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sexta-feira, 12 de julho de 2024

O Pajeú e a Lagoa do Garrote

 

A capital do Ceará nasceu em fins do século XVII, início do século XVIII à sombra dos muros do forte português fundado pelos holandeses, que defendia o grande maceió ou pocinho, formado na embocadura do riacho Pajeú. Os holandeses chamavam o riacho de Marajatiba e a fortaleza de Schoonemborch. Em memória desse pocinho, se chamava Beco do Maceió o prolongamento da antiga Rua do Chafariz, atual José Avelino.

Avenida Alberto Nepomuceno, por onde corria o riacho Pajeú

Entre as duas colinas em que se erguia a fortificação, corria o Pajeú, que vinha das matas da aldeota, divagando ao sabor do relevo. A cidade surgiu numa ala de pequenas casas perpendiculares à parte de trás do forte, a Rua do Quartel. Depois formou uma praça, a da Sé, localizada numa volta do riacho e se estendeu pelo seu tortuoso vale, acima e abaixo, formando a Rua Direita, que foi rua de Baixo, Conde D’Eu, e Sena Madureira. Mais tarde teve um trecho alargado, chamado de Alberto Nepomuceno.

Por esse tempo, dois córregos cortavam as colinas, cujo ponto culminante ficava na antiga Rua Formosa atual Barão do Rio Branco, onde se erguia o sobrado do Conselheiro Rodrigues Junior e hoje existe o Edifício Diogo. O primeiro desses córregos, vindo da parte norte da antiga Lagoinha, na avenida Tristão Gonçalves, fluía pelas ruas Senador Pompeu, Barão do Rio Branco,  Major Facundo e Floriano Peixoto, entre a travessa das Hortas, depois Senador Alencar e a Rua das Flores, atual Castro e Silva.

Praça da Lagoinha, já sem a lagoa que já havia sido aterrada

Justamente na sua passagem pela Rua Major Facundo, o negociante Pacheco construiu um grande sobrado, por volta de 1845 a 1847. Depois, empobrecido, suicidou-se em Paris. Depois, pertenceu ao Barão de Aquiraz. Esse imóvel foi vendido ao coronel José Gentil que o demoliu. Em frente a esse sobrado, ficavam as cocheiras e o quintal da residência do Dr. Rufino de Alencar, que dava para a Rua Floriano Peixoto. Descendo por esse quintal via-se a marca da continuação do leito. Esse ribeiro ia desaguar no Pajeú, na parte meridional da atual Praça da Sé.

Documentava o curso do segundo córrego o escoamento das águas pluviais no trecho da rua Barão do Rio Branco, além do sobrado do conselheiro Rodrigues Junior. Vinha do lado meridional da lagoinha, cruzava as ruas 24 de Maio, General Sampaio e Senador Pompeu, descia pela Pedro I e, na Major Facundo, na quadra que antecede a praça do Carmo, entrava por um bueiro no quintal da antiga residência do dr. Gil Amora, na rua Floriano Peixoto, e das residências da rua da Assunção, ajudado por uma nascente ali existente, ia formar a lagoa do Garrote, de onde sangrava para o Pajeú.

Lagoa do Garrote, antes da criação do parque 

Assim, esse curso d’água que foi vital para o surgimento da cidade, devia seu maior volume de águas ao tributo de duas lagoas, a Lagoinha e a do Garrote. Formavam-no sob os pés de cajueiros e jatobás do Outeiro e da Aldeota, vários ribeiros e as águas que corriam dos alagadiços e baixadas paralelos ao antigo calçamento de Messejana, atual avenida Visconde do Rio Branco.

Perto da lagoa do Garrote, e separado pelo calçamento de Messejana, o Pajeú foi represado num açude de alvenaria de tijolos com comportas, construído na seca de 1845, pelo presidente José Martiniano de Alencar, e restaurado mais tarde pelo Dr José Júlio de Albuquerque Barros, Barão de Sobral.

Dessa obra, que existiu até 1920, não existe mais nenhum vestígio. Por sua vez a Lagoa do Garrote também foi cercada para se tornar o lago central do jardim público que existia no local, no governo do coronel Luís Antônio Ferraz, com base em projeto do engenheiro Romualdo de Barros.

Parque da Liberdade/Cidade da Criança onde funcionou um jardim de infância 
 
Há duas versões para o nome Garrote, dado à lagoa, e por extensão, durante certo tempo, ao bairro compreendido entre o Pajeú e a Rua da Assunção, a praça do Coração de Jesus, e a dos Voluntários. Uma das versões é a seguinte:

Perto da praça, na Rua do Cajueiro, atual rua Coronel Bezerril, ficavam os açougues da cidade. A área era semideserta e cheia de mato, o gado era abatido debaixo das árvores. Havia pequenos currais, onde o gado ficava confinado. Certa vez um garrote destinado ao abate fugiu de um desses cercados e se perdeu nos matagais das proximidades. Durante um tempo foi perseguido sem que ninguém conseguisse capturá-lo, apesar das batidas e da espera a beira da lagoa. Um dia, o laçaram e o mataram. Desse episódio veio o nome da lagoa. A outra versão é de que ali era o local de descanso dos comboieiros que, que conduziam gado e outros produtos pelas estradas do Ceará.


Extraído do livro: À Margem da História do Ceará/Gustavo Barroso/Imprensa Universitária do Ceará/Fortaleza:1962/publicação FortalezaemFotos. Fotos do Arquivo Nirez 


    

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Praça Capistrano de Abreu (Praça da Lagoinha)

Praça Capistrano de Abreu em 1931. (foto reprodução)

A Praça Capistrano de Abreu, localizada no Centro de Fortaleza é uma das mais antigas da cidade, sua demarcação é anterior a 1859. Batizada em 1891, com o nome de Comendador Teodorico, passou a ser chamada de Capistrano de Abreu em 1965. Ficou conhecida também como ‘Lagoinha’ porque um dos afluentes do riacho Pajeú passava pelo local e formava uma pequena lagoa, que foi posteriormente aterrada.

Tinha um coreto em forma de lira, onde a banda da policia Militar realizava retretas às 4as. Feiras, e que demolido em 2001. Em 1930, foi construído um jardim com fonte luminosa, importada da Alemanha, que depois foi para o cruzamento das Avenidas da Universidade com Treze de Maio e atualmente pode ser encontrada na Praça Murilo Borges, em frente ao Banco do Nordeste.

Em 2003, a estátua de Capistrano de Abreu, em bronze, fundida em Paris no início do século passado, medindo 1,90m e pesando cerca de 100 quilos, desapareceu da praça, onde estava desde 1964. No mês seguinte a estátua foi recuperada.Estava prestes a ser vendida como sucata pelos ladrões. Depois de resgatada foi restaurada e devolvida ao seu pedestal. Hoje, os sinais da restauração já desapareceram. O monumento encontra-se pichado e abandonado como o resto da praça. 
O pedestal da estátua está sem identificação, consequência da última reforma do equipamento público iniciada em 2000. Na época, foram construídos uns arcos de alvenaria projetados pelo arquiteto Ricardo Muratori, para dar suporte a um museu aberto. Estes pórticos atualmente estão servindo de banheiro e esconderijo de marginais.

Há cerca de trinta anos, começou a ocupação irregular da Praça Capistrano de Abreu, com a invasão inicialmente de camelôs. Como o poder público não tomou nenhuma providência, não colocou nenhum obstáculo para evitar a privatização do espaço público, nem ofereceu nenhuma alternativa aos trabalhadores, a invasão foi crescendo até ficar fora de controle. 
O que se via era uma multidão de camelôs, artistas de ruas, pedintes, barbeiros, fotógrafos, sapateiros, prostitutas e malandros. Por conta da grande quantidade de produtos comercializados sem comprovação de procedência, o local também ficou conhecido como feira dos malandros. 
Diante da inércia da prefeitura, foi preciso que o Ministério Público entrasse com um pedido de liminar para a desocupação do local que já contava com cerca de 900 feirantes.
O pedido de liminar, promovido pelo Ministério Público do Estado do Ceará contra o Município, alega que a Praça Capistrano de Abreu, localizada no Centro, é ocupada diariamente por feirantes que comercializam “produtos de origem duvidosa ou sem nota fiscal”, como relógios e celulares. De acordo com o Ministério Público, a administração municipal não tomou nenhuma atitude para solucionar o problema do uso inadequado do espaço.A data da desocupação já foi marcada e adiada inúmeras vezes.

Muitas são as funções que são atribuídas às praças nos centros urbanos, mas a principal é sem dúvida, a de local de encontro e convívio da população, espaço de reunião construído pela e para a sociedade.

Dificilmente a Praça da Lagoinha voltará a ser o espaço bucólico e agradável que já foi um dia. Mas se voltar a ser, pelo menos, uma praça que se possa parar para cumprimentar um conhecido, atravessar sem ser assediado, assaltado ou incomodado por marginais ou desocupados de vários calibres, a população já estará no lucro.

foto do arquivo Nirez