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terça-feira, 22 de julho de 2025

A Criação do bairro Pirambu

 

O Pirambu está localizado no litoral oeste da cidade.  No passado, finais do séc. XIX, a região do Pirambu, era uma vasta zona de praia, formada por dunas, areias alvíssimas, algumas lagoas e um ou outro casebre de pescadores, que preferiam habitar a região do Mucuripe ou da Praia de Iracema.




A área começou a ser ocupada a partir de emigrantes que fugiam das secas, que periodicamente assolavam as cidades do interior do Estado,  e das calamidades que as estiagens traziam, fome, miséria, doenças, desemprego. Os governantes ficaram alerta pelos problemas que precisaram enfrentar em estiagens anteriores, decorrentes do aumento súbito da população, carente e faminta, e pensaram numa solução para situações vindouras: Os Campos de Concentração.

Os retirantes da seca de 1932, que chegaram nos trens, foram isolados num dos tais espaços; cerca de 1800 pessoas ficaram no lugar hoje conhecido por Pirambu. Depois que passou o período crítico da seca, muitos voltaram para seu lugar de origem, e muitos ficaram em Fortaleza, no Pirambu. Os que desistiram de voltar construíram barracos, conseguiram trabalho nas fábricas que se instalaram ao longo da Avenida Francisco Sá e na rede ferroviária, nas oficinas do urubu. A vizinhança de poder aquisitivo reduzido, incomodou os ricos moradores do Jacarecanga, que iniciaram busca por novos locais de moradia. 



As dunas foram ocupadas, as lagoas foram aterradas, os moradores se multiplicaram e o Pirambu se firmou como a maior favela de Fortaleza. O lugar não tinha nenhuma urbanização nem contava com infraestrutura, os terrenos tinham preços mais em conta para as famílias de migrantes. Haviam os que em muitas oportunidades os ocupavam clandestinamente, daí o crescimento irregular, com a propagação de lotes de tamanhos irregulares, casas modestas e favelas, becos e ruas estreitas, tortuosas e sem saída, e inexistência de espaços públicos e áreas de lazer. O bairro foi criado em 1932.  

Os ocupantes do Pirambu já contavam em torno de 5 mil pessoas, quando apareceram duas famílias alegando que eram donas da área, os Braga Torres e os Carvalho. Pressionavam os moradores para que desocupassem as terras ou vendessem os terrenos. Sentindo-se ameaçados, os moradores começaram a se organizar, a se reunir. Mas não tinham uma liderança, não queriam interferência política e não chegavam a um acordo sobre o que fazer.

Então convidaram o padre Hélio Campos, que havia pouco tempo tinha se formado capelão da Marinha, e atuava na Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes. Corria o ano de 1958, quando descobriram que nem os Braga Torres e nem os Carvalho eram donos da área. E sob a liderança do padre, iniciaram um movimento pela manutenção da posse da terra, pela melhoria das condições sociais e de moradia e contra novas ameaças de expulsão. Por força do decreto nº 1058, de 25 de maio de 1962, que declara tais terras de utilidade pública para execução de plano habitacional em favor dos seus moradores, hoje, os terrenos são considerados de propriedade comunitária.


Com o aumento da ocupação da área, o Pirambu foi dividido em vários bairros, embora a região situada entre o bairro Moura Brasil e a Barra do Ceará continue sendo conhecido como o “Grande Pirambu”. Vários projetos, associações e ONG's atuam na área do Grande Pirambu, na busca de melhorar a qualidade de vida dos moradores, equacionar problemas estruturais e dessa forma, mudar a história daquela região, contada por anos e anos de pobreza, preconceito e exclusão social. De acordo com o IBGE (Censo de 2022), o Pirambu abriga a maior favela do Ceará.   


Consultados: 

https://www.ebc.com.br/especiais-agua/campos-de-concentracao

Verso e reverso do perfil urbano de Fortaleza, de Gisafran Nazareno Mota Jucá. 

Fotos G1/Jornal Diário do Nordeste/IBGE/


domingo, 29 de dezembro de 2024

Capela de Santa Teresinha, na Avenida Leste-Oeste (avenida Presidente Castelo Branco)

 

Capela de Santa Teresinha

e seu vizinho Hotel Marina Park 

É um templo de aparência modesta, localizado na Avenida Leste-Oeste, nas imediações de um empreendimento turístico de grande porte, o que já representou uma ameaça à sua permanência. A capela dedicada à Santa Teresinha foi construída entre 1926 e 1928, no antigo Arraial Moura Brasil, onde outrora, em tempos de estiagem severa, funcionou um campo de concentração de flagelados da seca.

Os campos de concentração foram criados em períodos de seca, quando um grande contingente de sertanejos, fugindo da miséria absoluta de suas localidades, invadia a capital em busca de condições mínimas de vida. Temia-se a repetição dos acontecimentos de 1877, quando Fortaleza transformou-se na capital do desespero: de 21 mil habitantes pelo censo de 1872, passou a ter 130 mil. Uma multidão de miseráveis, em busca de alimentos, trabalho, teto, remédios e assistência social. A economia da província, já abalada pela crise do algodão, entrou em colapso de vez.

Aquelas invasões incomodavam os moradores, pois dizia-se que  traziam consigo, doenças, desordens e maus hábitos; os jornais da época davam conta do temor dos comerciantes, com possíveis saques e assaltos. Para manter os retirantes em seus lugares de origem e evitar que alcançassem Fortaleza ou outras grandes cidades do interior, as autoridades construíram esses chamados “campos de concentração”, acampamentos murados ou cercados com arame farpado, onde as pessoas eram confinadas, uma experiência que começou a ser posta em prática em 1915, no Alagadiço.

Passado o período mais crítico da pós-estiagem, muitos retornaram para suas casas, suas cidades de origem ou migraram para outros Estados. Mas boa parte dos ocupantes do campo de concentração permaneceu na área, e se expandiu ocupando a região que hoje compreende o Pirambu, e o bairro Moura Brasil.

Com o apoio da igreja católica, e a ajuda dos moradores, a capela foi construída entre os casebres, refúgio de oração e de convivência da comunidade. Mas o progresso chegou e alcançou a área onde estava a capela de Santa Teresinha. No início dos anos 70, foi decidida que seria construída uma avenida à beira-mar que ligaria a Barra do Ceará à zona portuária do Mucuripe, a atual Avenida Leste-Oeste. No projeto, por estarem no caminho da obra, havia a previsão de remoção de grande parte dos moradores, e a demolição do templo.


Início da construção da Avenida Leste-Oeste

O projeto vingou em parte. A maioria da comunidade foi efetivamente removida, mas a capela de Santa Teresinha permaneceu, por conta de manifestações contrárias à demolição e protestos populares. Outra tentativa de demolição da capela ocorreu algum tempo depois, em 1984, com a execução do projeto do Hotel Marina Park.  Como compensação, foi proposta a construção de outra igreja, mais moderna, apta a receber não apenas os moradores do bairro, mas pessoas de diferentes áreas da cidade. O projeto ganhou simpatias e teve o apoio da Paróquia a que estava subordinado o templo. À época, as atividades da Capela de Santa Terezinha estavam parcialmente suspensas, em virtude das obras do hotel que estava sendo construído no seu entorno.


Traçado da Avenida Leste-Oeste em 1974

Novamente os protestos não permitiram a demolição. Para garantir a manutenção e para evitar novas especulações, a Capela de Santa Terezinha foi tombada como patrimônio histórico do Município através da Lei 6087 de 09 de junho de 1986.  Em cumprimento da promessa feito pelo empreendimento hoteleiro, uma nova igreja foi construída e inaugurada em 1995, a Igreja de Santa Edwiges, na Avenida Leste-Oeste, a alguns metros da capela de Santa Teresinha.

Mas capela de Santa Teresinha ficou abandonada por anos, invadida por marginais e servindo de esconderijo de infratores da lei, até ser resgatada e recuperada pela Prefeitura de Fortaleza e várias entidades privadas. Foi reaberta à visitação pública em 13 de dezembro de 2012.    


consultados: Fortaleza, uma breve História/Artur Bruno e Airton de Farias/Revista porque Reportar - O Povo/Fotos Fortaleza em Fotos/O Povo e Pinterest  


  

sábado, 6 de maio de 2017

A Construção da Avenida Leste-Oeste

a avenida em construção - primeiro trecho asfaltado - 1973

Construída no início dos anos 70, na gestão do prefeito Vicente Cavalcante Fialho (1971-1975), a Avenida Presidente Humberto de Alencar Castelo Branco, conhecida popularmente como Avenida Leste-Oeste, tinha a proposta inicial de melhorar a mobilidade urbana, facilitando a ligação da zona industrial da Avenida Francisco Sá com o Porto do Mucuripe.

O surgimento da via melhorou o acesso ao litoral oeste de Fortaleza, possibilitou a abertura de ruas secundárias e perpendiculares, facilitou o fluxo de pessoas, veículos e mercadorias entre o litoral e o centro. Depois da construção da ponte sobre o rio Ceará, a avenida passou a ser a via de ligação entre os municípios de Fortaleza e Caucaia.

Após a inauguração - postal dos anos 70

Mas a contrapartida da melhoria da mobilidade, foi a desestruturação dos laços de vizinhança para comunidades que residiam na área do bairro Moura Brasil, que precisou se distanciar de vizinhos e amigos, alguns de longa data, e do afastamento da porção do centro comercial, onde mantinham empregos ou ocupações informais.

O bairro Moura Brasil, o mais atingido pelas obras de construção da avenida, localiza-se numa região de antigas dunas e se caracteriza por abrigar uma população de baixa renda, formada originalmente por retirantes da seca de 1915 e 1932. Para evitar que esses migrantes, vindos de várias cidades do interior do Estado, ocupassem ruas e praças da capital, foram criados os chamados “campos de concentração”, onde ficavam confinados. Um desses campos foi montado onde hoje é o bairro Moura Brasil.

trecho desaparecido da comunidade do Oitão Preto - as casam ocupavam até a beira da praia

O final da Rua General Sampaio, conhecida como "Cinza" também desapareceu

Para abrir espaço para a construção da Avenida, a região onde se encontra o bairro precisou ser redimensionada, o que determinou a transferência da população que ocupavam as áreas cortadas pela avenida, composta pelas comunidades das Cinzas, Moura Brasil, Oitão Preto, Braga Torres e Soares Moreno.
Os moradores foram remanejados para áreas periféricas de Fortaleza – como o Conjunto Rondom, Conjunto Palmeiras, Vicente Pinzon –  para o Conjunto Jurema, em Caucaia, e outros.

A avenida foi inaugurada por etapas, e a primeira ocorreu no dia 20 de outubro de 1973. Naquela ocasião, cerca de 20 mil pessoas se aglomeravam no local da solenidade, quando dentro das programações, quatro aviões AT-26 Xavante, pertencentes ao 4º Esquadrão Grupo de Aviação da FAB, da Base Aérea de Fortaleza, subiram e sobrevoaram a baixa altitude, a área onde estava instalado o palanque das autoridades que aguardavam a chegada do então ministro Costa Cavalcante, representante do Presidente da República, General Emilio Garrastazu Médici (1969-1974).


imagens do dia da inauguração

A esquadrilha subiu novamente e, no momento do ponto mais baixo da manobra, iniciou uma descida para um "looping" sobre a Avenida Leste-Oeste. Nesse instante, um dos aviões deixou a formação e entrou em parafuso, dando a impressão de que isso fazia parte das manobras.

Como o Xavante começasse a descer cada vez mais rapidamente em parafuso, a multidão que acompanhava a evolução da esquadrilha, como que reagiu e temeu a um só tempo, pela queda do avião. E, realmente, poucos segundos depois, ele explodia a 500 metros do palanque, num bairro densamente povoado por famílias pobres. Do local, subiu uma nuvem negra de fumaça. Eram 10h20min.

Menos de 10 minutos depois, o Corpo de Bombeiros chegava até onde o avião caíra - na Rua Gomes Parente, no Bairro de Pirambu, a 40 metros da Avenida Leste-Oeste. Uma criança com o corpo todo queimado foi a primeira a ser recolhida, sendo encaminhada, ainda com vida, ao Instituto Dr. José Frota, onde, entretanto, veio a falecer.

Enquanto isso, o corpo de um homem ardia no meio da rua, mas já sem vida. Os moradores da rua Gomes Parente tentavam jogar água nas três casas sobre as quais o avião desabara, mas inutilmente, porque o fogo crescia e atingia mais quatro casebres, que ficaram totalmente destruídos.

O prefeito Vicente Fialho suspendeu imediatamente todas as festividades que marcariam a inauguração da avenida, a primeira obra viária do Nordeste, construída com recursos do Fundo de Desenvolvimento Urbano, criado pelo Banco do Nordeste do Brasil. O Ministro do Interior, Costa Cavalcanti, apenas cumpriu um único ponto de seu programa: a inauguração do novo prédio do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas.

Dom Aloísio Lorscheider, arcebispo de Fortaleza e então presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) esteve na Assistência Municipal e ministrou a benção aos feridos graves. Saldo da tragédia: 15 mortos, entre eles o piloto da aeronave acidentada, Tenente Pedro Rangel Molinos, gaúcho, 24 anos, há oito anos na FAB.

Avenida Leste Oeste no trecho bairro Moura Brasil com a igreja de Santa Teresinha - postal dos anos 70

Desde sua inauguração, no ano de 1973, até os dias atuais, a Avenida Leste-Oeste passou por algumas transformações, inclusive a duplicação finalizada em meados dos anos 2000. Vários equipamentos urbanos e serviços foram instalados, tais como o Instituto Médico Legal, a Estação de tratamento de esgotos da Cagece, o Hotel Marina Park, inúmeras igrejas católicas e evangélicas e um variado comércio.

Avenida Leste-Oeste em 1974 

A Leste-Oeste mede em toda sua extensão 3.500 metros, tendo início na confrontação com a Avenida Dom Manuel, se estendendo  até a Barra do Ceará, na ponte José Martins Rodrigues, sobre o Rio Ceará.

Fontes:
Artigo: Desenvolvimento Urbano e Segregação Socioespacial – um estudo da Avenida Leste-Oeste em Fortaleza, de Carlos Henrique Lopes Pinheiro.
www.desastresaereos.net
fotos arquivo Nirez, O Povo e Anuário do Ceará

  

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Conjunto Palmeiras

Ao contrário dos bairros que surgiram da formação de grandes conjuntos habitacionais, o Conjunto Palmeira nasceu da indignação e do espírito de luta por mudança de vida de algumas pessoas. 

 
Duas vias de Fortaleza que foram afetadas pela construção da Avenida Leste-Oeste na primeira metade dos anos 70: o final da Rua General Sampaio e a Rua Franco Rabelo, que sumiu totalmente. Os moradores foram todos removidos.

A história do lugar começa no início dos anos 70, quando da construção da Avenida Presidente Castelo Branco, conhecida popularmente como Avenida Leste-Oeste, com o objetivo de ligar a zona industrial da Avenida Francisco Sá ao Porto do Mucuripe. Para tanto, era preciso "desocupar" aquela faixa de litoral, densamente povoada, e ocupada por população de baixa renda.
 
Ao mesmo tempo em que facilitou o acesso ao litoral oeste da cidade, e propiciou a abertura de vias secundárias e perpendiculares, a obra provocou mudanças de grande impacto social, com a transferência de moradores das favelas conhecidas como Cinzas, Moura Brasil, Oitão Preto, Braga Torres e Soares Moreno

inauguração da Avenida Leste-Oeste em 1974
 
Parte da zona de meretrício que ocupava essa região foi transferida para o farol do Mucuripe, conhecida zona de prostituição criada alguns anos antes, por ocasião da retirada de moradores para construção da Avenida Beira-Mar. As mulheres foram recebidas com reservas e desconfiança pelas prostitutas que já habitavam o local.  

Mas a  maior parte dos moradores, juntamente com outros residentes em  ocupações irregulares existentes em Fortaleza, foram transferidos para áreas periféricas, como o Conjunto RondonVicente Pinzon, bairro Jurema em Caucaia, e uma área então pertencente ao território administrativo do Jangarussu, hoje conhecida por Conjunto Palmeiras. 

Na época o processo de remoção dos moradores, chamado de "desfavelização", foi considerado pela administração municipal como a maneira mais eficaz de sanear diferentes problemas, através da eliminação da zona de baixo meretrício e de pontos de concentração de marginais.

Quando esses moradores chegaram ao Conjunto Palmeiras, em 1973,  se deram conta de que não haviam casas nem a mínima infraestrutura básica. O que havia era um brejo no meio do nada, com muito mato ao redor. A "Terra Prometida" pela Prefeitura de Fortaleza, não passava de um lugar inóspito, distante do centro, desprovido de beneficiamentos e de equipamentos públicos, sem energia elétrica, sem água, sem transportes ou vias de acesso.  

Eles foram transportados em caçambas e despejados no local, onde só havia mato e lama. Os novos moradores foram acomodados em barracas de lona e em barracos de madeira, onde se amontoavam seis famílias em cada barraco. Na mesma época, em um terreno próximo, surgia o aterro sanitário do Jangurussu. Do lixão, muitos moradores do Conjunto Palmeiras passaram a sobreviver, condição que permaneceu por vários anos. 

Mas aquela gente não iria se conformar com a situação de miséria em que vivia. Ainda na década de 1970, depois de muita pressão sobre o poder público, vieram as primeiras conquistas. A primeira delas foi a demarcação da área em lotes – que foram vendidos às famílias – e o fornecimento de material para a construção de um cômodo. Em seguida, a comunidade passou a contar com uma escola de ensino fundamental e um posto de saúde, inaugurados em 1978. 

Sede da Associação de Moradores 

Depois veio a luta por transportes, havia apenas um ônibus da Viação Cruzeiro, que levava os moradores do bairro pela manhã para o centro e os trazia a noite. Para que a região prosperasse, entendeu-se que era necessário mobilizar as pessoas em torno de um ideal comum, em ação integrada. Foi então que, em 1981, nasceu a Associação dos Moradores do Conjunto Palmeiras (Asmoconp), agremiação que teve – e ainda tem – papel decisivo na melhoria de vida daquela população.

Rua do Conjunto Palmeiras

A eletricidade só foi instalada por conta da artimanhas  dos moradores, quando os integrantes da Associação dos Moradores tiveram a ideia de largar o Superintendente da COELCE  dentro do conjunto, às 9 horas da noite, que desesperado por não encontrar o caminho, e desnorteado devido a falta de iluminação, caiu num buraco e foi resgatado pela população. Com pouco mais de um mês depois do episódio, a rede de eletricidade foi instalada. 

E assim se construiu o Conjunto Palmeiras. Para quem visita o bairro hoje, é difícil acreditar que um dia tenha sido tão diferente. Mais ainda, que a transformação do local tenha sido feita pelos próprios moradores, quase sem nenhum aporte do poder público. Foram os moradores que ergueram o bairro, com os poucos recursos que tinham, em regime de mutirões. Eles construíram as casas, as ruas, a creche comunitária, o centro de nutrição e o sistema de drenagem, como alguns dos exemplos.

Na década de 1980, a maternidade mais próxima do Conjunto Palmeiras ficava a 15 quilômetros de distância. Não havia linhas de ônibus no local, e ninguém possuía carro. As mulheres que estavam prestes a conceber passavam por momentos de aflição. Daí surgiu a ideia de criar a Casa de Parto Comunitária. A iniciativa facilitou bastante a vida das moradoras, durante vários anos, onde uma ajudava no parto da outra. No final da década de 1990, a Prefeitura de Fortaleza desativou o estabelecimento, alegando falta de higiene no local. 

Outra iniciativa popular que resultou em grande benefício ao Conjunto Palmeiras foi a criação do Centro de Nutrição. A escassez de recursos serviu para estimular a criatividade das mulheres da comunidade, que começaram a preparar pratos alternativos a partir de cascas de alimentos. O Centro foi um grande aliado no combate à desnutrição infantil, e permanece em funcionamento até hoje.

Banco Palmas 

Em 1998, mais uma ação relevante da Associação dos Moradores do Conjunto Palmeiras: a criação do Banco Palmas, uma rede de solidariedade entre produtores e consumidores. A ideia é implantar programas e projetos de trabalho e geração de renda, com a utilização de sistemas econômicos solidários visando a superação da pobreza urbana local. 

O Banco começou com 10 clientes a partir de um empréstimo de R$ 2.000,00, e foi se expandindo tanto no número de clientes quanto nos valores em circulação. A paridade da moeda Palma é vinculada ao Real (1 Palma= Real), o que facilita a conversão.
  

Em 2007, a Câmara Municipal de Fortaleza reconheceu, por meio de um decreto legislativo do vereador Guilherme Sampaio, o Conjunto Palmeiras como bairro, após ficar quase 30 anos como parte do Jangurussu. A iniciativa serviu para honrar o esforço daquelas pessoas, que tanto lutaram por melhores condições de vida. Por outro lado, criou um problema, na visão do coordenador do Banco Palmas. “A delimitação territorial não condiz com a área real, e isso tirou um pouco da identidade do bairro”, comenta Joaquim Melo. 

Além disso, segundo ele, os indicadores sociais apresentam números distorcidos, considerando a comunidade mais pobre e violenta do que realmente é, por abranger uma área três vezes maior do que o seu tamanho anterior.

Avenida Valparaíso, a principal via do bairro

População: 36.599 habitantes em 9.113 domicílios (IBGE-Censo 2010).  O Conjunto Palmeiras não aparece como bairro no mapa oficial da Prefeitura de Fortaleza, nem na delimitação dos bairros feita pelo IBGE.

Pesquisa:
http://hotsite.diariodonordeste.com.br/aniversariodefortaleza/noticia/conjunto-palmeiras-um-bairro-construido-pelos-proprios-moradores/

Contextualização: Análise do Processo de Formação  do Bairro Conjunto Palmeiras, em menção aos Agentes Produtores de Espaço.Marília Natacha de Freitas Silva
Simone Fernandes Soares

http://www.cidadessustentaveis.org.br/boas-praticas/banco-palmas

Desenvolvimento Urbano e Segregação Sócio-Espacial:Um Estudo da Avenida Leste-Oeste em Fortaleza – Ce
Carlos Henrique Lopes Pinheiro

fotos do arquivo Nirez, O Povo, Diário do Nordeste e Google Street view

terça-feira, 1 de setembro de 2015

A Mudanças nos Nomes de Bairros

Não serão admitidas   modificações   na   denominação   já   tradicional   de logradouros ou bairros
Lei Orgânica do Município de Fortaleza  – Parágrafo 3°

Uma publicação da Prefeitura de Fortaleza de 1961 registra a existência de alguns bairros que sumiram, ou foram englobados por outros, ou mudaram de nome. Bairros como Estância, Antônio Diogo, Marupiara, Cachoeirinha, Campo do Pio, dentre outros.
O Bairro Estância era limitado ao Norte pela Rua Padre Valdevino e Rua Beni Carvalho; a Leste pela Via Férrea Parangaba – Mucuripe; ao Sul pelas Avenidas Pontes Vieira e Isaac Amaral; e a Oeste pela Avenida Barão de Studart. Assim, conclui-se que o antigo bairro Estância corresponde ao atual Dionísio Torres.

Trecho do bairro Estância ou Estância Castelo como também era conhecido, por volta dos anos 50. Esse espaço hoje corresponde à Praça da Imprensa, localizada na confluência das Avenidas Antônio Sales e Desembargador Moreira. (foto arquivo Nirez)

O bairro Antônio Diogo ficava pras bandas da Praia do Futuro, entre a via férrea Parangaba-Mucuripe, que o dividia do bairro Vicente Pinzon, a orla oceânica, o Rio Cocó e a linha divisória das Dunas. Essa delimitação de área contempla o atual bairro Praia do Futuro II.

O Marupiara estava situado no Distrito de Parangaba e mudou de denominação pela lei n° Lei nº 3.480, de 04/12/1967. Atualmente é denominado Demócrito Rocha.
O Cachoeirinha estava localizado no Distrito de Antônio Bezerra, que em 1961 contemplava o próprio bairro Antônio Bezerra, Pici e Cachoeirinha. Hoje se chama Padre Andrade.

O Campo do Pio foi engolido pela Parquelândia, que por sua vez era chamado de Coqueirinho. O nome Parquelândia foi oficializado em 1988, através da Lei n° 6.363.  
O Carlito Pamplona, localizado na jurisdição da SER I, até 1948 era denominado de Brasil Oiticica, numa alusão a fábrica de beneficiamento de oleaginosas que se instalou na Avenida Francisco Sá em 1934. A Brasil Oiticica fechou e o bairro virou Carlito Pamplona, nome de um dos diretores da fábrica.

O atual Bairro Couto Fernandes já foi Quilômetro 8; O bairro de Fátima já se chamou Redenção e 13 de Maio; o Henrique Jorge, até 1963 se chamava Casa Popular; O Rodolfo Teófilo já foi chamado de Porangabussu; o Pantanal, área localizada no bairro José Walter, foi transformada no bairro Ayrton Sena, através da Lei nº 8.699, de 21/02/2003, criado oficialmente em 05 de março de 2003. 

Outros bairros ainda constam nos mapas de bairros da Prefeitura de Fortaleza e do IBGE, mas na prática, é bem difícil identificar suas áreas. Um lugar que retrata bem essa situação é o Alto da Balança. O bairro ganhou esse nome devido a existência de uma Balança da Secretaria da Fazenda Municipal para pesar  mercadorias trazidas de caminhão, e que entravam na cidade pela rodovia que é hoje a BR-116, que margeia o Bairro no seu lado Oeste. 


A chegada da Base Aérea determinou a mudança no nome do bairro, que passou se chamar Aerolândia (foto Fortaleza em Fotos)

De acordo com a demarcação dos bairros feita pelo IBGE, o Alto da Balança está limitado ao norte pela via férrea Parangaba-Mucuripe, a Leste pelos limites do Distrito de Messejana, ao Sul pela Rua Joaquim Barroso e a Oeste pelo muro da Base Aérea de Fortaleza. O Bairro da Aerolândia seria contíguo ao Alto da Balança, começando na confluência do muro da Base Aérea, com o prolongamento da Rua Tenente Wilson, segue por esse prolongamento, depois pela rua Tenente Wilson  e depois em linha reta, no sentido leste, até encontrar a margem oeste do Rio Cocó; segue pela margem no sentido sul até a BR-116; segue a rodovia no sentido norte, até a Rua Joaquim Barroso. Segue por essa rua no sentido Oeste, até encontrar o muro da Base Aérea e segue até encontrar o ponto inicial.

O equipamento mais famoso do bairro Aerolândia/Alto da Balança é o velho mercado de ferro que atualmente passa por processo de restauração. (foto Fortaleza em Fotos)

Mas o Alto da Balança foi praticamente absorvido pela Aerolândia, que surgiu com a chegada da Base Aérea, e passou a ser chamado de “Campo de Aviação”, no começo da década de 30. No início dos anos 60, moradores e militares da Base Aérea mudaram o nome do local para Aerolândia, e batizaram ruas e avenidas com o nome de militares. Hoje toda aquela região é conhecida por Aerolândia. 

Outro exemplo típico é o bairro Floresta, situado na zona Oeste de Fortaleza. O nome, de origem muito antiga, remonta aos tempos em que aqui chegaram os primeiros colonizadores da Capitania do Siará, os espanhóis Vicente Pinzón e Diego de Lepe. O local do atual bairro era uma floresta tropical, que ficava às margens do Rio Ceará, por onde entraram as caravelas dos navegadores. 

O Floresta está em um aglomerado de bairros que não possuem os limites bem definidos. Pelo menos para a população. Segundo reportagem de um jornal, ao abordar os moradores, perguntando como se fazia para chegar ao bairro, o repórter era direcionado a locais que já estavam fora de seus limites. Normalmente, já faziam parte do Álvaro Weyne. 

“Depois do trilho é Álvaro Weyne. Pra cá, é Floresta”, dizem os moradores mais antigos. “Floresta é um nome antigo, de origem. Não é mais oficial. Há mais de 40 anos que se chama Álvaro Weyne. Alguns, que não conhecem, é que ainda chamam de Floresta”, explica o consultor de vendas Paulo Silva...


Até a velha estação da RVC  teve seu nome mudado (foto arquivo Nirez)

A avaliação do consultor de vendas não está tão correta. O bairro Floresta é reconhecido sim, oficialmente, pela Prefeitura de Fortaleza, e sua população está registrada no Censo 2010, do IBGE.  E tem os limites definidos pelo IBGE: começa na confluência da Rua Tulipa com a Avenida Francisco Sá, segue no sentido leste até a Rua Francisco Calaça, segue no sentido sul até a Rua Teodomiro de Castro, segue no sentido leste até encontrar a Rua Dona Mendinha, segue no sentido sul até encontrar a Rua Rocha Pombo, segue no sentido leste até a via férrea Fortaleza-Sobral, segue no sentido sul até a Rua Rio Tocantins, segue no sentido norte até a Rua Conselheiro Lafaiete, segue no sentido leste até a Rua Alberto Oliveira, segue no sentido norte até a Rua Alberto Frota, segue no sentido Oeste até a Rua Tulipa, segue no sentido norte até encontrar o ponto inicial. O Correio também indica o Código de Endereçamento Postal – CEP, de ruas do bairro Floresta. 


Área do bairro Floresta segundo os limites estabelecidos pelo IBGE
(ilustração Fortaleza em Fotos)  

Morador da região desde quando nasceu, Paulo conhece bem a história do lugar. Na memória da infância, estão as moradias simples, feitas de taipas. “Aqui é uma comunidade que foi, praticamente, crescendo a partir de posses (ocupações de terrenos). O pessoal começou a chegar na parte que se chama Reino Encantado”, lembra. Porém, esse núcleo original, hoje, faz parte do bairro Álvaro Weyne. Ele lembra ainda da existência de um poço ao lado da antiga estação que também marcou a história do bairro, pois era onde a população tirava água para consumo próprio ou para vender.

Outras modificações em nomes de bairros estão a caminho: a Câmara Municipal de Fortaleza aprovou  em 2014, a realização de duas audiências públicas para discutir projetos que propõem alterar o nome dos bairros Presidente Kennedy e Moura Brasil. Os requerimentos são de autoria do vereador Robert Burns (PTC). 

De acordo com a proposta do vereador, o bairro Presidente Kennedy, situado na área da Secretaria Regional I, passaria a se chamar Juraci Vieira de Magalhães, em homenagem ao ex-prefeito de Fortaleza, gestor da cidade de 1990 a 1993 e de 1997 a 2004. A justificativa para a mudança, segundo descrito no requerimento 1907/2014, seria, além de homenagear Juraci Magalhães, “apagar da memória do povo personalidades veneradas pelo regime militar, e que nada fizeram pelo engrandecimento daquela comunidade, e nem ao Ceará ou do Brasil”.


Praça do Muriçoca, a única do bairro Moura Brasil, poderá mudar de nome, se o projeto do vereador vier a ser aprovado pela Câmara (foto O Povo)

Já o bairro Moura Brasil ganharia a denominação de Dragão do Mar, segundo justificativa no requerimento 1908/2014, em homenagem a Francisco José do Nascimento – o Chico da Matilde. O vereador ressalta que o bairro Moura Brasil, também chamado de "Arraial Moura Brasil" e Oitão Preto", abrigou a chamada "cinza", o tradicional baixo meretrício da capital cearense, até bem pouco tempo, e por causa da marginalização, “até hoje o seu nome lembra violência, drogas e prostituição”. A proposta do parlamentar seria para “incentivar a autoestima da população e trabalhar para apagar da memória cearense fatos que não foram construídos pelo povo, mas sim herdados de memórias de outras gerações.

Lembrando que o Bairro Presidente Kennedy homenageia o falecido Presidente norte-americano John Kennedy, assassinado em 1963, em Dallas, Texas, Estados Unidos.
Já o nome do bairro Moura Brasil é uma homenagem a José Cardoso de Moura Brasil (1846-1929), renomado médico oftalmologista cearense, nascido em Caixa-só, atual Iracema. Em 1872, após concluir o doutorado na Bahia, viajou para a Europa, a fim de acompanhar os principais cursos da especialidade a que se dedicara desde a vida acadêmica. Em 1875, de retorno ao Brasil, permaneceu no Ceará de agosto até dezembro daquele ano e, neste curto período, atendeu numerosos pacientes, pondo em prática os conhecimentos adquiridos na Europa. Em Fortaleza realizou 51 operações, a maioria na Santa Casa de Misericórdia.


Fontes de pesquisa:
Guia Turístico da Cidade. Prefeitura Municipal de Fortaleza – administração do Gen. Manuel Cordeiro Neto – 1961  
IBGE – censo 2010
Prefeitura de Fortaleza
Wikipédia
Jornal O Povo
Jornal Diário do Nordeste