política e social. Dirigindo-se ao caminho de Arronches, através de crônicas antigas, velhos casarões evocam um caleidoscópio de imagens de pessoas e fatos que promoveram a construção da cidade. Dominando logradouros com suas imponentes fachadas, essas antigas moradas – registro de uma época – alinharam e deram nomes ás ruas. Em seus festivos salões, iniciou-se o cultivo da sociabilidade requintada, antecedendo a formação dos grandes clubes e a história elegante de Fortaleza. 


Praça Clóvis Beviláqua - anos 20/30 

A colina da Praça de Pelotas, hoje Clóvis Beviláqua marcava o início do Benfica. As águas deste elevado desciam e, juntando-se às mais volumosas que vinham da Lagoinha, formavam na atual Praça do Coração de Jesus, a Lagoa do Garrote.
Pelas encostas do Outeiro, ocupadas depois de um grande espaço de tempo, pelo bairro da Aldeota, baixavam córregos que se juntavam ao Pajeú. Acrescido dessas águas, corria o riacho livremente, deslizando por seu vale tortuoso com seu movimento regulado pelas forças vivas das lagoas do Garrote e da Lagoinha. 



O bairro do Garrote nasceu de aterros e construções na Lagoa do Garrote. Em homenagem à abolição da escravatura, as últimas águas dessa lagoa foram represadas, criando ali o Parque da Liberdade. Construído pelo engenheiro Romualdo de Carvalho Barros e auxiliado por Isaac Correia do Amaral, o parque mudou de nome no tempo do centenário da Independência, passando a se chamar de Parque da Independência, para mais tarde ser reconhecido pelo seu primeiro nome. Popularmente, no entanto, é chamado de Cidade da Criança, desde que ali se instalou em 1937, uma escola dirigida pela professora Alba Frota. O Largo do Garrote, agora Praça dos Voluntários, comunicava-se livremente com o Parque da Liberdade até 1939, quando se formaram dois logradouros distintos, depois da construção nesta passagem, da sede própria do Clube Iracema.  

casa onde residiu Maximiano Leite Barbosa, na Rua Solom Pinheiro ao lado do Parque da Liberdade. Ali funcionou a Biblioteca Pública do Estado, hoje é a sede da Associação Beneficente Cearense de Reabilitação - ABCR
 
Maximiano Leite Barbosa, pai do fundador do ideal Clube, residiu em um palacete que ladeava o Parque da Liberdade. Herdado por sua filha Maria Luiza, o imóvel já abrigou a Biblioteca Pública do Estado, e é ocupado atualmente pela Associação Beneficente Cearense de Reabilitação.  Outros membros da família ocupavam os casarões vizinhos, e alinhado a estes, está a casa onde nasceu o ex-presidente Humberto de Alencar Castelo Branco. 
 casa na Rua Solon Pinheiro em frente ao Parque da Liberdade onde nasceu o ex-presidente Humberto de Alencar Castelo Branco

No largo do garrote, circundado por  três alinhamentos de casas sombreadas por frondosas castanholeiras e mangueiras, encontrava-se uma das principais residências dos meados do século, o palacete de Vitoriano Augusto Borges. Em 1873 esta residência foi adquirida pelo Tesouro provincial para instalação do antigo Liceu do Ceará. Um pouco mais adiante, seguindo o movimento das águas, margeando o Pajeú na esquina do Beco do Pocinho, situava-se a chácara do português Manuel Caetano de Gouveia, que exerceu enorme influência econômica e social em Fortaleza. Nesta chácara localizava-se o famoso Cajueiro do Fagundes, que em tempos coloniais serviu de ponto de venda  do açougueiro Fagundes.  O Comendador Manuel Caetano de Gouveia deu origem á família Gouveia em Fortaleza.

 Igreja da Sé 1914

Descendo o riacho Pajeú, deparava-se com a cidade velha, sua Matriz no meio da Praça do Conselho, onde hoje se encontra a  Catedral Metropolitana, e em frente dessa, o pelourinho. Por ali passava a Rua da Matriz, que se seguia com o nome de Rua dos Mercadores, concentrando o comércio. Atualmente estas duas vias são as Ruas Conde D’Eu e Sena Madureira. 

Praça da Sé, 1915

Defronte a matriz havia um alinhamento de casas, antigas moradas dos capitães-mores. Com sua demolição surgiu o Largo da Matriz, hoje Praça da Sé, onde se ergue a estátua de bronze de Dom Pedro II, inaugurada em 1913. O traje envergado pela estátua, esculpida em Paris, pelo francês Mailard, utilizou como modelo a farda de gala do Almirante Alexandrino de Alencar, figura de relevo da Marinha Nacional, sobrinho-neto de Bárbara de Alencar.
Por trás desse monumento Pedro Augusto Borges ergueu sua residência, onde posteriormente seria instalada a Pensão Bitú. Nesta pensão se hospedariam os membros da Comissão da American Carnegie Institution, que vieram ao Ceará observar, na cidade de Sobral o eclipse solar de 29 de maio de 1919, de importância para o estudo da Teoria da Relatividade de Einstein


extraído do livro
 Ideal Clube, História de uma Sociedade, de Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos antigas do Arquivo Nirez

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Praça Clóvis Beviláqua



A praça tem uma caixa d'água subterrânea que impede o plantio de árvores ou mesmo de gramado ou jardins em boa parte de sua área. No centro, está a estátua de Clóvis Beviláqua. (foto de Fátima Garcia)

Inicialmente a praça foi denominada de Visconde de Pelotas, por volta de 1870, em homenagem ao herói da Guerra da do Paraguai, Marechal José Antônio Correia da Câmara. Em 1926 teve o nome mudado para Praça do Encanamento, em razão da instalação do 1° sistema de abastecimento de água. Em 1937 passou a ser chamada de Praça da Bandeira. Por fim passou a ser Clóvis Beviláqua, em 10 de julho de 1959, na gestão do prefeito Cordeiro Neto (1959-1963). 
 Praça Clóvis Beviláqua em 1936, dividida por uma avenida 

No início do século XX era um local bastante arborizado e possuía quiosques de madeira onde funcionavam os cafés. A devastação teve início em 1912 com a instalação das caixas d’água e se completou com a instalação de um reservatório subterrâneo no início dos anos 70. Outro equipamento que ocupa parte da praça é a Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, instalada em 1938. 

 A praça quando era a Praça do Encanamento

Durante algum tempo uma avenida cortou a praça diagonalmente de Nordeste a Sudoeste da Rua Clarindo de Queiroz à Rua Meton de Alencar, via de escoamento do tráfego para a zona Oeste e para o interior do Estado.
Em 27 de setembro de 1936 foi inaugurado na praça o busto de Juvenal Galeno; possuía ainda um coreto no local onde hoje está o obelisco, uma fonte com estatueta. A praça deu origem ao Riacho do Garrote que seguia pela Avenida Duque de Caxias e alimentava a Lagoa do Garrote.  Em 1969 a praça passou por uma reforma, ocasião em que o busto de Juvenal Galeno foi retirado, ficou recolhido ao depósito da prefeitura e em setembro de 1984 foi entregue pelo prefeito à Casa de Juvenal Galeno, onde ainda se encontra. 

  O busto de Juvenal galeno ficou na praça entre 1936 e 1969, quando foi retirado

A praça foi reinaugurada em 5 de junho de 1989, com os seguintes equipamentos: quadra polivalente, bancos com estrutura de ferro fundido com assento de madeira, gramado, iluminação com lâmpadas de mercúrio e sódio a vapor, play-graund com balanços, escorregador e escadinha.
Esta praça, quando tinha o nome de Visconde de Pelotas, ia da Rua General Sampaio até a Senador Pompeu em sua largura e no comprimento ia da Rua Clarindo de Queiroz até a Rua Antônio Pompeu, atravessando a Rua Meton de Alencar. Primeiramente foram construídas as caixas d'água que ocuparam um espaço considerável do lado da Rua Antônio Pompeu.

 O prédio da Faculdade de Direito foi inaugurado na área da praça, na administração de Francisco Menezes Pimentel (1935-1945), interventor, professor de direito e ex-diretor da Faculdade

Depois veio a Faculdade de Direito que ocupou o restante da parte que ia até a Rua Meton de Alencar. Aos poucos a Faculdade foi tomando as laterais e o espaço entre ela e as caixas d'água. Depois a praça foi destruída, na administração José Walter Cavalcante (1967-1971), sendo nela feita uma caixa d'água subterrânea que a deixou sem arborização e sem função por mais de uma década.


O Obelisco da Vitória foi inaugurado em 19 de novembro de 1943 pelos alunos da Faculdade de Direito, em homenagem às Forças Aliadas em combate na 2a. Guerra Mundial. Foi recuperado e reinaugurado juntamente com a Praça, em 5 de junho de 1989.

fotos do Arquivo Nirez
fonte: Caminhando por Fortaleza
de Francisco Benedito