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sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Padre José Nilson, o Benfeitor do Mucuripe

 

Desde quando foi elevado à categoria de Paróquia, em 1931, o Mucuripe teve sucessivos vigários: chegavam, passavam dias, algumas semanas ou meses e depois pediam transferência. Era realmente uma paróquia difícil, uma comunidade constituída de pescadores e suas famílias que moravam em casebres, não contavam com qualquer tipo de ajuda e sofriam as maiores carências, situando-se muito aquém da linha de pobreza. Mas tinham uma grande religiosidade e depositavam suas esperanças na proteção da padroeira do lugar, Nossa Senhora da Saúde. 


Região do Farol do Mucuripe final dos anos 1930

Praia do Mucuripe início dos anos 1950, cenário encontrado pelo padre Nilson
 

No dia 05 de maio de 1950, assumia um novo vigário, o padre José Nilson Oliveira Lima: pouco mais de dois anos de ordenação, vinte e poucos anos de idade. Tempo previsto de permanência: 6 meses. Logo no início, o padre se surpreendeu com o contraste entre a esplendorosa paisagem natural e a miséria dos moradores. Começou seu reconhecimento pelos recantos do imenso território da paróquia. Subia e descia morros, vencia trechos prolongados no meio de um areal cansativo; Farol, Morro do Teixeira, Encantado, Santa Teresinha, Favela Verdes Mares, Varjota, Jurema, Vila dos Estivadores... um longo e penoso percurso que a juventude e o ardor religioso do padre enfrentavam com entusiasmo e coragem.


Imagem: https://www.facebook.com/acervopejosenilson/
Seminário da Prainha anos 1910

Naquele início dos anos 50, chegar ao Mucuripe era uma aventura. Havia tão somente uma linha de ônibus – Cais do Porto – que demorava horas, e já vinha lotado do Centro. Padre Nilson morava no Seminário da Prainha, e pegava o ônibus em frente ao local. Tinha lugar garantido, por mais cheio que o ônibus estivesse. Os estivadores que vinham do centro, reservavam o seu lugar. Era conhecido dos motoristas da linha e dos demais passageiros, estimado e respeitado por todos.

De Início o Padre Nilson criou a Associação da Juventude Católica do Mucuripe, para encaminhamento de menores pobres, que viviam em ambiente pernicioso, pouco recomendável a crianças, sem escola e sem regras. Incentivou a construção do cemitério, colégio, estádio e a restauração da igreja de cima (a atual Igreja de Nossa Senhora da Saúde, na Avenida da Abolição). Para tanto, contava com o apoio da comunidade, de alguns políticos, e com as célebres quermesses, que angariavam fundos para tais iniciativas.

Com o tempo, Padre Nilson passou a intervir positivamente junto as comunidades do Mucuripe: tornou-se interlocutor dos Estivadores junto às autoridades da Marinha e da administração do Porto. Foi inscrito como estivador, com direito a carteira do Sindicato, e remuneração pelos dias em que, por sorteio, era escalado para trabalhar na carga e descarga dos navios atracados. Quando vinham lhe pagar o valor da diária, sugeriu que os estivadores guardassem o dinheiro para alguma eventualidade. Mais tarde, foi aposentado como estivador do cais do Porto de Fortaleza.

Também os jangadeiros do Mucuripe tornaram Padre Nilson sócio efetivo da Colônia Z-8. Depois da missa matinal dos domingos, o padre reunia-se com os pescadores, e à exemplo dos estivadores, cuidava dos interesses deles junto à Capitania dos Portos. Tornou-se um pescador de carteirinha. Gozava de muita simpatia e total acolhida por parte das autoridades da Marinha, e sempre era convidado para toda e qualquer solenidade promovida por eles.

As mulheres de faziam a vida na prostituição do Mucuripe contavam com a compreensão e o acolhimento do padre Nilson. Muitas vezes, ao chegar para rezar a missa na capelinha de baixo (atual Capela de São Pedro, na avenida Beira Mar), o padre se deparava com algumas delas embriagadas, sentadas à porta da Igreja. Tinham pelo padre respeito e estima. Levantavam-se quando ele chegava, e apesar da embriaguez, não há qualquer registro de que essas mulheres tenham sido agressivas ou tenham dirigido ao religioso qualquer palavra grosseira.

Foi o Padre José Nilson quem orientou as mulheres a se transferirem para a vizinhança do Farol Velho, onde estavam sendo providenciadas acomodações com relativo conforto. Além de luz, água e transporte coletivo; as prostitutas se estabeleceriam no entorno do farol e as famílias residiriam mais além, em local mais tarde denominado Vicente Pinzon. Cerca de mil e trezentas mulheres da vida fizeram esta baldeação e ali sacramentaram a chamada Zona do Farol.

Padre Nilson chegou ao Mucuripe para ficar 6 meses, mas acabou ficando por mais de 50 anos. Testemunhou amplas transformações no bairro, principalmente transformações físicas, mudando quase que por inteiro aquela visão formosa que encantou os primeiros navegantes que aportaram por aqui, nos idos de 1500. A praia de areias brancas está reduzida a uma estreita faixa praticamente toda ocupada por embarcações, por barraquinhas de venda de peixe ou por equipamentos de lazer implantados pela prefeitura.


Praia do Mucuripe 2011

Centenas de pequenas embarcações a motor apinham as águas calmas da baía. E as dunas de outrora cederam lugar a espigões de muitos andares que compõem um paredão a impedir que o “Nordeste” refresque com sua aragem a cidade calorenta. Do muito que aconteceu, Padre Nilson viu de perto. Depois que se aposentou o padre continuou vivendo no Seminário da Prainha. Faleceu no dia 14 de abril de 2010, aos 88 anos, deixando para todos o exemplo de uma pessoa voltada e devotada às coisas de Deus, pela presença e solidariedade com todos que o cercavam.


O Colégio do Mucuripe foi fundado pelo Padre Nilson em 1963, depois teve o nome mudado para EEF Padre José Nilson - 2012

Igreja de Nossa Senhora da Saúde, construída em 1932, no cimo de uma duna


Morro do Teixeira - 2012

Região do farol, depois que a zona de prostituição foi transferida para lá

Mucuripe atual - vista aérea - imagem Diário do Nordeste


Fontes:

Mucuripe, de Pinzon ao Padre Nilson de Blanchard Girão. Edições Fundação Demócrito Rocha-1998.

Mucuripe / Audifax Rios – Fortaleza: 2013.

fotos: Arquivo Nirez, IBGE, Anuário do Ceará e Fortaleza em Fotos



domingo, 27 de janeiro de 2019

Bairro do Papicu

fotos facebook - Google

Antônio Diogo de Siqueira, industrial ligado a diversas atividades econômicas no Ceará, adquiriu de seu genro Waldemiro Maia, uma grande gleba de terra, que compreendia a área limitada pelo Rio Cocó, por trecho do ramal ferroviário que se destinava ao Porto do Mucuripe e pelo Oceano Atlântico, do Mucuripe até a foz do Rio Cocó. Essa área em finais do século XIX representava uma enorme extensão de terras com finalidade agro-pastoril – local para criação de gado e salga de carne para exportação. A área tinha bom valor comercial pela existência de salinas.

Quando a lucratividade do negócio do gado começou a cair, a família Diogo vislumbrou a possibilidade de comercialização de grande faixa daquelas terras. Assim, na primeira metade do século XX, dois loteamentos foram lançados: o loteamento “Moderna Aldeota” situado onde hoje está a Avenida Santos Dumont, chegando à Avenida Engenheiro Santana Júnior e o bairro do Papicu, e outro loteamento junto ao Porto do Mucuripe, chamado "Praia do Futuro". O empresário Waldyr Diogo Vital Siqueira, filho de Antônio Diogo Siqueira, marcou o início da urbanização da região, com a primeira intervenção naquelas terras virgens através da construção da Estrada Dioguinho, ainda em 1949, que se tornou num marco de separação entre a Praia do Futuro e o Papicu.

Avenida Dioguinho, construída em 1949 - de um lado, Praia do Futuro; do outro, Papicu (foto Anuário do Ceará - 1979)

Até meados da década de 1960, a região do atual bairro do Papicu era uma extensa sequência de dunas – entrecortadas pelo Rio Cocó, por duas lagoas maiores, a do Papicu e a do Gengibre e várias outras, menores, temporárias. Nesse deserto de areias brancas e águas cristalinas, os soldados do quartel do 23º BC, praticavam tiro ao alvo e treinavam exercícios militares.

Hospital Geral à época da inauguração (foto: site do HGF)

O primeiro equipamento de porte a se instalar no loteamento "Moderna Aldeota" foi o Hospital Geral de Fortaleza, inaugurado em 23 de maio de 1969, com uma área construída de 15.000 m² e 200 leitos. Daquela época, os moradores mais antigos lembram que foi a Cialtra a primeira empresa de ônibus a interligar o HGF (antes denominado de INSS) a outros pontos da Capital cearense. A Lagoa do Gengibre ainda não tinha sido soterrada, e o Papicu ainda era contornado por uma densa vegetação e protegido por dunas gigantescas.

Cervejaria Astra/Brahma no Papicu - no entorno, dunas e lagoas
imagem facebook/LeandroMaia 

Logo depois instalou-se no bairro, a Cervejaria Astra, Empresa do Grupo J. Macedo, inaugurada em 1970, na Rua Lauro Nogueira, 1355. No ano seguinte, a Astra se associou à Brahma, que assumiu o controle acionário da marca. A instalação da cervejaria no Papicu trouxe benefícios ao local, pois para funcionar, tal indústria precisou de melhorias de infraestrutura no seu entorno, a fim de viabilizar suas operações. Entre essas melhorias, estão  abertura e pavimentação de ruas, a ampliação da rede elétrica, dentre outras. 



O terreno que pertenceu à cervejaria sendo preparado para receber o Shopping Rio Mar, com vista da lagoa e da favela do Pau Fininho. Fotos de 2012 - Fortaleza em Fotos

As instalações que serviram à cervejaria foram abandonadas e assim ficaram por longos anos, até serem implodidas em 2010, após o terreno ter sido vendido ao grupo econômico que construiu o Shopping Rio Mar no mesmo local

Mas o que deu ao bairro ares de endereço residencial foi a instalação do Conjunto residencial Cidade 2000, no ano de 1970. O conjunto foi construído com recursos do antigo BNH (Banco Nacional de Habitação), e inaugurado em 1970, numa região ainda despovoada, dividido em 46 quadras com duas alamedas cada uma, que levavam o nome de flores. A construção do loteamento destruiu dunas, aterrou várias lagoas, inclusive a do Gengibre - no período chuvoso as águas ressurgem no meio das ruas, assombrando os moradores, comprometendo a qualidade de vida e a segurança das moradias. 

A Cidade 2000 atraiu centenas de moradores para o local, povoou o Papicu com escolas, igrejas, linhas de ônibus, e pequenos comércios e motivou a realização das obras de prolongamento da Avenida Santos Dumont, que até então terminava no entorno do Hospital Geral. Em 1976, a Santos Dumont foi prolongada até a Avenida Dioguinho, na Praia do Futuro, para facilitar o acesso à Cidade 2000. 

Avenida Pontes Vieira, ao centro cruzamento com a Avenida Desembargador Moreira. A esquerda, o bairro Dionísio Torres: à direita, o São João do Tauape. Ao fundo, as salinas do Cocó e a Cidade 2000. Foto de Nelson F. Bezerra - 1973

Com essa facilidade de acesso, ocorreu uma expansão do sistema viário para o leste, e um acelerado processo de especulação imobiliária, abrindo-se novos loteamentos, sem nenhum acompanhamento do poder público municipal, e sem nenhuma infraestrutura, construindo-se residências de alto padrão em grandes lotes.

No início dos anos 80, o Papicu ganhou sua primeira favela, a comunidade do Pau Fininho, parte dela instalada na Área de Preservação Permanente – APP do Papicu. Trata-se de um conjunto de moradias precárias, sem esgotamento sanitário ou abastecimento de lixo, localizadas às margens da lagoa. A comunidade é constituída por cerca de 622 famílias, totalizando 1.861 pessoas.



Mas a região onde se localiza o Papicu é uma das que mais cresceram em face da especulação imobiliária.  O fenômeno que explicaria a grande movimentação imobiliária no Papicu estaria, em parte, no apelo do verde, e por outro lado, a existência de muitos terrenos vazios. A aproximação com o Parque do Cocó implica numa valorização do metro quadrado, que tem se aproximado de valores das demais áreas nobres da cidade. Embora haja uma predominância de construções com fins residenciais, houve também uma expansão da oferta de serviços e comércios, fazendo com que o lugar se tornasse ainda mais atraente para diferentes segmentos sociais.


O bairro Cidade 2000 foi criado oficialmente no dia 1° de julho de 2009, através do Decreto Legislativo n° 382.


Fontes:
Revista do Instituto do Ceará – As múltiplas facetas de um marchante: a vida empresarial de Antônio Diogo de Siqueira de Carlos Negreiros Viana 09/2009.
Uso e Ocupação do Solo  Futuro da Praia do Futuro – Dissertação de Mestrado Pedro Itamar de Abreu Júnior – UFC/Prodema 2005
Jornais O Povo e Diário do Nordeste
IBGE - Wikipedia - 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

A Aldeota Pobre

Conta onde passeia hoje esse teu olhar... 
Quantas fronteiras ele já cruzou, no mundo inteiro de uma só cidade?
(Eduardo Gudin , Costa Netto)

O crescimento desordenado dos grandes centros urbanos, aliados a processos de urbanização diferenciados acabaram mostrando as diversas faces que uma mesma cidade pode apresentar, dependendo do bairro e da classe social da população que o ocupa. A face mais visível é a existência de duas cidades dentro da cidade, que convivem e coexistem pacificamente, lado a lado: de um lado a cidade legal onde se encontra presentes todos os serviços e infraestrutura urbana, e de outro, a cidade ilegal ou clandestina, que se caracteriza pela ausência de normas legais e urbanísticas.

Em Fortaleza essa convivência entre os social e economicamente desiguais se verifica em quase todos os bairros, mas o processo é mais visível em bairros considerados de classe média e alta, como a Aldeota e o Meireles, por exemplo, onde o contraste é gritante.  

 em frente à comunidade das Quadras o altíssimo muro do tradicional Colégio Santa Cecília demarca o limite espacial entre duas realidades, que convivem mas não se comunicam 

A ocupação da Aldeota começou por volta dos anos 40, quando as famílias detentoras de recursos mudaram do Centro para os bairros do Benfica Jacarecanga, e mais tarde, para a Aldeota, até então uma região quase desabitada, conhecida por sua flora abundante. O Meireles foi só um prolongamento da Aldeota, a origem é a mesma. 

Mas o antigo bairro do Outeiro já possuía os seus moradores, constituídos principalmente de famílias de pescadores, que viviam da pesca em jangadas, e outros trabalhadores de baixa renda, de ocupações variadas. Todos moravam em casas simples, à beira-mar, na região hoje conhecida como Meireles e Mucuripe. 

Com a construção da Avenida Beira-Mar, no início da década de 1960, esses moradores foram expulsos para outras partes da cidade, dada a súbita valorização da área, e a descoberta do potencial econômico daquele trecho da orla marítima.


Avenida Santos Dumont na década de 1950 - foto do IBGE

Rua José Villar

Com a chegada dos ricos, que começaram a ocupação pela Avenida Santos Dumont, foram construídas mansões e mais tarde, edifícios luxuosos; o Capital e a especulação imobiliária transformaram a orla marítima da zona leste de Fortaleza no metro quadrado mais caro da cidade, e atraíram para aquela região hotéis, restaurantes, muito investimento por parte do poder público, serviços de toda espécie, muitos visitantes, muitos turistas.

E a partir daí esse passou a ser o perfil conhecido da Aldeota e seus vizinhos: imóveis caros, local de boas moradias, muitas opções de lazer, grande oferta de bens e serviços, a zona nobre da cidade.

Mas alguns dos moradores antigos, menos abonados, resolveram ficar por lá, num aglomerado de casas simples, que  por não acompanharem o padrão das construções recentes, viraram “comunidades”.
  

Um desses espaços de resistência, localizado no Meireles, entre as Ruas José Villar e Nunes Valente  é a Comunidade do Campo do América, onde residem cerca de 4 mil famílias. 

O local existe, segundo moradores mais antigos,  há mais de 100 anos, e as casas foram construídas em torno de um antigo campo de futebol que teria pertencido ao América Futebol Clube. Medindo 4.378 metros quadrados, o chamado Campo do América, que deu nome ao lugar, foi apropriado pela comunidade, e passou a receber diversos eventos.  

Campo do América, em 2013 e atualmente 

No início de 2014 o Campo do América foi urbanizado e entregue à comunidade, encerrando uma longa disputa pela posse do terreno, entre prefeitura e INSS que alegava ser o proprietário daquela área.

Outro gueto localizado na Aldeota é A Comunidade Santa Cecília conhecida por “Comunidade das Quadras”, localizado entre a Avenida Virgílio Távora, e as Ruas Beni de Carvalho, General Tertuliano Potiguara e Vicente Leite. 

A comunidade surgiu por volta de 1956, quando os  primeiros moradores se fixaram no local, dentro dos conceitos de cidade ilegal, sem infraestrutura, sem serviços básicos, e invisível aos olhos do poder público. 

  
Os casebres foram construídos de forma irregular, sem alinhamento, invadindo calçadas e terrenos alheios. Havia casas até junto ao muro do Colégio Santa Cecília. A proposta de urbanização foi feita pela então primeira dama do estado, Dona Luiza Távora, a partir de uma visita realizada na comunidade, após ter recebido uma carta de um líder comunitário da época. Naquela ocasião, fins dos anos 70, o governo do Estado (Virgílio Távora – 1979-1982),  instituía o PROAFA – Programa de Assistência às favelas da Região Metropolitana, que visava não a remoção de favelas, mas a sua urbanização e a manutenção das famílias na área. 

Foram construídas inicialmente cerca de 100 residências num terreno de esquina das ruas Beni de Carvalho com José Bonifácio, de propriedade da justiça. Depois construíram mais cem até se completar a urbanização do local. 

As residências eram todas iguais, construção de boa qualidade. A urbanização serviu para reordenar o espaço urbano naquela região, além de delimitar a área da comunidade, e inibir seu crescimento.


Com o crescimento da cidade, a gradativa diminuição de áreas disponíveis para novos empreendimentos, a supervalorização e o consequente recrudescimento da especulação imobiliária na Aldeota, é provável que essas comunidades venham a ser desalojadas de seu espaço de moradia e convivência. 

Apesar da vigência do Estatuto da Cidade (que a prevê a legalização da posse nos assentamentos urbanos  irregulares através de mecanismos legais), as áreas ocupadas pelas comunidades nunca deixarão de ser lembradas como alternativas para novas habitações com o padrão Aldeota de ser.


Sites consultados:

Medeiros, Moíza Sibéria Silva de Primeiro damismo no Ceará: Luiza Távora na gestão do social. / Moíza Sibéria Silva de Medeiros Dissertação (Mestrado) Universidade Estadual do Ceará,Disponível em http://www.uece.br/politicasuece/dmdocuments/dissertacao_moiza_siberia.pdf
Estatuto da Cidade - para compreender  


sábado, 11 de agosto de 2012

Espaço Urbano de Fortaleza e distribuição espacial das Classes Sociais


O crescimento de Fortaleza se deu de forma rápida, desordenada e sem planejamento, com grandes disparidades sociais e mais recentemente, com especulação imobiliária. A própria formação espacial da cidade evidenciou a questão da segregação e diferenciação social e de classes – ou seja, áreas ocupadas por determinadas camadas sociais e com tratamento diferenciado pelo poder público.

 Familia no Passeio Público em 1908  (foto do álbum de vistas do Ceará)

 O Passeio Público foi um dos primeiros espaços segregados da cidade. No inicio do século XX, foi rodeado de grades, e dividido em três planos ou avenidas.
A elite frequentava a Avenida Caio Prado, de frente para o mar.
A classe média frequentava a parte central denominada Avenida Carapinima,e os pobres ficavam na Avenida Padre Mororó.(arquivo Nirez)
 
Os migrantes e as camadas pobres se alojavam preferencialmente na periferia da cidade, especialmente nas zonas oeste e sul, nas proximidades de ferrovias, nas estradas de acesso à cidade e nas praias. Ocorria, não raras vezes, a ocupação de dunas e das margens de riachos e lagoas, gerando complicações ambientais com a destruição daquelas áreas e problemas sociais com inundações dos casebres em épocas chuvosas. Essa situação se verificava comumente na região ribeirinha do rio Cocó, atingindo moradores do Lagamar e da Aerolândia, antigo Campo da Aviação.

parte da comunidade do Lagamar, instalada às margens do Rio Cocó (foto arquivo do Blog) 

Na região Oeste, onde as áreas até então não tinham urbanização nem contavam com infraestrutura, os terrenos tinham preços mais em conta para as massas, que em muitas oportunidades os ocupavam clandestinamente, daí a urbanização irregular, com a propagação de lotes de tamanhos irregulares, casas modestas e favelas, becos e ruas estreitas, tortuosas e sem saída, inexistência de espaços públicos e áreas de lazer.  ´

Nestas áreas era comum a existência de chafarizes com filas enormes para obter água, ou de cacimbas nos quintais,  (perto de fossas), montanhas de lixo, terrenos baldios, logradouros sem calçamento ou saneamento. A atenção do poder público era mínima.

 Rua no Pirambu (arquivo do Blog)

Na periferia, eram raros os supermercados. Os produtos essenciais e gêneros alimentícios eram oferecidos por pequenas unidades familiares de comércio, as bodegas. Normalmente o estabelecimento funcionava na frente da casa, enquanto o bodegueiro e sua família moravam na parte de trás. O sistema de pagamento era o fiado, ou seja, o freguês comprava antecipadamente, o valor era anotado em cadernetas para ser pago quando saísse o salário.

Não por acaso, nestas áreas periféricas da zona Oeste, várias fábricas se instalaram, de têxteis, de confecções e de beneficiamento de óleos vegetais, a exemplo dos bairros Antônio Bezerra, Parangaba e, sobretudo, na Avenida Francisco Sá, que na verdade corresponde ao conjunto de favelas do Pirambu.  

 Fábrica de Tecidos São José, de propriedade de Pedro Philomeno Ferreira Gomes. Instalou-se em 1926, no bairro Jacarecanga

A ideia das indústrias era aproveitar a disponibilidade de terrenos de baixo preço e explorar a farta e barata mão-de-obra da zona oeste. As indústrias instaladas, por sua vez, atraíam mais pessoas humildes em busca de trabalho, as quais, em virtude dos baixos salários, dificuldades de obter moradia própria ou pagar aluguel, acabavam se deslocando para as favelas.

 Fábrica Brasil Oiticica, que em 1934 foi instalada na Avenida Francisco Sá.(foto IBGE)

Processo parecido, de instalação de indústrias, deu-se num trecho da zona leste, no entorno do Porto do Mucuripe, pela óbvia facilidade de transporte. Também naquele trecho  surgiram vários bairros operários e favelas, visto que o Porto e as indústrias necessitavam de muitos trabalhadores braçais.

Com a construção do Porto do Mucuripe na década de 1930/40 e depois da Avenida Beira Mar, nos anos 1960, a zona de meretrício, até então localizada no entorno do Arraial Moura Brasil e Poço da Draga, foi se deslocando para a área do farol do Mucuripe (Serviluz), enquanto os pescadores eram empurrados para o alto das dunas e para a Rua Manuel Jesuíno, onde havia sido erguida em 1945, a Vila dos Estivadores.

 Casa de jangadeiro na Praia do Meireles. Nos anos 1960, com a súbita valorização da área, os jangadeiros foram obrigados a morar noutros locais. (foto IBGE)

A formação de favelas foi provavelmente, a única maneira dos migrantes ficarem em Fortaleza. Normalmente, assim que chegava à cidade, o migrante permanecia por um pequeno período em casa de amigos ou parentes. Depois, ao resolver a questão onde morar, acabavam se fixando numa favela ou ocupando um lote vago, erguendo casebres frágeis, geralmente de taipa, com cobertura de zinco ou palha. Se o Estado ou particulares não criassem problemas, a ocupação avançava, atraindo outras pessoas em situação semelhante. Acontecia também de pessoas sem renda, instalarem seus casebres em espaços públicos, destinados às ruas e Praças, situação em que os proprietários vizinhos não podiam reclamar, pois seus lotes estavam livres. 

Esta situação criava problemas de circulação e irritava os setores imobiliários, pela desvalorização da área, provocada pela proximidade da invasão. Em 1953, calculava-se em 18.100 o número de habitações do Arraial Moura Brasil e do Pirambu onde moravam, sobretudo, pescadores, operários, e outros trabalhadores sem qualificação, onde  muitas das casas ali existentes, foram erguidas sobre as dunas.

Casas construídas sobre as dunas: no Pirambu...
e na Barra do Ceará (fotos arquivo do Blog)

No início dos anos 1960 acirrou-se a disputa por terras no Pirambu. Moradores denunciavam a pressão e a violência praticadas por supostos proprietários dos terrenos, que exigiam a saída da comunidade – na verdade, era a especulação imobiliária na área, visto que a maioria das pessoas morava em terrenos da União.

Diante dessa ameaça, lideres comunitários, muitos deles ligados à Igreja Católica, como o Padre Hélio Campos e ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), se articularam, para garantir às famílias a posse legal dos seus pequenos lotes de terra. A 1° de janeiro de 1962, foi organizada a Marcha do Pirambu sobre Fortaleza, com cerca de trinta mil pessoas dirigindo-se ao centro para chamarem a atenção da sociedade e das autoridades  sobre os problemas da comunidade.

 Padre Hélio Campos, um dos grandes benfeitores do Pirambu

Apesar do medo que o evento provocou entre os setores abastados da cidade, não houve  nenhum confronto, tratando as elites e a Igreja de evitar qualquer  ato de radicalismo. Emissoras de rádio acompanharam o evento, a população em geral foi convocada para participar daquele evento, por um mundo melhor, e o próprio bispo da capital, Dom Antônio Lustosa, esteve presente. A Marcha do Pirambu foi um sucesso – em maio de 1962, no governo do presidente João Goulart (1961-1964), foi baixado um decreto desapropriando a área.

Extraído do livro de Artur Bruno e Airton de Farias
Fortaleza: uma breve história

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Comunidade Aldaci Barbosa



Ate  meados da década de 1930, início dos anos 40, o aglomerado urbano de Fortaleza se resumia basicamente ao perímetro formado pelos Boulevards planejados  por Adolfo Herbster na Planta da Cidade de Fortaleza e Subúrbios em 1875 – as atuais avenidas D. Manuel, Imperador e Duque de Caxias.  

Na década de 1930, uma grande seca provocou, mais uma vez, a expulsão de sertanejos, que viam como única chance de sobrevivência, a migração para a Capital,  enquanto as  autoridades locais tentavam impedir, a todo custo a entrada desses retirantes.

No interior onde havia estrada de ferro, eles eram confinados para não viajar para Fortaleza. Os que conseguiam burlar a vigilância e chegavam à capital, eram presos e isolados nos dois campos de concentração existentes em Fortaleza: um deles era o Arraial Moura Brasil, que ficou conhecido por “Curral”. Mas, a migração para Fortaleza continuava,  mesmo depois de passadas as fases mais críticas da estiagem.  



As primeiras favelas surgiram em Fortaleza já na década de 1930, em consequência principalmente das grandes secas, que provocaram o crescimento das migrações para a capital. A população desassistida foi se instalando em barracos próximos à ferrovia, às indústrias, à zona de praia e às margens dos rios, áreas desprezadas pelos grupos sociais de maior poder aquisitivo.

Com a construção, no início da década de 1940, do ramal ferroviário ligando a Parangaba ao porto do Mucuripe, muitas famílias viram nas margens da ferrovia, uma oportunidade de construir sua moradia em terras sem dono, que ninguém reclamava. Surgia assim o embrião das atuais comunidades que se encontram ao longo da linha do trem.  Uma dessas comunidades é a Aldaci Barbosa.


Localizada no Bairro de Fátima, em frente a Avenida Borges de Melo, a comunidade seria atingida em cheio pelo projeto do VLT, uma vez que seria construída uma estação no local, o que iria provocar  retirada das casas. Mas depois de muita resistência por parte dos moradores, a estação mudou para o outro lado da avenida,  numa área em frente  à antiga localização, entre a Avenida Borges de Melo e a Rua Francisco Lorda, o que reduziu o número de casas desapropriadas: de 250 para 20. A mudança foi anunciada no último dia 12 de março, no site do METROFOR.


A comunidade Aldaci Barbosa foi uma das primeiras a resistir contra as remoções do VLT e até hoje tem se negado a colaborar com o governo. Por conta disso, no dia 02 de agosto de 2011, o governador Cid Gomes foi protagonista de uma atrapalhada operação de intimidação  à comunidade, levada a cabo à noite, e sem aviso prévio, com o intuito de pressionar os moradores a aceitarem a remoção. 

Acompanhado de secretários, assessores e um batalhão de seguranças (até o comandante-geral da Polícia Militar estava lá!), Cid tentou percorrer casa por casa, conversando com moradores a portas fechadas. Mas a tentativa de intimidação pegando a comunidade desprevenida virou uma grande confusão,  verdadeiro vexame! 

Não demorou muito e moradores de outras comunidades ameaçadas pelo VLT, militantes de organizações políticas e de movimentos sociais se uniram aos moradores da Aldaci. Diversos meios de comunicação mostraram o governador  sendo expulso da comunidade de forma humilhante, sob uma chuva de vaias e aos gritos de “terrorista” e “ditador, respeite o morador!”



A resistência deu certo: as casas continuam marcadas, com a tinta verde que identifica os imóveis que serão removidos. Mas a Comunidade Aldaci Barbosa continuará onde está.


fotos Rodrigo Paiva
Site consultado: