Mostrando postagens com marcador av leste oeste. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador av leste oeste. Mostrar todas as postagens

domingo, 29 de dezembro de 2024

Capela de Santa Teresinha, na Avenida Leste-Oeste (avenida Presidente Castelo Branco)

 

Capela de Santa Teresinha

e seu vizinho Hotel Marina Park 

É um templo de aparência modesta, localizado na Avenida Leste-Oeste, nas imediações de um empreendimento turístico de grande porte, o que já representou uma ameaça à sua permanência. A capela dedicada à Santa Teresinha foi construída entre 1926 e 1928, no antigo Arraial Moura Brasil, onde outrora, em tempos de estiagem severa, funcionou um campo de concentração de flagelados da seca.

Os campos de concentração foram criados em períodos de seca, quando um grande contingente de sertanejos, fugindo da miséria absoluta de suas localidades, invadia a capital em busca de condições mínimas de vida. Temia-se a repetição dos acontecimentos de 1877, quando Fortaleza transformou-se na capital do desespero: de 21 mil habitantes pelo censo de 1872, passou a ter 130 mil. Uma multidão de miseráveis, em busca de alimentos, trabalho, teto, remédios e assistência social. A economia da província, já abalada pela crise do algodão, entrou em colapso de vez.

Aquelas invasões incomodavam os moradores, pois dizia-se que  traziam consigo, doenças, desordens e maus hábitos; os jornais da época davam conta do temor dos comerciantes, com possíveis saques e assaltos. Para manter os retirantes em seus lugares de origem e evitar que alcançassem Fortaleza ou outras grandes cidades do interior, as autoridades construíram esses chamados “campos de concentração”, acampamentos murados ou cercados com arame farpado, onde as pessoas eram confinadas, uma experiência que começou a ser posta em prática em 1915, no Alagadiço.

Passado o período mais crítico da pós-estiagem, muitos retornaram para suas casas, suas cidades de origem ou migraram para outros Estados. Mas boa parte dos ocupantes do campo de concentração permaneceu na área, e se expandiu ocupando a região que hoje compreende o Pirambu, e o bairro Moura Brasil.

Com o apoio da igreja católica, e a ajuda dos moradores, a capela foi construída entre os casebres, refúgio de oração e de convivência da comunidade. Mas o progresso chegou e alcançou a área onde estava a capela de Santa Teresinha. No início dos anos 70, foi decidida que seria construída uma avenida à beira-mar que ligaria a Barra do Ceará à zona portuária do Mucuripe, a atual Avenida Leste-Oeste. No projeto, por estarem no caminho da obra, havia a previsão de remoção de grande parte dos moradores, e a demolição do templo.


Início da construção da Avenida Leste-Oeste

O projeto vingou em parte. A maioria da comunidade foi efetivamente removida, mas a capela de Santa Teresinha permaneceu, por conta de manifestações contrárias à demolição e protestos populares. Outra tentativa de demolição da capela ocorreu algum tempo depois, em 1984, com a execução do projeto do Hotel Marina Park.  Como compensação, foi proposta a construção de outra igreja, mais moderna, apta a receber não apenas os moradores do bairro, mas pessoas de diferentes áreas da cidade. O projeto ganhou simpatias e teve o apoio da Paróquia a que estava subordinado o templo. À época, as atividades da Capela de Santa Terezinha estavam parcialmente suspensas, em virtude das obras do hotel que estava sendo construído no seu entorno.


Traçado da Avenida Leste-Oeste em 1974

Novamente os protestos não permitiram a demolição. Para garantir a manutenção e para evitar novas especulações, a Capela de Santa Terezinha foi tombada como patrimônio histórico do Município através da Lei 6087 de 09 de junho de 1986.  Em cumprimento da promessa feito pelo empreendimento hoteleiro, uma nova igreja foi construída e inaugurada em 1995, a Igreja de Santa Edwiges, na Avenida Leste-Oeste, a alguns metros da capela de Santa Teresinha.

Mas capela de Santa Teresinha ficou abandonada por anos, invadida por marginais e servindo de esconderijo de infratores da lei, até ser resgatada e recuperada pela Prefeitura de Fortaleza e várias entidades privadas. Foi reaberta à visitação pública em 13 de dezembro de 2012.    


consultados: Fortaleza, uma breve História/Artur Bruno e Airton de Farias/Revista porque Reportar - O Povo/Fotos Fortaleza em Fotos/O Povo e Pinterest  


  

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Chico da Silva, Rei das Artes, da Cachaça e dos Dragões

A vida desse homem exótico, um dos maiores pintores primitivistas do Brasil, forma um roteiro de mirabolantes aventuras. Os que o conheceram de perto, contam coisas incríveis sobre sua arte e suas façanhas, uma mistura de talento e loucura, acomodados na carcaça cabocla de Francisco Domingos da Silva, morador do Pirambu, nascido em 1910, no Acre, artista criativo e presepeiro maior dessa capitania do Siará Grande.


Chegou ao Ceará com 6 anos. Morou em Quixadá e Guaramiranga antes de conquistar Fortaleza, onde exerceu diversos ofícios, todos ligados a trabalhos manuais. Foi fazedor de tamancos, barbeiro, consertador de panelas e guarda-chuvas, amolador de facas e tesouras, funileiro, e pintor de paredes. Neste último ofício, começou a descobrir sua arte, desenhando em muros, inventando pássaros, peixes, galos irados e dragões esquisitos. Misturava na mesma figura bichos alados e quadrúpedes, numa reprodução intuitiva da evolução das espécies. Os peixes viravam pássaros e estes viravam dragões escamosos, com garras ameaçadoras.


Quando a ânsia criativa brotava, pegava carvão ou pedaços de telha vermelha e gesso e enchia todas as calçadas e muros que encontrasse pela frente, tendo, às vezes, que responder aos proprietários irritados pelas “malfeitorias”.

Em 1943 um pintor suíço que visitava Fortaleza, Jean Pierre Chabloz, viu em muros e calçadas da Praia Formosa os desenhos de Chico e ficou maravilhado. Interessou-se por conhecer o autor dos desenhos. – é um índio – disseram os pescadores – quem anda fazendo essa esculhambação nas paredes dos outros. Nossos filhos não têm nada a ver com isso. É coisa de criança, mas quem faz é um cabocão que mora por aqui”.

Chico foi localizado e logo pensou que Chabloz fosse um fiscal da prefeitura ou algum proprietário de muro rabiscado. Quando já achava que seria preso, recebeu os parabéns do visitante e uma proposta tentadora. Receberia tintas e cartolinas para realizar uma série de pinturas. As que ficassem boas seriam adquiridas e pagas imediatamente. Estava começando a acidentada e esfuziante carreira artística de Chico da Silva.

Em 1944 participa do III Salão Cearense de Pintura. A partir de 1945, levado pelas mãos do seu descobridor, ganha o Brasil e o mundo. Expõe no Rio de Janeiro, conseguindo os primeiros comentários favoráveis da crítica. Chabloz leva os trabalhos do Chico da Silva para a Europa, e os cadernos de arte europeus comentavam sobre o índio brasileiro que estava reinventando a pintura. Enquanto isso, sem incentivo em Fortaleza, Chico voltava ao seu antigo ofício de fazedor de fogareiros e lamparinas de latas de flandres no Pirambu.

Jean Pierre Chabloz e sua pintura exposta no MAUC

Só quando Chabloz volta a Fortaleza, em 1959, e o reencontra, Chico retoma sua arte. Por interferência do suíço, é contratado pelo Museu da Universidade Federal do Ceará (MAUC), passando a pintar em suas dependências. Depois sai da Universidade, onde se sentia bitolado, pois não podia beber suas cachaças nem fazer suas presepadas. Entretanto, consegue novos clientes. Vende quadros à sociedade local e consegue expor numa galeria carioca.

A fama de Chico corre mundo. Vem pedidos de toda parte, os turistas não deixam de levar uma obra do índio. Mas como produzir tantas telas para suprir essa grande procura? Só se trabalhasse dia e noite. Teve uma ideia. Pegaria uns meninos ali mesmo do Pirambu para lhe ajudar. Procurou saber quem, no bairro, levava jeito para a pintura. Logo arranjou um time razoável de aprendizes para a produção em série que pretendia iniciar.

Com ligeiras instruções, Babá, Claudionor, Garcia e Ivan de Assis, puseram-se a pintar galos, peixes e monstros de Chico da Silva. Agora, Chico, um sujeito famoso, tinha tempo para beber e raparigar à vontade. Seu único trabalho era assinar os quadros. O negócio era tão rápido que teve que funcionar por setores: enquanto um riscava os desenhos, o outro ia botando as cores e um terceiro tracejava as escamas, as penas e fazia os pontilhados. Quando Chico ia assinar, dava uma “guaribada” e pronto: mais uma obra pronta para o consumo.

Havia esperteza na cabeça do pintor, posto que ele não queria que soubessem da existência da oficina. Na chegada dos clientes, os auxiliares eram obrigados a fugir saltando a cerca do fundo do quintal da residência de Chico. Mas, um dia, o marchand Henrique Blun, chegando de surpresa ao Pirambu, encontrou o Chico, bêbado, capotado, enquanto Babá pintava seus quadros. Ao invés de denunciar a maracutaia, Blun se aproveita da situação, levando o falsificador para trabalhar em sua casa, por onde passava o Chico, de vez em quando, para assinar as telas, autenticando-as.

Essas telas pintadas por Babá foram expostas na Petiti Galeria, no Rio de Janeiro, em 1966. Chateada por ver seu homem se envolvendo com outras mulheres, dona Dalva da Silva, mulher do Chico, denuncia nos jornais que as telas da exposição são falsas. Houve um grande barulho na imprensa, mas o pintor negou as declarações da esposa e reafirmou que os trabalhos eram de sua autoria. E ficou tudo por isso mesmo.


Chico viaja para a Europa, em companhia de Clarival do Prado Valladares e participa da Bienal de Veneza em 1966. Em seguida, participa de mostras na França e na Espanha. Quando retorna, demora-se no Rio de Janeiro, farreando nos cabarés da Lapa e nos inferninhos da Cinelândia, até gastar todo o dinheiro que ganhara. De volta à Fortaleza, Chico se vangloria de suas façanhas, diz que foi recebido no Palácio pela Rainha Elizabeth da Inglaterra, e na sede do governo da França pelo próprio Charles De Gaulle. Toda artista ou mulher famosa e bonita que aparece nas revistas, ele diz que namorou.

Os marchands, com a conivência do pintor, contratam os falsificadores de sua oficina e montam várias “fábricas de Chicos da Silva”, ele só participa com a assinatura, acrescida agora da digital e uma foto ao lado do quadro para simular autenticidade. Em sua casa Chico ainda mantém sua oficina, agora com a participação de seus filhos Francisca e Roberto, e ainda Gilberto, Manuel Lima, Caínha, Carabina e Maria Augusta, entre outros.

Em 1969, Maria Augusta, então com 15 anos, ao ser posta para fora da casa de Chico pela ciumenta dona Dalva, vai aos jornais e denuncia mais uma vez a falsificação. A notícia é estampada na imprensa nacional. A revista O Cruzeiro conta toda a história, com detalhes. Agora, ninguém sabe mais se o quadro que tem na parede é um Chico da Silva legítimo ou uma falsificação. Aí caem as vendas e a decadência começa. Desmoralizado, Chico se entrega com afinco à bebida, sem intervalos. Talvez, acometido de delirius tremens, diz que os dragões que ele pintou estão saindo das telas para lhe atacar.

Por volta de 1972 saiu um comentário num jornal francês sobre o mais famoso morador do Pirambu. E o articulista lamentava que as autoridades brasileiras tivessem abandonado um dos maiores artistas primitivistas do mundo, deixando-o morrer à mingua, como um pária. A repercussão do estado de decadência de Chico da Silva mexeu com os brios do governador César Cals que, convocando um grupo de senhoras ligadas às artes plásticas, mandou procurar a família do pintor, e ver o que poderia ser feito.

O grupo de senhoras encontrou Chico da Silva em estado deplorável. Sua mulher, Dalva, informou que ele havia se entregado de vez ao alcoolismo e já estavam passando por sérias dificuldades. A ajuda mais imediata seria arranjar dinheiro.

Pensaram, então, numa exposição. Chico da Silva identificaria os quadros verdadeiramente seus, e seria feita uma vernissage num clube da Aldeota. Ouvindo a conversa, Chico levantou da rede e veio participar. Topava a ideia da exposição, mas tinha umas exigências. Queria um paletó branco, uma gravata encarnada e um par de sapatos também branco.

rua do Pirambu (2010)

Saíram pelo bairro procurando nas bodegas os quadros que ele trocara por cachaça. O trabalho foi exaustivo, mas proveitoso: 28 telas foram recuperadas, com outras que o Chico se dispunha a pintar, dentro de uns dias tudo estaria pronto.

Tudo foi acertado e providenciado, convites, cobertura da imprensa, instalações. Na véspera, a badalada exposição já estava devidamente instalada no clube mais elegante de Fortaleza. A festa deveria começar às 20 horas.

Na manhã do grande dia as organizadoras foram à casa do Chico. Eram nove horas da manhã e o índio já havia saído. Dona Dalva informou que ele fora à alfaiataria do Girão para apanhar o traje. Correram para lá. Nada de Chico: já pegara a roupa e se mandara, ninguém sabia para onde.

Praia do Pirambu (imagem IBGE)

Voltaram ao Pirambu, falaram para dona Dalva que, sem o Chico, ela iria representar a família na cerimônia de abertura da exposição. À noite, maquiada e de vestido longo – numa produção bancada pelas organizadoras do evento – dona Dalva recebeu cumprimentos do governador, foi abençoada pelo arcebispo, fotografada pelos repórteres e acompanhada da fina flor da sociedade, dona Dalva estava em seu esplendor.

Quando a cerimônia já ia começar, ouviu-se um grito forte na entrada do clube
– cadê o dinheiro pra pagar o táxi, cambada de burguês? Eu sou o dono da festa e tô chegando pra arrepiar!”. 
Era, sem sombra de dúvida, o Chico da Silva. O paletó já estava sujo, os sapatos com respingos de lama e ele não vinha só. Puxava pela mão uma rapariguinha, quase uma menina, a cara pintada com exagero, os peitos grandes, prestes a saltar do decote cavado, provocante. Vestia ainda uma minissaia, dessas que deixam a descoberto o fundo das calças.

Ao notar o lugar solene em que era introduzida, com aquela gente bem vestida e cerimoniosa, a moça quis recuar. Não conseguiu. O desarvorado Chico lhe arrastou firme e ele teve que prosseguir rumo ao salão principal, onde os discursos deveriam ter lugar. Dona Dalva mal podia acreditar no que estava vendo. Então o safado do seu marido tinha a audácia de trazer para um lugar daquele uma puta do farol, logo no dia em que ela estava tão bonita, tão arrumada? Ah, mas isto não ficar assim, não. Se o Chico queria confusão ia ter, e da grossa.

E passando das palavras à ação, a destemida Maria Dalva, que era natural de Salvador, rodou a baiana. Partiu para cima da ninfeta, atingindo-a com um murro na cara. A pequena, escolada nas escaramuças do Farol do Mucuripe, não foi apanhar sozinha e se atirando, em pulo felino, atingiu com a cabeça a pança de dona Dalva que caiu para trás.

As duas se enroscaram pelo chão como se fossem duas serpentes ferozes dos quadros do Chico e, ante o espanto das autoridades civis, militares e eclesiásticas, derrubaram os cavaletes da exposição, e com eles as telas, num turbilhão de safanões, pernadas e palavrões. No seribolo armado, não se sabia quem ganhava ou perdia, quem estava em cima ou embaixo. As dondocas soltavam gritinhos histéricos, corriam espavoridas, desarmando as cabeleiras enlaquezadas, enquanto o pau comia entre as duas suburbanas.

No fim, contidas a custo por oito seguranças, as mulheres estavam em frangalhos, riscadas de unha e sangrando pela boca. O clube parecia que tinha sido atingido por um desses ciclones tropicais: mesas viradas, telas rasgadas, cavaletes transformados em espetos. Nem nos mais ferozes arranca-rabos do Pirambu se vira coisa igual.

Apesar dos escândalos e da vida desregrada que levava, Chico da Silva continuava a ser uma importante referência cultural no Ceará. Várias foram as tentativas para reabilitá-lo. Em 1974 o governo do Estado e a prefeitura de Fortaleza lhe deram uma bonita casa-atelier, na recém-inaugurada Avenida Leste-Oeste. Em 1975 o Grupo Mercantil São José presenteou-o com um automóvel. Por esse tempo foi feito um documentário sobre sua obra e sua história pelo cineasta Pedro Jorge de Castro.

Os jornais assediam-no sem parar. Suas entrevistas fazem sucesso pelo inusitado. Ao Jornal do Comércio, de Pernambuco, ao ser perguntado sobre sua temática, declarou: "eu pinto o cão, pinto a mãe do cão, pinto a tia do cão e vou pintar o cão aqui pra todo mundo ver”. Recebe homenagens de toda ordem: a medalha Anchieta, da Câmara Municipal de São Paulo, a medalha da Abolição, maior comenda do governo do Ceará, e em 1983, uma pensão vitalícia, de dois salários mínimos, do Estado. 


Continua, porém, explorado por espertalhões e mergulhado no vício. De vez em quando fica doido e quebra tudo em casa. Vangloriava-se de bêbado, ter derrubado três metros de muro sem sentir nada. Dona Dalva já não mais existia, morreu de sofrer. Chico despenca ladeira abaixo. Alterna internamentos em hospitais com grandes bebedeiras. Uma vez quase morto, foi internado às pressas pelo casal Heloísa e Haroldo Juaçaba, na Casa de saúde São Raimundo. Outras internações se seguiram, sequenciadas por novas recaídas, até o desfecho final no dia 06 de dezembro de 1985.

A Agência Terraço, produziu um belo texto em homenagem a Chico da Silva, publicado em página inteira do Jornal Diário do Nordeste



“Neste Natal
A Familia Silva
Tem uma estrela no céu
Era um privilegiado,
Tinha sensibilidade para captar o invisível.
Artista,
Viveu numa estrada colorida
Entre o sonho e a realidade
Ingênuo – por ser bom – se perdeu na madrugada
E adormeceu no cansaço da desilusão.
Não passou pela vida despercebido.
A pureza-beleza de sua obra
Saiu dos limites do individual,
Transcendeu o universal
E alçou o lume das estrelas,
Glória maior de todo artista
Ele adotou esta terra
E não soubemos compreender a dimensão de seu gesto!”


Extraído do livro - Sábado, Estação de Viver – histórias da boemia cearense
De Juarez Leitão 
fotos: Internt, O Povo, IBGE e Fortaleza em Fotos
 


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Relembrando o Curral das Éguas

Quem tem boa memória decerto haverá de se lembrar do Curral das Éguas – na Praia Formosa – no bairro então denominado Arraial Moura Brasil, nos anos de 1920 a 1960. Quem descia aquela ladeira da Rua General Sampaio, ao lado da Estação Central e da Casa de Detenção em direção à praia, sabia, sem dúvida, que perderia a castidade e a inibição. 

Rua General Sampaio, a parte final da rua desapareceu em função da construção da Avenida Leste-Oeste

À primeira vista de quem olhava do alto da ladeira, tinha-se a visão de um arraial feericamente iluminado. As casas, estilo chalés, situadas do lado esquerdo de quem descia a rua inclinada, guardavam os ninhos do amor vendido a granel, onde as moças escondiam seus tesouros. Lá predominava a mancebia entre jovens que se acautelavam das doenças venéreas, comuns na mocidade, e para uns, principal sinal de virilidade.

No Curral do Arraial Moura Brasil tinha de tudo e mulher para todo gosto. A variedade de tipos, vindas de todo o interior do Ceará e até de outros Estados, com o ar, costumes, trajes e sotaque caipira, mas com a brejeirice sertaneja, atendia às mais diversas simpatias e preferências que exigiam o rigor do amor.

Era um mundo diferente para as moças simples, chegadas do interior, que ali se apresentavam para fazer o seu meio de vida assumindo a profissionalização. Na pensão, onde fixavam residência, a primeira providência da madame – a dona da pensão -  era apresentar a hóspede na Chefatura de Polícia, para abrir uma ficha e receber a carteira, registrando-a com prontuário de ocorrência sanitária. A burocracia obrigava a rapariga a comparecer mensalmente, para revalidar o documento e passar por exames para saber se tinha pegado “coruba” ou “doença do mundo”, muito comuns naquela época.Era a juventude que comandava os dias daquelas mulheres, desfrutando o que a vida proporcionava, e se deixando dominar pela lascívia e o prazer de viver num mundo de fantasias e ilusões. 

 A Subdelegacia de Polícia da Rua Franco Rabelo (que também desapareceu) atendia ocorrências na zona de prostituição 

No local destinado a dança – Salão Bola Preta, dancing de primeira classe, com verdadeira orquestra, aconteciam animadas noitadas, passando pelos mais variados ritmos e contando com a presença de representantes masculinos da fina flor da sociedade, que compareciam às escondidas das mulheres e namoradas.

Com o passar do tempo vieram outros salões em épocas diferentes, como o “Rancho Fundo”, “Salão Azul” e o popular “Salão da Farinhada”, cuja iluminação era a base de gás carbureto, onde os frequentadores usavam tamancos por pertencerem à classe proletária, embora a alegria fosse a mesma de um salão grã-fino.

Um dos pontos altos da noite no Curral era o clássico trottoir: as damas da noite vestiam roupas de seda, subiam e desciam os dois primeiros quarteirões da Rua General Sampaio, a fim de atrair os fregueses que se postavam na parte mais alta da rua, ou sentados nos botequins da ladeira, a soltar galanteios para iniciar o rápido romance, que as vezes terminava na alcova.

Com trocas de olhares, nesse vai-e-vem subindo e descendo a ladeira, o jovem se aproximava da dama e logo se envolviam num ligeiro diálogo, para adentrar o pequeno quarto do lupanar reservado para o encontro, que não durava mais que meia hora. Terminada a função e recebido o pagamento, separavam-se com atenciosa despedida ou promessa de novos encontros em dia aprazado. A mulher já saía do quarto com traje diferente do que usara antes, para não ser reconhecida pelos circunstantes, porque precisava reiniciar sua batalha em busca de novo freguês.

Fora do trabalho, seu mundo se resumia a um pequeno dormitório da pensão alegre, pagando diária para ter direito ao almoço, jantar, guarda-roupa, e uma penteadeira repleta de adornos, bibelôs, perfumes, objetos de toucador, e um pequeno lavatório num tripé de ferro, acoplando bacia, jarra de ágata e saboneteira com o infalível sabonete Eucalol, pequena toalha, e “caxeiro” para os rapazes, que as mulheres faziam assepsia.

Não se falava de AIDS nem de preservativos. A rapaziada se curava nas prodigiosas mãos dos enfermeiros Mundico, Dr. França, Almeida e Varejão, que tinham seus ambulatórios no Centro, faziam ligeiras intervenções cirúrgicas, e de certa forma, praticavam a medicina profilática da juventude que se iniciava sexualmente. Eram os doutores das “doenças do mundo”, como eram popularmente conhecidos. Os casos mais graves iam para o Dr. Olavo Rodrigues ou Dr. José Oswaldo Soares – os grandes urologistas do Ceará, tudo em segredo, evitando que o assunto chegasse ao conhecimento da família – das namoradas, nem sonhar, acabava-se até casamento, se fosse noivo. 

 trecho do bairro Moura Brasil que desapareceu com a construção da Avenida Leste-Oeste

Ao lado do Curral das Éguas havia outras pensões – o conhecido Oitão Preto e a Pensão da Olímpia, que por ser de outra categoria, não se misturava com a plebe do Curral. Assim, nesse ambiente de atmosfera pesada, havia também os tipos folclóricos, que preenchiam lacunas de excentricidade. Iniciava a lista uma doida de pedra chamada de “Barra Azul”, que ao ouvir o apelido, “soltava os cachorros”; "Siri", "Ferrugem" e "Tristeza", afora as doidivanas que compareciam para dançar e aproveitar o tempo.

A ordem era mantida por um delegado de polícia muito rigoroso – Rodrigues, assessorado pelos policiais Pedro Moura e Chico da Usina e um destacamento de cavalaria que assegurava a tranquilidade na área. Havia muitos bares e botequins que serviam refeições ligeiras e bebidas alcoólicas até as 22 horas, abastecendo o território mundano do velho Curral, que no final dos tempos nada legou à posteridade.

Avenida Leste-Oeste,  postal dos anos 70 

De lembrança, ficou a igrejinha de Santa Teresinha, ali, ao lado da Leste-Oeste, para remir os pecados dos endiabrados frequentadores da zona que virou cinza, e o tempo levou deixando apenas recordações.


Extraído do artigo 
Histórias da Fortaleza Antiga, de Zenilo Almada
publicado na Revista do Instituto do Ceará - 2004  
fotos do arquivo Nirez                         

sábado, 6 de maio de 2017

A Construção da Avenida Leste-Oeste

a avenida em construção - primeiro trecho asfaltado - 1973

Construída no início dos anos 70, na gestão do prefeito Vicente Cavalcante Fialho (1971-1975), a Avenida Presidente Humberto de Alencar Castelo Branco, conhecida popularmente como Avenida Leste-Oeste, tinha a proposta inicial de melhorar a mobilidade urbana, facilitando a ligação da zona industrial da Avenida Francisco Sá com o Porto do Mucuripe.

O surgimento da via melhorou o acesso ao litoral oeste de Fortaleza, possibilitou a abertura de ruas secundárias e perpendiculares, facilitou o fluxo de pessoas, veículos e mercadorias entre o litoral e o centro. Depois da construção da ponte sobre o rio Ceará, a avenida passou a ser a via de ligação entre os municípios de Fortaleza e Caucaia.

Após a inauguração - postal dos anos 70

Mas a contrapartida da melhoria da mobilidade, foi a desestruturação dos laços de vizinhança para comunidades que residiam na área do bairro Moura Brasil, que precisou se distanciar de vizinhos e amigos, alguns de longa data, e do afastamento da porção do centro comercial, onde mantinham empregos ou ocupações informais.

O bairro Moura Brasil, o mais atingido pelas obras de construção da avenida, localiza-se numa região de antigas dunas e se caracteriza por abrigar uma população de baixa renda, formada originalmente por retirantes da seca de 1915 e 1932. Para evitar que esses migrantes, vindos de várias cidades do interior do Estado, ocupassem ruas e praças da capital, foram criados os chamados “campos de concentração”, onde ficavam confinados. Um desses campos foi montado onde hoje é o bairro Moura Brasil.

trecho desaparecido da comunidade do Oitão Preto - as casam ocupavam até a beira da praia

O final da Rua General Sampaio, conhecida como "Cinza" também desapareceu

Para abrir espaço para a construção da Avenida, a região onde se encontra o bairro precisou ser redimensionada, o que determinou a transferência da população que ocupavam as áreas cortadas pela avenida, composta pelas comunidades das Cinzas, Moura Brasil, Oitão Preto, Braga Torres e Soares Moreno.
Os moradores foram remanejados para áreas periféricas de Fortaleza – como o Conjunto Rondom, Conjunto Palmeiras, Vicente Pinzon –  para o Conjunto Jurema, em Caucaia, e outros.

A avenida foi inaugurada por etapas, e a primeira ocorreu no dia 20 de outubro de 1973. Naquela ocasião, cerca de 20 mil pessoas se aglomeravam no local da solenidade, quando dentro das programações, quatro aviões AT-26 Xavante, pertencentes ao 4º Esquadrão Grupo de Aviação da FAB, da Base Aérea de Fortaleza, subiram e sobrevoaram a baixa altitude, a área onde estava instalado o palanque das autoridades que aguardavam a chegada do então ministro Costa Cavalcante, representante do Presidente da República, General Emilio Garrastazu Médici (1969-1974).


imagens do dia da inauguração

A esquadrilha subiu novamente e, no momento do ponto mais baixo da manobra, iniciou uma descida para um "looping" sobre a Avenida Leste-Oeste. Nesse instante, um dos aviões deixou a formação e entrou em parafuso, dando a impressão de que isso fazia parte das manobras.

Como o Xavante começasse a descer cada vez mais rapidamente em parafuso, a multidão que acompanhava a evolução da esquadrilha, como que reagiu e temeu a um só tempo, pela queda do avião. E, realmente, poucos segundos depois, ele explodia a 500 metros do palanque, num bairro densamente povoado por famílias pobres. Do local, subiu uma nuvem negra de fumaça. Eram 10h20min.

Menos de 10 minutos depois, o Corpo de Bombeiros chegava até onde o avião caíra - na Rua Gomes Parente, no Bairro de Pirambu, a 40 metros da Avenida Leste-Oeste. Uma criança com o corpo todo queimado foi a primeira a ser recolhida, sendo encaminhada, ainda com vida, ao Instituto Dr. José Frota, onde, entretanto, veio a falecer.

Enquanto isso, o corpo de um homem ardia no meio da rua, mas já sem vida. Os moradores da rua Gomes Parente tentavam jogar água nas três casas sobre as quais o avião desabara, mas inutilmente, porque o fogo crescia e atingia mais quatro casebres, que ficaram totalmente destruídos.

O prefeito Vicente Fialho suspendeu imediatamente todas as festividades que marcariam a inauguração da avenida, a primeira obra viária do Nordeste, construída com recursos do Fundo de Desenvolvimento Urbano, criado pelo Banco do Nordeste do Brasil. O Ministro do Interior, Costa Cavalcanti, apenas cumpriu um único ponto de seu programa: a inauguração do novo prédio do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas.

Dom Aloísio Lorscheider, arcebispo de Fortaleza e então presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) esteve na Assistência Municipal e ministrou a benção aos feridos graves. Saldo da tragédia: 15 mortos, entre eles o piloto da aeronave acidentada, Tenente Pedro Rangel Molinos, gaúcho, 24 anos, há oito anos na FAB.

Avenida Leste Oeste no trecho bairro Moura Brasil com a igreja de Santa Teresinha - postal dos anos 70

Desde sua inauguração, no ano de 1973, até os dias atuais, a Avenida Leste-Oeste passou por algumas transformações, inclusive a duplicação finalizada em meados dos anos 2000. Vários equipamentos urbanos e serviços foram instalados, tais como o Instituto Médico Legal, a Estação de tratamento de esgotos da Cagece, o Hotel Marina Park, inúmeras igrejas católicas e evangélicas e um variado comércio.

Avenida Leste-Oeste em 1974 

A Leste-Oeste mede em toda sua extensão 3.500 metros, tendo início na confrontação com a Avenida Dom Manuel, se estendendo  até a Barra do Ceará, na ponte José Martins Rodrigues, sobre o Rio Ceará.

Fontes:
Artigo: Desenvolvimento Urbano e Segregação Socioespacial – um estudo da Avenida Leste-Oeste em Fortaleza, de Carlos Henrique Lopes Pinheiro.
www.desastresaereos.net
fotos arquivo Nirez, O Povo e Anuário do Ceará