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terça-feira, 21 de outubro de 2025

Personagens que Nomeiam as Ruas de Fortaleza


A história de Fortaleza está escrita em cada rua da cidade, nas placas que indicam nomes e feitos que influíram nos destinos da urbe. Por trás de cada uma vez delas, há uma trajetória que a maioria dos moradores desconhecem. Conheça alguns deles.

Rua Dragão do Mar – parte da antiga Rua da Praia e antiga Rua da Alfândega localização: Praia de Iracema – começa na Avenida Leste-Oeste termina na Avenida Beira Mar


Rua Dragão do Mar (imagem Fortaleza em Fotos-2010)

Homenagem a Francisco José do Nascimento, nascido em 1839 e falecido a 5 de março de 1914. Em 1859 trabalhou nas obras do Porto de Fortaleza e iniciou o trabalho de marinheiro numa embarcação que fazia linha Maranhão-Ceará. Como prático da Capitania dos Portos, convivendo com o drama do tráfico de escravos, e sendo mulato, se envolveu na luta pelo abolicionismo, uma das atitudes foi o fechamento do Porto de Fortaleza ao tráfico de escravos para outras províncias. Em 1889, foi reconduzido ao cargo na Capitania dos Portos, que havia perdido por envolvimento com as lutas abolicionistas. Em 1890 recebeu a patente de Major – Ajudante de ordens do Secretário Geral do Comando Superior da Guarda Nacional do Estado.  

Rua Nogueira Acioly – antiga Rua da Aldeota.  Localização: Centro – começa na Avenida Santos Dumont – termina na Rua Costa Barros. 


Rua Nogueira Accioly (foto Arquivo Nirez)

Antônio Pinto Nogueira Accioly foi presidente da Província do Ceará por três mandatos: 1896 a 1900; 1904 a 1908 e 1908 a 1912. Depois de 15 anos de liderança política, foi deposto numa conturbada revolta urbana que durou três dias. As principais ruas e praças de Fortaleza se transformaram em campos de batalha, na maior explosão de revolta que a capital já conheceu. Armada, a população ocupou vários pontos da cidade, inclusive o Palácio do Governo, onde estava Accioly. Formou barricadas, promoveu saques e destruiu símbolos do poder de então. Entre os alvos, a Praça Marquês de Herval, remodelada pelo intendente Guilherme Rocha, e onde estava localizada a residência de Accioly, na esquina das ruas Guilherme Rocha com 24 de maio. A revolta durou de 21 a 24 de janeiro de 1912, e só terminou com a deposição do presidente da província. O presidente Accioly juntamente com outros familiares, foram encaminhados para o Quartel do Exército onde no dia seguinte foram embarcados com destino ao Rio de Janeiro. O ex-presidente, que nunca mais retornou ao Ceará, fixou residência na então capital federal onde faleceu no dia 14 de janeiro de 1921.

Rua General Bezerril – antiga Rua do Quartel. localização: Centro – começa na Rua Assunção – termina na Rua do Rosário


Rua General Bezerril, anos 50 (foto Arquivo Nirez)

José Freire Bezerril Fontenele participou da deposição violenta do General Clarindo de Queirós, assumindo o governo do Ceará em 17 de fevereiro de 1892. No dia 18 passa as funções para o Vice-Presidente Benjamin Barroso que providencia a saída do poder de todos os elementos ligados ao governo deposto, inclusive uma nova eleição para a Assembleia e a dissolução da anterior.

Avenida Alberto Nepomuceno – antiga Rua da Ponte, e Sena Madureira. Localização: vai do Poço da Draga, até a Travessa Crato, na região do Centro.


Avenida Alberto Nepomuceno (imagem Fortaleza em Fotos-2013)

Maestro, compositor, pesquisador e intérprete, foi um dos primeiros a estudar profundamente o folclore brasileiro, entre suas conquistas está a criação de um idioma musical próprio e caracteristicamente nacional, com o emprego de instrumentos típicos da música regionalista. Em 1903, quando era diretor do Instituto Nacional de Música é convidado pelo historiador Barão de Studart para compor o Hino do Ceará. Compõe depois a ópera  “O Guarani” inspirada na obra de José de Alencar. Em 1907 faz uma reforma do Hino Nacional Brasileiro, regulamentando sua execução pública e oficializando a letra de Osório Duque Estrada. Alberto Nepomuceno nasceu em 1864, em Fortaleza e faleceu em 1920.  

Rua Meton de Alencar – antiga Rua São Sebastião. Localização: começa na Avenida Duque de Caxias e termina na Avenida Tristão Gonçalves, no Centro.

Meton de França Alencar nasceu em Messejana, em 1843. Médico formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, participou da Guerra do Paraguai onde adquiriu a prática necessária para exercer a profissão; no final do conflito, recebeu do Imperador a patente de Capitão, o título de Primeiro Cirurgião do Exército e a Medalha Comemorativa da Campanha. Em 1871 retornou a Fortaleza onde foi nomeado médico da Santa Casa. Ficou famoso pela caridade, habilidade no trabalho e pioneirismo. Foi o primeiro a realizar cirurgia nervosa e autor da primeira transfusão de sangue no Brasil. Na política, foi eleito Deputado Geral pelo Partido Liberal. Faleceu em 1893.

Avenida Historiador Raimundo Girão – antiga Avenida Aquidabã. Localização:  Praia de Iracema e Meireles. Começa na Avenida Rui Barbosa e vai até a Praia de Iracema, terminando na Avenida Beira-Mar.

Raimundo Girão nasceu na Fazenda Palestina, em Morada Nova em 3 de outubro de 1900. Foi prefeito de Fortaleza no período de 1932 a 1934; primeiro titular da Secretaria Municipal de Urbanismo; ministro do Tribunal de Contas do Ceará; secretário de Educação e Cultura; primeiro dirigente da Secretaria de Cultura do Ceará; presidente do Conselho Penitenciário do Ceará. Foi membro da Academia Cearense de Letras e seu presidente, no período de 1957/1958. Foi membro correspondente de várias instituições de estados do Brasil, detentor de vários títulos honoríficos e medalhas. Faleceu em Fortaleza, no dia 24 julho de 1988.

Rua Jaime Benévolo – antiga Rua do Açude, da Cruz e Dr. João Tomé. Localização: começa na Avenida da Universidade e termina na Rua Costa Barros. Bairro de Fátima.

Nasceu em Maranguape, em 27 de agosto de 1854. Oficial do Exército, teve participação decisiva no movimento que culminou com a Proclamação da República. Foi considerado por jornalista da época, “um dos mais denodados propagandistas da República”, observando que sem ele talvez não tivesse havido o 15 de novembro. Durante o governo provisório que se seguiu o 15 de novembro, Jaime Benévolo foi nomeado para compor o Conselho Municipal na Capital da República. Faleceu no Rio de Janeiro, no dia 13 de maio de 1905.

Avenida Dom Luís – antiga Rua Farias Brito. Começa na Avenida Santos Dumont e termina na Avenida Washington Soares


Avenida Dom Luís (imagem Fortaleza em Fotos-2014)

Luís Antônio dos Santos nasceu em 17 de março de 1817 e faleceu no dia 11 de março de 1891. Foi o primeiro bispo do Ceará, responsável pela instalação do Seminário da Prainha, que contribuiu para a divulgação do ensino religioso no Ceará. Inaugurou o Colégio dos Órfãos Pobres, o Colégio da Imaculada Conceição e o Seminário do Crato. Na grande seca de 1877, quando as epidemias matavam centenas de cearenses, Dom Luís não media esforços nas obras sociais, mesmo com o risco da própria vida.

Rua Isaac Amaral – começa na Rua José Villar termina na Rua Barbosa de Freitas

Isaac Correia do Amaral Nascido em Fortaleza, em 18 de setembro de 1859, falecido em abril de 1942, na Serra de Guaramiranga. Foi projetista e construtor, destacando-se entre seus trabalhos a Igreja do Pequeno Grande e o antigo Parque da Independência, atual Cidade da Criança. Mas foi no campo abolicionista que teve participação decisiva. Realizava furtos de escravos e contribuiu ao lado de companheiros da Sociedade Cearense Libertadora para impedir o tráfico de negros no Porto de Fortaleza. Participou ainda da memorável sessão de 24 de maio de 1883, quando se declarou a liberdade total dos escravos no Ceará.

Rua Dias da Rocha – começa na Avenida Senador Virgílio Távora e termina na Avenida Padre Antônio Tomás.

Francisco Dias da Rocha foi um dos pioneiros do estudo e reconhecimento dos recursos naturais do Ceará. Cofundador e um dos primeiros professores da Escola de Agronomia, publicou vários trabalhos sobre botânica, enumerando centenas de espécies nativas e cultivadas, de efeito terapêutico. É atribuída ainda a Dias da Rocha a descoberta da janaguba, indicada em importantes tratamentos médicos. Com muito esforço, reuniu peças representativas da antropologia, flora, fauna, mineralogia e geologia do Estado. Uma vida dedicada à pesquisa, ao ensino e à ciência.

Avenida Antônio Sales – começa na Avenida Visconde do Rio Branco e termina na Avenida Engenheiro Santana Junior. Atravessa os bairros Joaquim Távora, Dionísio Torres, e termina no bairro Água Fria.

O escritor Antônio Sales nasceu em 13 de junho de 1868, no distrito de Parazinho, próximo a Paracuru, lugar que foi soterrado pelo avanço das dunas. Participou de várias associações, como o Clube Literário, Clube de letras e Clube Americanista. Mas sua maior atuação foi na Padaria Espiritual, inspirador e principal animador dessa agremiação literária.

Rua Coronel Ferraz – antiga Travessa do Colégio, Travessa São Luís. começa na Rua Costa Barros termina na Rua Franklin Távora


Rua Coronel Ferraz com a escola Jesus Maria José (imagem Revista O Malho-1915) 

Luiz Antônio Ferraz foi o primeiro governador do Ceará no período republicano. No dia 16 de novembro tomou posse do governo provisório, nomeando uma comissão executiva. Permaneceu na chefia do poder Executivo até janeiro de 1891, quando foi substituído por João Cordeiro. No decorrer de sua administração, diversos fatos marcaram a vida política local, sua arregimentação partidária e suas ambições eleitorais. O coronel Ferraz precisou deixar o cargo no dia 9 de janeiro de 1892, por motivo de saúde. Licenciado, viajou para o Recife, onde faleceu no dia 1° de fevereiro.


Fontes: 

História Abreviada de Fortaleza e Cônicas sobre a Cidade Amada, de Mozart Soriano Aderaldo. Fortaleza, Programa editorial Casa José de Alencar,1998.

A História do Ceará Passa por Esta Rua, de Rogaciano Leite Filho. Fortaleza, Fundação Demócrito Rocha, 1988.

Guia Turístico da Cidade. Prefeitura Municipal de Fortaleza, 1961

Fortaleza Velha: crônicas. João Nogueira. Fortaleza, edições UFC/PMF, 1980

wikipédia

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Padre Quinderé

Padre Quinderé 
 (imagem do blog As Trilhas da Vida)

Padre Quinderé é uma figura lendária. Falecido em 1960, ainda vive nas memórias da cidade, graças à maneira cativante de externar-se, de comunicar-se com todo mundo, seus gracejos oportunos e o seu invencível repentismo. Estava sempre bem-humorado e marcou época nas funções que ocupou, seja como religioso, jornalista e professor.

Como professor do Liceu do Ceará, fazia o gênero linha dura, ameaçando céus e terras para o aluno que não aprendesse os rudimentos da língua latina. O colégio realizava quatro provas escritas de avaliação por ano, e antes de cada uma, semblante fechado, o mestre anunciava: “é agora cambada, que chegou a hora da onça beber água. Quem prestou atenção, quem estudou, quem vai se dar bem, quem malandrou, entra no zero, zerorum...e aquele que eu apanhar pescando, boto pra fora no mesmo instante”


Prédio onde funcionava o Liceu do Ceará, na Praça dos Voluntários
(imagem Arquivo Nirez) 

Sentado na cadeira de professor, vez por outra levantava-se, dava uma volta na sala de aula, esmiuçava cada um dos alunos em busca de pesca. De repente, faltando uns 10 a 15 minutos para terminar o horário da prova, ele avisava: “olhem, vou até a cantina tomar um chá. Quero comportamento exemplar, se eu souber que alguém pescou já sabem, o zero vai cair sem piedade, em cima de vocês”

E se retirava estrategicamente, convencido de que era inútil seu esforço de conscientizar aquelas crianças da importância do ensino do Latim, para uma melhor compreensão do Português, do Francês, do Espanhol, enfim, de todas as línguas modernas que direta ou indiretamente, nasceram do idioma espalhado no mundo antigo pelo Império Romano.

Com esse sistema, nunca reprovou ninguém, em compensação, o estudo do Latim ficou para depois... ou para nunca. Monsenhor Quinderé patrimônio moral e cultural do Ceará, escritor e jornalista, ganhou fama também por sua espirituosidade. Gostava de contar anedotas, fazia rir sem ser ofensivo.

E deixou em seus alunos a lembrança do professor devotado e severo, ao mesmo tempo generoso, porque cedo entendeu que o estudo do latim positivamente era uma carga pesada demais que o currículo impunha aos alunos secundaristas.

Contam que certa vez o padre recebeu um grupo de alunos e alunas do Liceu que o convidaram a um piquenique comemorativo do término do curso. Argumentaram que a presença dele daria mais destaque ao evento. Padre Quinderé agradeceu, mas respondeu “não posso ir, mas peço-lhes, porém, uma coisa: me tragam depois os meninos nascidos desse piquenique para eu  batizá-los.” 

Amigo da família do Comendador Nogueira Acióli, Presidente do Estado durante muitos anos, Monsenhor Quinderé recebeu de "presente" uma cadeira de deputado Estadual. Eleito, cumpriu dois mandatos, onde ele próprio afirmava: "Fui deputado, sem conhecer um eleitor, e jamais qualquer deles me procurou para tratar de interesses pessoais. Os chefes é que defendiam junto ao governo as pretensões dos seus correligionários''.

Simpático e acessível, frequentava as residências ricas ou pobres, como pessoa de casa, e jamais alguém duvidou da lisura dos seus procedimentos morais e das suas virtudes de clérigo. Certa vez, para fazer gracejo, perguntaram-lhe se ele era um sacerdote sério, e a resposta foi: "sério eu sou, não sou é sisudo".

Quando faleceu, no dia 26 de agosto de 1960, Monsenhor Quinderé já estava privado da visão há alguns anos e o seu passamento resultou de um insidioso câncer. Foram suas últimas palavras: "A batalha está terminada. Encontrei o caminho do céu". Morreu aos 78 anos, como sempre viveu: em paz com sua consciência. Está sepultado na cripta da Catedral Metropolitana de Fortaleza.

Capela do Cristo Ressuscitado na Cripta da Catedral
(imagem Fortaleza em Fotos 2012) 

José Alves Quinderé nasceu em Maranguape, filho de João Gualberto Quinderé e Josefina Pinheiro Muniz, no primeiro dia do ano de 1882. Ingressou no Seminário de Fortaleza em 1904, com estudos custeados pela irmã Gagnet, madre superiora do Colégio da Imaculada Conceição, que admirava a sua inteligência e as suas virtudes. Depois da ordenação passou a trabalhar no Palácio Episcopal, até que em 1910 foi nomeado professor de latim do Liceu do Ceará. Três anos depois, fundou o Colégio Cearense, que em 1916 passou a ser dirigido pelos irmãos Maristas. Na hierarquia da igreja atuou como Secretário-Geral do bispo Dom Joaquim José Vieira. Em 1920, foi distinguido com o título de Cônego, tornando-se Monsenhor em 1929. Exerceu o mandato de deputado estadual em duas legislaturas e foi Vice-Presidente da Assembleia. Suas atividades literárias começaram em 1939, quando escreveu um trabalho intitulado "Subsídio para a História Eclesiástica do Ceará", inserido numa edição de "O Ceará".

Monsenhor José Quinderé publicou, além de "Subsídio Para a História Eclesiástica do Ceará", o "Ano Litúrgico", "Sinal Sensível", (Editora Agir-Rio), "Palavra de Vida Eterna"(Editora Vozes, de Petrópolis), "A Mais Antiga Constituição" (Editora Beneditina, Salvador), "A Vida de D. Joaquim José Vieira- 29 Bispo do Ceará" (Editora Instituto do Ceará), "Vida de Santa Filomena" (Editora A. Batista Fontenele) e, finalmente, "Reminiscências".

 

Fontes: O Liceu e o Bonde/Blanchard Girão/Editora ABC/Fortaleza, 1997

Padre Quinderé, por Raimundo Girão. Disponível em https://academiacearensedeletras.org.br/revista/revistas/1982/ACL_1982_22_O_Padre_Quindere_Raimundo_Girao.pdf 



domingo, 5 de abril de 2020

O Poder dos Coronéis - Gustavo Augusto Lima


No sertão do Ceará, movido a bacamarte, poder e latifúndios, a lei e a justiça eram feitas segundo a ótica e visando os interesses dos coronéis, que determinavam castigos aos inimigos e decretavam sentenças que não raro, incluíam a pena capital. Não havia julgamentos, defensores ou juízes. Havia o coronelato, o mandonismo, a aceitação e o reconhecimento do "manda quem pode...". A esses potentados sertanejos, todos se dobravam, inclusive as chamadas “autoridades constituídas”.

Do início do primeiro reinado (1822), até o governo de José Bezerril Fontenele – primeiro governador eleito por votação popular (1892-1896) – o posto de Presidente da Província do Ceará passou por grande alternância de titulares.  Na década de 1880, nos anos que antecederam a proclamação da República, o Ceará tinha uma média de dois presidentes por ano. O primeiro governador do período republicano (Luiz Antônio Ferraz - 1889-1891), ficou três anos no cargo, mas seus sucessores repetiram o padrão do tempo do Império, e ficaram pouco tempo no poder.

O sucessor de Bezerril, Antônio Pinto Nogueira Accioly, do Partido Republicano Federal, foi eleito pelo voto popular e governou a Província no período 1896 a 1900 (primeiro mandato). Foi no Governo Accioly, que o coronelismo atingiu seu ápice, onde os coronéis eram mantidos como aliados do governo em troca e votos e favores.
  

O Coronel Gustavo era um desses poderosos executores da lei, filho de outra notória coronela do sertão, a famosa Fideralina Augusto Lima, que mandava matar os inimigos e desafiava a todos com sua audácia. Fideralina já tinha fama de mandona e autoritária, mas despontou como liderança política da região de Lavras da Mangabeira depois da morte do seu marido Ildefonso Correia Lima, em 1876.

Coronel Gustavo Augusto Lima



Gustavo nasceu a 23 de agosto de 1861 no seio de uma das mais importantes famílias do Cariri. Filho, neto e bisneto de coronéis, teve desde a mais tenra idade, convivência com a cultura do poder e as relações entre os latifundiários e seus cabras e escravos. Uma das características mais marcantes da educação que recebeu de sua mãe, dona Fideralina Augusto Lima, foi o esmero pela instrução formal. Dizia a matriarca do clã dos Augustos que a próxima geração exerceria o poder a partir da força da caneta, não do bacamarte, como era na sua própria época, de sorte a que teve especial zelo com a educação dos seus filhos e netos.

Gustavo não era o primogênito de dona Fideralina, mas o seu quinto filho. (Casada com o major Ildefonso Correia Lima, o casal teve 12 filhos: Isabel, Honório, Raimundo, Ildefonso, Gustavo, Maria, Joana, Vicência, Josefa, Joaquim, Francisco e Vicente). De início Gustavo não foi preparado para assumir a chefia do clã, papel destinado ao seu irmão mais velho, Honório. Mesmo assim foi enviado para estudar no tradicional colégio do Padre Inácio de Souza Rolim, onde estudaram dentre outros José Marrocos (um dos lideres da emancipação política de Juazeiro), e o próprio Padre Cícero Romão Batista.

Antes mesmo de assumir o poder em Lavras da Mangabeira, exerceu vários cargos de honor, quase sempre através da firme influência de sua mãe. Antes de 1907 já havia exercido o cargo de coletor das rendas provinciais, membro do Conselho de Intendência Municipal e já ostentava patente de coronel da Primeira Companhia do Batalhão da Guarda Municipal.

Mas sua vocação era para a política, o que acabou levando Gustavo a entrar em desastroso conflito com seu irmão Honório. O episódio iria definir seu destino como mandatário local, e marcaria profundamente a vida de Dona Fideralina, cujas consequências duraram até o dia de sua morte. Era tão absoluto o controle exercido pela família Augusto, que somente outro membro do clã poderia desafiar as ordens da matriarca.

Foi exatamente o que fez seu filho Honório Correia Lima, que começou a discordar da orientação política de sua mãe e por esforços próprios chegou a ocupar a posição de líder do Partido Governista em Lavras. Dona Fideralina, no entanto, não admitia que ninguém contrariasse suas determinações ou que brilhasse mais do que ela mesma, o que a levou a tomar sérias providências.

Após firme recusa do filho em ceder o lugar que havia conquistado, resolveu tomá-lo pela força. No dia 26 de novembro de 1907, valendo-se de seus destemidos cabras e sob a liderança de Gustavo, Honório foi retirado à força, não só da Intendência, mas também do partido, e da própria cidade, de onde partiu naquele mesmo dia com toda sua família. Foi a ascensão definitiva de Gustavo ao poder local, posto na Intendência no lugar do irmão.

Antes da saída dos cabras, da varanda do Sitio Tatú, Dona Fideralina deu a sentença: “aquele que derramasse o sangue do Torto, morreria”. Torto era o apelido de Honório, que era caolho. Depois desse episódio, a família nunca mais conseguiria se harmonizar, replicando aquela rusga original em vários desdobramentos.

Matriz de São Vicente Ferrer - Lavras da Mangabeira - CE (foto IBGE)

Tanto Honório quanto Gustavo eram casados com duas primas legítimas, filhas de uma irmã de Fideralina, Dulcéria Augusto de Oliveira, conhecida por Pombinha. Naquele episódio, Pombinha tomou as dores de Honório tendo se juntado a ele na indignação pela desfeita de Fideralina. Daí nasce uma inimizade entre as duas irmãs que durou pelo resto de suas vidas. Uma vez que Honório se retirou para Fortaleza, e jamais retornou à Lavras, Pombinha assumiu a liderança da oposição. Quando se deu o episódio da queda da oligarquia de Nogueira Accioly, da qual Fideralina era aliada, e quando começou a nomeação dos novos intendentes, a indicação para a Intendência de Lavras teve o patrocínio de Pombinha, que indicou para o cargo, seu genro, conhecido por Zé Burrego. E em cumprimento a uma promessa, Pombinha atravessou de joelhos, todo o largo da matriz, indo até o altar, em comemoração a perda de prestígio político da irmã.      
Consta que já no leito de morte Fideralina chamou a irmã para fazer as pazes, ao que Pombinha respondeu que não iria, que se fosse para perdoar, faria isso à distância mesmo.

Praça Presidente Vargas - Estação ferroviária de Lavras da Mangabeira (foto IBGE)

Quanto ao coronel Gustavo, continuou sua trajetória de poder e influência política. Senhor de vastos domínios territoriais, em 7 de abril de 1910 resistiu bravamente à invasão da cidade de Lavras, por cento e cinquenta homens comandados por Joaquim Vasques Landim, defendendo o burgo ameaçado pelos maiores coronéis do Cariri e consolidando, assim, a sua posição no âmbito da vida política do Estado.

Na condição de mandatário do município de Lavras, fez parte do famigerado Pacto dos Coronéis, assembleia política realizada na então vila de Juazeiro, sob os auspícios do Padre Cícero Romão, aos 4 de outubro de 1911, sendo, no ato, representado pelo seu filho, o coronel João Augusto Lima.  Conhecido pela sua pertinácia política, participou com grande contingente de homens para o êxito da Revolução de 1914, que destronou o Governo de Franco Rabelo.

A sua intervenção nesse movimento, conhecido por Sedição de Juazeiro, foi das mais relevantes, tendo, inclusive, disputado, com Floro Bartolomeu, a sua liderança, em cuja vanguarda encontrava-se quando as tropas sertanejas invadiram Fortaleza em 1914, tendo sido aclamado, no momento, pelo alto comando da Revolução, como general de campo, em alusão às suas estratégias.

Palácio da Luz, Fortaleza (foto IPHAN)

Aquartelando o seu estado maior no Palácio da Luz, o Coronel Gustavo teve papel decisivo na constituição do novo governo cearense, indispondo-se, daí por diante, com Floro Bartolomeu, numa rixa que ganhou as páginas da imprensa de todo o Brasil.  Com o triunfo da Sedição de Juazeiro, foi nomeado prefeito da sua terra de berço, por ato de 21 de março de 1914, permanecendo nesse posto até 27 de agosto de 1920, mas ali sempre reinou de forma soberana desde a deposição do seu irmão, Honório Correia Lima, revestindo sempre as características do mandonismo e tomando partido nas disputas que sacudiram as estruturas políticas do seu tempo.

Foi deputado à Assembleia Legislativa do Ceará, nas legislaturas de 1915 a 1916, de 1917 a 1920 e de 1921 a 1923, destacando-se, durante esse período, como líder do governo e presidente da referida Assembleia. Eleito vice-governador do Ceará, para o biênio 1914-1916, exerceu essa função paralelamente ao mandato de deputado estadual e ao cargo de prefeito municipal da sua terra.

Político de temperamento forte e de decisões que causavam temor a seus adversários, sempre que raivoso ameaçava passar os inimigos nas moendas do engenho Pau Amarelo, cidadela e reduto inexpugnável da sua fortaleza política. Contra o poderoso caudilho de Juazeiro do Norte, Floro Bartolomeu, destilou a sua valentia e as suas ousadas ameaças.

aspecto da Praça do Ferreira entre o início dos anos 20 e início dos anos 30. (Foto Arquivo Nirez)

Contudo, apesar do prestígio político e do cargo de deputado estadual que ocupava, foi alvejado a tiros de revólver, na Praça do Ferreira em Fortaleza, a 28 de janeiro de 1923. Na ocasião o coronel Gustavo achava-se em companhia de duas filhas, Luisinha e Maria Luísa, e tomava assento no bonde do Outeiro para se deslocar à sua residência na Avenida Dom Manuel, quando tombou vítima de disparos deflagrados por Raimundo de Eusébio, vindo a falecer quatro dias depois, a 1º de fevereiro, na Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza. Foi sepultado no cemitério São João Batista desta cidade.

Fontes:
Wikipédia

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Avenida Francisco Sá - o Primeiro Polo Industrial de Fortaleza

O nome da avenida homenageia o deputado provincial, ministro de Viação e Obras Públicas dos governos Nilo Peçanha e Artur Bernardes, e da Agricultura, Indústria e Comércio de Nilo Peçanha, deputado geral, deputado federal e senador de 1906 a 1927, Francisco Sá casado com Olga Nogueira Pinto Accioly, filha do presidente do Estado Antônio Pinto Nogueira Accioly. Começa na Avenida Filomeno Gomes, no Jacarecanga e termina na Avenida Coronel Carvalho, na Barra do Ceará, próxima ao limite Fortaleza/Caucaia. Tem aproximadamente 6,5 quilômetros de extensão e mais de 7 mil números.

Ponte sobre o riacho Jacarecanga - 1919

A Avenida Francisco Sá é hoje a continuação da Rua Guilherme Rocha, que termina na esquina com a Avenida Filomeno Gomes. Mas nem sempre foi assim. Até por volta de 1912, a Rua Guilherme Rocha acabava na então Praça Fernandes Vieira (atual Praça Gustavo Barroso a partir de 1960, mais conhecida como Praça do Liceu), e o caminho era interrompido devido a presença de várias casas, inclusive a do antigo intendente de Fortaleza, Coronel Guilherme Rocha.
 
Para além da Praça Fernandes Vieira havia um estreito caminho de terra que seguia até o ponto em que hoje se encontra a Avenida Dr. Theberg, onde havia um sítio denominado Santo Antônio da Floresta, de propriedade do Coronel Antônio Joaquim de Carvalho que assinalava o final da via. Com a revolta urbana de 1912, que depôs o presidente Nogueira Accioly, as residências do oligarca e de todos seus aliados e colaboradores foram incendiadas, inclusive a do intendente Guilherme Rocha, que fechava a Rua Guilherme Rocha. Removidos os escombros, a rua foi aberta, ligando-se ao caminho de areia.

Em 1926 uma lei municipal denominou a continuação da Rua Guilherme Rocha, a partir da Praça Fernandes Vieira, de Avenida Demóstenes Rockert, nome de um antigo diretor da Rede de Viação Cearense, que elaborou todo o projeto para a construção da nova oficina da RVC que seria construída na via.

A oficina foi construída em terras do Sítio Santo Antônio da Floresta, doadas pelo coronel Antônio Joaquim de Carvalho, que tinha interesse em valorizar suas terras. O empreendimento ficou conhecido como “Oficina do Urubu” porque havia nas proximidades um grande aterro de lixo, que atraía muitas aves da espécie. A própria avenida era chamada informalmente de “Estrada do Urubu”. Dois anos antes da conclusão das obras, já se discutia a necessidade de uma artéria mais moderna para a região. A reivindicação foi atendida em 1931, quando o então prefeito Antônio Urbano de Almeida, inaugurou a pavimentação da avenida Demóstenes Rockert, toda em pedra. Com 2600 metros, o novo acesso unia o bairro do Jacarecanga ao Hidroporto Condor, na Barra do Ceará.

Uma das mais belas residências daquela região, foi construída em 1924, planta copiada de um imóvel de Portugal, em estilo art-nouveau, para ser a moradia de Thomaz Pompeu Sobrinho. Com 38 cômodos em quatro andares feitos com materiais importados da Europa, tinha porão habitável, salão de festas, quartos e salas com as dimensões de alguns apartamentos atuais. Atualmente abriga a Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho. 

Por essa época, já havia muitos moradores no trecho inicial da avenida, a maioria egressos do centro da cidade, que começava a ganhar ares mais comercial. Esses novos moradores ocuparam os primeiros quarteirões da Avenida Demóstenes Rockert, com residências de alto padrão e chácaras de veraneio, todas em amplos terrenos e com dois pavimentos, muitas delas, réplicas de imóveis europeus. Muitos dos casarões, dos bangalôs e das antigas construções, ainda estão lá, com outros usos, alguns conservados, a maioria não. Contam a história de uma época em que o Jacarecanga era o espaço predileto das elites de Fortaleza. 

Residência de Pedro Philomeno Gomes, na esquina das avenidas Francisco Sá e Philomeno Gomes, com suas escadarias, seus terraços e seus portões de ferro batido. depois  foi reformada e perdeu todos os detalhes decorativos. Mais tarde, foi demolida e construído no local um prédio de apartamentos.

Com a melhoria da via de acesso, vieram as indústrias, como o empreendimento de Pedro Philomeno Ferreira Gomes e das famílias Frota e Siqueira, que depois passaria a se chamar Fábrica de Tecidos São José, que se mudou para a “estrada do urubu” em 1926. Logo depois, em 1927 veio a Indústria Têxtil José Pinto do Carmo. A existência da linha férrea, responsável pelo escoamento da produção agropecuária, que atraiu estabelecimentos fabris no período da crise nas exportações de algodão, foi um dos principais atrativos para a instalação de indústrias na região; também pesou a questão dos custos logísticos, que caíam consideravelmente com um número maior de empresas localizadas no mesmo corredor comercial. Por fim, outro fator motivador,  era a abundância de mão de obra disponível naquela parte da cidade.

 Fábrica Brasil Oiticica, que instalou-se na Francisco Sá em 1934

Instalada em 1926, a Fábrica de Tecidos São José,  foi durante muitos anos a maior fabricante de redes do Brasil. A empresa possuía um parque fabril que ocupava área de 26.000 metros quadrados, empregando mais de mil operários.

Aconteceu que o número de empresas instaladas aumentou exponencialmente, e a concentração de empresas atraiu a classe trabalhadora e vários serviços para a área, mais espantou as famílias ricas para a Aldeota, Praia de Iracema e Benfica. Com o passar do tempo muitas dessas empresas se mudaram da Francisco Sá em busca de melhores condições em outras zonas industriais, como a de Maracanaú, deixando grandes áreas vazias.

Ultimamente, pouco a pouco, novos comércios e empreendimentos começaram a movimentar a região dando um novo perfil a avenida, com a instalação bancos, lojas, supermercados, farmácias, condomínios e pequenas fábricas. Em 1936, a Avenida Demóstenes Rockert, a velha "Estrada do Urubú" passou a ser chamada oficialmente de Avenida Francisco Sá.

fotos: Fortaleza em Fotos, Arquivo Nirez, IBGE, Brasiliana Fotográfica   
   

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A Inauguração e os Primeiros Tempos do Teatro José de Alencar

A inauguração do Teatro José de Alencar, em 17 de junho de 1910, foi marcada por uma programação composta de apresentações musicais e inúmeros discursos oficiais, numa festa que se estendeu por três dias seguidos. Constituiu-se, sobretudo, em ato de louvor ao presidente Antônio Pinto Nogueira Accioly, que havia chegado recentemente do sul do País.


Além dos elogios de praxe, o orador oficial pregou contra a permissividade e os vícios que os atores, artistas em geral e as artes espalham na sociedade. Em artigo posterior, publicado no "O Povo", JC Alencar Araripe, assim descreve as festividades: “ tudo fora feito de maneira a emprestar a maior importância possível à recepção do prestigioso chefe político. Formaram o Batalhão de Segurança e os alunos do Liceu, realizaram-se espetáculos de gala em todos os cinemas, os cafés foram ornamentados, bandas de música alegravam a cidade com retretas, fogos de artificio subiram ao ar em várias oportunidades, e o Palacete Guarany regurgitou com um banquete de 200 talheres. A cerimônia inaugural contou com o alto mundo oficial e o escol da sociedade. O teatro, feericamente iluminado, oferecia um espetáculo soberbo.”


O programa de inauguração foi aberto por um concerto da banda sinfônica do Quartel do Batalhão de Segurança, ao término do qual o Dr. Nogueira Accioly sentou-se a uma grande mesa, colocada no centro do palco, rodeado de seu secretariado e de algumas outras figuras da elite local. Com três golpes de martelinho na mesa, Accioly declarou inaugurado solenemente o teatro.

Como orador oficial, discursou o Dr. Júlio César da Fonseca, com algum exagero verbal: “ afinal temos um teatro, depois de tantos projetos vãmente elaborados, de tantas iniciativas perdidas e tantos tentames malogrados. Está satisfeita a necessidade que cotidianamente acentuava num relevo imperiosamente clamante.” Em seguida foi executado o Hino Nacional.

O primeiro diretor do Teatro José de Alencar foi Faustino de Albuquerque, (que mais tarde seria governador do Estado). Mas somente ao final do terceiro mês de sua gestão, o teatro receberia seu batismo de grande público, com a temporada da companhia carioca de Lucília Perez, iniciada em 23 de setembro.

Aspecto da Rua Barão do Rio Branco - antiga Rua Formosa - à época da inauguração do Theatro José de Alencar

O início de funcionamento do majestoso teatro foi de altos e baixos. Várias companhias de teatro se apresentaram no local, a maioria, com grande público na estreia, e bilheteria escassa na sequência, a exemplo da temporada inaugural, que foi bem sucedida na estreia, mas já com esvaziamento de público nas apresentações seguintes. 

Em Janeiro de 1911, “A Pérola”, comédia drama de Marcelino Mesquita, consagrado autor português, apresentada pela Companhia Francisco Santos, fez temporada no teatro. Após as primeiras apresentações, o jornal “A República”, publicou a seguinte nota: “E no entanto, as bellezas de muitas scenas d’A Pérola resistiram ao ambiente de indiferença e de frieza e a correção, o calor, a vida da representação, pozeram-se em destaque na quase solidão, que reinava no recinto do teatro”.

Outra peça apresentada, “A Tosca” de Victorien Sardou, drama de grande sucesso – segundo os jornais – trazia Maria Castro como protagonista. Com esta apresentação, a famosa atriz homenagearia seus conterrâneos mais ilustres, entre eles, Papi Junior e Hermínio Barroso. E novamente, reclama o jornal: “É  injustificável essa indiferença para com uma companhia digna de nosso franco acolhimento pelo conjunto mais ou menos harmônico do seu elenco, em que se notam artistas de real merecimento e pelo primor das peças de seu variado repertório. Camarotes inteiramente vazios, frisas em sua quase totalidade abandonados, occupadas algumas dezenas de cadeiras da primeira ordem e poucas da segunda – tal era o aspecto do Theatro José de Alencar, em a noite hontem”.

Sucedem-se temporadas de peças apresentadas, com larga vantagem, por companhias de fora do Estado, algumas das quais de operetas, como a da atriz espanhola Dolores Rentini. O público, porém, continuava retraído, e as peças começaram a rarear. O insucesso era tanto, que o teatro foi forçado a fechar as portas.

Maestro Henrique Jorge com a mulher e a filha no Passeio Público. Foi um dos regentes da orquestra do Batalhão de Segurança no concerto de inauguração do teatro, e mais tarde, um dos seus diretores 

Em 1915, o maestro Henrique Jorge, então diretor do teatro, queixava-se: “a receita tem sido quase nulla, o que se explica pelo facto de ser o theatro pouco procurado para o fim a que se destina, isto, em grande parte devido aos inconvenientes acima apontados.” Os tais inconvenientes resumiam-se praticamente a um: o extremo calor que fazia no interior do teatro, devido à iluminação carbônica local, sem abertura que permitisse a circulação de ar. Além disso, o primeiro regulamento do TJA, declaradamente repressivo,  aconselhava terno e gravata para os homens, bem como traje de gala para as mulheres. O mesmo regulamento impunha a presença de três inspetores, que em comissão, censuravam textos e proibiam gestos indecorosos, além de qualquer expressão de desrespeito à moral vigente, a seus juízos.


Nesse período, os frequentadores do teatro se distribuíam desigualmente na plateia. Enquanto a elite, com seus trajes vistosos, ocupavam os camarotes, estudantes e pequenos empregados do comércio apinhavam-se nas gerais, depois chamadas torrinhas, onde as moças não deviam frequentar. Para todos havia regras rigorosas de comportamento, que incluíam desde a proibição do uso de chapéus (para não atrapalhar a visão dos demais), passando por horários precisos para o início e o término dos espetáculos, e até multas e prisões para os atores que se recusassem a representar.

Ainda em 1915, em razão da quase ausência de programação, o teatro passou dois anos de portas fechadas, tendo como principal motivo, a questão do desconforto causado pelo calor excessivo gerado pelos combustores de gás carbureto usados na iluminação. Daí o teatro passou pela sua primeira reforma, acontecida em 1918, durante o governo de João Thomé de Saboia, que mandou instalar iluminação elétrica, substituiu o asfalto do pátio interno por ladrilhos, abriu portas laterais na plateia e consertou o telhado. 

Enquanto isso, Carlos Câmara enchia, nos fins de semana, o seu teatro improvisado do Grêmio Dramático Familiar, no bairro Joaquim Távora.

Fonte:
Theatro José de Alencar – O Teatro e a Cidade 
Coordenação Editorial – Patrícia Veloso 
fotos do arquivo Nirez e do livro O Teatro e a Cidade