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terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

A iluminação e a escuridão das ruas

 

Numa cidade que contava com a intensa iluminação e constante presença do sol, quando este desaparecia, a população sofria com a escassez de iluminação, e a escuridão imperava nas ruas de Fortaleza. Seguindo uma tradição que então impregnava o imaginário da Europa moderna, a noite era considerada "amiga da maldade, companheira de Satã e de seus malefícios".



Praça do Ferreira, fins do século XIX. Ao fundo, o Café Java. (Foto Arquivo Nirez)

Aliados a esta tradição havia o temor que faziam da iluminação um tema tratado não apenas como modernidade para a cidade e sim como matéria de segurança. Mas a preocupação com a segurança noturna da cidade veio de maneira tardia. Somente no ano de 1838 é que foram instalados cinquenta lampiões para a iluminação pública. O encarregado da aquisição foi o comerciante Martinho Borges, que enviaria os lampiões diretamente do Rio de Janeiro, do mesmo feitio e construção que os usados naquela cidade.

O montante de recursos destinados à iluminação da cidade, 2:000$000, foi supostamente quase todo gasto na aquisição dos lampiões e suas ferragens. Com o desejo de completar a iluminação, Manoel de Sousa Mello solicitava a liberação de verba para compra de azeite – combustível fundamental para efetivação das luminárias.

A opção pelo azeite de peixe como combustível, acompanhava, àquela época, uma tendência nacional. Cidade como o Rio de janeiro já industrializava a extração do óleo de baleia, comercializado para uso nos lampiões de óleo. Na costa do Ceará, teria ocorrido a dizimação das baleias e do peixe-boi a partir do século XVIII, abatidos para o consumo da carne e usados na produção de óleo, consequência da atividade predatória dos corsários e dos Tremembés, índios célebres pela ferocidade e que eram hábeis pescadores, o que se leva a deduzir que o azeite usado na iluminação de Fortaleza era importado de outros Estados. O óleo de baleia, aqui chamado de azeite de peixe,  gerava uma luz estável e brilhante, embora produzisse muita fumaça. O Azeite de peixe foi utilizado também como argamassa na construção civil. 



O prédio da antiga alfândega de Fortaleza,  teve projeto de José Gonçalves da Justa, execução e obras de Tubias Laureano Figueira de Melo e Ricardo Lange, que utilizaram pedras e argamassa feita de óleo de peixe e areia. (Foto Arquivo Nirez)

Em 1839, a iluminação ainda era uma expectativa: os lampiões adquiridos no Rio de Janeiro chegaram e foram fixados nas ruas, porém não funcionavam. O motivo era a falta de quem se encarregasse da iluminação, pois a quantia destinada ao prestador do serviço era ínfima e não atraía nenhum interessado. A sugestão do presidente da província João Antônio de Miranda, era mandar iluminar sem arrematação, pois esse empreendimento não atrairia nenhum investimento, por não permitir maior especulação.

Em 1841, ou seja, três anos depois da aquisição dos lampiões a situação da iluminação da cidade continuava delicada. O orçamento da província havia destinado 4:000$000 para o fornecimento de  azeite de peixe – o dobro do utilizado para aquisição dos candeeiros. Como não pareceram licitantes, o fornecimento poderia ser por empreitada. O único que se apresentou foi José Teixeira Pinto, que ofereceu 1700$000 por semestre. O governo indeferiu a proposta, por achar que o candidato não tinha condições de cumprir o acerto.



representação da troca de óleo dos lampiões. (Tela de Debret) 

No mesmo ano, diante das restrições orçamentárias, o governo decidiu eliminar as verbas que seriam destinadas à iluminação. Mais tarde, o assunto voltava a ser matéria de discussão na Assembleia, mas não para sugerir novos investimentos ou a necessidade de expansão do serviço, mas para examinar proposta do presidente da província, de suspensão das despesas com os lampiões, considerando a situação delicada do erário público. De acordo com aquele administrador, fazia-se necessário economizar os gastos com a iluminação não só, porque não era considerada prioridade, como era muito onerosa aos cofres provinciais.

Assim, mesmo depois da década de 1840, Fortaleza não conhecia um sistema competente e continuado de iluminação pública baseado em lampiões de azeite. As noites eram longas e assustadoras, o que imprimia uma rotina de recolhimento cedo, na qual os moradores precisavam se recolher às suas casas e improvisar a iluminação de suas moradas, na maioria das vezes, feitas por lamparinas e velas de cera de carnaúba.



primeira concessionária para exploração da iluminação pública da cidade, a companhia inglesa Ceará Gas Company (foto do livro A História da Energia no Ceará)  

A tão esperada iluminação das ruas só veio a se concretizar alguns anos depois e foi iniciada em 01 de março de 1848. O trabalho foi contratado com Vitorino Augusto Borges, que se obrigava, entre outras coisas, a instalar 44 lampiões, que deveriam ser mantidos sempre limpos e brilhantes, e a conservá-los acesos entre as 6 horas da tarde até o raiar do dia seguinte, ou até que saísse a lua.

O privilégio da concessão foi transferido, com autorização do governo para a companhia inglesa Ceara Gaz Company Limited. No mesmo ano de 1848, foram colocados nas ruas de Fortaleza 25 lampiões pendentes com iluminação de azeite de peixe. Desse período de experiências inovadoras na cidade, fica também a lembrança de um homem simples, o primeiro acendedor de lampiões a percorrer as ruas da cidade, na tarefa diária de acender e apagar os pontos de iluminação, conhecido na memória da cidade pela alcunha de Chico Lampião.

 



Nas noites de lua os lampiões não eram acesos, o que levou alguns cronistas da época a denominarem o acordo de "contrato com a lua". Mas a prática não era só dos cearenses. Em alguns dos outros Estados, havia cláusula contratual prevendo o não acendimento dos lampiões em noites de luar. 

Fontes:

Entre o Futuro e o Passado – aspectos urbanos de Fortaleza (1799-180), de Antônio Otaviano Vieira Jr. 

História da Energia no Ceará, de Ary Bezerra Leite

Fortaleza Velha, de João Nogueira

 

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Os anos de guerra e o Blackout em Fortaleza

O Ceará ingressou nos anos 40 sob o impacto da Segunda Guerra Mundial. Um intenso noticiário sobre os afundamentos de navios brasileiros por submarinos inimigos, Buarque, Olinda, Cairu, Cabedelo, Parnaíba, e outros, geravam manchetes nos jornais com narrativas dramáticas sobre os afundamentos. 

Depois começaram a chegar a Fortaleza as vítimas: os náufragos americanos sobreviventes, recolhidos nas praias de Camocim após o torpedeamento do Eugen, perto do farol de Jeriquaquara;  em seguida, os náufragos portugueses do Balkis, afundado a 63 milhas de Fortaleza, acolhidos no Astoria Hotel, no centro da Cidade. Há uma comoção generalizada, acompanhando a indignação nacional, que se transforma em festiva explosão, a 22 de agosto de 1942, quando o Brasil declara guerra ao Eixo

desembarque dos pracinha brasileiros na Itália
A história da capital ficou marcada por todos esses eventos: as manifestações antifascistas, organizadas pela Comissão de Defesa Nacional; a mobilização de reservistas para o serviço ativo do Exército; a presença das Pirâmides para a Vitória, construídas pela população com materiais inservíveis que seriam aproveitados na produção de guerra; a intensa movimentação aérea das bases aliadas do Pici e do Cocorote; a partida dos pracinhas para a Itália; os militares americanos inseridos no cotidiano da cidade; as hostilidades contra súditos do Eixo; o racionamento de combustíveis, os transportes a gasogênio, e os dirigíveis blimps nos céus da cidade. 

Em 1942 têm inícios os exercícios de defesa passiva antiaérea, após ampla divulgação de instruções para a população e determinações rígidas para os serviços públicos. O sinal de alarme era dado por meio de sirenes e sinos, com toques breves, repetidos a curto intervalo. A orientação para os pedestres, em circulação pela cidade, era procurar abrigo imediatamente, nos edifícios mais próximos;  nas ruas descobertas deitar-se de bruços. As instruções, bastante detalhadas, determinavam a paralisação de todos os veículos em caso de ataque, e estabelecia procedimentos para condutores e passageiros dos tramways.

Nessa época foi decretado rigoroso blackout na região costeira de todo o Estado, segundo determinações das autoridades, no sentido de que fossem eliminadas todas as luzes que pudessem ser observadas. A execução plena dessa medida ocorreu na noite do dia 15 de dezembro de 1942: às 19:30 horas foi apagada a iluminação interna dos prédios, e o escurecimento total da cidade, meia hora mais tarde. No primeiro dia do corte de energia foi feito por desligamento da força na própria usina; posteriormente foi transferida para a população a responsabilidade pelo blackout da cidade. 


flagrante de uma passeata ocorrida no dia 18.08.1942. Um popular carrega um retrato de Getúlio Vargas pedindo ao presidente que saia de cima do muro.

O Jornal “Gazeta de Noticias” publicou uma nota da Secretaria do Serviço de Defesa Passiva Antiaérea de Fortaleza, onde se estipulava que, em função do Estado de Guerra, o movimento nas ruas deveria ser encerrado às 22 horas; a iluminação pública não seria permitida a partir desse horário, principalmente na praia e no centro da cidade. Dentre estas normas do blackout, por tempo indeterminado, as que se referiam às residências, recomendavam:  “todas as vidraças, venezianas, etc, externas, deverão ser cobertas com papel ou fazenda preta, ou reforçadas com madeira, de modo que não haja filtração da luz”.

Na noite de Natal desse ano, a “Missa do Galo” deixou de acontecer à meia-noite, em função das regras rígidas de iluminação noturna. Em 21 de dezembro de 1942, o “Correio do Ceará” anunciou:  “em consequência do blackout adotado na cidade, Fortaleza quebrará este ano, uma tradição, não realizando suas missas das 24 horas, no Natal, tão a gosto do povo católico e sempre concorridíssima. A providência, porém, não prejudicará o povo católico que no dia 25 poderá acorrer em massa para as igrejas, comemorando liturgicamente a data do nascimento de Cristo.” 

A obrigatoriedade de cumprimento das leis do blackout permaneceu em vigência até 1° de dezembro de 1943.

Ainda em 1942, as dificuldades se ampliam com novos problemas. O jornal “O Povo” descreve os problemas da cidade e a grave crise por que passa a Ceará Light, concessionária da energia e dos transportes públicos, impossibilitada de importar novos equipamentos e materiais imprescindíveis à manutenção preventiva: “Fortaleza está vivendo dias de falta. É a cidade  dos sem. Sem água, sem carne, sem leite, sem luz”. 

Com o inverso escasso de 1941 e a demora das chuvas de 1942, as cacimbas secaram. A água do Acarape, principal fonte de abastecimento de Fortaleza, não chegava a abastecer 6.000 prédios. A usina da Light consumia   em suas caldeiras as águas do Pajeú, os poços tubulares da usina não produziam nem 10% da água que as máquinas necessitavam e consumia 20% de sua força no tratamento da água para aproveitá-la novamente. Quando o Pajeú secou, a Light passou a utilizar a água do mar que, apesar de tratada, tinha efeito corrosivo sobre os metais.


Fontes:

A História da Energia no Ceará, de Ary Bezerra Leite
Ideal Clube – história de uma sociedade, de Vanius Meton Gadelha Vieira 
fotos do arquivo Nirez, Ah, Fortaleza e do livro de Ary Bezerra Leite 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A Ferro Carril e os Bondes de Burro

Rua Floriano Peixoto, em 1909, com o prédio da Intendência Municipal e os trilhos do bonde.
 
A partir de 1870, diversas tentativas de dotar Fortaleza de um serviço de transporte coletivo resultaram infrutíferas. O governo concede privilégios a grupos de investidores, mas as ações fracassam, frustrando a população estimada em 20.000 habitantes.
A Empresa Ferro Carril do Ceará foi fundada no dia 3 de fevereiro de 1877, pelo comendador Francisco Coelho da Fonseca e Alfredo Henrique Garcia. Entre a instalação da empresa e o início das operações, três anos se passaram, isto porque somente em 1879 são concretizadas as obras civis de construção da estação e sede da companhia, e a partir de novembro, foi cumprida a etapa de assentamento dos trilhos.

Na manhã de domingo do dia 25 de abril de 1880, a Ferro-Carril do Ceará inaugura sua primeira linha, com 4.210 metros, da Estação na Estrada de Messejana (Boulevard Visconde do Rio Branco) até a rua São Bernardo (atual Rua Pedro Pereira) e a partir desta, interligando a Praça da Assembleia ao Matadouro Modelo, bairro do Prado.

A programação festiva, com banda de música e presença de autoridades, tem início às 7 horas, em frente ao Mercado Público, com quatro bondes embandeirados que fazem o longo percurso até o Matadouro, com retorno à denominada Estação de Depósito. 
Os veículos tinham 4 ou 5 bancos, eram pequenos, modestos, providos de cortinas que protegiam do sol e da chuva, e dirigidos por um boleeiro quase sempre vestido de fraque. Mesmo assim serviram a muitos usuários que pagavam passagens de 100 réis, que mereceram bondes melhores, ampliados em sua capacidade até para sete bancos, comportando 28 passageiros.

Em 1888 mais 1.518 metros de linhas são incorporados ao serviço local de transporte coletivo, com os bondes trafegando entre a Praça de Pelotas (atual Clóvis Beviláqua) e o Benfica.

Enquanto isso, na política de expansão dos transportes de tração animal, o governo formalizaria ainda duas novas concessões para empresas que efetivamente se instalaram em Fortaleza. A Companhia Ferro-Carril de Porangaba, fundada a 10 de outubro de 1894, de propriedade de Gondim e Filhos, dirigida pelo Coronel Arlindo Gondim, estabeleceu sua estação e sede em Porangaba, explorando uma linha que passava pelo bairro Damas e finalizava no Benfica.

No dia 12 de outubro de 1896, era inaugurada a Ferro-Carril do Outeiro, de propriedade de membros da família Accioly, que atendia o bairro do Outeiro (atual Aldeota). A empresa tinha realizado durante cinco meses o assentamento dos trilhos e construído instalações de apoio, como sua estação, localizada na Rua Guajiru (atual Gonçalves Ledo). A linha percorria um pequeno trecho entre a Praça do Ferreira até as proximidades do atual Colégio Militar de Fortaleza.


 No início do novo século o governo do Ceará facilita a transferência da concessão original da Ferro-Carril do Ceará que é vendida para a firma J. Pontes e Cia, que em seguida é vendida para o capitalista Tomé Augusto da Mota. Com o objetivo de atrair investidores externos para a modernização do serviço, o empresário inicia os contatos para consulta ao City Improvements Co. Ltd., de Londres. Três anos depois havia um acordo para implantação de bondes elétricos (tramways), com participação de firmas inglesas, o que determina uma alteração contratual, ampliando a concessão para mais 35 anos. 

A lei fixa o objetivo de haver a substituição dos bondes de tração animal por tração elétrica e estabelece prazo máximo de um ano para o início das obras, e de até três anos para o término de implantação do novo sistema de transporte coletivo. Em janeiro de 1911, a viabilidade de instalação de bondes de tração elétrica é estudada pelo engenheiro Ker Box, em visita a Fortaleza, tendo parecer favorável.

Na renegociação do contrato com a empresa Ferro-Carril, assinado em 12 de maio de 1911, ficou estabelecido que, além da instalação de tramways elétricos, ficava assegurado o direito de fornecer, dentro dos limites do município, luz e energia elétrica, a residências e edifícios comerciais, respeitando as condições do contrato anteriormente assinado com a Ceará Gaz Company relativo ao serviço de iluminação pública.


Posto central da Ferro-Carril na Praça do Ferreira, logo após sua transferência para a Ceará Tramway, ostentando placa com o nome das duas empresas. (1912)  
 
A última formalidade para determinar o fim de existência da Empresa Ferro-Carril do Ceará foi a transferência em cartório para a empresa estabelecida em Londres, The Ceará Tramway Light and Power Company Ltd. O ato formal de extinção da empresa cearense  bem como da Ferro-Carril do Outeiro, correu no dia 24 de janeiro de 1912, em solenidade pública, quando foi assinada pelo Coronel Tomé A. da Mota a escritura de venda, no valor de 178 mil libras esterlinas.

Anunciava-se em definitivo o ingresso da energia elétrica na vida da cidade, trazendo uma revolução para os serviços de bonde a partir do ano seguinte. Mesmo assim, por mais uma década, sobreviveria a Companhia Ferro-Carril de Porangaba que, impotente para modernizar-se, continuaria trafegando seus bondes de burros em sua área de concessão.



Extraído do livro de Ary Bezerra Leite 
História da Energia no Ceará 
fotos do arquivo Nirez e do livro História da Energia no Ceará

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Energia Elétrica na Iluminação Pública de Fortaleza


 Apesar de perder consumidores residenciais, numa difícil disputa de mercado, a Ceará Gaz Company prosseguia com a iluminação pública, mantendo em ruas e praças, 2554 lampiões a gás no início dos anos 30. 

Até a primeira metade da década de 30, a capital cearense permaneceu com suas ruas e praças iluminadas por nostálgicos lampiões a gás. Tudo por força da lei de 1911 que prorrogou a concessão firmada em 1865, concedendo a Ceará Gaz Brasil esse privilégio até 1958. As diretrizes do governo revolucionário que se implanta no Brasil em 1930 levam à revisão de todos os contratos para prestação de serviços públicos em vigor, e nesse caso, finalizaria os direitos da empresa de gás, antecipadamente, para 30 de junho de 1934. Foi uma reviravolta surpreendente. A prefeitura de Fortaleza, por ordem do prefeito interino, bacharel Ubirajara Coelho de Negreiros, estabelece pelo Edital n° 24, de 5 de julho de 1934, condições para que as firmas apresentassem propostas de fornecimento de energia elétrica, pelo período de um ano, para iluminação de ruas e logradouros públicos. 


Antecederam a essa medida, vários estudos alternativos. Foi recusada a proposta da Ceará Gaz de reduzir o custo mensal do contrato, na moeda da época, de 65 para 55 contos de réis. Também já não mais se cogitava, por desistência do proponente, a contratação do suprimento dos 125 kw requeridos pela iluminação pública pelo valor de 50 contos. Descarta também o governo local a ideia de resolver o problema assumindo ele próprio um serviço municipal de iluminação pública, desestimulado pelo alto custo do investimento inicial. Restou a opção de contrato provisório de iluminação, animado pela oferta da Ceará Light de cobrar o quilowatt a 757 réis, enquanto o consumidor particular pagava 1$200 réis pelo mesmo. 

usina no Passeio Público
 O contrato provisório favorecia a única empresa capacitada para a prestação desse serviço, a Ceará Tramway Light and Power, que desde 1913, por concessão em vigor até 1987, explorava os serviços de tramways e fornecia energia elétrica aos consumidores particulares na área de Fortaleza, atendendo ainda o setor industrial. Com estrutura administrativa  e potencial de geração necessários para ampliar seu atendimento, a Light esperava apenas que se lhe abrisse o novo mercado de consumo. As obras de instalação da The Ceará Tramway Light and Power, foram iniciadas em 1912, ocupando o terreno no nível do terceiro plano do Passeio Público para montar suas usinas. 
 

construção da usina da Ceará Tramway Light and Power, no Passeio Público em 1912

Com a obtenção dos serviços de iluminação pública, a Light voltou a investir no seu parque de geração, adquirindo várias máquinas e equipamentos. As mudanças ocorridas na iluminação pública, na passagem do lampião a gás para a iluminação incandescente, foram para a cidade um salto qualitativo no seu progresso urbano. Toda a área central e grande parte dos bairros alcançados pelo melhoramento determinaram o aumento do consumo residencial de energia elétrica, entre 1944 e 1946, fato que não é acompanhado nos dois anos seguintes, notadamente em 1947, quando há crise de fornecimento de energia em razão dos constantes defeitos nas turbinas.
O custo do combustível usado nas caldeiras, a lenha, foi um fator crucial para a Ceará Light. Na sua fase final, o consumo diário representava 25 vagões ferroviários de lenha, transportada do interior pela Rede Viação cearense. Custos ascendentes foram enfrentados com os fornecedores, dos quais o maior deles foi o lusitano José Maria Cardoso, que ficaria conhecido pela construção de sua residência no bairro Damas, popularizada como Casa do Português, objeto  de noticiário até na BBC de Londres, por seus excessos arquitetônicos.

 José Maria Cardoso, proprietário da "Casa do Português" era um dos fornecedores de lenha para a usina da Ceará Tramway Light and Power 

O reflexo nocivo no meio ambiente, pelo desmatamento, não era ainda preocupação, visto que não eram discutidas as questões ecológicas. Mesmo assim, no citado relatório do interventor da Light, o problema é levantado: o efeito calamitoso do emprego desse combustível na devastação de nossas florestas é por demais evidente, não necessitando de demonstração.
Havia ainda as dificuldades decorrentes da II Guerra Mundial, que reduziu as possibilidades de ligação marítima com a Europa.  os graves problemas tornaram-se insustentáveis. É esse quadro que a interventoria reconhece e atribui toda a culpa pelas dificuldades à própria Light, que mesmo contando com justos lucros, preferia enviá-los à sede em Londres, ao invés de aplica-los na concessionária cearense. Numa síntese realista, o interventor descreve a situação, para que ficasse claro que o desmoronamento do empreendimento decorreu pela natureza própria da companhia termoelétrica e pelas condições do meio (combustível difícil e caro; salários elevados; obrigações sociais onerosas e pobreza do meio).

 Ante esse quadro de crise extrema, restou então à direção da Ceará Tramway Light and Power, solicitar a intervenção do governo federal como recurso para continuar operando. Efetivada a intervenção em 1° de junho de 1946, segue-se a ela, 14 meses depois, a autorização para encampação pelo governo municipal em ato assinado pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, em 1948. É o fim da presença britânica nos serviços públicos na capital cearense.

Extraído do livro História da Energia no Ceará
De Ary Bezerra Leite 
fotos do livro acima citado e do Arquivo Nirez
   

domingo, 13 de julho de 2014

No Tempo dos Lampiões de Gás

A primeira cidade a ter iluminação a gás carbônico foi Londres, em 1812,  utilizando o gás extraído da hulha ou carvão-de-pedra. O Rio de Janeiro inauguraria essa modalidade de iluminação em 1854, quarenta e dois anos  depois de Londres. 

 Rua Floriano Peixoto 

Visando dotar Fortaleza desse serviço, o Presidente da província João Silveira de Souza assinou a lei nº 838, de 2 de outubro de 1857, que não se materializou. Nova tentativa ocorre em 1859, quando o contrato para a prestação do serviço é formalizado pelo presidente Silveira de Souza, na Lei 918 de 13 de setembro de 1859, sendo beneficiário da concessão Joaquim da Cunha Freire; também nada de prático resultou dessa norma.
Em 1864, é renovado o privilégio de explorar a iluminação pública pelo período de 59 anos. Dificuldades naturais levaram o empresário cearense a associar-se a Thomas Rich Brandt, com o qual procedeu a negociações internacionais em busca de soluções. Dessa negociação resulta a constituição de um grupo de investidores que, em 1865, institue a firma The Ceara Gaz Company Limited, com sede em Londres.
As operações de transferência para o grupo britânico foram aprovadas pelo governo da província, que inclusive assegurou o terreno adjacente à Santa Casa de Misericórdia, onde foi instalada a usina de gás e a residência do gerente. 


ladeira da Misericórdia, vista no sentido praia/centro com a estrutura do gasômetro e no alto, ao fundo, a Santa casa de Misericórdia

A empresa instalou-se em Fortaleza ocupando o prédio situado à Rua Formosa n° 52, com escritórios e o terreno com frentes delimitadas pelas ruas Senador Pompeu, Formosa e Senador Jaguaribe, na então chamada rampa da Santa Casa, onde foi providenciada a construção do gasômetro e usina de processamento do gás e a edificação da residência do gerente local.
A festiva inauguração oficial da iluminação a gás em Fortaleza ocorreu a 17 de setembro de 1867, após uma experiência  que a Ceara Gaz realizou no dia 7, com atendimento parcial de ruas, do Clube Cearense e outros prédios, todos no centro da cidade. Diante dos resultados positivos do contrato original com a Ceará Gaz, outros benefícios e privilégios foram concedidos pelo governo. Decretos provinciais de 1868 e 1869 concederam isenção de impostos sobre a importação de material de uso na empresa. 


 o gasômetro funcionava ao lado da Santa Casa de Misericórdia 

Fortaleza convivia com um novo serviço urbano que lhe conferia prestígio e modernidade. A aceitação popular e à seriedade com que a empresa inglesa operava o serviço, soma-se a atitude prudente do governo provincial, que transformou em lei o regulamento para fiscalização da iluminação a gás de Fortaleza (Lei n° 1578, de 18 de setembro de 1873).
O crescimento da rede de iluminação pública se processa de acordo com a expansão urbana. Em 1879, por contrato específico de 25 de novembro, é autorizada a instalação de 50 combustores no Passeio Público. No dia 27 de maio de 1888, há um acréscimo de 120 combustores. Dos novos bicos de gás, 80 são localizados no Boulevard Visconde de Cauípe (atual Avenida da Universidade), 22 na Praça de Pelotas (atual Clóvis Beviláqua), 9 na General Sampaio e 9 na Rua Major Facundo. 

 Avenida Visconde de Cauípe (atual Av. da Universidade) e a iluminação a gás


Devido aos bons resultados obtidos e o pelo reconhecimento da população aos serviços prestados, o governo continuava favorecendo o grupo inglês, tanto na isenção de impostos como na prorrogação de privilégios de exploração da iluminação pública. A Lei 1052, de 1911, prorroga o prazo de concessão até 16 de janeiro de 1958, mas estabelece uma condição que será fatal: a Ceara Gaz Company deverá substituir a iluminação a gás pela luz incandescente, a elétrica, na iluminação da capital. Nada ocorreu, entretanto, nesse sentido.

 A Praça Clóvis Beviláqua era um logradouro muito amplo e bem iluminado 

Outro fator de ameaça a Ceara Gaz surge em 1913, quando também em Londres é constituída uma nova empresa a Ceará Tramway Light and Power Company, que no ano seguinte, já instalada em Fortaleza, passa a explorar o transporte de bondes elétricos, a oferecer energia para empresas e residências e a intermediar operações comerciais de compra de motores e implementos elétricos na Inglaterra. A par disto, com a ocorrência da I Guerra Mundial, os custos operacionais cresciam e o fornecimento de gás perdia a vantagem econômica. 

 Primeiro gerador instalado pela Ceará Light em Fortaleza - foto do livro de Ary Bezerra Leite - História da Energia no Ceará 

Novas estratégias deviam ser buscadas pelos dirigentes da Ceara Gaz. Precisavam assegurar a manutenção do privilégio da iluminação pública e defender seu mercado de fornecimento de gás para consumidores comerciais e residenciais. No primeiro caso, consegue relativo sucesso, pois sobrevive por mais 20 anos, encerrando suas atividades de 68 anos a 25 de outubro de 1935. Quanto a clientela particular, é mantida pelo esforço de marketing, quando se tem registro da primeira batalha entre dois produtos concorrentes na história da publicidade no Ceará.


Extraído do livro História da Energia no Ceará
De Ary Bezerra Leite   
fotos do Arquivo Nirez