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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Aspectos da Formação do Espaço Urbano

O Traçado Urbano


Rua das Belas - atual Floriano Peixoto - no início do século XX

Em 1818, o engenheiro Antônio da Silva Paulet imaginou a cidade como um tabuleiro de xadrez. Assim surgiu a “Planta da Villa”, 92 anos depois do esboço de Manuel Francês, para organizar o espaço urbano de Fortaleza – que crescia desordenada, entre à margem direita do Riacho Pajeú e a praia – estabeleceu uma reta, ao largo da parede sul do Forte; e a partir dela, a 90º, deveriam iniciar-se as ruas de sentido norte-sul – dessa forma  implantam-se as ruas Formosa/Barão do Rio Branco, da Palma/Major Facundo e das Belas/Floriano Peixoto. A estas incidiram octogonalmente as ruas de sentido Leste-Oeste. 


A cidade xadrez em vista aérea nos anos 60

O traçado de Paulet foi mantido por Adolfo Herbster, arquiteto que em 1875, propõe a Planta Topográfica da Cidade de Fortaleza e subúrbios. Como o nome indica, considera além do que se tinha como cidade, anexando-lhe três bulevares (à semelhança  das reformas do Barão de Haussmann) do Imperador, Duque de Caxias e da Consolação (D. Manuel) – em redor do centro, facilitam o tráfego. A planta de Herbster disciplinaria a expansão de Fortaleza até 1930: corrigia becos, desvios e ruas desalinhadas que facilitavam motins urbanos, substituindo-os por vias alinhadas, longas e cruzadas em ângulo de 90° que favoreciam a vigília do poder sobre as cidades. 

As modificações no desenho de ruas e praças devem não apenas traduzir no espaço os ideais de progresso e civilização, mas se prestam a disciplinar o comportamento dos habitantes. Herbster reforça o projeto de 1875 com a "Planta da Cidade de Fortaleza Capital da Província do Ceará" em 1888. 
 
Em par com a ação preventiva de ocupação do solo, considera a obsessão higienista do século XIX com a necessidade de amplos logradouros para facilitar a passagem das correntes de vento, porquanto se acreditava que o ar contaminado pela estagnação dos aglomerados urbanos era uma das terríveis causas de epidemias e mortalidades.

O Abastecimento de Água


Aguadeiros se preparam para a distribuição de água em lombos de burro. Este poço ficava na antiga Rua da Cachorra Magra, atual marechal Deodoro, no Benfica 

O memorialista Raimundo de Menezes conta que, até 1827, Fortaleza não tinha ideia do que fosse abastecimento de água. A água era de poço, trazida por aguadeiros em lombo de burro. Em setembro daquele ano, leis provinciais autorizam o início do serviço por chafarizes. Antes, em 1812, o Conselho da Vila de Fortaleza acertou com o tenente-coronel João da Silva Feijó o aproveitamento de uma das nascentes do seu sítio, na Rua do Quartel, para a construção do primeiro chafariz público. 


Praça Clóvis Beviláqua, a antiga Praça do Encanamento

Somente nos anos de 1860, estuda-se um projeto de distribuição de água. Dessa vez, com as bênçãos de D. Luiz Antônio dos Santos e encanamento do sítio de José Paulino Hoonholtz, no Benfica, para quatro chafarizes espalhados pela cidade: nas praças da Municipalidade (do Ferreira) Capistrano de Abreu, do Patrocínio (José de Alencar) e Garrote (Cidade da Criança). O caneco custava 40 réis. Cacimbas na Lagoa do Garrote, no Passeio Público e na Lagoinha também abasteceram a cidade até cerca de 1920, quando se ampliou o sistema subterrâneo.

Progresso e Lazer


Praça General Tibúrcio, antigo Largo do Palácio

Um dos nomes mais relacionados ao “progresso” de Fortaleza é o de Ildefonso Albano. Assumindo a gestão em 1912-1914 (intendente) e 1923-1924 (vice-governador) idealiza o matadouro modelo, o mercado de verduras, a vila operária (casas asseadas e ajardinadas) para criar no proletariado o gosto pela intimidade do lar, a tempo em que não se comprometia nas tentações nocivas e licenciosas das ruas, bares e bordéis. 

Cuida dos calçamentos, reforma a Praça General Tibúrcio, dando-lhe a paisagem de cássias imperiais, jacarandás, casuarinas, araucárias e palmeiras; um coreto e 49 combustores; apresenta às calçadas altas o meio-fio; e forma a banda municipal, que uma vez por semana, toca nas retretas dos logradouros públicos.
 

fonte: Revista Fortaleza, fascículo 9 
fotos do Arquivo Nirez
     

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O Desenvolvimento de Fortaleza na Visão dos seus Cronistas

Antônio Rodrigues Ferreira Filho - O Boticário Ferreira - (1801-1859) presidente da Câmara Municipal; realizou diversas obras públicas e melhoramentos urbanos na capital (retrato do acervo do Museu do Ceará)

Lei Municipal de 6 de dezembro de 1842 autorizava a reforma do plano da cidade de Fortaleza, eliminando-se dele a Rua do Cotovelo, a fim de fazer-se uma praça com o nome de D. Pedro II. E quem iria executá-la seria o chamado Boticário Ferreira – Antônio Rodrigues Ferreira Filho – já eleito presidente da Câmara, em 3 de março do ano seguinte. Nessa qualidade era o executor das decisões do Colegiado e nela permaneceu até falecer, em 29 de abril de 1859, aos 58 anos de idade. 

A história de Fortaleza passa, todo esse tempo pela ação do Boticário, resguardando, tenazmente, a sua boa expansão urbana. Com a eliminação da viela do Cotovelo, estaria preparada a praça, que de fato, recebeu o nome do Imperador. Ai  instalou ele a sua célebre Botica, na Rua da Palma, mais tarde, Major Facundo. Chamaram-lhe também, Praça Municipal, até que foi batizada de Praça do Ferreira, ainda hoje, o coração da urbe.

 Rua Major Facundo já se chamou Rua Nova del Rei por volta de 1828 e em 1856 teve dois nomes: do início até a Praça do Ferreira era a Rua da Palma e da praça até o final, Rua do Fogo. Em 1888 recebeu o nome de Rua do Major Facundo. 

Fortaleza em 1845 tinha uma população não maior de 5.000 habitantes, pequena e atrasada. Nas palavras de uma crônica escrita por um certo autor de codinome Outro Aramac, que se supõe fosse João Brígido – pois o trabalho saiu publicado em edições sucessivas do Jornal Unitário – a cidade “era um areal movendo-se à mercê da ventania, a mudar constantemente de nível nas zonas descobertas, salvo os da depressão do solo”. A rigor, só depois de meados do século XIX, a capital do Ceará experimenta mais alentos na sua vida social, econômica e cultural. Aos poucos, recebe os componentes  de uma infraestrutura mais adequada, capazes de emparelha-la às capitais mais adiantadas do País.

Rua Floriano Peixoto, que já se chamou Rua da Boa Vista, Del Rei, da Alegria. O nome atual é uma homenagem ao 2° presidente republicano, que nunca sequer esteve no Ceará.

Chegam os calçamentos, a iluminação à gás carbônico, o serviço de abastecimento d’água, o transporte coletivo, o telégrafo, o telefone, a via-férrea ligando-a ao sertão, trazendo passageiros e cargas, o que favorece o seu comércio, já impulsionado com o melhor movimento das exportações marítimas, com os navios a vapor, que chegavam regularmente. Primeiro os da Companhia Maranhense, depois os Booth Steam Co. Ltd. E os da Red Cross Line of Mail Steamers, estas duas últimas fazendo o intercâmbio com as praças da Europa.

prédio do Batalhão de Segurança, depois Escola Aprendizes Artífices, na esquina de General Sampaio com Liberato Barroso na Praça Marques de Herval (atual José de Alencar). Hoje no local está o jardim do teatro José de Alencar. Foto de 1867 

Relata o Senador Pompeu, em seu Ensaio Estatístico de 1863, que são oito extensas ruas, muito direitas, espaçosas e calçadas; 960 são as casas de tijolos alinhadas, entre elas estão uns 80 sobrados para uma população de cerca de 16.000 habitantes. Esta no recenseamento de 1872, subirá para 21.372, ocupando 4.380 casas térreas afora 1178 casebres. 

Em 1895, Antônio Bezerra escreveu para a Revista do Instituto do Ceará que, à exceção de pequeno defeito de alinhamento no trecho onde de acha a Rua Sena Madureira, defeito de edificação dos tempos coloniais, a área média da cidade até onde tem chegado a construção alinhada pela Câmara Municipal contém 5 km quadrados e 985.000 metros em 54 ruas, que se dirigem proximamente de norte a sul, e 27 de nascente a poente, todas paralelas, bem alinhadas com 13.33m de largura cada uma, formando quadros, cuja regularidade lhes imprime certo ar de elegância e harmonia. 
 Rua 25 de março, data da libertação total dos escravos no Ceará
  
Além destas, tem ainda 3 boulevards, com a largura de 22,22m, verdadeiros ventiladores da cidade, que a circundam pelo lado leste, sul e oeste e concorrem de modo poderoso para sua reconhecida salubridade. Tem 14 praças, algumas devidamente arborizadas. As casas em grande parte de agradável construção, tem as frentes elevadas sobre as quais coroam elegantes cimalhas, sendo todas bizarramente pintadas de cores alegres que atraem a simpatia dos visitantes, e modificam a intensidade da luz do sol.

Avenida Dom Manuel antigo Boulevard da Conceição, Avenida Nogueira Accioly, Boulevard Dom Manuel e Avenida Dom Luiz. A partir de 1934 passou a se chamar Avenida Dom Manuel em homenagem ao baiano Manuel da Silva Gomes, terceiro bispo do Ceará e primeiro arcebispo metropolitano de Fortaleza.

O cronista não aponta o número de habitantes da urbe, mas esclarece que segundo o último lançamento para a cobrança da décima urbana (imposto predial), conta a cidade com 6.154 prédios de tijolos e entre estes, poucos sobrados, pois que os habitantes preferem as casas assobradadas ou mais vulgarmente as casas de portas altas e rasgadas até o chão, com parapeitos de grade de ferro em vez de janelas pesadas, sem graça, que embaraçavam as correntes do ar e da luz nas habitações. O livro de Antônio Bezerra “Descrição da Cidade de Fortaleza” vale como um desenho fiel da cidade no fim do século XIX, cinco anos antes de abrir-se o século XX.


Extraído do livro de Raimundo Girão 
Fortaleza e a Crônica Histórica
fotos do Arquivo Nirez

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Comunidade Aldaci Barbosa



Ate  meados da década de 1930, início dos anos 40, o aglomerado urbano de Fortaleza se resumia basicamente ao perímetro formado pelos Boulevards planejados  por Adolfo Herbster na Planta da Cidade de Fortaleza e Subúrbios em 1875 – as atuais avenidas D. Manuel, Imperador e Duque de Caxias.  
Na década de 1930, uma grande seca provocou, mais uma vez, a expulsão de sertanejos, que viam como única chance de sobrevivência, a migração para a Capital,  enquanto as  autoridades locais tentavam impedir, a todo custo a entrada desses retirantes.
No interior onde havia estrada de ferro, eles eram confinados para não viajar para Fortaleza. Os que conseguiam burlar a vigilância e chegavam à capital, eram presos e isolados nos dois campos de concentração existentes em Fortaleza: um deles era o Arraial Moura Brasil, que ficou conhecido por “Curral”. Mas, a migração para Fortaleza continuava,  mesmo depois de passadas as fases mais críticas da estiagem.  



As primeiras favelas surgiram em Fortaleza já na década de 1930, em consequência principalmente das grandes secas, que provocaram o crescimento das migrações para a capital. A população desassistida foi se instalando em barracos próximos à ferrovia, às indústrias, à zona de praia e às margens dos rios, áreas desprezadas pelos grupos sociais de maior poder aquisitivo.
Com a construção, no início da década de 1940, do ramal ferroviário ligando a Parangaba ao porto do Mucuripe, muitas famílias viram nas margens da ferrovia, uma oportunidade de construir sua moradia em terras sem dono, que ninguém reclamava. Surgia assim o embrião das atuais comunidades que se encontram ao longo da linha do trem.  Uma dessas comunidades é a Aldaci Barbosa.


Localizada no Bairro de Fátima, em frente a Avenida Borges de Melo, a comunidade seria atingida em cheio pelo projeto do VLT, uma vez que seria construída uma estação no local, o que iria provocar  retirada das casas. Mas depois de muita resistência por parte dos moradores, a estação mudou para o outro lado da avenida,  numa área em frente  à antiga localização, entre a Avenida Borges de Melo e a Rua Francisco Lorda, o que reduziu o número de casas desapropriadas: de 250 para 20. A mudança foi anunciada no último dia 12 de março, no site do METROFOR.


A comunidade Aldaci Barbosa foi uma das primeiras a resistir contra as remoções do VLT e até hoje tem se negado a colaborar com o governo. Por conta disso, no dia 02 de agosto de 2011, o governador Cid Gomes foi protagonista de uma atrapalhada operação de intimidação  à comunidade, levada a cabo à noite, e sem aviso prévio, com o intuito de pressionar os moradores a aceitarem a remoção. 
Acompanhado de secretários, assessores e um batalhão de seguranças (até o comandante-geral da Polícia Militar estava lá!), Cid tentou percorrer casa por casa, conversando com moradores a portas fechadas. Mas a tentativa de intimidação pegando a comunidade desprevenida virou uma grande confusão,  verdadeiro vexame! 
Não demorou muito e moradores de outras comunidades ameaçadas pelo VLT, militantes de organizações políticas e de movimentos sociais se uniram aos moradores da Aldaci. Diversos meios de comunicação mostraram o governador  sendo expulso da comunidade de forma humilhante, sob uma chuva de vaias e aos gritos de “terrorista” e “ditador, respeite o morador!”



A resistência deu certo: as casas continuam marcadas, com a tinta verde que identifica os imóveis que serão removidos. Mas a Comunidade Aldaci Barbosa continuará onde está.


fotos Rodrigo Paiva
Site consultado:

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O Bispo Dom Manuel e a Antiga Sé

O baiano Manoel da Silva Gomes (1874-1950) foi o terceiro bispo do Ceará e o primeiro arcebispo metropolitano de Fortaleza. Tornou-se conhecido nacionalmente como o bispo da seca. Isto, devido a campanha desenvolvida no Sul em prol dos flagelados do Ceará. 

Em 9 de fevereiro de 1912, D. Manuel foi efetivado como bispo auxiliar de Fortaleza. Entre suas importantes realizações está a transformação da Diocese de Fortaleza em Arquidiocese  e a criação dos bispados do Crato, Sobral e Limoeiro do Norte. 

A Paróquia do Carmo foi criada por D. Manoel (Nirez)

O terceiro bispo do Ceará criou treze paróquias, destacando-se as de Tianguá, Aracoiaba,  Senador Pompeu, Pacajus e Itapebuçu, além da Paróquia de Nossa Senhora do Carmo em Fortaleza. Dom Manoel permaneceu à frente do arcebispado até 11 de novembro de 1941, quando passou o cargo ao sucessor, D. Antônio de Almeida Lustosa.

No período de 1933 a 1938, grande polêmica agitou a comunidade católica cearense. A antiga Sé, deveria ser demolida para dar lugar a um novo templo, mas amplo e mais seguro.  Alguns defendiam apenas uma reforma, outros, a demolição completa. 


Segundo cronista da época, o certo é que a população não gostou e reclamou. Havia um saudosismo antecipado entre os moradores, orientado pela elite intelectual. Protestava-se com base em vários argumentos,  inclusive as razões históricas e estéticas.

De inicio, D. Manuel era favorável a manutenção do prédio. Chegou a encaminhar ao Conselho Nacional de Engenharia um projeto de reforma.  Foi levantada a hipótese de se construir a nova catedral, preservando-se o antigo prédio. Mas não houve local que agradasse aos membros da comissão. 

O Cruzeiro erguido por Frei Serafim em 1847, foi demolido junto com a Igreja da Sé (arquivo Marciano Lopes)  

Naquela época, todas as instituições convergiam para perto do Porto, por onde transitavam os visitantes, visto que não havia meios de transportes rápidos e constantes.
Em razão do impasse,  a alternativa que restou foi a demolição do templo centenário e no seu lugar, construir uma nova catedral de rara beleza, para compensar o sacrifício a que todos se expunham.

A partir daí surgiu uma onda de reações e protestos contra a demolição da catedral. Apesar da repercussão, D. Manoel autorizou o inicio dos trabalhos de demolição que foram propostos pelos engenheiros. 

Praticamente se repetia a história da antiga catedral. Ela havia sido reconstruída sobre os alicerces da antiga Matriz de São José, e as obras de reconstrução duraram 32 anos, de 1821 a 2 de abril de 1854.

Uma grande multidão compareceu a última missa na antiga Sé (Arquivo Raimundo Girão)

No dia 11 de setembro de 1938, D. Manoel celebrou a última missa no local, fazendo emocionado sermão, pedindo apoio da população para a construção.  Pessoas que assistiram a celebração dizem que D. Manoel chorou ao anunciar a próxima demolição da Catedral. Aceitou a alternativa, pressionado pelo Conselho dos Engenheiros. 
Depois da cerimônia, a procissão carregando a imagem  de São José, Padroeiro da Paróquia,  saiu da Sé para a Igreja do Rosário.

Por  ocasião do inicio da demolição, conhecida como cerimônia das marteladas, falou em nome da cidade e da Comissão Construtora o Dr. Raimundo de Alencar Araripe. 
As críticas então recrudesceram, principalmente por parte dos escritores e intelectuais, o que fez com que o bispo caísse em depressão, recusando-se durante algum tempo,  a participar de eventos e cerimônias ligadas ao clero fortalezense.   

O engenheiro francês George Le Mounier, radicado no Brasil, ganhou a concorrência para a construção do templo.  No dia 15 de agosto de 1939, D. Manoel fez o lançamento solene da pedra fundamental, acontecimento que contou com a participação da comunidade e das mais altas autoridades do Estado.  Daí seguiu um longo trabalho de arrecadação de recursos até a conclusão da obra,  39 anos depois.  


Dom Manuel da Silva Gomes nasceu em salvador, no dia 14 de março de 1874, filho de Juvêncio da Silva Gomes e Elisa Pinto da Silva Gomes. Em 1886 entrou para o Seminário, ordenando-se sacerdote em 15 de novembro de 1896.

No Ceará, durante seu arcebispado, dedicou-se a causa das obras de caridade, principalmente durante a seca de 1919, quando enfrentando incompreensões e muita dificuldade, percorreu todo o Brasil, em busca de ajuda para as vítimas do flagelo da estiagem.

No Estado de São Paulo, foi onde obteve maior apoio para sua causa, razão pela qual solicitou e  conseguiu junto as autoridades municipais de Fortaleza, a mudança do nome da Rua da Assembleia para  Rua São Paulo, que muitos julgam tratar-se de uma homenagem ao santo. 

D. Manuel deixou o cargo em 1941, por problemas de saúde – sendo substituído por D. Antônio de Almeida Lustosa – indo para Salvador, sua terra natal. Voltou para Fortaleza em 1943, passando a residir na Avenida do Imperador, onde ficou até 1945, quando prostrado, ficou de cama durante cinco anos até falecer em 1950.

Igreja do Rosário, onde foi velado o corpo do bispo D. Manuel (arquivo Marciano Lopes)

Seu corpo foi para a Igreja do Rosário, onde foi velado. O sepultamento ocorreu na cripta da catedral em construção, tendo o cortejo saído da Igreja do Rosário percorrido as Ruas General Bezerril, São Paulo,  Visconde de Sabóia e Conde d’Eu até a Catedral.  

Entre outras realizações de D. Manuel ressaltam-se o Circulo de Operários Cristãos e o Jornal O Nordeste.  Fez a doação de terrenos às irmãs de caridade para a construção da Escola de Enfermagem, Escola Doméstica São Rafael, Colégio Santa Maria Goretti, Pensionato das Moças e uma casa para formação religiosa.

A Avenida Dom Manuel, antigo Boulevard da Conceição, recebeu esse nome em homenagem ao religioso.

Fonte:
Rogaciano Leite Filho

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Avenida do Imperador

A origem da Avenida do Imperador remonta ao final do século XIX, quando Adolfo Herbster elaborou a Planta da Cidade de Fortaleza e Subúrbios, em 1875. O plano de expansão propôs  a criação de Boulevards, grandes avenidas circundando o espaço habitado. 
Junto com o Boulevard do Imperador, também surgiram o Duque de Caxias e o da Conceição, que vem a ser a atual Avenida Dom Manuel.  Estes três logradouros  são as primeiras avenidas de Fortaleza.

uma das casas mais notáveis da Avenida do Imperador era a antiga residência de Tomás Pompeu, na Praça da Lagoinha (foto: Mauricio Cals) 

Em meados da década de 1940, a Avenida do Imperador tornara-se uma espécie de porta de acesso para o então aristocrático bairro de Jacarecanga.  Mas a avenida também tinha ares aristocráticos: as calçadas eram largas e bem cuidadas, a pavimentação era de pedra tosca, as casas eram portentosas,  construídas nas primeiras décadas do século XX.  
As fachadas eram bem características do estilo Art Nouveau, com as imprescindíveis sacadas de ferro.   Vários estabelecimentos comerciais, educacionais, industriais se localizaram na avenida do Imperador.


Casa de Saúde César Cals em 1935 (arquivo Nirez)

Casa de saúde Dr. César Cals, foi inaugurada em 31 de outubro de 1928, dirigida pelas irmãs franciscanas. O prédio era contornado por um bem cuidado jardim. Contava com uma capela na parte superior e, embaixo, no centro um oratório de São Francisco, onde dia e noite, havia sempre gente rezando e pagando promessas.  Em 30 de dezembro de 1974, foi inaugurado o Hospital César Cals, formado pela fusão da Casa de Saúde César Cals, Maternidade Dr. João Moreira, e Maternidade José Frota. Localizada na Avenida do Imperador, 528, na Praça da Lagoinha. 

Fábrica Progresso de Tomás Pompeu de Sousa Brasil, fundada em 1899, para fabricação de redes. 

Fábrica Santa Elisa de Antonio Diogo Siqueira, fundada em 1904. Produzia Sabão e resíduos de caroço de algodão. Estava situada no cruzamento dos Boulevards Duque de Caxias e Imperador

Na Avenida Imperador ficavam as fábricas Progresso e Santa Elisa, uma loja maçônica, a Padaria Ideal, a Farmácia São  Francisco e a Escola Doméstica São Rafael.  Também ficavam na Avenida do Imperador a antiga e barroca igreja de São Benedito, com o convento dos padres sacramentinos, e a loja O gambettá, famosa pelas tintas para tingir roupas.


Antigo Ginásio 7 de Setembro tradicional estabelecimento de ensino, fundado em 7 de setembro de 1935 

fachada do Colégio São Rafael, que praticamente não sofreu alterações em relação ao original. (foto: Panorâmio)
 
A Escola Domestica São Rafael  situada na Avenida Imperador, 1490,  fundada em 24 de outubro de l936, pelas Filhas da Caridade da Associação de São Vicente de Paulo, tinha por objetivo a formação integral da juventude feminina, em harmonia com a educação secundária do 1º Ciclo, formando “Donas de Casa”, uma tendência da época,  ministrando cursos especiais de artes femininas. 

A partir de 1953 o Curso Doméstico foi equiparado ao Curso Ginasial de então, abrindo maiores oportunidades para as alunas. Em 1963 foi criado o Curso Normal.  
Em 1974, com a reforma do ensino a Escola passou a denominar-se Escola São Rafael  1º e 2º graus atendendo assim a exigência da Lei.



extraído do livro Royal Briar, a Fortaleza dos anos 40, de Marciano Lopes

quarta-feira, 23 de março de 2011

Os Boulevards de Adolfo Hebster

Rua Barão do Rio Branco (arquivo Nirez)

Na segunda metade do Século XIX,  a Vila de Fortaleza era a Fortaleza de Nova Bragança
Foi uma época de prosperidade para a província, em três décadas sem seca (1845-1877).
Na cidade o casario de palha passa a dar lugar a casas de tijolos, fabricados com material proveniente das lagoas próximas.
 
Rua Major Facundo (arquivo Nirez)
 
O areal é aos poucos coberto pela pavimentação com pedra tosca. Chega a iluminação pública e domiciliar a gás (1865), os bondes puxados a burro (1880), a ferrovia (1872) que permitem o gradual domínio da capital sobre os núcleos urbanos do interior, e também influi na expansão da cidade.

embarque de passageiros no bonde na Praça do Ferreira (arquivo Nirez)

A organização enxadrezada da vila, proposta por Silva Paulet, encontrou no presidente da Câmara Antonio Rodrigues Ferreira – o Boticário Ferreira, um grande entusiasta.
Por encomenda dele outros mapeamentos da cidade foram feitos, mas eram muito imprecisos. 
A primeira representação precisa da organização urbana de Fortaleza, é a Planta Exacta da Capital do Ceará, de 1859, a primeira das três plantas feitas pelo pernambucano Adolfo Hebster. As outras viriam em 1875 e 1888. 


Com um levantamento preciso de ruas e edificações, a planta de Herbster traz o esboço do que é hoje o Centro de Fortaleza, com as ruas configuradas de maneira semelhante ao desenho que se consolidou.
A Praça do Ferreira, coração da cidade, já estava nesta planta: era a Praça Pedro II, ou apenas, Praça Municipal. Arquiteto da Câmara Municipal, Hebster sucedeu Paulet na missão de planejar o crescimento da cidade.
 A sua segunda planta, de 1875, reflete não apenas a situação real da cidade, mas o seu plano de expansão. A configuração do plano de Herbster persistiu até meados da década de 1930. Ele propõe os boulevards, as grandes avenidas circundando o espaço habitado. 
Assim surgem o Boulevard Duque de Caxias (atual Avenida Duque de Caxias), o do Imperador (atual avenida com o mesmo nome) e o da Conceição, hoje Avenida Dom Manuel.
São cintas circundantes do espaço urbano já habitado, que tinha o mar complementando o quadrilátero.
 
Praça do Ferreira com grande movimentação de passageiros dos bondes. Era desse ponto que saía o maior número de linhas. Uma profusão de chapéus e ternos brancos (Arquivo Nirez)

Era o estilo Belle Epoque instalado na capital: tal como a moda, a literatura e o comportamento, o desenho da cidade também ganhava toques afrancesados. A organização proposta para Fortaleza guardava semelhanças com as ideias do Barão de Haussman, prefeito e remodelador de Paris, que era o centro cultural mundial.


Fonte: 
Revista Fortaleza, fascículo 10, de 11 de junho de 2006.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A Fortaleza do Início do Século XX

Rua Floriano Peixoto trecho Praça do Ferreira em 1904
Rua Major Facundo em 1900

No inicio do século XX, na primeira década dos anos 1900, o perímetro urbano de Fortaleza resumia-se basicamente ao quadrilátero entre os Boulevards, grandes avenidas circundando o espaço habitado, que foram propostos na planta da cidade de Fortaleza de Adolfo Herbster.
Os lados do quadrilátero eram formados pelos Boulevards Duque de Caxias, o do Imperador, e o da Conceição, que hoje é a Avenida Dom Manuel, e a praia.

Fora desses limites havia poucas casas e chácaras. A população da cidade, em torno de 54 mil habitantes, caberia inteira dentro do Estádio do Castelão, que tem capacidade para 60 mil pessoas. O governador do estado – que era chamado de presidente – era Nogueira Accioly, que estava no segundo dos seus três mandatos. O Intendente era o Coronel Guilherme Rocha, aliado político de Accioly, que governou entre 1892 e 1912.

Algumas edificações ainda hoje existentes foram construídas na primeira década do Século XX, a exemplo da Ponte Metálica e do Teatro José de AlencarNessa época Fortaleza já contava com iluminação pública, com transporte público – com bondes puxados por burros – e o trem da Estrada de Ferro Baturité.

Fortaleza entrou para o novo século em meio a grandes festas, na esperança de acalmar as dores sofridas na década que recém-finda, cujas lembranças ainda viviam nos campos de concentração dos flagelados, trazidos pela chamada seca dos dois zeros.

Nesse período aspecto urbano da cidade melhorou consideravelmente. Praças que até então eram tomadas por capim, foram ajardinadas, como a do Ferreira (Jardim 7 de setembro), do Marquês do Herval, hoje Praça José de Alencar e a Caio Prado, hoje Praça da Sé. O comercio era ampliado e a população se tonava mais civilizada, e as residências mais modernas.

Mas não havia muito lazer, o principal divertimento eram as rodas de cadeiras nas calçadas, os passeios nas praças e no Passeio Público, ou a ida às igrejas. Era calma e pacata a Fortaleza dos anos 1900.