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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Novos Bairros de Fortaleza

 

No meio das modificações que assinalam o cotidiano das grandes cidades, a tradição e a modernidade travam uma luta diária. Enquanto os mais jovens conhecem bairros com nomes como Antônio Bezerra, Aldeota, Montese e Dias Macedo, moradores mais antigos lembram do Outeiro, do Mata Galinha, do Alto do Bode e Floresta. Mesmo com os antigos nomes em desuso, a lembrança é significativa para identidade e pertencimento do local.

bairro Antônio Bezerra antigamente

Desse modo algumas denominações foram apagadas do mapa da cidade, como o bairro Antônio Diogo, localizado na região do Mucuripe, hoje Praia do Futuro II, Jardim Glória no Distrito de Messejana, Cachoeirinha, no distrito de Antônio Bezerra, hoje bairro Padre Andrade, e Marupiara, no distrito da Parangaba, hoje bairro Demócrito Rocha.

Ainda na dança dos nomes, o Porangabussu virou Rodolfo Teófilo, a Vila Monteiro e a Vila Zoraide foram anexadas ao Joaquim Távora, o Coqueirinho e o Campo do Pio foram incorporados ao bairro Parquelândia, o Pantanal virou Planalto Ayrton Sena.



Atualmente a cidade está dividida em 12 secretarias executivas regionais e 121 bairros; em função do crescimento e da expansão dos horizontes de Fortaleza, novos bairros foram criados e outros foram divididos, como o bairro Conjunto Ceará I e II e o Praia do Futuro I e II

Dentre as novas denominações de bairros, temos, por exemplo, o De Lourdes , também comumente chamado pela população de Dunas, pelo seu posicionamento junto às dunas da Praia do Futuro.  Até meados do ano 2000, a área era pouco povoada. A ocupação demográfica ocorreu a partir da inauguração do marco zero do bairro, a Cruz do Cruzeiro.

O parcelamento e a posterior urbanização de terrenos dos Sítios Cocó, Tunga, Alagadiço, Cambeba, Estância e Colosso, localizados na zona leste da cidade, deu origem a diversos bairros da capital, como o Parque Manibura, Cambeba, Jardim das Oliveiras, Cocó.


O bairro Aracapé foi oficialmente criado em 2019, situado na área da Regional 10. de Antes do Censo de 2010, o Aracapé fazia parte do Mondubim. A separação veio após a nova divisão de bairros e aumento das regionais da Capital. Com 2,18 quilômetros quadrados de área, o Aracapé é cercado pelos bairros Presidente Vargas, Parque Santa Rosa, Conjunto Esperança, Mondubim e Planalto Ayrton Senna.


Bairro do Mondubim 

Novo Mondubim também foi criado em 2019, desmembrado de parte de terrenos da Vila Manoel Sátiro e Mondubim. Está localizado na zona leste de Fortaleza, fazendo parte da Regional 10, junto com bairros como Maraponga, Jardim Cearense e Conjunto Esperança. Estas duas unidades definiram o número de 121 bairros para o município de Fortaleza

O bairro  Coaçu está localizado entre Fortaleza e Eusébio, com acesso à rodovia CE-010, o que facilita a integração com outros pontos da região. Um dos atrativos do bairro é o Centro das Tapioqueiras.

 

Fontes: Prefeitura de Fortaleza/Jornal Diário do Nordeste

fotos internet

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

A Origem da Água Potável em Fortaleza

Em 1904, 0 sanitarista Rodolfo Teófilo denunciava: a cidade era abastecida por fontes de procedência duvidosa, onde burricos e carregadores atentavam contra higiene pública.




É difícil encontrar-se uma cidade mais infestada de pedintes do que Fortaleza. A razão da estupenda mendicidade está nas secas. Cada flagelo que passa, deixa na Capital algumas centenas de inválidos, a aumentar a cifra já bastante crescida de inúteis. Recordo-me perfeitamente de Fortaleza antes de 1877. Havia pedintes a esmolar pelas ruas. Eram poucos, então.

Hoje, nos dias de sábado, vê-se uma procissão de esmoleres, rua abaixo e rua acima, e tão crescida que espanta. A falta de brio da arraia miúda em Fortaleza, chegou ao ponto de santificarem o sábado. Reservam este dia para as esmolas... As lavadeiras, por exemplo, não trabalham nos sábados, pedem esmolas. Posso afirmar isso de visu porquanto as lavadeiras são poços à flor da terra disseminados pelas areias de Fortaleza, e todas as vezes que por eles passei no mencionado dia, não vi uma lavadeira sequer.

É de buracos também nessa área suburbana que a população da Capital se abastece de água. Sabia que a água que se bebe em Fortaleza vinha das areias, mas nunca imaginei que fosse tirada de semelhantes fontes. Fiquei escandalizado quando vi um desses pequeninos pântanos, abertos naquela areia sáfara, exposta totalmente ao sol, cercado de aguadeiros e seus burricos.

E como é colhida a água? O animal, ordinariamente um jumento, é levado para a beira do poço, e enquanto ele se farta de água, se lhe enchem os canecos (barris de madeira). O focinho do animal lavado ali, causa menos nojo e é menos repugnante do que as cabeludas pernas dos aguadeiros que às vezes na fonte entram até meia canela. Porcos por índole e por educação, mui naturalmente pisam na água e nela lavam o rosto e depois levam-na a vender aos habitantes da capital, que imprevidentes como o aborígene, deixam de construir cisternas para recolher as águas das chuvas, esperando que o poder público melhore as aguadas.

Este, em sua habitual despreocupação, esquece por completo o lado utilitário dos negócios públicos e cuida de embelezar a cidade, ornando-a de avenidas e jardins. Quem nos visita sabe que temos bons logradouros, vê as nossas avenidas, mas não sabe de onde vem a água que bebemos. Quando será que os homens que nos governam tomarão mais a sério a saúde pública do que o embelezamento da cidade?

O abastecimento de água fora objeto de concessão dada pelo governo em 1862, por 50 anos, a José Paulino Hooholtz, a fim de fazer o encanamento de água potável do seu sítio no Benfica, para chafarizes espalhados pela cidade, tendo sido celebrado o contrato a 27 de maio de 1863. Além da exclusividade da venda de água, o contrato previa que a empresa deveria vender água em carroças por toda a cidade, pelo dobro do preço cobrado nos chafarizes.

O Chafariz da então Praça José de Alencar (atual Waldemar Falcão) foi instalado em 1836, no Largo do Palácio, pelo presidente da Província José Martiniano de Alencar

Em 1866 a concessão foi transferida para a empresa inglesa Ceará Water Works Co, que tentou organizar o serviço de abastecimento por meio de uma pequena rede distribuidora de água apanhada em cacimbas, de onde era captada por meio de bombas para dois reservatórios instalados no Benfica. Dali a água era canalizada para o centro da cidade, aproveitando-se o declive do terreno que facilitava o escoamento. Com a seca de 1877-79, as cacimbas e as demais fontes secaram e o abastecimento foi suspenso. 

Barragem do Açude Acarape 

Passado o período mais agudo da escassez de água com a volta das chuvas, e não contando a cidade com um concessionário oficial, a distribuição voltou aos padrões anteriores a 1862, onde a água potável era obtida em chafarizes, riachos ou aguadas. A localização desses mananciais não é precisa, alguns são localizados genericamente como “nas areias”. 

Sabe-se que não havia nenhum tipo de controle ou preocupação com a higiene. Água para tomar banho, lavar roupas, cozinhar, beber, e para outras atividades, provinha da mesma fonte, assim, não era de se estranhar a forte presença de lavadeiras e banhistas nos riachos, açudes e lagoas. Os documentos existentes descrevem essas aguadas como locais marcados pelas brigas e falta de asseio. Como figura central no abastecimento de água principalmente em residências, estava o aguadeiro, primeiro em burricos, mais tarde em carroças. E foi esse o cenário visitado e descrito por Rodolfo Teófilo. 

Os logradouros públicos dispunham de cacimbas e cataventos para manutenção dos jardins - Praça Marquês de Herval - atual Praça José de Alencar - 1912

Sorte de quem tinha uma cacimba no quintal. Mas construir um reservatório como este, custava caro, e poucos podiam pagar. Por conta do solo arenoso da cidade, era imprescindível o forro interno para evitar desmoronamento e assoreamento.

Somente em 1911, no governo Nogueira Accioly, o Dr. João Felipe elaborou um projeto que não foi concretizado de imediato em razão da deposição do governador. Mesmo assim haviam sido construídos dois reservatórios na então Praça Visconde de Pelotas, atual Praça Clóvis Beviláqua, com capacidade de 760.000 cada uma, além do estabelecimento de 42 km de canos pelas ruas. 

O prosseguimento dos trabalhos ocorreu em 1923, quando Ildefonso Albano contratou uma empresa americana, e o serviço foi inaugurado oficialmente no dia 3 de maio de 1926.
ao lado, a Praça Clóvis Beviláqua com os canos que seriam utilizados no sistema de abastecimento de água
Praça Clóvis Beviláqua já com os reservatórios em funcionamento - década de 1930

Até a data da inauguração do sistema de água do Açude Acarape, a distribuição de água ainda era feita em lombos de jumentos com depósitos de madeira. Algumas fontes dedicaram-se a esse comércio tornando-se conhecidas no mercado, por terem ampliado a oferta através de um grande número de vendedores avulsos que se lançaram no comércio ambulante.

O fornecimento voltou a ser alterado em 1975, com a inauguração em 30 de setembro, do primeiro reservatório do sistema Pacoti, o Açude Gavião.   


Fontes:
Fortaleza e a Crônica Histórica, de Raimundo Girão
História Urbana e Imobiliária de Fortaleza, de Lira Neto
O Abastecimento de Água em Fortaleza - CE (1813-1867), de Emy Falcão Maia Neto - Revista Espacialidades [online] 2014.v.7. n° 1
fotos do Arquivo Nirez



quarta-feira, 13 de maio de 2015

Intervenções médico-urbanas

As primeiras intervenções médico-urbanas em Fortaleza  acontecem a partir da segunda metade do século XIX. No momento em que Fortaleza inicia um movimento inédito de crescimento econômico e social, o saber médico local se estabelece com a volta dos médicos cearenses formados nas faculdades de medicina da Bahia e do Rio de Janeiro, existentes desde 1832.

foto: http://www.historiaecultura.pro.br

Consta que no século XIX, 80 médicos cearenses foram diplomados, sendo que 30 retornaram e se estabeleceram na Província. Boa parte desses profissionais é descrita como heróis pela história local, pelo pioneirismo e dedicação que demonstraram diante de tantas adversidades naturais, sociais, políticas e tecnológicas da época e da região.

As principais adversidades foram as grandes secas e as epidemias. As secas traziam à Capital, grandes levas de sertanejos famintos e doentes, deixando considerável número de órfãos e abandonados. As epidemias apareceram no rastro das piores estiagens.

retirantes da seca de 1877, vindos de várias localidades do Ceará, para Fortaleza

A seca de 1845 e as epidemias de febre amarela (1815) e do cólera-morbus (1862-64), foram as principais responsáveis pela construção da Santa Casa de Misericórdia e do Lazareto da Lagoa Funda. Apesar de estar parcialmente concluída em 1857, a Santa Casa de Misericórdia só foi inaugurada no ano de 1861, no mesmo local em que se encontra até hoje, em frente ao Passeio Público.

Por ser o único hospital público até o começo dos anos 30, a Santa Casa foi o principal espaço de tratamento da população pobre, desde que os doentes não estivessem acometidos por moléstias contagiosas. Para estes foi criado o Lazareto da Lagoa Funda, localizado à cerca de 7 km do centro. Edificado entre 1856 /57, o Lazareto foi o primeiro exemplo concreto da medicina urbana e preventiva em Fortaleza, já que sua finalidade era a de abrigar os prováveis atingidos pela epidemia de cólera, que já grassava em outras províncias. Enquanto o mal não chegou ao Ceará, o hospital serviu para quarentena dos que desembarcavam em Fortaleza, vindos de lugares já atingidos.

uma multidão de famintos aguarda na estação ferroviária de Iguatu, uma oportunidade de embarcar para a Capital

Como já era esperado, o cólera chegou à Província e ceifou a vida de 11 mil cearenses entre 1862 e 1864. Não há dados sobre como ficou a Capital durante a epidemia, apenas que o número de vítimas foi de 362, bem menor que o de Maranguape, cidade mais próxima com 1.960 óbitos. Ao contrário do que ocorreria nas províncias do Pará, da Bahia e Rio de Janeiro, não se verificou novo surto de cólera no Ceará, como foi o caso das epidemias de febre amarela e varíola, que retornaram com gravidade – a febre amarela em 1892 e permanecendo até 1924, quando começou a ser neutralizada pela ação da “Comissão Rockfeller contra a febre amarela”. Por sua vez, a varíola assolou a região por muito tempo. A varíola, moléstia que mais aterrorizou Fortaleza permaneceu até 1904, quando foi finalmente eliminada por ação da Inspetoria de Higiene e principalmente, pelo farmacêutico Rodolfo Teófilo.

Santa Casa de Misericórdia, o primeiro hospital de Fortaleza

No período de 1850-60, dois dos médicos formados na Bahia e no Rio de Janeiro se destacaram na construção de um investimento médico-higienista sobre a ascendente urbanização de Fortaleza: os doutores Lourenço de Castro  e Silva e Liberato de Castro Carreira. 

Nomeado "médico da pobreza", por portaria de 1845, Castro e Silva atuou na capital até meados de 1850. Enfrentou a epidemia de febre amarela e foi o primeiro a estabelecer os contornos de uma polícia médica para a cidade. Sanear o meio urbano, principalmente através de medidas profiláticas nas ruas, foi a preocupação central de Castro Carreira. Combatendo os pontos urbanos que estavam se transformando em focos infectantes, o médico sugeriu a transferência do matadouro público, uma vez que o mesmo comprometia o ar da cidade. Recomendou ainda, a proibição de salgamento de couros em vias centrais, a criação de porcos nos limites do perímetro urbano e a eliminação das águas estagnadas em quintais. Solicitou às autoridades que fosse providenciada a limpeza das vias públicas, chafarizes e poços além de inspeção constante a todo e qualquer quintal.

Rua São Paulo, prédio da Assembleia provincial em 1908

Essa medida de entrar no espaço doméstico da população e impor-lhe regras de higiene privada continuaria pelo restante do século passado e por todo o período da Primeira República. Os Códigos de Postura municipais daquela época demonstram a intenção de manter-se o controle urbano. As normas intensificam uma fiscalização pormenorizada de ruas, casas, edificações, produtos, gêneros alimentícios, etc. chegavam ao detalhe de proibir a tintura de doces e massas com óxidos, cobre e mercúrio por parte dos confeiteiros, obrigavam a limpeza do riacho que corria nos quintais dos moradores da rua do mercado, limpeza da frente das casas, dentre outras medidas.

Se tais prescrições foram de fato cumpridas, é difícil saber. Entretanto, importa saber que estas determinações municipais revelam a vigência de um saber que cada vez mais vigia a Cidade e o povo em seus mínimos detalhes. Ademais, tais imposições de normas e regras a serem adotadas sob pena de multa, também delineiam a constituição de um novo tipo de poder, aquele que, preocupado com a produção de vida, intervém em tudo que considera como ameaça à saúde da coletividade.


Extraído do livro de Sebastião Rogério Ponte
Fortaleza Belle Epoque – reformas urbanas e controle social – 1860-1930
fotos: arquivo Nirez, Álbum de Vistas do Ceará

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A Tragédia das Secas: o dia dos mil mortos


Atualmente Fortaleza possui aproximadamente 12 cemitérios, incluindo os localizados na Região Metropolitana. Mas o que aconteceria, em termos de atendimento e funcionamento de infraestrutura, se por um infortúnio, morressem, num único dia, mais de 1000 pessoas na cidade?
Acreditem Fortaleza já passou por uma situação como essa, numa época em que os serviços funerários não existiam e as vítimas de epidemia eram sepultadas num único cemitério. 

 Rua do Centro fins do século XIX/início do Século XX (Arquivo Nirez)
 
A grande seca de 1877-1879 não apenas secou os reservatórios de água, como trouxe graves efeitos sanitários para a cidade. Desde 1845 a província do Ceará não era assolada por este tipo de fenômeno climático. Nos três anos em que perdurou, a estiagem expulsou mais de 100 mil sertanejos para a Capital, então com cerca de 30 mil habitantes. A maior parte desses retirantes ficou em abarracamentos nos subúrbios. Sofrendo com o calor tórrido, expostos às intempéries e vivendo em condições sub-humanas, a multidão foi atingida por uma violenta epidemia de varíola, que ameaçou se alastrar pela cidade.

 Estação de Iguatu no ano de 1877, uma multidão de flagelados aguarda o trem para Fortaleza 

Segundo Rodolfo Teófilo, farmacêutico que testemunhou e registrou detalhadamente o cotidiano de horror causado pela varíola, em apenas 2 meses do ano de 1877, a epidemia vitimou 27.378 retirantes no interior e nos arrabaldes de Fortaleza; no ano seguinte, 24.849 foi o total de mortos. 

O trecho abaixo dá uma ideia da imagem fúnebre que se abateu sobre a capital:
"Tinha Fortaleza o aspecto de sombria desolação. A tristeza e o luto entravam em todos os lares. O comércio completamente paralisado dava às ruas mais públicas a feição de uma terra abandonada. Os transeuntes que se viam eram vestidos de preto ou eram mendigos saídos dos lazaretos com os sinais recentes da bexiga confluente que lhes esburacou a cara e deformou o nariz."

Em apenas 1 dia do mês de dezembro de 1878, o cemitério do Lazareto da Lagoa Funda recebeu 1004 cadáveres. Aquele 10 de dezembro ficou conhecido como “o dia dos mil mortos”. Foram contratados 40 populares para fazer os sepultamentos e os trabalhos entraram pela noite adentro. Ainda assim mais de 100 corpos tiveram de esperar o dia seguinte para serem enterrados.(O Lazareto da lagoa Funda ficava acerca de 3 km a noroeste da cidade, no atual Jacarecanga).


grande número de retirantes se concentram na Praça da Estação em Fortaleza, em busca de trabalho, alimentos e assistência social

A Cidade não estava preparada para tamanha calamidade. Apesar de o governo provincial não poupar despesas e contratar todos os médicos da cidade, não foi possível interromper a marcha epidêmica. O Lazareto de lagoa Funda, com capacidade para 300 enfermos, logo ficou lotado. Outros lazaretos foram improvisados, permitindo mesmo precariamente, que 5 mil pessoas fossem recolhidas e tratadas, noite e dia por médicos e voluntários.

O farmacêutico Rodolfo Teófilo, fundamentado nos preceitos que regiam a medicina urbana, reprovava alguns dos procedimentos adotados durante a vigência da epidemia, como o de transportar os cadáveres dos subúrbios para o cemitério do Lazareto, passando pelas ruas centrais da cidade; reconhecido como inadequado, o trajeto da praia passou então a ser utilizado para o traslado dos corpos. 


vítimas da seca
 Teófilo censura também os carregadores que fazia o trabalho de condução dos cadáveres, arregimentados no seio das camadas urbanas mais pobres e que recebiam diária de mil réis, comida e aguardente. Ordinariamente embriagados, os carregadores descansavam das cargas deixando à vista dos que chegavam às janelas, a visão dos esquifes estendidos na calçada.



A epidemia também ceifou vidas entre os habitantes  de Fortaleza, mesmo estando distantes do museu de horrores em que se transformaram os arrabaldes e postos sanitários onde os flagelados eram atendidos. No final de dezembro de 1878, a mulher do presidente da província faleceu vítima da varíola. A partir daí ninguém mais se julgava seguro e a peste fazia vítimas entre gentes que viviam completamente isoladas.

A partir de 1879 algumas chuvas caíram e isso contribuiu para que a epidemia diminuísse. Em janeiro o número de mortos baixou para 204; em fevereiro, caiu para 176. Finalmente, o inverno de 1880 pôs fim à seca e cessou a epidemia.

 
imagem UOL
 Mas a varíola permaneceu endêmica, uma vez que alguns casos continuaram ocorrendo nos anos seguintes. Com o término da catástrofe a maioria dos retirantes voltou para o sertão ou emigrou para os seringais da Amazônia, porém muitos ficaram a mendigar pela Cidade. 


Eram facilmente identificados pelas marcas deixadas pela doença em seus corpos. O número de cegos pela varíola era incontrolável. Entre a turba de esmoleres, grande número de crianças, pequeninos, órfãos de pai e mãe que em companhia de mulheres vadias, de quem eram o ganha-pão, esmolavam cantando.

A varíola e a seca retornaria a Fortaleza em 1888 e 1900, mas não fez muitas vítimas entre os milhares de retirantes que novamente vieram para a Capital. O que não significa que o Lazareto da lagoa Funda não voltou a ter toda a lotação esgotada por doentes.

Após a seca de 1900, o presidente do Estado o médico Pedro Augusto Borges, mandou fechar o Lazareto da Lagoa Funda em razão do alto índice de impregnação infecciosa do prédio e do seu cemitério anexo.


Extraído do livro de Sebastião Rogério Ponte
Fortaleza Belle Epoque – reformas urbanas e controle social – 1860-1930
fotos Google

         


terça-feira, 26 de novembro de 2013

A Seca de 1877-79 em Fortaleza

Com o crescimento de Fortaleza em fins do século XIX, verificou-se uma preocupação do poder público e das elites em controlar e disciplinar as camadas populares da cidade.  Fazia-se necessário racionalizar Fortaleza e também disciplinar, reprimir, corpos e mentes de seus habitantes, de modo a ingressarem no mundo da modernidade e do capitalismo que então se consolidava e lançava a cidade em uma nova era.

Mas o disciplinamento que se desejava foi severamente abalado durante a tragédia que marcou a cidade quando da grande seca de 1877-79. A população de Fortaleza à época era de cerca de 30 mil habitantes. E essa população assistiu horrorizada a chegada de mais de 100 mil sertanejos, que migraram para a capital em busca de auxílio. O Jornal O Cearense, noticiava: não há dia no qual as portas das igrejas e edifícios públicos não estejam atopetadas de mendigos de todas as idades. Esse espetáculo é depõe contra os nossos costumes, além de ser, a maior parte das vezes, imoral e repugnante.
 
retirantes concentrados na Praça da Estação em Fortaleza, fins do séc. XIX (foto do livro Os descaminhos  de ferro no Brasil)
 
As contradições sociais da cidade se acentuaram, incomodando os setores dominantes. A maior parte daqueles flagelados, famintos e depauperados ficou localizada na periferia, em casebres de madeira e palha ou em abarracamentos erguidos pelo governo, ou ainda debaixo das árvores e perambulando pelas ruas da cidade.  A mendicância, a prostituição e os furtos cresceram. A ameaça à ordem e a propriedade privada levou o governo a aumentar o policiamento da cidade, devido ao aumento da tensão social.

Ao calor infernal, à escassez de comida e água e às precárias condições de higiene, juntavam-se surtos de doenças. A multidão de retirantes acabou devastada por uma fulminante epidemia de varíola, que se alastrou por toda a capital. Segundo o farmacêutico Rodolfo Teófilo, contemporâneo dos fatos, em apenas dois meses de 1877 morreram 23.378 pessoas, e no ano seguinte, 24.849 foi o total de mortos.

Rodolfo Teófilo no Morro do Moinho, procedendo  vacinação da população (foto do Arquivo Nirez) 
 
Chegou-se em um só dia a enterrar 1004 pessoas vítimas da doença – era 10 de dezembro de 1878, que ficou conhecido como “o dia dos 1000 mortos”. Cerca de 40 populares foram contratados para enterrar os corpos, homens humildes, os quais recebiam quantias insignificantes e se embriagavam com cachaça para aguentar aquele trabalho. Transportavam os cadáveres amarrados nos pés e mãos a um pau. Era tanta gente morta que o trabalho entrou pela noite, porém mais de 100 corpos tiveram que esperar pelo dia seguinte.

Por mais que médicos, irmãs de caridade e voluntários trabalhassem, a cidade não tinha condições de enfrentar aquela situação, que fugiu ao controle do governo. O Lazareto da Lagoa Funda ficou superlotado. Mas nada detinha a marcha epidêmica. Para aumentar o pânico das classes dominante, até ”gente de posses” que praticavam os preceitos de boa higiene, foram vítimas da varíola, como a mulher do presidente da província, falecida em dezembro de 1878.

A partir de 1879, com algumas chuvas caindo, o número de mortos começou a diminuir. Em 1880, o inverno consolidado cessou a endemia, embora casos esporádicos ainda ocorressem.
Os retirantes  da seca de 1877-79 foram usados de maneira oportunista na construção de várias obras modernizantes e civilizadoras da cidade, que continuavam a ser uma preocupação do poder público, apesar de todo o morticínio provocado pela estiagem.


boa parte os trilhos da Estrada de Ferro Baturité foram assentados utilizando a mão-de-obra de flagelados da seca (foto do livro os descaminhos de ferro no Brasil)

Essa mão-de-obra foi usada na construção de asilos, reforma de praças, aterro de lagoas, reparo em pontes, pavimentação de estradas, e no prolongamento da Estrada de Ferro Baturité, entre outras, sob o discurso de assegurar aos retirantes meios de subsistência para a atenuação da sua miséria. Aproveitava-se assim, aquele contingente, representado por milhares de pessoas, para realização de obras que dificilmente seriam viabilizadas em razão dos altos custos. Aliviava-se igualmente a pressão popular provocada pela seca, afinal os retirantes  estariam recebendo alguma ajuda e sendo submetidos nas obras a uma dura disciplina, o que garantia a manutenção da ordem pública.

As pessoas famintas e numa situação desesperadora, viam-se obrigadas a aceitar as rígidas condições de trabalho. Entretanto, em virtude dos atrasos nos pagamentos dos salários e na distribuição de alimentos, a massa chegou a se rebelar – em 1878, seis mil retirantes lutaram com paus e pedras por horas, na Praça Visconde de Pelotas (atual Clóvis Beviláqua) contra as tropas do exército e da polícia, que reprimiu a revolta com tiros, deixando vários feridos.

Rua Major Facundo, início do século XX (arquivo Nirez)
 
Com o fim da estiagem, a maioria dos retirantes regressou para o interior, mas muitos resolveram ficar em Fortaleza, especialmente viúvas, órfãos e mulheres abandonadas, em decorrência das mortes e da migração de muitos homens para a Amazônia.  Ficaram a perambular pelas ruas, esmolando, cometendo pequenos furtos  ou se prostituindo.  Muitos órfãos foram levados para morar com famílias de periferia e acabaram explorados – crianças eram empregadas em serviços domésticos ou na prática de mendicância.


Fonte:
História do Ceará, de Aírton de Farias 
fotos Arquivo Nirez e Anuário do Ceará