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domingo, 10 de agosto de 2025

Oficinas da rede de Viação Cearense – Oficinas do Urubu

 

A chegada do trem e da Estação da Estrada de Ferro Baturité representou um grande progresso para a cidade provinciana que era Fortaleza. E veio aos poucos, primeiro, uma estação improvisada, um percurso que foi sendo ampliado à medida que aumentavam os recursos financeiros e a demanda pelo transporte.

Estação João Felipe, na Praça Castro Carrera, Centro

Em 1925, já em poder da Rede de Viação Cearense, a rede ferroviária iniciou a construção de sua oficina, com projeto do engenheiro Emílio Henrique Baumgart. Era um projeto grandioso, composto de oficinas de montagem e reparação de locomotivas, reparação de carros e vagões, pintura de carros e vagões, fundição, ferraria, casa de força (termoelétrica), almoxarifado e administração. O projeto previa 12 pontes rolantes, formando um conjunto harmônico em 16 mil metros quadrados de área edificada com concreto armado

As novas oficinas da Rede Viação Cearense (RVC) foram inauguradas em 04 de outubro de 1930. O espaço estava apto para atender 125 locomotivas e 1200 carros de passageiros e carga. Foi considerada a oficina ferroviária mais completa do país, admirada por muitos como uma obra prima da engenharia nacional. Foi construída em terras do Sítio Santo Antônio da Floresta, doadas pelo coronel Antônio Joaquim de Carvalho, que tinha interesse em valorizar suas terras. O empreendimento ficou conhecido como “Oficina do Urubu” porque havia nas proximidades um grande aterro de lixo, que atraía muitas aves da espécie. A própria avenida era chamada informalmente de “Estrada do Urubu”, atualmente chama-se Avenida Francisco Sá.



Oficina do Urubu

Ao mesmo tempo que construía novas locomotivas e fazia manutenção em máquinas e equipamentos utilizados no funcionamento das locomotivas, as Oficinas do Urubu passaram a funcionar como centro de treinamento e habilitação de trabalhadores e espaço de formação de alunos aprendizes do SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial).

O Ensino profissional e Industrial foi instituído em 1937, pela Constituição promulgada no governo Getúlio Vargas, que definiu que as indústrias e os sindicatos econômicos deveriam criar escolas de aprendizes na esfera da sua especialidade. No Ceará, o nascimento do SENAI está ligado ao Centro Ferroviário de Ensino e Seleção Profissional de São Paulo. Dessa relação foi criada a Escola Profissional de Fortaleza, que tinha como diretor Antonio Urbano de Almeida, chefe das oficinas do Urubu, nomeado em 1943 administrador do SENAI Ceará. Em 1944, foi firmado plano entre a RVC e o SENAI para oferecimento de diversos cursos que foram ministrados nas oficinas da RVC.


oficina do Urubu

Assim, a nova oficina era local de trabalho, manutenção e construção das locomotivas, e espaço de formação dos aprendizes e alunos do curso do SENAI. A preocupação com a formação dos trabalhadores incluía como pano de fundo a necessidade de mão de obra qualificada para atender à crescente demanda da indústria nacional por operários, que além dos conhecimentos básicos precisavam deter, sobretudo, os conhecimentos técnicos para operar, consertar e fabricar o maquinário presente nas empresas.

Em 1951 denominou-se este complexo de Demostenes Rockert. A Rede de Viação Cearense (RVC) foi extinta em 1975, quando foi transformada em 2ª Divisão Cearense pela Rede Ferroviária Federal (RFFSA), que a havia incorporado em 1957. A RFFSA, por sua vez, foi extinta em 2007. Atualmente as antigas Oficinas do Urubu fazem parte da Ferrovia TransnordestinaFica na Avenida Francisco Sá, 4289. 


 Fontes:

https://www.even3.com.br/anais/arte_patrimonio_industrial/220714-a-oficina-do-urubu-e-o-ensino-ferroviario--o-papel-do-senai-na-formacao-do-trabalhador-fortalezace-1928-1944/

LASTROS DE UM PASSADO INDUSTRIAL E FERROVIÁRIO EM FORTALEZA: O

PATRIMÔNIO CULTURAL EDIFICADO DAS “OFICINAS DO URUBU” TAINAH RODRIGUES FAÇANHA

file:///C:/Users/mfati/Downloads/2022_dis_trfa%C3%A7anha%20(1).pdf

https://mapacultural.secult.ce.gov.br/files/agent/27027/hist%C3%B3rico_do_museu_ferrovi%C3%A1rio_do_cear%C3%A1.pdf

https://www.ceara.gov.br/2024/01/07/museu-ferroviario-estacao-joao-felipe-e-destino-obrigatorio-para-conhecer-a-formacao-do-ceara/

Fotos Museu Ferroviário

 

terça-feira, 22 de julho de 2025

A Criação do bairro Pirambu

 

O Pirambu está localizado no litoral oeste da cidade.  No passado, finais do séc. XIX, a região do Pirambu, era uma vasta zona de praia, formada por dunas, areias alvíssimas, algumas lagoas e um ou outro casebre de pescadores, que preferiam habitar a região do Mucuripe ou da Praia de Iracema.




A área começou a ser ocupada a partir de emigrantes que fugiam das secas, que periodicamente assolavam as cidades do interior do Estado,  e das calamidades que as estiagens traziam, fome, miséria, doenças, desemprego. Os governantes ficaram alerta pelos problemas que precisaram enfrentar em estiagens anteriores, decorrentes do aumento súbito da população, carente e faminta, e pensaram numa solução para situações vindouras: Os Campos de Concentração.

Os retirantes da seca de 1932, que chegaram nos trens, foram isolados num dos tais espaços; cerca de 1800 pessoas ficaram no lugar hoje conhecido por Pirambu. Depois que passou o período crítico da seca, muitos voltaram para seu lugar de origem, e muitos ficaram em Fortaleza, no Pirambu. Os que desistiram de voltar construíram barracos, conseguiram trabalho nas fábricas que se instalaram ao longo da Avenida Francisco Sá e na rede ferroviária, nas oficinas do urubu. A vizinhança de poder aquisitivo reduzido, incomodou os ricos moradores do Jacarecanga, que iniciaram busca por novos locais de moradia. 



As dunas foram ocupadas, as lagoas foram aterradas, os moradores se multiplicaram e o Pirambu se firmou como a maior favela de Fortaleza. O lugar não tinha nenhuma urbanização nem contava com infraestrutura, os terrenos tinham preços mais em conta para as famílias de migrantes. Haviam os que em muitas oportunidades os ocupavam clandestinamente, daí o crescimento irregular, com a propagação de lotes de tamanhos irregulares, casas modestas e favelas, becos e ruas estreitas, tortuosas e sem saída, e inexistência de espaços públicos e áreas de lazer. O bairro foi criado em 1932.  

Os ocupantes do Pirambu já contavam em torno de 5 mil pessoas, quando apareceram duas famílias alegando que eram donas da área, os Braga Torres e os Carvalho. Pressionavam os moradores para que desocupassem as terras ou vendessem os terrenos. Sentindo-se ameaçados, os moradores começaram a se organizar, a se reunir. Mas não tinham uma liderança, não queriam interferência política e não chegavam a um acordo sobre o que fazer.

Então convidaram o padre Hélio Campos, que havia pouco tempo tinha se formado capelão da Marinha, e atuava na Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes. Corria o ano de 1958, quando descobriram que nem os Braga Torres e nem os Carvalho eram donos da área. E sob a liderança do padre, iniciaram um movimento pela manutenção da posse da terra, pela melhoria das condições sociais e de moradia e contra novas ameaças de expulsão. Por força do decreto nº 1058, de 25 de maio de 1962, que declara tais terras de utilidade pública para execução de plano habitacional em favor dos seus moradores, hoje, os terrenos são considerados de propriedade comunitária.


Com o aumento da ocupação da área, o Pirambu foi dividido em vários bairros, embora a região situada entre o bairro Moura Brasil e a Barra do Ceará continue sendo conhecido como o “Grande Pirambu”. Vários projetos, associações e ONG's atuam na área do Grande Pirambu, na busca de melhorar a qualidade de vida dos moradores, equacionar problemas estruturais e dessa forma, mudar a história daquela região, contada por anos e anos de pobreza, preconceito e exclusão social. De acordo com o IBGE (Censo de 2022), o Pirambu abriga a maior favela do Ceará.   


Consultados: 

https://www.ebc.com.br/especiais-agua/campos-de-concentracao

Verso e reverso do perfil urbano de Fortaleza, de Gisafran Nazareno Mota Jucá. 

Fotos G1/Jornal Diário do Nordeste/IBGE/


segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

As Ruas e Avenidas que Mudaram de Nome

Ultrapassado o estágio inicial do seu povoamento, quando Fortaleza ainda era uma  de vila de índios e alguns colonos, invadida por soldados holandeses e portugueses e cortada por riachos de águas límpidos, os nomes de travessas, ruelas e becos eram dados pelos moradores, de acordo com algum referencial que o lugar oferecia: assim, tivemos o Beco da Apertada Hora, supostamente utilizado nos apertos fisiológicos; o Beco das Almas, a Travessa da Municipalidade, da Misericórdia, a rua de Baixo, de Cima, da Direita, do Quartel, da Cacimba, do Gasômetro. 

 

Rua Major Facundo, início do século XX (original p&b do Arquivo Nirez)
    

Com o passar do tempo, os logradouros foram sendo disciplinados. A partir de 1800 a cidade já contava com um arruador, mas o disciplinamento começou realmente a partir de 1812, com a chegada do governador Sampaio que trouxe a Fortaleza, o tenente coronel de engenheiros Silva Paulet, que elaborou a “Planta do Porto e Villa da Fortaleza”, em 1813.

Com o crescimento e a consequente urbanização, ruas foram alinhadas, becos foram eliminados, as calçadas demarcadas e a identificação dos logradouros ganhou ares de modernidade, a identificação pela funcionalidade virou coisa do passado. Assim, muitas vias tiveram seus nomes modificados, algumas delas, várias vezes. As ruas e avenidas aqui citadas, estão entre os logradouros mais antigos de Fortaleza, motivo pelo qual não registram modificações recentes.

Apesar disso mudança de nomes de vias públicas, é coisa corriqueira em nossa cidade. A prática cria transtornos reais, não só aos moradores, que de repente, mudam de endereço sem sair do lugar, mas também aos prestadores de serviço que dependem de informações exatas, para bom desempenho de suas tarefas, como os motoristas de aplicativos, os estabelecimentos que atuam no sistema de entregas, e os funcionários do Correio. Vejam como se chamaram antes algumas avenidas e ruas de Fortaleza.



Avenida Bezerra de Menezes – antiga Rua do Alagadiço; (Teófilo Rufino Bezerra de Menezes, advogado, professor do Liceu, deputado provincial e jornalista, natural de Fortaleza)

Duque de Caxias – antigos Boulevard do Livramento e Travessa nº 1 (Luís Alves de Lima e Silva – o Duque de Caxias, Patrono do Exército Brasileiro, nascido no Rio de Janeiro). 

Dom Luís – antiga rua Farias Brito (Luís Antônio dos Santos – primeiro bispo do Ceará, nascido no Rio de Janeiro) 

Francisco Sá –  antiga Estrada do Urubu, avenida Demóstenes Rockert, avenida 6 de Julho; (Francisco Sá, Senador da República, Ministro de Estado, natural de Minas Gerais). 

Santos Dumont – antiga Rua do Colégio, Gustavo Sampaio, Boulevard Nogueira Accioly e Travessa 9-A; (Alberto Santos Dumont, o “Pai da Aviação”. Nasceu em Minas Gerais).

Tristão Gonçalves – Rua da Lagoinha, 14 de Maio, Trilho de Ferro; (Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, famoso pelas lutas da independência no Ceará, revolucionário da Confederação do Equador. Nascido no Crato, Ceará). 



Almirante Tamandaré - antiga rua Três de Outubro, Avenida Epitácio Pessoa e Atlântica; (Joaquim Marques Lisboa, Visconde de Tamandaré, Patrono da Marinha do Brasil, nascido no Rio Grande do Sul). 

Visconde do Rio Branco – antiga rua Joaquim Távora, Estrada de Messejana, Calçamento de Messejana e Rua 13; (José Maria da Silva Paranhos, conselheiro do Império, natural de Salvador, BA) 


Avenida da Universidade – antigo Boulevard Visconde de Cauípe, Rua do Benfica (nome antigo em homenagem a Severiano Ribeiro da Cunha, comendador e visconde , nascido em Caucaia, CE); nome atual em homenagem à universidade Federal).

Senador Virgílio Távora – antiga Avenida Estados Unidos; (Virgílio de Morais Fernandes Távora, político e militar, ex-governador do Ceará, natural d Jaguaribe – CE).

Historiador Raimundo Girão – antiga avenida Aquidabã (Raimundo Girão, escritor, político, historiador, ex-prefeito de Fortaleza, natural de Morada Nova, CE).

Avenida Domingos Olímpio – antiga Travessa dos Coelhos, Travessa nº 8. (Domingos Olímpio Braga Cavalcante, jornalista, cronista e romancista, nascido em Sobral, autor do romance "Luzia Homem", dentre outros).

Avenida Gomes de Matos – antiga Estrada do Gado, Boulevard 14 de Julho. (Raimundo Gomes de Matos, jurista e professor cearense nascido no Crato). 


Avenida Beira Mar

Avenida Beira Mar – antiga Avenida dos Jangadeiros, Getúlio Vargas, e Presidente Kennedy. 

As Ruas e seus nomes Antigos 

Adolfo Caminha – antiga Pessoa Anta; (Adolfo Ferreira Caminha, romancista, autor dentre outras obras, do famoso “A Normalista”. Natural de Aracati – CE.). 

Adolfo Herbster – antiga Rua Paraíba; (Adolfo Herbster era Pernambucano de nascimento, engenheiro, arquiteto, responsável pela urbanização e pelo desenho de ruas e avenidas de Fortaleza). 

Antônio Augusto – antiga Rua Monte Flor; (Antônio Augusto de Vasconcelos foi catedrático e um dos fundadores da Faculdade de Direito do Ceará. Natural de Maranguape).

Barão de Aracati – antiga Rua do Aracati; (José Pereira da Graça, Barão de Aracati, nascido em Fortaleza. Magistrado, deputado geral e provincial, membro do Supremo Tribunal de Justiça. Foi presidente da Província do Maranhão). 


Rua João Brígido

João Brígido – antiga Rua da Assunção, da Bomba, Conselheiro Liberato Barroso (João Brígido dos Santos foi a figura mais representativa do jornalismo de combate no Ceará; deputado provincial e geral; historiador e cronista. Natural de São João da Barra, RJ). 

Rua Justiniano de Serpa – antiga Estrada do Gado; (Justiniano de Serpa, jurisconsulto, parlamentar, orador. Deputado Federal pelo Ceará e pelo Pará. Presidente do Ceará entre 1920 e 1924, faleceu antes de completar o mandato. Nasceu em Aquiraz, CE). 

Dom Jerônimo – antigas Rua Alto Alegre e Major Rangel (Jerônimo Tomé da Silva, natural de Sobral, era doutor em filosofia e teologia. Bispo do Pará e Arcebispo Primaz do Brasil). 

José Avelino – antigas Ruas do Chafariz, Singlehurst, General Mesquita e Travessa19-B; (José Avelino Gurgel do Amaral, jornalista, advogado, deputado federal e poligrafo. Cearense de Aracati).

Marechal Deodoro – antiga Rua da Cachorra Magra; (Manuel Deodoro da Fonseca, líder da Proclamação da República, primeiro presidente republicano, nascido em Alagoas).

Pedro Borges – antiga Rua do Cajueiro e Travessa 7-B; (Pedro Augusto Borges, médico do Exército, deputado federal, senador e presidente do Ceará no período de 1900 a 1904. Natural de Fortaleza). 

Senador Alencar – antiga Rua das Hortas e Travessa nº 13; (Padre José Martiniano de Alencar, nascido em Barbalha, então Distrito do Crato-CE. Senador do Império, pai do escritor José de Alencar).
 

Rua Dr. João Moreira esquina com Barão do Rio Branco (Anuário do Ceará)

Dr. João Moreira – antiga Rua Nova da Fortaleza, Travessa do Quartel, da Misericórdia, General Tibúrcio e Travessa nº 17; (João da Rocha Moreira, natural de Fortaleza. Médico da Santa Casa de Misericórdia, Professor do Liceu e Inspetor de Saúde). 

Gustavo Sampaio – antiga Rua da Aratanha; (Gustavo Sampaio nasceu em Baturité. Tenente do Exército, morreu lutando na Revolta da Armada, em 1893). 

Conselheiro Tristão – antiga Rua da Cruz e Rua nº 16; (Tristão de Alencar Araripe, conselheiro do Estado, Ministro do Supremo Tribunal de Justiça, Ministro de Estado, historiador e jurisconsulto. Presidiu as províncias do Rio Grande do Sul e do Pará. Natural de Icó, CE).


Rua Clarindo de Queiroz (Arquivo Nirez)

Clarindo de Queiroz – Antiga Rua do Livramento e Travessa nº 2 ; (José Clarindo de Queiroz, presidente das províncias do Amazonas e do Ceará. Natural de Fortaleza, foi deposto do Governo do Ceará em 1892). 

Padre Francisco Pinto – antiga Rua N. S. dos Remédios (Francisco Pinto, natural dos Açores, era um padre jesuíta que veio para o Ceará em 1607, em companhia de Luís Figueira, em missão de colonização. Foi atacado e sacrificado pelos índios Tacarijus). 


Rua Dona Isabel (Arquivo Nirez)

Rua Princesa Isabel – antiga Rua Santa Isabel e Dona Isabel (Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bourbon-Duas Sicílias e Bragança, foi a segunda filha, a primeira menina, do imperador Pedro II. Na qualidade de regente assinou a Lei Áurea que aboliu a escravatura no Brasil em 13 de maio de 1888. A Princesa Isabel nasceu no Rio de Janeiro) 


Fontes: 
Coisas que o Tempo Levou – crônicas históricas da Fortaleza antiga, de Raimundo de Menezes
Guia Turístico da Cidade – Prefeitura Municipal de Fortaleza – 1961
Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão
Fotos: Fortaleza em Fotos, Google

quinta-feira, 23 de abril de 2020

O Dia que o Pirambu marchou sobre a cidade


O Pirambu está localizado no litoral oeste de Fortaleza. Sua origem remonta ao final do Séc. XIX, quando a capital recebeu levas de flagelados que fugiam das secas que assolavam o interior do estado. A população indigente foi se alojando em barracos, em terrenos próximos à ferrovia, à zona de praia, no alto das dunas e às margens dos rios, áreas desprezadas pelos grupos sociais de maior poder aquisitivo.

Rua do Pirambu - imagem Fortaleza em Fotos - 2011

Apesar de pequenos, esses aglomerados começaram a se tornar visíveis a partir da década de 1930, quando começaram a chamar atenção por se tratar de locais de extrema pobreza, moradias precárias, alta insalubridade e altos índices de violência. O fato relevante que contribuiu para rápido crescimento da região, foi a chegada de centenas de retirantes, provenientes de várias localidades do interior do Estado, afetados pela seca de 1932. O Pirambu, juntamente com o Arraial Moura Brasil, constituía os dois bairros mais pobres da cidade, espremidos entre a linha férrea e a região de praia.

Nessa época já existiam na Avenida Francisco Sá, (com a denominação oficial de Avenida Demóstenes Rockert, popularmente conhecida como Estrada do Urubu até 1936), nas proximidades do Pirambu, diversas indústrias instaladas, como o empreendimento de Pedro Philomeno Gomes a Fábrica de Tecidos São José, que se mudou para a estrada do urubu” em 1926. Logo depois, em 1927, viria a Indústria Têxtil José Pinto do Carmo, e em 1934, a Brasil Oiticica. Além dessas, havia dezenas de pequenos estabelecimentos. A concentração de empresas atraiu a classe trabalhadora.

Avenida Demóstenes Rockert em 1927. A partir de 1936 foi pavimentada e recebeu a denominação de Avenida Francisco Sá. Foto Relatório da PMF

Nas empresas, os operários tiveram contato e passaram a receber orientação de sindicatos e do Partido Comunista do Brasil, com forte influência na zona oeste da cidade. E o Pirambu foi à luta. Desde 1948 possuía uma sociedade feminina constituída para lutar contra a ameaça de expulsão dos moradores do bairro e a favor de melhorias urbanas. A maioria dos habitantes tinham seus casebres localizados em terrenos de marinha.

As pessoas vinham em sua maioria do interior, e com a interferência do comandante da Capitania dos Portos, que ficava no edifício da Marinha, ou do capelão, que as avaliavam, as famílias eram enviadas para a hospedaria que ficava na Rua Olavo Bilac (hospedaria Getúlio Vargas). Havia uma comunicação entre hóspedes e moradores do Pirambu, e os migrantes iam deixando a hospedaria, à medida que conseguiam um terreno para se estabelecer na comunidade.

imagem: O Semanário (RJ)

O bairro não tinha nenhuma urbanização nem contava com infraestrutura, os terrenos tinham preços mais em conta para as massas, que em muitas oportunidades os ocupavam clandestinamente, daí o crescimento irregular, com a propagação de lotes de tamanhos irregulares, casas modestas e favelas, becos e ruas estreitas, tortuosas e sem saída, inexistência de espaços públicos e áreas de lazer.

Os ocupantes do Pirambu já contavam em torno de 5 mil pessoas, quando apareceram duas famílias alegando que eram donas da área, os Braga Torres e os Carvalho. Pressionavam os moradores para que desocupassem as terras ou vendessem os terrenos. Sentindo-se ameaçados, os moradores começaram a se organizar, a se reunir. Mas não tinham uma liderança, não queriam interferência política e não chegavam a um acordo sobre o que fazer.

Daí, convidaram o padre Hélio Campos, que havia pouco tempo tinha se formado capelão da Marinha, e atuava na Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes. Corria o ano de 1958. Descobriram que os Braga Torres e os Carvalho não eram donos da área. E sob a liderança do padre, iniciaram um movimento pela manutenção da posse da terra, pela melhoria das condições sociais e de moradia e contra novas ameaças de expulsão.


A presença do padre deu uma nova dinâmica e fortaleceu o movimento comunitário e desestruturou o trabalho de conscientização política que o Partido Comunista vinha desenvolvendo junto aos moradores do Pirambu. O motivo é que a Igreja era uma instituição anticomunista. A maior prova foi evidenciada na própria marcha, quando os operários ligados ao Partido Comunista foram absorvidos pela ação do Padre Hélio, que deu ao movimento um caráter cristão, baseado nos princípios da doutrina social cristã.

A marcha organizada pelos moradores do Pirambu foi divulgada com reservas pela imprensa local, principalmente quando o padre Hélio Campos afirmou que a mesma era uma advertência aos poderosos do Estado. O movimento se concretizou no dia 2 de janeiro de 1962, quando a população, após a celebração de uma missa no pátio da Casa Paroquial, saiu em caminhando pelas ruas de Fortaleza.

A maioria foi a pé, mas havia ônibus e carroças. Uma multidão incalculável, portando faixas, cartazes e gritando palavras de ordem, seguiu em direção ao centro, onde os manifestantes, de forma pacífica, passaram a ocupar a Praça da Sé. 


A Praça da Sé nos anos 40 e a Catedral inconclusa dos anos 50 
 imagens Anuário do Ceará

Foram primeiro ao Palácio do Bispo, onde foram recebidos por Dom Antônio de Almeida Lustosa; depois desceram para o Palácio da Luz, na Praça General Tibúrcio onde uma comissão, inclusive o Padre Hélio, foi recebida pelo governador Parsifal Barroso. A grande aglomeração de pessoas assustou os comerciantes do Centro, que fecharam as portas. Mas a situação se acalmou diante da garantia de Padre Hélio de que se tratava de um movimento pacífico e ordeiro. 

Oito dias depois da marcha, uma comitiva da qual Padre Hélio era parte, foi a Brasília discutir a questão da desapropriação das terras da região do Pirambu. Lá descobriram que o Pirambu não estava em terreno de marinha. A área que ia da Rua Jacinto de Matos até a Rua Francisco Calaça foi desapropriada. Nos terrenos que se seguiam não foi possível a desapropriação porque tinha terreno particular, da Prefeitura, do governo Estadual e Federal e até da Igreja.

Por força do decreto nº 1058, de 25 de maio de 1962, que declara tais terras de utilidade pública para execução de plano habitacional em favor dos seus moradores, hoje, os terrenos são considerados de propriedade comunitária.

Rua do Pirambu - imagem Tarcísio Garcia 2018

Embora tenha conseguido a posse das terras, povo do Pirambu acabou perdendo uma de suas mais expressivas lideranças. Pois, após os acontecimentos decorrentes do Golpe Militar de 1964, os movimentos populares foram desarticulados e suas lideranças presas ou exiladas. A Igreja e as forças da repressão trataram rapidamente da transferência do padre Hélio Campos para o Estado do Maranhão, e o Pirambu foi dividido em duas paróquias: Nossa Senhora das Graças e Cristo Redentor, originando, então dois bairros.

Orla marítima do Pirambu - imagem Fortaleza em Fotos - 2011

De acordo com dados do IBGE, com base no Censo Demográfico 2010, o Pirambu é o maior aglomerado urbano do Estado. O bairro é também o 7º colocado em densidade populacional do país, com um total de 42.878 habitantes. A falta de esgotamento sanitário é o principal problema da comunidade, onde 19% da população não tem acesso ao serviço. A coleta de lixo é deficitária, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDHM), de apenas 0,391, e está entre os 10 piores dos bairros da capital cearense. Também são baixos os níveis de escolaridade (0,293) e de renda média em salários mínimos do chefe da família (0,062).

Decorridos 58 anos da histórica marcha, o Pirambu ainda apresenta o maior número de moradores vivendo em áreas de risco, em habitações sujeitas à ação do homem ou da natureza. Nas favelas que ocupam a faixa de praia, as famílias estão expostas ao avanço da maré, deslizamentos de encostas e outras questões de insegurança.


Fontes:



As lutas no Pirambu e por um poder que venha do povo. Jornal O Povo

A ESCOLARIZAÇÃO DA ALMA: A EDUCAÇÃO POPULAR CRISTÃ, NO CEARÁ, ENTRE AS DÉCADAS DE 1950 E 1960, de Lídia Eugenia Cavalcante* Universidade Federal do Ceará

Pirambu é bairro mais populoso do Estado Disponível em < https://lidesealgomais.wordpress.com/2012/04/24/pirambu-e-bairro-mais-populoso-do-ceara/>




quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Jacarecanga e Benfica – Os Primeiros bairros elegantes de Fortaleza


Na Fortaleza de hoje temos os bairros do Meireles, Aldeota e alguns emergentes como Cocó, Guararapes e Lourdes como os mais valorizados e consequentemente, os mais elegantes da cidade, já que esse atributo – elegância – sempre esteve ligado, primordialmente, ao poder aquisitivo dos moradores e ao alto padrão das edificações.
Mas no início do Século XX, outros bairros detiveram esse status de “mais elegantes”, levando em conta os mesmos parâmetros usados hoje.



fotos Fortaleza em Fotos

Tudo começou quando o Centro da cidade, então local de moradia das classes mais abastadas, se afirmava como núcleo comercial e administrativo, e as elites elegeram novos espaços para construírem suas residências. Essa dinâmica foi possível graças ao surgimento do automóvel como meio de transporte daquele segmento da sociedade, que facilitou a mobilidade e possibilitou o surgimento dos dois primeiros bairros elegantes de Fortaleza: O Jacarecanga e o Benfica.

O Jacarecanga localizado na zona Oeste da cidade, próximo à área central, nasceu nas proximidades do riacho do mesmo nome, onde se aglutinaram em sobrados, os representantes das elites comercial e agrária, tornando-se um local privilegiado, com mansões e chácaras com plantas e fachadas copiadas de revistas e publicações especializadas europeias.  A partir do cruzamento com a Avenida Imperador, a Travessa Municipal formava um corredor diferenciado pelo seu conjunto de luxuosas residências. Era o início do bairro. A continuação da Travessa Municipal, depois Rua Guilherme Rocha é a atual Avenida Francisco Sá, antiga Avenida Demóstenes Rockert  


Uma das mais suntuosas residências do Jacarecanga, foi construída em 1924, planta copiada de um imóvel de Portugal, em estilo art-nouveau, para moradia de Thomaz Pompeu Sobrinho. Tem 38 cômodos em quatro andares feitos com materiais importados da Europa. Tem porão habitável, salão de festas, quartos e salas com as dimensões de alguns apartamentos atuais. imagem Fortaleza em Fotos

Na Avenida Philomeno Gomes ainda resiste a residência da família do advogado Raimundo Pinheiro de Melo. Construída em 1920, é cópia de uma casa da Normandia, obtida de uma revista francesa. A casa continua praticamente inalterada, exceto o alto muro de proteção que hoje ostenta. A outra casa visível, uma mansão de três andares, era a moradia do empresário do ramo de transportes, Oscar Pedreira. Foto Arquivo Nirez

Na Rua Guilherme Rocha,1055, erguia-se um dos mais importantes símbolos dos tempos de fausto do Jacarecanga: a Itapuca Villa. Cercada por imenso jardim, com gradis artísticos, a vila foi erguida com dois pavimentos, copiados das construções inglesas, na Índia. A edificação tinha um vistoso trabalho em madeira: na parte superior existiam imensas varandas com circulação livre. Na edição de O Povo, de 11/11/1989, era noticiada a demolição do imóvel que se encontrava em ruínas. A Itapuca Villa pertencia ao comerciante Alfredo da Rocha Salgado
 Imagem: óleo sobre tela do artista plástico Tarcísio Garcia

na esquina da Praça Gustavo Barroso (Praça do Liceu) com a Avenida Philomeno Gomes, ficava a casa da família do advogado e professor Luiz Moraes Correia e Dona Esmerina. Depois que a família deixou o imóvel funcionou no local uma repartição pública.  Suas duas fachadas de ornamentos, sacadas e escadas, com tantos elementos decorativos não foram respeitadas pelas picaretas do progresso: a casa foi demolida para construção de um galpão. Foto Arquivo Nirez

Hoje, a maioria das residências construídas no período do apogeu, foi demolida,  descaracterizada ou se encontra em precário estado de conservação. O Jacarecanga perdeu sua condição de área nobre a partir de meados do século passado, quando a sua avenida principal, a Avenida Francisco Sá, começou a ser ocupada por uma série de indústrias de transformação e com a instalação do ramal ferroviário e das oficinas da Rede Viação Cearense. Os novos equipamentos atraíram vizinhos de menor poder aquisitivo, que se alojaram em vilas operárias ou ocuparam irregularmente as terras situadas entre a principal avenida do bairro e a zona litorânea, dando origem ao que viria ser a maior favela de Fortaleza, o Pirambu.


Imóvel na Avenida Francisco Sá (imagem Fortaleza em Fotos)

Quase que ao mesmo tempo em que o Jacarecanga se firmava como bairro dos ricos, o Benfica, bem mais distante do centro, também passou a ser cobiçado pelos que desejavam fugir do então agitado centro de Fortaleza. Antes da formação do bairro, o local era conhecido por sitio Benfica,  localizado na Estrada de Arronches, fora dos limites urbanos de Fortaleza. Começou a ser valorizado quando uma epidemia de cólera-morbus assolou a cidade. Devido a distância do núcleo urbano, as terras do sítio foram consideradas aptas para resolver o problema de abastecimento de água, por estarem distantes de qualquer foco de contaminação dos cemitérios e por contar com inúmeras fontes de águas limpas.

Igreja dos Remédios foto Arquivo Nirez

Em 1878, com o Benfica ainda com uma ocupação insipiente, foi iniciada a construção da primeira igreja do lugar, a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Mas quem verdadeiramente iniciou o processo de ocupação e desenvolvimento do Benfica foi o banqueiro e empresário José Gentil Alves de Carvalho, que em 1909, adquiriu de João Antônio Garcia, uma chácara localizada na Avenida Visconde de Cauípe (atual Avenida da Universidade), que remodelada em 1918, perdeu as feições rurais e virou palacete.



Casal José Gentil e Dona Melinha com seus 15 filhos em frente a casa antiga da chácara - 1909
e o Palacete de 1918, atualmente ocupado pela reitoria da UFC, proprietária do imóvel.  Fotos Arquivo Nirez 

Em torno da construção principal, José Gentil loteou terrenos e construiu uma vila moderna e aprazível, amplamente arborizada, com residências dotadas de esgoto e água encanada, que recebeu o nome de Gentilândia. Boa parte das construções do Benfica e da Gentilândia viriam a ser incorporadas ao patrimônio da Universidade Federal do Ceará.


Antigo prédio do Colégio Santa Cecília, na Avenida da Universidade, que foi adquirido e demolido pela UFC - acervo do MAUC

Na década de 1950, quando as famílias mais ricas estavam de mudança para a zona leste da cidade, e os imóveis estavam sendo colocados à venda, o palacete da família Gentil foi adquirido pela Universidade Federal do Ceará, que havia sido criada em dezembro de 1954, e estava se instalando em Fortaleza. Depois da aquisição do casarão dos Gentis, a Universidade comprou vários outros imóveis ao longo da principal avenida.


Rua N. S. dos Remédios - imagem Fortaleza em Fotos

A chegada da Universidade ao Benfica em 1956, repercutiu sobre o espaço físico natural e construído do bairro. Muitos imóveis de belíssimas arquiteturas que poderiam ter sido preservados, não o foram, e muitas árvores foram abatidas, inclusive para  construção da Concha Acústica, inaugurada em 1959. 


Fontes:
Lira Neto. História Urbana e Imobiliária de Fortaleza: uma biografia sintética/Lira Neto, Cláudia Albuquerque – 1ª ed. – São Paulo: Editora Braba, 2014.
Revista Universidade Pública ano 8 n° 45 – Set/Out 2008.