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quinta-feira, 23 de abril de 2020

O Dia que o Pirambu marchou sobre a cidade


O Pirambu está localizado no litoral oeste de Fortaleza. Sua origem remonta ao final do Séc. XIX, quando a capital recebeu levas de flagelados que fugiam das secas que assolavam o interior do estado. A população indigente foi se alojando em barracos, em terrenos próximos à ferrovia, à zona de praia, no alto das dunas e às margens dos rios, áreas desprezadas pelos grupos sociais de maior poder aquisitivo.

Rua do Pirambu - imagem Fortaleza em Fotos - 2011

Apesar de pequenos, esses aglomerados começaram a se tornar visíveis a partir da década de 1930, quando começaram a chamar atenção por se tratar de locais de extrema pobreza, moradias precárias, alta insalubridade e altos índices de violência. O fato relevante que contribuiu para rápido crescimento da região, foi a chegada de centenas de retirantes, provenientes de várias localidades do interior do Estado, afetados pela seca de 1932. O Pirambu, juntamente com o Arraial Moura Brasil, constituía os dois bairros mais pobres da cidade, espremidos entre a linha férrea e a região de praia.

Nessa época já existiam na Avenida Francisco Sá, (com a denominação oficial de Avenida Demóstenes Rockert, popularmente conhecida como Estrada do Urubu até 1936), nas proximidades do Pirambu, diversas indústrias instaladas, como o empreendimento de Pedro Philomeno Gomes a Fábrica de Tecidos São José, que se mudou para a estrada do urubu” em 1926. Logo depois, em 1927, viria a Indústria Têxtil José Pinto do Carmo, e em 1934, a Brasil Oiticica. Além dessas, havia dezenas de pequenos estabelecimentos. A concentração de empresas atraiu a classe trabalhadora.

Avenida Demóstenes Rockert em 1927. A partir de 1936 foi pavimentada e recebeu a denominação de Avenida Francisco Sá. Foto Relatório da PMF

Nas empresas, os operários tiveram contato e passaram a receber orientação de sindicatos e do Partido Comunista do Brasil, com forte influência na zona oeste da cidade. E o Pirambu foi à luta. Desde 1948 possuía uma sociedade feminina constituída para lutar contra a ameaça de expulsão dos moradores do bairro e a favor de melhorias urbanas. A maioria dos habitantes tinham seus casebres localizados em terrenos de marinha.

As pessoas vinham em sua maioria do interior, e com a interferência do comandante da Capitania dos Portos, que ficava no edifício da Marinha, ou do capelão, que as avaliavam, as famílias eram enviadas para a hospedaria que ficava na Rua Olavo Bilac (hospedaria Getúlio Vargas). Havia uma comunicação entre hóspedes e moradores do Pirambu, e os migrantes iam deixando a hospedaria, à medida que conseguiam um terreno para se estabelecer na comunidade.

imagem: O Semanário (RJ)

O bairro não tinha nenhuma urbanização nem contava com infraestrutura, os terrenos tinham preços mais em conta para as massas, que em muitas oportunidades os ocupavam clandestinamente, daí o crescimento irregular, com a propagação de lotes de tamanhos irregulares, casas modestas e favelas, becos e ruas estreitas, tortuosas e sem saída, inexistência de espaços públicos e áreas de lazer.

Os ocupantes do Pirambu já contavam em torno de 5 mil pessoas, quando apareceram duas famílias alegando que eram donas da área, os Braga Torres e os Carvalho. Pressionavam os moradores para que desocupassem as terras ou vendessem os terrenos. Sentindo-se ameaçados, os moradores começaram a se organizar, a se reunir. Mas não tinham uma liderança, não queriam interferência política e não chegavam a um acordo sobre o que fazer.

Daí, convidaram o padre Hélio Campos, que havia pouco tempo tinha se formado capelão da Marinha, e atuava na Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes. Corria o ano de 1958. Descobriram que os Braga Torres e os Carvalho não eram donos da área. E sob a liderança do padre, iniciaram um movimento pela manutenção da posse da terra, pela melhoria das condições sociais e de moradia e contra novas ameaças de expulsão.


A presença do padre deu uma nova dinâmica e fortaleceu o movimento comunitário e desestruturou o trabalho de conscientização política que o Partido Comunista vinha desenvolvendo junto aos moradores do Pirambu. O motivo é que a Igreja era uma instituição anticomunista. A maior prova foi evidenciada na própria marcha, quando os operários ligados ao Partido Comunista foram absorvidos pela ação do Padre Hélio, que deu ao movimento um caráter cristão, baseado nos princípios da doutrina social cristã.

A marcha organizada pelos moradores do Pirambu foi divulgada com reservas pela imprensa local, principalmente quando o padre Hélio Campos afirmou que a mesma era uma advertência aos poderosos do Estado. O movimento se concretizou no dia 2 de janeiro de 1962, quando a população, após a celebração de uma missa no pátio da Casa Paroquial, saiu em caminhando pelas ruas de Fortaleza.

A maioria foi a pé, mas havia ônibus e carroças. Uma multidão incalculável, portando faixas, cartazes e gritando palavras de ordem, seguiu em direção ao centro, onde os manifestantes, de forma pacífica, passaram a ocupar a Praça da Sé. 


A Praça da Sé nos anos 40 e a Catedral inconclusa dos anos 50 
 imagens Anuário do Ceará

Foram primeiro ao Palácio do Bispo, onde foram recebidos por Dom Antônio de Almeida Lustosa; depois desceram para o Palácio da Luz, na Praça General Tibúrcio onde uma comissão, inclusive o Padre Hélio, foi recebida pelo governador Parsifal Barroso. A grande aglomeração de pessoas assustou os comerciantes do Centro, que fecharam as portas. Mas a situação se acalmou diante da garantia de Padre Hélio de que se tratava de um movimento pacífico e ordeiro. 

Oito dias depois da marcha, uma comitiva da qual Padre Hélio era parte, foi a Brasília discutir a questão da desapropriação das terras da região do Pirambu. Lá descobriram que o Pirambu não estava em terreno de marinha. A área que ia da Rua Jacinto de Matos até a Rua Francisco Calaça foi desapropriada. Nos terrenos que se seguiam não foi possível a desapropriação porque tinha terreno particular, da Prefeitura, do governo Estadual e Federal e até da Igreja.

Por força do decreto nº 1058, de 25 de maio de 1962, que declara tais terras de utilidade pública para execução de plano habitacional em favor dos seus moradores, hoje, os terrenos são considerados de propriedade comunitária.

Rua do Pirambu - imagem Tarcísio Garcia 2018

Embora tenha conseguido a posse das terras, povo do Pirambu acabou perdendo uma de suas mais expressivas lideranças. Pois, após os acontecimentos decorrentes do Golpe Militar de 1964, os movimentos populares foram desarticulados e suas lideranças presas ou exiladas. A Igreja e as forças da repressão trataram rapidamente da transferência do padre Hélio Campos para o Estado do Maranhão, e o Pirambu foi dividido em duas paróquias: Nossa Senhora das Graças e Cristo Redentor, originando, então dois bairros.

Orla marítima do Pirambu - imagem Fortaleza em Fotos - 2011

De acordo com dados do IBGE, com base no Censo Demográfico 2010, o Pirambu é o maior aglomerado urbano do Estado. O bairro é também o 7º colocado em densidade populacional do país, com um total de 42.878 habitantes. A falta de esgotamento sanitário é o principal problema da comunidade, onde 19% da população não tem acesso ao serviço. A coleta de lixo é deficitária, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDHM), de apenas 0,391, e está entre os 10 piores dos bairros da capital cearense. Também são baixos os níveis de escolaridade (0,293) e de renda média em salários mínimos do chefe da família (0,062).

Decorridos 58 anos da histórica marcha, o Pirambu ainda apresenta o maior número de moradores vivendo em áreas de risco, em habitações sujeitas à ação do homem ou da natureza. Nas favelas que ocupam a faixa de praia, as famílias estão expostas ao avanço da maré, deslizamentos de encostas e outras questões de insegurança.


Fontes:



As lutas no Pirambu e por um poder que venha do povo. Jornal O Povo

A ESCOLARIZAÇÃO DA ALMA: A EDUCAÇÃO POPULAR CRISTÃ, NO CEARÁ, ENTRE AS DÉCADAS DE 1950 E 1960, de Lídia Eugenia Cavalcante* Universidade Federal do Ceará

Pirambu é bairro mais populoso do Estado Disponível em < https://lidesealgomais.wordpress.com/2012/04/24/pirambu-e-bairro-mais-populoso-do-ceara/>




sábado, 11 de agosto de 2012

Espaço Urbano de Fortaleza e distribuição espacial das Classes Sociais


O crescimento de Fortaleza se deu de forma rápida, desordenada e sem planejamento, com grandes disparidades sociais e mais recentemente, com especulação imobiliária. A própria formação espacial da cidade evidenciou a questão da segregação e diferenciação social e de classes – ou seja, áreas ocupadas por determinadas camadas sociais e com tratamento diferenciado pelo poder público.

 Familia no Passeio Público em 1908  (foto do álbum de vistas do Ceará)

 O Passeio Público foi um dos primeiros espaços segregados da cidade. No inicio do século XX, foi rodeado de grades, e dividido em três planos ou avenidas.
A elite frequentava a Avenida Caio Prado, de frente para o mar.
A classe média frequentava a parte central denominada Avenida Carapinima,e os pobres ficavam na Avenida Padre Mororó.(arquivo Nirez)
 
Os migrantes e as camadas pobres se alojavam preferencialmente na periferia da cidade, especialmente nas zonas oeste e sul, nas proximidades de ferrovias, nas estradas de acesso à cidade e nas praias. Ocorria, não raras vezes, a ocupação de dunas e das margens de riachos e lagoas, gerando complicações ambientais com a destruição daquelas áreas e problemas sociais com inundações dos casebres em épocas chuvosas. Essa situação se verificava comumente na região ribeirinha do rio Cocó, atingindo moradores do Lagamar e da Aerolândia, antigo Campo da Aviação.

parte da comunidade do Lagamar, instalada às margens do Rio Cocó (foto arquivo do Blog) 

Na região Oeste, onde as áreas até então não tinham urbanização nem contavam com infraestrutura, os terrenos tinham preços mais em conta para as massas, que em muitas oportunidades os ocupavam clandestinamente, daí a urbanização irregular, com a propagação de lotes de tamanhos irregulares, casas modestas e favelas, becos e ruas estreitas, tortuosas e sem saída, inexistência de espaços públicos e áreas de lazer.  Nestas áreas era comum a existência de chafarizes com filas enormes para obter água, ou de cacimbas nos quintais,  (perto de fossas), montanhas de lixo, terrenos baldios, logradouros sem calçamento ou saneamento. A atenção do poder público era mínima.

 Rua no Pirambu (arquivo do Blog)

Na periferia, eram raros os supermercados. Os produtos essenciais e gêneros alimentícios eram oferecidos por pequenas unidades familiares de comércio, as bodegas. Normalmente o estabelecimento funcionava na frente da casa, enquanto o bodegueiro e sua família moravam na parte de trás. O sistema de pagamento era o fiado, ou seja, o freguês comprava antecipadamente, o valor era anotado em cadernetas para ser pago quando saísse o salário.
Não por acaso, nestas áreas periféricas da zona Oeste, várias fábricas se instalaram, de têxteis, de confecções e de beneficiamento de óleos vegetais, a exemplo dos bairros Antônio Bezerra, Parangaba e, sobretudo, na Avenida Francisco Sá, que na verdade corresponde ao conjunto de favelas do Pirambu.  

 Fábrica de Tecidos São José, de propriedade de Pedro Philomeno Ferreira Gomes. Instalou-se em 1926, no bairro Jacarecanga

A ideia das indústrias era aproveitar a disponibilidade de terrenos de baixo preço e explorar a farta e barata mão-de-obra da zona oeste. As indústrias instaladas, por sua vez, atraíam mais pessoas humildes em busca de trabalho, as quais, em virtude dos baixos salários, dificuldades de obter moradia própria ou pagar aluguel, acabavam se deslocando para as favelas.

 Fábrica Brasil Oiticica, que em 1934 foi instalada na Avenida Francisco Sá.(foto IBGE)

Processo parecido, de instalação de indústrias, deu-se num trecho da zona leste, no entorno do Porto do Mucuripe, pela óbvia facilidade de transporte. Também naquele trecho  surgiram vários bairros operários e favelas, visto que o Porto e as indústrias necessitavam de muitos trabalhadores braçais.
Com a construção do Porto do Mucuripe na década de 1930/40 e depois da Avenida Beira Mar, nos anos 1960, a zona de meretrício, até então localizada no entorno do Arraial Moura Brasil e Poço da Draga, foi se deslocando para a área do farol do Mucuripe (Serviluz), enquanto os pescadores eram empurrados para o alto das dunas e para a Rua Manuel Jesuíno, onde havia sido erguida em 1945, a Vila dos Estivadores.

 Casa de jangadeiro na Praia do Meireles. Nos anos 1960, com a súbita valorização da área, os jangadeiros foram obrigados a morar noutros locais. (foto IBGE)

A formação de favelas foi provavelmente, a única maneira dos migrantes ficarem em Fortaleza. Normalmente, assim que chegava à cidade, o migrante permanecia por um pequeno período em casa de amigos ou parentes. Depois, ao resolver a questão onde morar, acabavam se fixando numa favela ou ocupando um lote vago, erguendo casebres frágeis, geralmente de taipa, com cobertura de zinco ou palha. Se o Estado ou particulares não criassem problemas, a ocupação avançava, atraindo outras pessoas em situação semelhante. Acontecia também de pessoas sem renda, instalarem seus casebres em espaços públicos, destinados às ruas e Praças, situação em que os proprietários vizinhos não podiam reclamar, pois seus lotes estavam livres.  Esta situação criava problemas de circulação e irritava os setores imobiliários, pela desvalorização da área, provocada pela proximidade da invasão.
Em 1953, calculava-se em 18.100 o número de habitações do Arraial Moura Brasil e do Pirambu onde moravam, sobretudo, pescadores, operários, e outros trabalhadores sem qualificação, onde  muitas das casas ali existentes, foram erguidas sobre as dunas.

Casas construídas sobre as dunas: no Pirambu...
e na Barra do Ceará (fotos arquivo do Blog)

No início dos anos 1960 acirrou-se a disputa por terras no Pirambu. Moradores denunciavam a pressão e a violência praticadas por supostos proprietários dos terrenos, que exigiam a saída da comunidade – na verdade, era a especulação imobiliária na área, visto que a maioria das pessoas morava em terrenos da União.
Diante dessa ameaça, lideres comunitários, muitos deles ligados à Igreja Católica, como o Padre Hélio Campos e ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), se articularam, para garantir às famílias a posse legal dos seus pequenos lotes de terra. A 1° de janeiro de 1962, foi organizada a Marcha do Pirambu sobre Fortaleza, com cerca de trinta mil pessoas dirigindo-se ao centro para chamarem a atenção da sociedade e das autoridades  sobre os problemas da comunidade.

 Padre Hélio Campos, um dos grandes benfeitores do Pirambu

Apesar do medo que o evento provocou entre os setores abastados da cidade, não houve  nenhum confronto, tratando as elites e a Igreja de evitar qualquer  ato de radicalismo. Emissoras de rádio acompanharam o evento, a população em geral foi convocada para participar daquele evento, por um mundo melhor, e o próprio bispo da capital, Dom Antônio Lustosa, esteve presente. A Marcha do Pirambu foi um sucesso – em maio de 1962, no governo do presidente João Goulart (1961-1964), foi baixado um decreto desapropriando a área.

Extraído do livro de Artur Bruno e Airton de Farias
Fortaleza: uma breve história